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6 de mar. de 2014

Empatia



Tudo, até a virtude, precisa ser bem dosada.

A capacidade de nos imaginarmos no lugar do outro é uma grande qualidade. Só que a gente começa a sentir a dor dos outros - até aí tudo bem! - mas o troço pode evoluir. 

O segundo passo é quando passamos a atribuir sentimentos humanos aos animais. Conheço um monte de gente assim, motivo pelo qual não me atreverei a classificar como loucura. Vamos atacar de "borderline".

Abro agora um parêntesis para a amenizar a "saia justa" na qual me meti. Subo no púlpito imaginário e afirmo solenemente que também me enquadro em outras situações que cheiram, igualmente, a patologia. Formamos uma irmandade, queridos! Não me coloco acima de ninguém.

Voltemos: o maior problema mesmo é o terceiro nível.

O terceiro nível pode ser paralisante. Esse estágio se configura quando começamos a projetar sentimentos, alegrias e dores em seres inanimados. É aí que entra a salsicha (da foto).

Faça o teste. Se você marcar um X em mais de 2 casos, procure um psicólogo o mais rápido possível.

1) Você fica sinceramente angustiado quando flagra alguém fazendo "maldades" com seus ursinhos.

2) Você não aguenta que dêem socos em seu travesseiro. Tem a nítida impressão de que ele está sofrendo. Também não quer substituí-lo porque parece-lhe que ele se sentirá rejeitado.

3) Acha que uma roupa fica magoada quando você passa muito tempo sem usá-la;

4) Sente que está "assassinando" uma fruta sempre que a corta;

5) Não ingere nada com molho vermelho porque parece sangue.

6) Toda vez que come um ovo lhe vem à mente que está mandando um pintinho para o céu.

7)  Você atribui personalidade a tudo o que tenha uma carinha (borracha na ponta do lápis, carinha alegre em camiseta etc). Reluta em  comer coisas com carinha (biscoitos, bolos, chocolates...)

8) Você não só reluta em comer: você realmente não come. (obs: essa questão vale 5 pontos)

9) Você tem pena de jogar fora um eletrodoméstico velho que lhe prestou tantos serviços durante a juventude. É como se você desse um pé na bunda de uma empregada doméstica e a deixasse ao relento e sem assistência só porque ela ficou velha. Então você prefere guardar no armário o "bom e velho amigo" que morou a vida toda com você. Visita-o regularmente no armário e quase pede desculpas por usar o novo liquidificador (por exemplo).

10) A imagem que ilustra esta postagem lhe impressionou deveras. Você encontrará dificuldades, de hoje em diante, em comer salsichas. Na verdade já tinha essa dificuldade, só que por "outro tipo" de associação mental.

11) Acha que seu órgão sexual tem sentimento e vida própria, inclusive se governa. Frequentemente você se flagra conversando com ele tentando explicar certas situações e o por quê de algumas impossibilidades. Em alguns contextos você tem certeza de que ele está revoltado e lhe odeia. (Essa questão vale 4 pontos).

Se você não quer que ninguém descubra o resultado do seu teste, seu caso é grave.

3 de mar. de 2014

Cuidado com os ursinhos

Aqui vai mais um texto da série SUGESTÕES DO LEITOR. Você manda um assunto e eu desenvolvo. Vamos lá:

"Vc podia escrever também sobre parceiros que eram extremamente perfeitos, dedicados, apaixonados e trocam a mulher por outra??"

Querida amiga desavisada: o "homem-ursinho" é um perigo. O brutamontes que só se transforma em gente quando está apaixonado, esse é fácil de detectar. O problema são os outros.

Quando digo "os outros" refiro-me àquela categoria de seres gentis, fofos, atenciosos, encantadores. Entenda: essas virtudes frequentemente nos induzem a erro.

Educação hoje em dia é algo tão raro mas tão raro que a vítima começa a acreditar que toda aquela delicadeza é só pra ela. Daí pra confundir com amor é um pulo. Amiga, acredite: existe um tipo de homem que vai te tratar bem até quando estiver enfiando uma faca nas suas costas, pegando sua melhor amiga ou apenas ensaiando uma despedida estratégica. Esse tipo de homem não consegue demonstrar com gestos grosseiros que não está mais na sua. É difícil pra ele. Você só vai se tocar quando descobrir o enorme par de chifres com o qual ele te brindou. Se você tivesse prestado um pouquinho mais de atenção veria que ele era igualmente maravilhoso com a tia, com o jornaleiro, com o chefe, a sobrinha, a vizinha chata e o amigo inoportuno.

Pensa que vaidade é só lipo, academia e loja cara? Pois saiba que há formas mais sutis de vaidade e essa é mais uma delas.

Quando um homem descobre que educação gera dividendos e lhe abre portas e "outras coisas", ele incorpora o personagem e sai pelo mundo. Para a nossa alegria. Ou não.

28 de fev. de 2014

Síndrome de Down *

Hoje vi um menininho com síndrome de Down.
Antigamente eu sentiria pena dele ou pena dos pais dele. Antigamente eu não conseguia absorver a necessidade de alguém vir ao mundo naquelas condições. E eu olharia seus pais imaginando a tristeza que era jamais se alegrarem porque ele passou no concurso ou casou ou fez um bom negócio.Hoje raciocino de forma tão diferente!

O que é ter um filho que jamais cometerá um ato de maldade e jamais será odiado? O que é ter um filho que nunca vai experimentar a dor do fracasso, mas viverá sempre em um mundo mais simples onde não há pressão por resultados? O que é ter um filho que permanecerá ao seu lado enquanto você viver e, na sua inocência, jamais sentirá a dor, o medo e a angústia que você sente quando assiste o jornal? Também não passará anos preso em um casamento infeliz nem atropelará nenhuma criança.

Não sei se é bem assim que eles são, mas isso me passou pela cabeça aplicando-se a todos aqueles que tem limitações mentais.

Ninguém escolheria ter um filho com Down. Eu não escolheria. Sou felicíssima por ter os filhos que tenho como são, inteligentes e saudáveis. Mas é claro que tudo na vida tem seu ônus e compensações. Olhando para o menininho de sorriso mole imaginei que talvez fosse um anjo que Deus colocou no mundo sem que percebêssemos.  Quem sabe Deus queria "descobrir" qual seria nossa reação diante de uma pessoa pura, mas que já tivesse perdido a aparência irresistível de um bebê.

Quem sou eu diante de uma pessoa assim? Passo ou não passo no teste?

Talvez a pureza sejam coisas muito estranhas aos nossos olhos mas nem percebemos isso. O que você diria de um amigo que doou todos os bens aos pobres? O que você diz de uma mulher que perdoa infinitamente o mau marido?

Talvez a pureza seja incompreensível para nós e nos pareça tão mole e desajeitada como os gestos dessas crianças. Quem sabe se é por isso que vivemos em um mundo tão mal?    Os bons muitas vezes são vistos como portadores de alguma doença crônica que  lhes colocaria em desvantagem perante a sociedade. A rejeição aos Down é a seta que aponta para a raiz do nosso problema.

Talvez os Down sejam nosso teste e treinamento. Quando aceitarmos serenamente a bondade inocente como ela é, quando não mais a acharmos estranha ou desajeitada, só aí tenhamos condição de começar a construir uma sociedade mais benigna.

Os Down são a prova do nosso fracasso e ao mesmo tempo nossa chance de redenção.

24 de fev. de 2014

Preparação

Aos poucos, querendo ou não, a gente vai se sentindo muito bem e à vontade no papel de tia, mãe, vovó, senhora. A vida é muito bonita, principalmente quando descobrimos que a maioria dos nossos antigos medos não tinham razão de ser.

Lembro da primeira vez que ouvi alguém me chamar de "coroa". Era um rapazinho de uns 16 anos mais ou menos. Eu ia passando e ele exclamou: "ô coroa gostosa!"  Não morri. Tô vivinha, pra contar a história.

A vida é como uma grande caixa onde jogamos objetos de vários formatos todos os dias. Fazemos isso sempre muito preocupados achando que não vão caber; "a caixa" não suportará tudo o que lhe está sendo imposto.  Quando a sacudimos, percebemos que as coisas se acomodam por si mesmas e no final das contas tudo encontra o seu lugar. Um dia caixa fica cheia: não faltou nada, não sobrou nada.

Não há o que temer. Quando cada coisa que tem que acontecer, acontecer de fato, estaremos simplesmente preparados.

Quando eu tinha 17 anos pensava com horror nos meus 50. Era como o fim da vida, o fim da linha, a decreptude, um mundo cinzento e triste. Quando pensava nisso eu sabia que não estava preparada para viver aquilo. "Cinquenta anos? É demais para mim! Será possível alguém ser feliz com cinquenta anos?"

De fato aos dezessete eu não estava mesmo preparada. Aliás, alguém que consegue ter um pensamento tao equivocado como esse não está preparado pra nada na vida! Mas então o tempo passou. Devagarzinho, dia apos dia, como naqueles programas de computador em que um rosto se transforma em outro rosto mas a gente não consegue entender como nem a partir de quando. Fui sendo trabalhada pelo tempo e aqui estou eu - muito bem, obrigada.

Aos dezessete fui tola e sábia: fui sábia em perceber meu despreparo, mas fui tola em olhar o futuro imaginando que seria jogada lá de repente pela máquina do tempo.

Agora olho para a velhice e sinto a mesma tentação de achar que enfrentarei o horror dos horrores e concluir, por fim, que não estou preparada. Sinto a tentação, mas dessa vez não cedo a ela. Aprendi a lição. Já não tenho mais medo. Sei que nos sacolejos da vida eu estarei preparada, perfeitamente preparada.

Essa tranquilidade de hoje me leva a concluir que sou mais calma e feliz agora do que quando sofria as tolas inquietações dos meus dezessete anos. É lindo ser jovem, mas não é nada confortável.

Se tem um ditado que eu gosto e é o "meu" ditado, é este aqui: "No fim, dá tudo certo."

20 de fev. de 2014

Caminho inverso


Talvez eu tenha errado muito quando decidi viver só da verdade e desprezar todas as ilusões.  Cá pra nós, foi uma decisão muito pretensiosa.

Reanalisando a questão noto que as ilusões são o que temos de mais palpável na vida. É fácil rotular uma ideia como "ilusão".  Não há tanta dificuldade em detectarmos uma ilusão se esgueirando pelo ambiente mas e quanto aos outros rótulos da vida?   Tudo o mais é uma complicação definir.

Só enxergamos bem os nossos próprios sonhos. Podemos passar horas explanando nossas utopias, previsões e miragens. Temos esquemas, plantas, fotos, tudo arrumadinho. Sim, hoje é um daqueles dias em que declaro resolutamente que não há ambiente mais claro do que o lado de dentro da nossa cabeça.

Não sei explicar nada sobre o prédio que está ali na minha frente. Asseguro que é feito com concreto, tijolos, ferro e financiamento da Caixa. Nada mais. Também nada sei sobre meu celular, minha geladeira, a cadeira, o asfalto. Notem que o "mundo concreto" é absolutamente misterioso e cheio de surpresas. Tudo é composto por uma infinidade de moléculas irrequietas e temperamentais: no frio se comportam de um jeito, no calor de outro, na altitude têm uma personalidade, debaixo d'água já mudam a cara. Como se isso fosse pouco, costumam associar-se com outras e fazer combinações inimagináveis. Quem pode com isso?

Nem preciso do mundo inanimado para me sentir perdida: sou uma desinformada quanto aos travestis da esquina, as elucubrações dos políticos, os sentimentos caninos ou os caprichos das plantas.  Mas aqui, dentro da minha cabeça, tenho um mundo bem mais exato e compreensível. Por que abrir mão disso e privilegiar uma objetividade exterior que, no final da contas, não existe?  Meu mundo interior é mais claro, estou mais ambientada. Por ele caminho no escuro, sem acender a luz nem tropeçar nos móveis. Meus sonhos, lembranças e impressões estão organizados em estantes, acessíveis e em linguagem corrente. Com o equipamento certo eu poderia projetá-los na parede da sua sala!

Por isso decidi que vou fazer o caminho inverso: voltar atrás, revirar a lata de lixo e pegar de volta todas as ilusões que eu havia jogado fora.  Chega de arroubos.  Vou resgatá-las, dar uma boa espanada e readmiti-las no aconchego seguro da minha caixa craniana.

Cansei da "objetividade fluida" do mundo físico. Volto a recolher-me, em mim mesma, qual sábio jabuti.

17 de fev. de 2014

Reverência & Criatividade

Só é criativo quem deixa de ser reverente. Acho que a reverencia é um dos venenos mais letais contra a autenticidade.

Não é proposital, claro. Mas acho que quem admira demais uma pessoa, querendo ou não acaba se bloqueando, por causa da comparação. Ou imitando. O reverente corre sempre o risco de ficar cada dia menos parecido consigo mesmo. "Sofrer influência de" é deixar-se contaminar. Difícil fugir disso.

14 de fev. de 2014

Sociedades Alternativa

Lembro de mim mesma, adolescente, ainda no Rio. Estava passeando em um evento animado: um cruzamento de quermesse com feirinha de artesanato. Logo na chegada minha atenção foi capturada para um upo de jovens barulhentos usando roupas esquisitas e portadores de uma felicidade mais esquisita ainda. Riam muito enquanto cantavam "Viva! Viva! Viva a Sociedade Alternativa!" "Viva! Viva! Viva a Sociedade Alternativa!"! "Viva! Viva! Viva a Sociedade Alternativa!"! Um mantra. Eles se olhavam e riam  muito enquanto cantavam isso. E eu achava algo entre engraçado e assustador - inclusive porque minha mãe puxou meu braço e me tirou dali rapidinho. "Será que eram maus? Delinquentes?" - pensei, enquanto era subtraída daqueles ameaçadores metros quadrados.

O que é Sociedade Alternativa? Enquanto cantavam às gargalhadas, de braços levantados, olhavam uns para os outros como se nas entrelinhas houvesse alguma charada que os passantes não conseguiam captar. Como se estivessem esfregando na nossa cara o mapa de algum tesouro sabendo desde já que não entenderíamos. Pareciam rir de nós. Achei que riam de nós.

Eu não fazia ideia de quem eram, por que riam, porque se vestiam daquele jeito. Depois descobri que eram hippies. Passei a adolescência achando os hippies fascinantes. Pareciam livres e assustadores. E ao que tudo indicava "Sociedade Alternativa" era algo que valia a pena ser desvendado...

10 de fev. de 2014

No meu tempo

Lembro de minha mãe olhando o mundo ao redor, o mundo que não era mais dela. Ouvia os noticiários, reparava as novas tendências, modismos, a alteração dos costumes, as banalizações impensáveis, o embrutecimento das pessoas... ela olhava tudo isso e concluía: "é...  não tem mais lugar para mim nesse mundo não. Estou velha demais, estou antiquada, não me encaixo..."

Ela falava essas coisas como alguém que já passara da idade das indignações.  Passara também algumas  das esperanças próprias da juventude. Tudo parecia ruir: o mundo que até então conhecera, firmado em valores aparentemente sólidos e reconhecíveis, aquele mundo desvanecia. O sentimento é de orfandade, deslocamento. Uma espécie de solidão.  Ela falava essas coisas calmamente, em paz, como quem cansa da briga e simplesmente entrega os pontos.

Acho que a velhice se completa nesse ponto: quando termina a energia para tentar se adaptar. Porque em um primeiro momento não queremos adaptação: queremos mudar o mundo. Depois de algumas pelejas entendemos que algumas coisas mudam de qualquer jeito, é assim mesmo e tentar conter o mar é dar murro em ponta de faca. Vem então a fase das tentativas de adaptação: tentamos criar teorias reconfortantes ou entender teorias para nós impostas. Tentamos explicar as coisas para nós mesmos. É um auto catequismo teimoso. Tudo para sofrermos menos. "Vai ver que eu é que estou errada. O mundo é assim mesmo e existe sempre um lado positivo nas coisas. Talvez eu precise começar a pensar diferente, ver as questões com outros olhos. Preciso ser mais flexível."  Funciona por um tempo. Cria-se uma paz artificial. Uma espécie de sono a peso de remédios.


Quando os constantes esforços para adaptação passam a significar auto agressão... aí já é sinal de que a fórmula esgotou.  Continuar tentando é cuspir em si mesmo, renegar-se. Poucos se odeiam a esse ponto. Quem já foi feliz não consegue desprezar o ambiente onde foi cozinhada a própria ventura. Você ama até a panela de um bom cozido.

Passamos a vida tentando mudar o mundo, depois tentando nos mudar para o mundo. Por fim admitimos tanto quem somos quanto o que o mundo é.

Envelhecimento é quando a gente começa a não ver tanta graça em permanecer em uma festa esculhambada só porque a galera está lá.  É quando, no meio da zoeira, lembramos que sempre é possível voltar pra casa e repousar.


Cada dia entendo mais a minha mãe. Sou bem mais nova do que ela quando proferiu a dita frase. Mesmo assim tomo-a para mim. Não reconheço mais, em lugar algum, o mundo no qual nasci.

É com uma alegria pouco exaltada que anuncio para mim mesma minha chegada nesta estação: a estação onde a gente espera o trem para seguir adiante. A estação onde entendemos que valeu, mas já deu.

Estou começando a achar, como ela, que esse mundo não está mais tendo lugar para mim. Não me encaixo, não quero mais me encaixar. Protesto demais, canso e, por fim, me torno cansativa.

Estranho... Ao mesmo tempo em que cresço em compreensão para com o próximo, também diminuo em algum tipo de flexibilidade. Parece contraditório... Difícil de explicar. Mas quem quer a minha explicação, afinal de contas?

Portanto não critique um velho quando ele diz "no meu tempo..."  É uma expressão bem apropriada. Chega mesmo um tempo em que o tempo não é mais o nosso tempo.

E quer saber de uma coisa? Será que esse trem ainda vai demorar?

6 de fev. de 2014

Adeus, dia!


É noite e estou cansada. Tentei ver um filme mas cochilei. Ainda assim reluto em me despedir do meu dia.  Hoje eu não queria dizer "adeus" para esse conjunto de 24 horas com seu colar de minutinhos enfeitados de segundos.

Meu "hoje" está me parecendo tão ímpar! Tenho certeza de que alguma coisa eu não soube, alguém viria mas não veio, algum segredo não me contaram mas aconteceu, uma cena eu perdi, uma boa sorte me sorriu pelas costas. Sensação de que não vi tudo que poderia.

Há dias em que a gente nem percebe o fim e até torce por ele, mas há outros em que isso incomoda. Hoje é como um filme que a gente sabe que está acabando mas sente que está faltando aquele fecho, sabe, aquela última e decisiva cena. Hoje está tudo com cara de filme francês. No final a gente olha para os lados e pergunta "e aí, acabou?"

Parece que se eu for dormir, perco a cereja do bolo. Mas não aguento: morro hoje, amanhã ressuscito. Tomara que guardem a minha cereja.

28 de jan. de 2014

Não sou tão má

Que me conhece sabe que não sou muito fã de cães. Acho que maltratar animais é algo intolerável, mas daí a ter um bicho em casa vai uma grande distância. Eu defendo veementemente os direitos dos animais - contem comigo! Desde que eles sejam felizes longe de mim.

Tempos atrás andei postando um texto implicando com a cara de vários bichinhos. Para não dizerem que sou do mal, segue abaixo a lista de uns irracionais que passaram no meu controle de qualidade:


1- O boi. Não parece malvado, pelo contrário: é um churrasco ambulante. Como não gostar dele? Olham para a gente tranquilos, não exigem carinho, não enchem o saco, quase não mugem, não cantam de madrugada... Dá pra ter bois e ser feliz.

2- Ovelha: Ótimas para enfeitar propriedades rurais. Seriam excelentes animais
de estimação. Não sei como ainda não pensaram nisso. Eu preferia mil vezes chegar em sua casa e me deparar com uma ovelha do que com com um cachorro.

3- Golfinhos: gosto. São sorridentes, animados e nos acham o máximo!   Pelo menos é o que aparentam com aquele sorriso constante. Quando enxergam um ser humano parecem exclamar "bem-vindos!"  ou "Que bom que vocês vieram!"  Tomara que não seja falsidade. E eles brincam, fazem gracinhas, são inteligentes. O ideal é que fossem menores, de forma a caberem em nossos aquários, mas tudo bem.

4- Ursos polares: tá certo que bastaria uma arranhada para me fatiar todinha mas não pensemos isso. O fato é que são lindos e sempre tão bem vestidos naqueles casacões de peles! São espaçosos mas por isso mesmo têm o bom senso de morar no Alasca,  não em minha casa. São independentes, reservados, ficam lá no gelo deles e ainda posam para o National Geografic sem frescura.

5- Zebra: muito graciosas. Difícil acreditar que não sejam brinquedos. Sempre quis ter uma criação de zebras. Já fantasiei por dias incontáveis que comprei uma pequena fazenda cuja atração eram as zebras. Muitas. Minha fazenda seria parada obrigatória para os turistas que viessem à cidade. Hordas de estudantes viriam conhecer a Fazenda Zebrinha e comprariam souvenires irresistíveis: de chaveiros a casaquinhos, bolsas, canetas e tênis - tudo listradinho. Zebras são cavalos cheios de estilo.  Ainda vou ter minha própria uma coleção de zebras.

6- Borboletas. Todos gostam de flores. Imaginem flores voadoras! Pois isso são as borboletas. Não fazem barulho, não picam, não ameaçam, não fazem cocô na gente. São leves e ainda decoram nosso ambiente.  Pena que não curtem muito sexo, por isso acabam colocando poucos filhotes no mundo...

7- Passarinhos fora da gaiola: são tipo borboletas, só que mais pesadas. O que se diz de uma borboleta se pode dizer também de um passarinho. O que estraga é a mania de fazer cocô justamente na pintura do nosso carro.

8- Onças, pumas, tigres... felinos de grande porte são o máximo. E sabem colocar banca: um rugido deixa todo mundo de pernas bambas.

9-  Águias: não sei bem por quê, mas acho que elas também têm certa imponência e elegância. Não são tão bem vestidas quanto os felinos e ursos, mas devem ter alguma ascendência nobre porque sabem se portar. E moram bem, ocupando sempre nos "apês" de cobertura.

10 - Iguanas e camaleões: igualzinhos a um monte de gente que conheço: feios de rosto mas bonitos de corpo. Hoje em dia é o que importa. Têm um aspecto meio carnavalesco mas vá lá, um toque de descontração é sempre bem vindo.  Chamam atenção e dão ao ambiente um ar exótico. Todos deveriam ter um coiso desses dentro de casa (menos eu). Ficam ótimos em janelas ou próximo às portas. Evite colocá-los na mesa de centro.

A dor que queremos



Você não gosta de sentir dor. Nem eu. Mas se não gostamos por que detestamos a ideia de apagar nossa memória?

Que tal detonar de seu passado tudo o que não agrada? Se pudesse, você se livraria de toda a lembrança que lhe traz sofrimento?

A verdade dói, mas existe algo muito parecido com a verdade e que dói da mesma forma: a  MEMÓRIA.  De fato a memória é a nossa grande verdade.

Já ouvi muitas vezes as pessoas dizerem que "se eu pudesse, riscaria isso tudo de minha mente." Eu mesma já proferi esta frase. Claro que não foi do coração.  Esquecer o que vivemos é o mesmo que esquecer quem somos. Isso é assustador.

Você entraria em uma máquina sabendo que quando saísse estariam apagadas todas as suas memórias dolorosas?  O dia em que sua mãe morreu... aquele "não" de quem você amava, a ingratidão do amigo, a ingratidão para com o amigo, as noites de solidão, o desprezo de alguém, a manhã do assalto, a injustiça cometida, a palavra que não poderia ter sido dita, aquela atitude destrutiva, a humilhação, a raiva, o abandono...  Você apagaria tudo?

Já cheguei a achar que o passado se parecia demais com um dente estragado: só servia para doer. Mas que pensamento raso!  As tristes lembranças não servem só para doer: servem para fazer de mim quem eu sou.  Tirem de mim as dores e o que sobra é um fantasma. As lembranças servem para ensinar, para nos poupar de errar de novo, para mostrar o que é a natureza humana, para nos tornar mais humildes.

Se o passado é o que me forja e dele não abro mão, concluo que gosto de mim mesma bem mais do que até então supunha. Gosto de mim a ponto de continuar querendo a dor que me faz ser quem sou.

Assumir o passado é uma das pétalas do nosso amor próprio. É uma quê de "nariz empinado" diante da vida.


Etapas da nossa existência não podem ser "puladas".   Se eu subtraio muitas cenas de um filme, ele resulta sem sentido ou profundidade. Minha vida só tem sentido porque tenho um passado - bom ou não. Só consigo entender quem sou a partir de quem fui, do que vivi. Pois então que venham as memórias, as vergonhas, os arrependimentos, as mancadas. Não os renego. Aceito a minha vida como quem aceita um filho apesar de todos os defeitos.

Passado: essa é a dor que queremos. Porque a pior tristeza é não ter sentido, não ser ninguém.

REALIDADES BRASILEIRAS