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10 de jun. de 2014

Da série "Diário de Viagem"


Há situações na vida que a gente não sabe bem como reagir. Aceito opiniões:

É comum vermos, em Paris, artistas de metrô. São músicos tocando, cantando batalhando uns trocados. Em outros países esse tipo de artista consegue encher o saco dos ouvintes com repertórios duvidosos ou desempenho fraco. Em Paris geralmente a qualidade é boa, a ponto de dar mesmo vontade de liberar uns centavos de euros para os caras. Pois bem, dia desses estava eu num metrô qualquer e me deparei com algo que eu realmente não esperava: de repente começaram a tocar uma música brasileira que eletrizou um grupo de jovens. Eles ficaram animadíssimos quando ouviram... Adivinha?  Isso mesmo: "Ai se eu te pego".

Deu vontade de gritar "paraaaaa! Toca outra pelamordedeus!" - mas não deu.  Eles cantavam (em português pastoso)  riam e batiam palmas como se fosse a música mais incrível do mundo. Eu devia ter tirado foto daquele momento ímpar.

Pois é... É nessas horas que uma pobre brasileira não sabe bem se morre de orgulho ou se morre de vergonha. Fiquei confusa.

5 de jun. de 2014

Não contem nada a eles!


O boi, o frango, o peixe, a capivara, o camarão, o marreco, a lula... Como você, eu também devoro animais - sem trocadilhos.

Não, não me sinto nem um pouco culpada por isso e não vou erguer a bandeira magra e pálida do vegetarianismo. Meu pensamento é o seguinte: deu mole, virou refeição.

Calma! Estou me referindo (sinceramente!) a alimentação.

Não sou vegetariana. Quero a saciedade que vem das carnes, quero me sentir "das cavernas" de vez em quando. Faz bem. Comer carne é animalesco, violento e, talvez por isso mesmo, delicioso. O sangue é só um detalhe.

Você deve estar se perguntando o que, então, me levou a iniciar esse texto falando de seres tão comestíveis? O boi ... o frango... o peixe... O que, nesse simpático corredor da morte, instigou minhas considerações?

Tomemos como exemplo o frango: quantas e quantas vezes já me flagrei com um frango entre os dentes e o coração pesado a considerar a brevidade daquela vidinha tão desprovida de prazer e sentido. Não era pena do "assassinato" em si, mas pena do sem-sentido da vidinha deles. Tem sido doloroso pra mim imaginar que algo sagrado e misterioso como a VIDA possa acontecer sob determinações estatísticas e contábeis: nascer com o fim único de ser comido por uns e enriquecer outros. 

Pense em toda aquela expectativa da galinha, do "coito" à constatação de que mais um lindo ovo viria ao mundo. E para quê? Pra ser quebrado em minha frigideira. Ou sadicamente alimentado e espionado até atingir a idade do abate. Que porcaria de vida é essa?!

O camarão "singrando" os mares, fazendo planos para o futuro, sentido-se livre, jovem e desejado pelas camaroas ... Mal sabe ele que o "mar" que está singrando não passa de um viveiro safado e que sua vidinha vai acabar tão logo ele atinja o tamanho ideal.

Cruel.  Cruel, mas gostoso. Cruelmente gostoso (e nem sai sangue!)

Podemos dizer o mesmo do boi e de tantos outros desafortunados que pisaram esse mundo sem perceberem que nenhuma de suas qualidades seria apreciada a não ser o valor nutritivo.

Do nascimento a morte o que pode haver de interessante na vida de um bicho desses? Pode até existir mas jamais saberemos. Por que desenvolveram inutilmente habilidades? Por que aprenderam a andar, nadar ou voar? Por que ter lindas penas ou pelos macios se tudo se acabará no Auschwitz da nossa cozinha?

Qual a especial ventura ou aventura, o plano de existência, o ato de bravura a ser registrado? Quem se interessa pelo que cada um desses animais possa ter de singular? Manias, preferências, fobias, sobressaltos... De nada disso restará lembrança. Passam pela vida como coisas vãs, como nada! E no entanto são tão complexos em sua formação! A vida neles também é um mistério, tanto quanto em nós. Que força os sustenta? De onde vem? Como se mantém e para onde vai? Quem se importa? Toda a ciência de seu micro-mundo está destinada ao nada... a ser perdida para sempre. Sabe, isso me inquieta. Não o suficiente para me fazer passar fome, mas inquieta.

Eles enxergam, ouvem, sentem as exigências da natureza, a aproximação do predador ou da fêmea, sentem fome, cansaço, aflição... Para quê? Tanta complexidade desperdiçada.

Se eles soubessem - não conte nada a eles! - o quão breve e pobre suas vidas são e quão cruamente estão destinados ao buraco negro do esquecimento... Se eles pudessem ao menos refletir sobre a porcaria de vida que levam... Acho que se revoltariam. Ou ficariam deprimidos. Ou quem sabe, uma vez dotados de entendimento, eles se contentassem em escrever um blog cheio de indignação e amargura.

Ah como é confortável ser contada entre os humanos! Eu: um ser superior! Os reis da floresta somos nós! Ah que chique mandar no pedaço, escolher quem morre e quem não morre, se é com fritas ou farofa ou quem sabe umas torradinhas. Somos quase divinos. Pare para pensar. Pelo menos em comparação a uma lula eu sou. Falo por mim. Não sei você.

Então, enquanto pesarosamente eu comia e lamentava a má sorte daqueles seres inferiores e azarados, me ocorreu o seguinte: será que esse mesmo tipo de consideração também "aflige" os vermes que, debaixo da terra, esperam por nós? 

-"Pobres humanos... Que sentido tem suas vidas? Se eles soubessem que a única finalidade das suas existências é nos alimentar... Vidinha mais besta! tantos projetos, tanto suspense, tanta complexidade desperdiçada... Não contem nada a eles! Eles não precisam saber que só existem para nos alimentar!"


1 de jun. de 2014

Óleo com óleo, água com água

A gente escolhe um caminho e nele segue para sempre. É um princípio da física: sem oposição, após um impulso inicial teremos um movimento ininterrupto em linha reta.

Nem o sujeito mais descrente é capaz de negar que a luz segue viagem pelo universo para sempre. Luz é energia. O que move meu corpo é energia. Quando esta energia se desprender do corpo terá o mesmo destino da luz: seguir viagem. Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Meu corpo se acaba e se transforma, mas minha energia segue. Não há nada de "espiritual" ou religioso nisso.

Aliás "espiritual" é um termo usado para nos referirmos a realidades e "materiais" desconhecidos em nosso planeta. O termo serve para rotular as coisas que sabemos ou intuimos que existem, mas não temos dados para explica-las ou classifica-las.

Tudo é só uma questão de rótulo mas a realidade é uma só. O conhecimento é indivisível. Tudo é ciência.

Se eu me apego a maus sentimentos e abrigo como preferência a insensibilidade, futilidade, egoísmo, ganância, ódio, se me volto apenas para meu instinto animal e sigo nesse caminho como opção de vida, será que quando meu corpo se acabar esse tipo de energia se perde? Como se perde, se nada na natureza se perde? E como posso supôr que esse tipo de energia é idêntica à do que chamamos de "Bem"? Não podem ser idênticas.

O que somos de verdade, a nossa essência ou energia, ela está presa nesse "vaso de barro" que chamamos de corpo. Por estarmos presos, não temos como nos unir apenas às pessoas que têm a essência igual à nossa.

Imagino que tudo isso seja como se a vida fosse uma mistura de água e óleo constantemente sendo sacodida no garrafão da Terra. Quando o movimento pára o óleo se junta com o óleo e a água se junta com a água. Simples assim.

O conceito de "Céu" e "Inferno" não passa disso: um jeito simplificadíssimo de explicar para as crianças  (nós!) realidades por demais complexas que estão muito além da total compreensão delas.  Faz mais sentido quando retiramos disso tudo o conceito de bom ou mal e nos prendemos apenas à idéia de pólos que se atraem ou se repelem. Quando pensamos em naturezas distintas e irresistibilidade de atração. Todos sabemos o que é uma atração irresistível.

Balões. Uns tem oxigênio; outros tem gás hélio. Todos estão presos no mesmo ambiente. Quando se soltarem, os que tem ar vão para uma direção e os que tem gás hélio vão em outra.

Posso passar a mesma idéia de outra forma: e se o que chamamos de "mal"  for uma matéria real no universo? E se for uma espécie de ímã gigante que atrai para si todas as partículas de sua mesma natureza?

E se o que chamamos "bem" também for assim, tipo um ímã gigante ou ralo cósmico que engole tudo que caminhe para a sua direção?

E se em vida eu acumular em mim "matérias" de uma mesma natureza a qual será inevitavelmente atraída por um imenso "aspirador" tão logo se solte?

O que acontecerá quando esse "balão de ar" for solto sem amarras?

São as escolhas da juventude que determinam como seremos ao ficarmos velhos. Será que as escolhas na Terra não determinariam para onde nossa energia, uma vez livre, será atraída? A verdade não é uma só? A ciência não é uma só? Por que supor que o resto do universo seria regido por leis completamente diferente das da Terra? Não, o nosso planeta é apenas um e bilhões, e está inserido no mesmo contexto de tudo o mais que existe aqui ou além.

E se o grande ímã cósmico estiver levando para si quinquilhões de energias que tenham a mesma carga, ou natureza:  será que por fim isso não seria a definição de "Céu"?   Agora imagine o contrário: um lugar onde todas as energias desenvolveram o que existe de mais negativo. Como dizer que isso não se parece com "inferno"?

E mais:  se nenhuma informação se perde e se os sons continuam para sempre a atravessar o universo (sabemos que é assim que acontece)  por que supor que a energia que nos move não carrega consigo nenhum "giga" ou "byte"  da informação contida nos sons? Será que nenhum "arquivo eletrônico" acompanha essa energia?  Se na Terra andavam juntos, porque seria tão improvável que no "éter" se desprendam?

Se os sons/informações não acompanham a energia, então para onde vão?  Será que iriam, necessariamente, em direção oposta?

Minhas lembranças têm sons. Lembro da minha voz cantando, falando com minha mãe, brigando, recitando versos,  chorando, contando histórias. Sons... dados.. consciência... imagens... energia... Você tem certeza absoluta de que são coisas distintas que certamente se desprenderão umas das outras?

Olho para as estrelas e continuo pensando nisso... Você nunca parou para fazer essas considerações?

26 de mai. de 2014

Viagem

O melhor lugar para comentar suas viagens é mesmo em blog. No Facebook parece exibição ou  deslumbramento.

Para mim o deslumbramento só pode vir de alguém apto a ser feliz e ver beleza em tudo mas para outros o deslumbramento é "coisa de pobre" ou de pessoas simplórias. Sim, melhor postar minhas impressões aqui, até porque (aprenda!) ninguém, absolutamente ninguém esta interessado em suas viagens, suas fotos, suas aventuras. Por mais incrível que tenha sido tudo isso, aceite o fato de que ninguém quer saber.

Fale laconicamente de suas viagens como se não quisesse contar nada. Entre em detalhes só se os outros derem uma "deixa".

E como não tem ninguém vendo, aproveito para contar, lembrando já com saudade, que nunca vi nada mais magnifico, suntuoso, rico e impressionante do que a Basilica de São Pedro por dentro. Por fora ninguém da nada mas uma vez que você entre, é pura emoção. É mergulhar na beleza.

Toda obra de arte você vê por fora, totalmente alheio, querendo absorver.  A basílica de São Pedro não: ela te engole vivo! É como entrar em um diamante.

Nenhuma foto lhe faz jus. Você tem que ir lá e  decidido a usar sua cara de bobao .



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Altar todo em bronze, ricamente trabalhado. Enorme. Inacreditável.

25 de mai. de 2014

Linda





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Florença


Indo embora de Florença. Ontem a noite esteve linda, incrível. Muita gente na rua, a cidade super iluminada. Cidade pródiga em esculturas apaixonantes, prédios antigos... Visual romântico e acolhedor.  Aqui há excelentes artesãos, portanto, muita oferta de peças em couro. Bolsas, luvas, casacos, botas... Pirante! Tudo com um excelente acabamento.
A cidade é pequena; uma "mini Roma" que força a gente a andar, andar, andar. Ótimos restaurantes, vinho...
E hoje o dia amanheceu friozinho e ensolarado. Dá assim uma tremenda vontade de VIVER!

Adeus, Firenze!

24 de mai. de 2014

Diario de Viagem

Prometi a mim mesma que faria um diário de viagem. Não fiz nem farei. Primeiro porque não tenho internet em todo lugar. Segundo porque nunca tenho tempo.

 Existem dois tipos de viagem de férias: a primeira é pra descansar, a segunda é pra conhecer. Nunca, mas nunca mesmo, se atreva a viajar com uma pessoa sem antes se certificar de que seus objetivos coincidem.

Na viagem de descanso a gente não faz nada. O uniforme é bermuda, chinelo e acessórios de artesanato. A preguiça é a deusa inspiradora. A gente só sai da cama pra comer e, quando muito, tomar um banho de mar. Volta para a barraca se arrastando como um calango baleado, come porcaria o dia todo, coça o pé, volta exausta para o hotel e dorme pra caramba pra se recuperar "disso tudo". Não sabe o que é sentir culpa. Dentro do coração ha aquela doce certeza de que "eu mereço porque eu trabalho". No fim você volta pra casa feliz, gorda, descansada e com um chapéu de palha.

O segundo tipo é a viagem frenética. A pessoas quer ver coisas, conhecer novos lugares, explorar o mundo e fazer valer o investimento. Contrata passeios para os quais tem que estar de pé as seis da manhã, anda pra caramba, tira centenas de fotos e volta ao trabalho feliz e realizada, mas mais cansada do que antes. Os dias voaram, os pés doem, e num belo dia voce resolve fazer as contas e descobre que gastou boa parte do seu dinheiro em quinquilharias inúteis e ridículas.

 Geralmente escolho o segundo tipo de viagem. Estou tentando desviar dos souvenirs.  Os pés estão detonados.

Adorei conhecer Montmartre.

21 de mai. de 2014

Castelo de Santo Ângelo

Legal lembrar do que foi comentado no livro Código da Vinci. Ali era o cenário. Delícia olhar o Vaticano, a ponte, o "caminho dos anjos" , tudo lá de cima, do Castelo. Vento fresco, céu limpo.












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Noite em Roma...



Vou sentir saudade...

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16 de mai. de 2014

Medo de ser


Já li várias dicas da série "para ter um ano melhor". Uma delas foi "não tenha medo de parecer bobo." Simples, né? Mas me trouxe muita coisa à memória. Lembrei  de algo que me imobilizou por longos anos: o medo de parecer boba.

Quando criança eu era de fato muito boba. Às vezes as pessoas riam de mim (ai que vergonha!).

 Lembro de uma vez que eu estava sendo muito chata então um tio me disse "vai ver se eu estou de paletó lá na esquina!"  Eu não conhecia esse "ditado" e não entendi o que ele queria dizer. Saí, revirei o armário dele, fiquei confusa... e estava me dirigindo à porta para ir "lá na esquina" quando minha mãe achou estranho e perguntou onde eu estava indo. Quando tudo tudo se esclareceu as pessoas riram de mim. Felizmente a mamãe brigou comigo pois conseguiu acreditar que eu estava me fazendo de boba e zoando com o meu tio. Adorei levar aquela bronca.

Sim, houve outras situações semelhantes mas não vou contar. Não é legal para a minha auto estima. Só sei que um dia resolvi que ninguém mais iria rir de mim. Dali pra frente eu ia ser ser durona, incrédula, desconfiada. Não fui muito bem sucedida porque estar sempre com um pé atrás ofende as pessoas.

A vida podia ser mais simples...

A verdade é que as melhores pessoas que conheço são as que não tem esse tipo de pânico. As criaturinhas mais encantadoras do mundo são justamente aquelas que não se acham inadequadas, não se sentem dissonantes e entendem que seus sentimentos são normais, tá tudo bem, e daí? Amam-se.  E se o mundo não as compreende, então o mundo está errado. Acham muito natural acreditar e nada lhes parece mais estranho do que achar isso estranho.

Lembrei das vezes em que bloqueei uma emoção momentânea só porque achava que depois eu ia parecer boba.

Já aconteceu com você de, num dia perfeito tocar a música perfeita e, por acaso, você estar cercado das pessoas maravilhosas?  Já aconteceu de o coração disparar, dar um nó na garganta e você sentir aquela vontade grande de dizer "eu te amo"? Ou algo como  "esse é um momento lindo. Vocês são muito importantes pra mim. Estou feliz. Amo vocês."  Nunca?    Já te veio assim na boca aquela vontade doce de dizer coisas do coração? Eu já. Um monte. Mas resisti.

Talvez essas pessoas de cujo riso temos tanto medo sejam as que mais apreciariam aquele arroubo. Talvez precisassem dele. Talvez tenham sentido a mesma coisa que você.

Acho fofas essas pessoas que choram sem vergonha na frente de todo mundo, não disfarçam e ainda dizem "ah, sou um bobo mesmo, choro a toa!"   aí sorriem, secam as lágrimas e tudo bem. Não é encantador ser tão autêntico? Adoro gente assim.

Disso tudo deduzi que as vezes em que fui mais boba nessa vida foram justamente aquelas em que me esforcei para mostrar que eu não era boba.  

REALIDADES BRASILEIRAS