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20 de fev. de 2013

Homem chato

Faz uns meses que escrevi um texto sobre "Mulher Chata". Fiquei devendo uma postagem sobre "Homem Chato". Foi quando descobri que não sei bem como defini-lo.

Parece que os homens não tem características chatas genéricas. Homem só é chato dividido em categorias.  Passei a raciocinar então em termos de Marido Chato, porque homem solteiro é etéreo, fluido demais, então fica difícil analisar. Então marido chato é:


1- Aquele que implica com tudo o que a cozinheira faz e prega que só a mulherzinha dele sabe cozinhar.  Todos sabemos o que ele está querendo, não é?

2- Aquele que vive com sono.

3- O bebezão que requer atenção 24 horas por dia.

4- Na cama é "vem a nós" e nada de "vosso reino".

5- Só quer que a mulher use roupas de freira.

6- Não apóia nenhuma das iniciativas de vaidade da mulher (massagem, lipo, salão de beleza, botox, limpeza de pele...). Ele vive dizendo que ela não precisa, que tudo é caro e nada funciona.

7- Tem ciúme das amigas dela.

8- É um suplício tirá-lo de casa a noite.

9- É controlador.

10 - Nossa, como é chato um texto sobre homem chato!  Vou parar por aqui.

12 de fev. de 2013

Umas verdades


Você que discorda de mim...

Ainda assim estamos no mesmo planeta. Estamos no mesmo país, talvez na mesma cidade. Minhas razões são tão sensatas! As suas também. Meu raciocínio é tão claro! O seu também. Meus impulsos são tão espontâneos, minha visão nítida, meu fio de raciocínio segue reto - e com você idem! Somos brilhantes, tão brilhantes que acabamos separados. Não era para ser diferente? Por quê não nos coincidimos?

Precisamos acabar com essa mania de consenso, essa mania de discutir em busca da utopia da verdade final. Não existe isso. Por que teimamos?

Você está sozinho no planeta. Eu também. Estamos todos unidos em nossas solidões. Então porque a verdade nos separa? Logo ela, que deveria me jogar no seu colo!

Não tenho nada mais a te falar. Você me cansa! Queríamos que fôssemos amigos, que concordássemos e discordássemos das mesmas coisas. Não te cedo a minha verdade nem você me cede a sua, então está resolvido. Adeus a você, que continuará ao meu lado mas com o coração gradeado. Droga!

Todos nos agarramos às nossas verdades mesmo sabendo que não sabemos nada sobre isso. Mesmo assim seguramos esses farrapos ridículos. Tudo o que temos é a verdade - que por conseguinte não temos.  Tecemos essa coisa mórbida ao longo da vida, fio por fio, desmoronamento por desmoronamento. Tudo muito sofrido. Não dá pra abrir mão.

Precisamos também uns dos outros. E como precisamos! Estenderíamos nossos braços ao próximo num esforço supremo de afago. Bem que queríamos abraçar por abraçar, deixar-nos tocar, esbarrar, sentir a humanidade atrás dos olhos inquisitivos. Queríamos. Faríamos por onde...desde que não fosse contra as nossas verdades, contra aquilo que nos aquieta.

Você, que quer me ver despida de tudo, não tenho muito a dizer. Estendo as mãos a você, mas não toque em minhas verdades. Por elas morrerei como se morre por um filho.

Se não fosse tão patético eu pediria "por favor, concorde comigo! Não me force a virar as costas para você!"

"A quem não tem, até o pouco que pensa que tem lhe será tirado." Essa é a sentença que nos pesa.

8 de fev. de 2013

A verdade sobre as mudanças *


Falo de mudança descaradamente. Enalteço suas virtudes com minha boca mole. Bobagem. Não gosto de mudanças. Minto quando afirmo que gosto.

Já notou que existem grupos prefeitos de amigos? São grupos redondos e harmônicos. Novos amigos não fariam falta alguma; quanto aos antigos, são insubstituíveis e pronto.  Para meu desgosto já vi diluírem pela vida diversos grupos perfeitos que jamais serão recompostos. Fico realmente triste, mesmo havendo substituições.

Sim, gosto dos meus amigos do jeito que os deixei no passado, com o mesmo tom de voz, manias, cacoetes d'alma e chatices. Nas mudanças não os reconheço de todo. Sinto-me, então,  empobrecida. Por isso  não é muito recomendável procurar os amigos que saíram da sua vida. O reencontro é meio triste. Eles mudaram. Você também.  Apenas guarde o que você tem, deles, e siga em frente.

E os endereços?  Antigos endereços deveriam manter-se idênticos em honra à nossa infância. Não aprecio que lhes descaracterizem com novas cores ou arranjos desnecessários. Deveriam entender que nossas lembranças são sagradas.

Sinto-me tão avulsa quando não consigo conferir, no presente, todas as fichas do passado!  Reencontrar nosso cenário alterado, tempos depois, é desconcertante. Isso confunde nossa memória, mexe em coisas que não poderiam ser mexidas. Uma escada, um portão, uma calçada...nada disso deveria ser modificado, danificado por cores novas. Amo os móveis do passado como os deixei, com o mesmo rangido, com as mesmas manhas para abrir gavetas, com aquela mesma  naftalina gasta, tão querida, rolando lá no fundo. Quero que o pão doce de hoje seja fiel ao de quando eu era menina: massa branca, fofa, docinha, com creme amarelo bem melado e brilhoso por cima, embrulhado em papel, nunca em desumanos sacos plásticos.

O que nos chega do passado são fiapos disformes. Toda visita ao passado só tem uma serventia: acomodar-nos ao presente e convencer-nos de que não vale a pena investigar.

Os anos mais dourados da minha infância passei aí, nessa casa, no Rio de Janeiro. Viajei esses dias de férias e insisti em vê-la.  Talvez ... talvez algum um fantasma querido quisesse aparecer, me ver, chorar comigo. Talvez eu reencontrasse comigo mesma ainda menina, magra e taciturna. Talvez um objeto, uns amigos, talvez uma mísera visão, ilusão-consolo de quem sente saudades.

Fiquei muito emocionada. Bati várias fotos (que perdi, depois, no celular) e quase pedi para a dona da casa me deixar entrar pelo amor de Deus. Queria tanto, tanto entrar naquela casa! Queria muito, como quem tem sede e quer água. Queria entrar por aquelas portas, ver os tetos, pisar o chão, passar as mãos nas paredes, ver o banheiro, sentar em alguma cadeira e nos ver brincando no assoalho de madeira. Pelo menos a alma da nossa cachorra poderia aparecer, sorrir para mim e perguntar por quê não gosto mais de cães. Pelo menos ela, a "Me-Deixa", passaria rapidamente de um cômodo a outro, como é próprio dos fantasmas. Algo me diz que eu não sairia de lá vazia, que seria brindada com algum regalo secreto. Intuí isso mas não tive coragem de pedir para entrar. Se aquela mulher soubesse o quanto minha alma suplicava! Acho que foi minha última chance. Acho que o portal mágico se fechou. Acho que nunca mais volto lá e se voltar não haverá mais nada.

Mamãe entenderia esse texto.

As ruas próximas não evoluíram,  pelo contrário. Estava tudo velho e me alegrei com isso. Seria chocante ver tudo novo, pintado e alterado. Seria doloroso ter minha memória espanada dali. Quando tudo acabar, mas acabar mesmo, que desabemos todos juntos na mesma destruição. Que nossas alminhas se abracem nas mesmas ruínas, de uma vez só, e deixem o mundo. Nada de reformas.

Mas estava tudo lá, velhíssimo, como nos melhores filmes do gênero. Estava lá a casa dos meus padrinhos, a casa da Dirce, da Iria, da dona Maria com seu monte de filhos, o caminho do meu colégio interrompido pelo Sambódromo... mas estava lá. Estava lá o Larguinho (assim chamávamos a minúscula praça na frente de casa onde íamos brincar). Lá estava, principalmente, o querido portão de ferro - exatamente o mesmo portão!!!! - que rangia alegremente quando meu padrinho vinha do trabalho. Ele chegava da rua com uma dúzia de bananas embrulhada em jornal, subia os quatro degraus parecendo tão feliz por retornar!  e saudava quem estava em casa: "- Ô gente boa!"   

Eu o amava tanto! Mas não sei se ele sabia que eu o amava tanto. Talvez intuísse ou talvez não se importasse porque, afinal, ele amava tanto! E quem ama tanto está em estado de graça e acaba alimentando-se do próprio amor. Quem está assim acaba ficando distraído e nem percebe se é correspondido ou não.

Então olhei mais uma vez para a antológica janela onde sempre estava a minha madrinha, onde nos chamava para almoçar, onde nos orientava na hora de atravessar a rua, onde ela nos esperava cheia de vida e pequenas loucuras, onde víamos se a mamãe já estava voltando, toda bonita, do trabalho.  Lá estava a janela onde eu ficava com meus irmãos reparando os transeuntes ou espirrando água neles, por travessura. De lá deixávamos cair algum objeto na rua de propósito, então pedíamos muito educadamente para alguém que passava juntar para nós. Morríamos de rir com isso. Só quem vê graça em besteira é que é feliz.

... mas as portas da casa estavam fechadas para mim. O passado é assim mesmo, hermético.

Já morei em vários lugares mas esse tornou-se o endereço que mais amei na vida.

4 de fev. de 2013

Algo a ser gerenciado

Mulher, quem é você?

Isso é muito chato de dizer, mas lá vai: para os homens, a palavra "mulher" está indiscutivelmente classificada na categoria "diversão." Ao contrário da palavra "homem", que para eles está classificado na categoria  "relacionamento" (afeto, amizade, trabalho, companheirismo...).

Incrível, mas pode reparar: quando um homem fala em diversão, a primeira COISA da lista é a mulher. Considero nisso ofensivo.

Fazer o quê?  Como convencê-los de que "mulher" está na categoria "relacionamentos" e não na categoria "diversão"?  Para eles nós estamos no mesmo nível da moto, do vídeo-game e da lancha.  A mulher é considerada uma coisa leve, descartável, uma ótima maneira de fugir da rotina. Depois, obviamente, ela deve ser deixada pra lá para que ele possa voltar a tratar dos assuntos sérios da vida. Ninguém sobe de vida ficando o dia todo em cima na frente do vídeo-game.  Para os homens, mulher não faz parte da vida normal; mulher é diversão pra fugir da vida normal.  

(Claro que quando eles estão apaixonados tudo é diferente! Mas SÓ quando estão apaixonados).

Note que na visão da mulher a coisa difere muito. Para elas a palavra "homem" está na categoria "vida normal", ou "dia-a-dia".  Diversão, para a mulher, é dançar, comprar, sair com as amigas, bater papo, ir ao clube...  Mulher não costuma achar homem "divertido". Homem não é diversão: é necessidade. Homem não serve para esquecer as preocupações; homem É a preocupação. 

Claro que para algumas mulheres (Marias-Chuteiras, por exemplo) eles estão mais para a categoria "investimento". De qualquer forma investir não deixa de ser também uma maneira de se ocupar e preocupar com a vida normal, com coisa séria (o futuro).

Para a mulher, o homem, na pior das hipóteses, é algo a ser gerenciado. E na melhor da hipóteses? Na melhor das hipóteses ele é alguem com quem se divertir, nunca "uma coisa para diverti-la".  

Antes que você emende com alguma observação, tenho a dizer o seguinte: beber água não é divertido: é gostoso e necessário. E não beber água é simplesmente aflitivo. Para a mulher, o homem é água. Para o homem, a mulher não é água; é sorvete, chocolate, pipoca, essas coisas.

Não sei o que é que nós, mulheres, fizemos de tão errado para sermos classificadas junto com as motos, o baralho e a cerveja.  Isso tudo é uma pena porque as mulheres gostam dos homens. Prova disso é que, ao invés de tentar descartá-los, passam a vida tentando gerenciá-los.  

Quem tiver um final feliz para essa postagem, favor me escrever.

30 de jan. de 2013

O que vai e o que fica


Os filhos vão; as estriam ficam.
A juventude vai; as mancadas ficam.
O casamento vai; os bens também vão.
O dinheiro vai; as tranqueiras inúteis ficam.
A gordura vai; mas depois volta.
A ilusão vai; a disposição em se iludir fica.
O mau negócio vai; a experiência fica.
A ofensa vai; a dorzinha fica.
Os políticos vão; os impostos ficam.
Os ideais revolucionários vão; o espaço conquistado fica.
Vão-se os anéis; ficam com dedos fazendo cotoco.
Vai-se a paixão; o feijao-com-arroz fica.
Vai-se a mãe; O Dia das Mães fica, só pra doer.
Vão os amigos; ficam as lembranças
Os "achismos" vão; a primeira impressão fica.
Nós vamos. Não sei o que fica.







22 de jan. de 2013

Ana Paula Arósio - coitada!


Houve uma postagem na qual eu me perguntava, em crise,  "Por quê Deus não me fez Liv Tyler?"  Agora, pensando bem, pergunto-me:  "Por quê Deus não me fez Ana Paula Arósio?" Eu juro que iria me comportar!
Esses dias comprei o box da minissérie Os Maias, da Globo, e revi a mulher mais bonita que eu posso imaginar. Nem Liv Tyler nem Ana Hickman conseguem ser mais lindas.Tá certo, existe a incrível Giani Albertoni... mas ela não "chega lá".

O mundo está cheio de mulheres lindíssimas, mas de uma forma ou de outra todas elas caem dentro da "Caixa de Mulheres Lindas". Poucas mulheres têm uma caixa só pra elas. Pois a Ana Paula tem, e é de cristal.

Pensando bem... coitada! Não é possível que carregar tanta beleza não seja um fardo. É como carregar um mochilão pelo resto da vida.

Pense o que é nunca passar despercebida em lugar algum e viver chamuscada por centenas de olhares arregalados em sua direção. Onde você vai , o povo "OH!"  Vai à farmácia, "OH!"  Na igreja, "OH!"  No supermercado, "OH!"  Vai transar e o cara fica meia hora só no "OH!"    Acho que ela deve adorar os bebês porque só eles não fazem "OHhhh!"   Até bicha faz  "OH!"    Deve ser irritante. Você fala e ninguém escuta direito.  Você chora ou fica com raiva e até assim, ao invés de puxar solidariedade, tudo o que ganha é um irritante "OHhhh"    E o pior é que essa situação deve perdurar pelos próximos quarenta e nove anos e meio.

Não acredito que um homem possa conviver com ela sem se apaixonar. Claro que se eu perguntar nenhum marmanjo admite porque eles todos são muito safos. Vão dizer que ela é lindíssima, que adoraria transar com ela mas se apaixonar? "Também não é assim". Ha ha ha. Tudo mentira. Eu, que nunca fui uma Brastemp, lembro bem o que era desfilar pelo mundo com apenas 21 primaveras.

Impossível não virar súdito daqueles olhos hipnotizantes, daquele sorriso protegido por colunas de cachos negros. E pele alva. E voz profunda. E dentes de lajota vitrificada.


Existem belezas e belezas. A Ana Paula não faz o tipo sensual. Ela está mais para o divino. Sabe aquelas mulheres que o cara tem vergonha de falar palavrão quando está junto? Que fica preocupado com o estado da cueca e com as unhas? Pois é.

Melhor ser amiga dela. Se ela não for com a sua cara, rouba seu homem só pra sacanear.

Aproveito para professar aqui minha fiel amizade à Paulinha.

Embora Ana Paula não seja o tipo "mulher fatal", também está longe de ser assexuada como a Xuxa.   Difícil de explicar, difícil de entender.    Tá certo que eu a percebo apenas como mulher que sou, mas não consigo imaginar a Ana Paula na Play Boy. Ela está mais para Louvre. 

Essa postagem é assim mesmo: despropositada e sem um fecho. Quer dizer, tem um fecho sim:

Deus aloprou.

19 de jan. de 2013

Os medos humanos



Os seres humanos são medrosos. Têm medo da morte, do tédio, da solidão, do ostracismo.   Por isso acabam tendo medo da velhice, que supostamente traz tédio, solidão, ostracismo e morte.

Os humanos têm medo da pobreza, medo de se arrepender, medo de amar. Medo de serem ridicularizados. Medo de sonharem inutilmente.

Os coelhinhos, os veados, os esquilos só tem medo do predador, então apenas fogem, sem odiar ou perder o sono.

O pior medo é o medo dos nossos semelhantes.  Ao olharmos na rua o rapaz que vem em nossa direção deveríamos nos sentir confortavelmente acompanhados por uma criatura jovem, cheia de sonhos e boa vontade, mas não: temos mais medo dos rapazes das calçadas do que dos fantasmas dos casarões.

"Os outros" poderiam ser nossa companhia, nosso afago, nossa família e apoio, mas "os outros" são seres ameaçadores, são um verdadeiro pesadelo!   Os bichos da mesma espécie se protegem. Nós humanos, ao contrário, nos oprimimos mutuamente. Os humanos que se unem acabam formando grupos ameaçadores para os outros grupos. O Governo forma outro grupo que domina os demais dominadores e aí a injustiça impera porque cada pequeno imperador quer a sua parcela do sangue dos dominados.

É a Idade das Trevas.

16 de jan. de 2013

A história do requeijão em minha vida




Meu espírito refestelou-se hoje com o filé da literatura. Reli poesias, sonetos, textos brilhantes... Ah! minha pasta de recortes! Ela é mesmo um viveiro de emoções:

“Creio na superação dos erros e angústias do presente... O amor tem vozes misteriosas no coração implume... Fazei-me um instrumento de vossa paz...Mas o espaço que ocupa as minhas poesias me leva de novo junto a você... Não te direi o nome, pátria minha. Teu nome é pátria amada, é patriazinha... Folhas murchas de rôjo à tua porta... Quando eu for uma pobre coisa morta... Ouve estes versos que te dou, eu os fiz hoje que sinto o coração contente... REQUEIJÃO..."
Requeijão?!

Foi quase um tapa. Eu lendo... Eu sonhando... Eu flutuando... Eu me emocionando... Eu escorregando no requeijão. Mas que raios essa receita estaria fazendo em minha pasta de poesias? É o tipo da coisa que quebra o clima.

Entendo que tudo na vida é clima, é lance, é uma coisa levando a outra  mas tudo conectado, coisa com coisa. "O clima" nasce então de uma espécie de rosário muito bem bolado. Não se deve puxar o pé de uma alma sensível a flutuar.

Por falar em flutuar... campinas... flutuar... cerca e café quente... flutuar... pão fresquinho com requeijão. Hmmm... Quem flutuaria assim com essa fome? Impossível. Minha mente a essas alturas estava completamente tomada por imagens bucólicas e cremosas que se esparramavam em minha língua imaginária. Não sei você, mas eu tenho língua imaginária - entre outras coisas. Sorri... Então vieram as imagens de crianças lanchando, felizes e rosadas, suadas correndo pelas campinas da fazenda do vovô. Pingou requeijão na roupa? Não há problema, não mancha!

O leite leite fresco... a Vaquinha Mococa... as santas mãos da fazedora de biscoitos de nata... Gente! requeijão é poesia!
E foi assim que a Receita de Requeijão (agora com letras maiúsculas) passou a integrar, com louvor, a minha Academia Particular dos Imortais - e em uma cadeira entre Cora Coralina e John Donne. E de frente para o Veríssimo. E eles que não caiam na bobeira de olhar atravessado se não eles é que vão dançar.
Ora se faz sorrir, dá prazer, traz de volta a fazenda, a mãe de avental, o bule de café cheiroso, o pão fofinho, a infância sapeca, então decididamente há poesia no requeijão.

Ele fica!

Paraíso da Hienas

Às vezes a gente se comove com cada música! Há canções cujas letras não fazem muito sentido ou parecem mudar de assunto de uma frase para outra.

Quantas vezes eu ouço, não entendo tudo mas me comovo mesmo assim. É que sei, lá dentro do coração, que estão cantando uma coisa sentida e sensível, partilhando uma dor tão comum a todos nós! ou  que sabe uma cena do passado para a qual somos capturados e mergulhados. Aí me abraço espiritualmente com o artista (as vezes nem entendo seu idioma!) e comungo dessa ânsia, dessa coisa sem nome que afeta as pessoas sensíveis.

Uma melodia, uma voz emocionada, um arranjo inspirado, aquele sax, aquela viola ou piano com seu modo muito próprio de falar de mistérios sem deixá-los menos misteriosos.

Há uma linguagem no mundo, uma linguagem sublime e cifrada que a gente entende. Entende nas entrelinhas da partitura, no jeito, gestos, no tremor da boca.

Uma dessas músicas é Paraíso das Hienas, cantadas pelo saudoso Jessé. Sinceramente, que hienas são essas? Mulheres sofridas? Por que "hienas'? Não importa. Sempre me emociono quando ouço. Outra é Chão de Giz, cuja letra já questionei nesse blog e uma gentil leitora fez o favor de me explicar tudinho. Mas até aí eu só sentia "o ar" da música e ficava muito tocada.

É possível intuir profundidades de amor ou de dor e tudo o mais que não pôde ser explicado. Músicas traduzidas por intuição tornam-se mais que lindas. Somos co-autores, quase donos delas. Há canções tão tolas e tão lindas! Tão herméticas mas tão tocantes!

Deveríamos, a partir disso, desistir da idéia de que cremos no que nos parece razoável. Os seres humanos não funcionam assim. A gente crê, ama e adere àquilo que, sem palavras, nos cativou e convenceu. Porque o verdadeiro convencimento é anterior ao verbo. O argumento do coração dribla nossa mente. A mente só acompanha,  como se fosse um cachorrinho atrasado..

Somos profundamente instintivos e complexos. Nem percebemos no que fomos fisgados. Isso é perigoso e sublime. A raça humana me fascina.



Paraiso Das Hienas

Jessé

Abençoai as hienas
Principalmente as morenas
Tricampeãs mundiais
Pois desse lado do muro
O jogo é tão duro, meu pai
Que só ter piedade de nós não vale a pena (3x)
Oração não voga quando não há vaga
Coração não roga quando só há raiva
E a roupa do corpo três vezes ao dia
Novena não paga ao homem da venda
Não adianta nada, não enche barriga
Subir de joelhos as escadarias
Abençoai as hienas
Principalmente as "da Silva"
Campeãs de carnavais
Pois desse lado do beco
O olhar é tão seco, meu pai
Que só ter piedade de nós não vale a pena (3x)
Oração não voga quando não há vaga
Coração não roga quando só há raiva
E a roupa do corpo três vezes ao dia
Novena não paga ao homem da venda
Não adianta nada, não enche barriga
Subir de joelhos as escadarias
Abençoai as hienas
Principalmente as morenas
Tricampeãs mundiais
Pois desse lado do muro
O jogo é tão duro, meu pai
Que só ter piedade de nós não vale a pena (3x)

12 de jan. de 2013

Teias



Uma amiga perguntou esses dias se "alguém poderia sentir saudades do que não viveu?"
Respondi que sim, poderia, pode, acontece sempre. 

Na minha opinião, embora o nome desse sentimento não devesse ser "saudade", saudade é a palavra que mais se aproxima do fenômeno até porque parece não existir outra para definir a sensação. 

Já senti inúmeras dores de saudade por coisas que jamais vivi. E dói. A saudade vem, provavelmente, porque estamos ao mesmo tempo desejando e nos despedindo de algo que tanto queremos.  A dor é de partida porque intuímos que jamais teremos aquilo. É uma lembrança-despedida. 

Penso que essa sensação é também um estado de melancolia causado pela carência de coisas que não existem nesse mundo.  Desejamos o que não existe aqui porque nossa procedência não é daqui.  

Há também as coisas que existem, mas que pela própria natureza só podem "nos acometer"  muito raramente e por pouco tempo. Ainda que não saibamos seu nome, a safada da nossa alma se lembra de tudo e passa a vida nos incomodando com lembranças sem rosto. 

Somos cheios de sentimentos indefinidos. Há coisas lindas que nos acontecem mas não se sustentam ao longo da vida. Há felicidades que não resistem ao martelar do dia-a-dia, então passamos o resto da nossa existência com saudades. O que queremos é mais ou menos como teias de aranhas: elas surgem,  mas simplesmente não podem ser reutilizadas.


Não deveríamos passar a vida com saudades das teias de aranha - mas é o que acontece.





7 de jan. de 2013

Graduação

Há, no mundo, graduação para tudo: para a feiúra, para a beleza, para a inteligência, para a mediocridade. O mais baixo patamar da mediocridade é quando a pessoa nem percebe a genialidade dos outros; passa batido e acha ridículo louvarem tanto os gênios. Mas há um degrau acima: é quando a pessoa tem inteligência para perceber a genialidade mas olha para si mesma, compara e conclui que com um pouco de esforço conseguiria fazer igualzinho. O medíocre menos rasteiro é aquele consciente do seu estado, mas com capacidade de perceber, reconhecer, admirar e curtir a genialidade alheia. Acho que estou nessa. 
Não é o fundo do poço não, né?

REALIDADES BRASILEIRAS