Gosto do Dia das Mães. É que na ocasião me sinto no direito de me sentir especial.
Claro que no meio das alegrias aparecem uns espinhos de melancolia também. Fico lembrando dos meninos quando eram pequenos e de como era bom eu ser o centro da vida deles e como eu podia colocá-los no meu colo e ficar com eles o tempo que eu quisesse. E de como minha palavra era confiável porque eles não sabiam nada do mundo. Para eles eu era um poço de cultura. Hoje é mais fácil que eles me ensinem algumas coisas. As coisas mudam, nossa posição muda. Não sei o quanto e não sei se quero saber. Bem, essa saudade deles pequenos traz sim certa melancolia. Quer dizer: trazia. Hoje não é mais assim. Registre-se que os netos nos curam dessas saudades. Eu não contava com isso. Essa vida é uma beleza!
Lembro de apertá-los, colocá-los em meu colo, de explicar coisas, de ficar olhando eles dormirem, de trocar fraldinhas, de amamentar. Lembro de mim mesma ocupada em mil afazeres com os quais não me ocupo mais hoje. Era cansativo e muitas vezes eu queria folga. Muitas vezes quis. Mas eram tempos bons, muito bons. Eu me sentia incumbida de uma grande missão. Agora não sei bem pra que lado vou. Isso me leva necessariamente a novas descobertas, novas possibilidades, o que é positivo.
Lembro dos meus biscoitinhos caseiros. Nunca mais tive paciência de fazê-los. Isso prova que eu era melhor antes? Tomara que não. Lembro dos shortes que eu fazia, dos passeios na praça, das historinhas. Dá uma incrível sensação de riqueza saber que tive tudo isso em minha vida.
Lembro de como eu imaginava o futuro e reflito que agora estou no futuro. Oh, aconteceu! E deu tudo certo. Não fui a melhor mãe do mundo mas acho que posso crer que fui uma boa mãe. Ou pelo menos uma mãe bem razoável. E lembrando de como eu imaginava os dia por vir, vejo que me enganei bastante. Ótimo. Eu pensava que com a idade que estou hoje eu seria uma velha caquética e sem vida. Nada disso. Estou me sentindo super bem. Grata surpresa.
Todos temos falhas e dessas falhas vem um medo: o medo de descobrir que os erros foram piores do que se supunha. O maior medo de toda mãe é de que ela tenha cometido um estrago sem conserto, alguma catástrofe confundida com "errinho". Bem, acho que isso não aconteceu. Se aconteceu não me digam. rsrsrs Brincadeira, digam sim. Eu aguento.
Presentes são bons. Abraços são maravilhosos. Palavras de carinho são o céu. Mas o melhor presente é poder olhar pra trás e pensar: "deu certo."
Mas o que é "dar certo"? É ver os filhos felizes, com a felicidade possível dentro do que chamamos de "vida real".
De repente me ocorre que muitos criminosos tem direito a "saidinha" do presídio no Dia das Mães. Não seria maravilhoso se Deus permitisse que as mães mortas também tivessem direito a "saidinha" só para visitar os filhos nesse dia?
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8 de mai. de 2018
17 de abr. de 2018
Transbordou
Usar o termo "transbordante" para se referir a qualquer coisa costuma evocar algo positivo. Traz uma ideia de saciedade borbulhante, farta mas leve. Transbordar é tudo o que se quer, exceto quando estamos falando de paciência. Há sim o transbordar negativo. É quando alguma coisa "enche", não cabe mais dentro da gente
Pois o Facebook "transbordou". Meu relacionamento com ele hoje é de "separação de corpos". Não sei ainda se chegaremos ao divórcio, mas está perto.
Nunca vi um ajuntamento de gente com tanta dificuldade em interpretar um texto, seguir uma linha de raciocínio ou ser contraditada. Não me sinto capaz de continuar "ouvindo" que defender um ponto de vista equivale a "desrespeitar a opinião alheia".
Mas não foi só isso que me cansou. Cada defeito dos outros aponta para os meus próprios e isso foi me deprimindo aos poucos. A cada raiva eu me sentia um verme. Então imagine você quantas vezes por dia me senti assim. Sou meio neurótica, "meio culpada de tudo", então é cruel essa auto análise diária e forçada. Se o sujeito é chato considero que chata posso ser eu, que não o acolho dentro de mim com paciência. Se me aborreço com quem não aceita críticas me pergunto por que isso me irrita? E daí que o cara seja imaturo? Novamente a vilã sou eu. Posições políticas, equívocos de interpretação, precipitações, inconveniências, chatices gerais, tudo isso aponta também para mim, que me irrito quando tudo que eu queria na vida era ser um mar de serenidade e simpatia.
E as eternas discussões insepultas? E os meus brilhantes argumentos que já me enojaram de tão repetidos e inúteis? Pois ninguém está lá para mudar de ideia mas para expor ideias eternamente, incansavelmente, pelos séculos dos séculos amém.
E a opinião que ninguém pediu? E indireta? E a felicidade falsa? E a feiura cinicamente elogiada? E a vontade de dizer que o brega é brega?
Fora os assuntos repetitivos temos também os assuntos do momento. De dez em dez dias aparece um escândalo ou piada ou vídeo incrível que eram para trazer baforadas de novidade ao ambiente mas por serem tão exaustivamente comentados ficam logo com cara de velhos. O vídeo do momento, o escândalo, a mancada da vez, tudo é remastigado por dias.
Na verdade nada disso é bom nem mau. Só que enjoei. Além do mais todos achamos razoável que uma pessoa "recolha" as próprias imperfeições debaixo de uma roupa ou maquiagem estratégica. Pois meu recolhimento pra fora do Facebook equivale a vestir um belo vestido para esconder as "celulites da alma". Isso porque entrei em crise. Aos poucos fui me sentindo disforme, inconveniente, má, passional. E essa passionalidade é pesada pra mim. Estou em crise com o que sou, o que sinto, com o país e o planeta. Tá tudo me espetando. O país corroído por todo tipo de sífilis social e eu condenada a apenas assistir e protestar em libras? Chega. Preciso tirar férias dessa coisa.
Pois o Facebook "transbordou". Meu relacionamento com ele hoje é de "separação de corpos". Não sei ainda se chegaremos ao divórcio, mas está perto.
Nunca vi um ajuntamento de gente com tanta dificuldade em interpretar um texto, seguir uma linha de raciocínio ou ser contraditada. Não me sinto capaz de continuar "ouvindo" que defender um ponto de vista equivale a "desrespeitar a opinião alheia".
Mas não foi só isso que me cansou. Cada defeito dos outros aponta para os meus próprios e isso foi me deprimindo aos poucos. A cada raiva eu me sentia um verme. Então imagine você quantas vezes por dia me senti assim. Sou meio neurótica, "meio culpada de tudo", então é cruel essa auto análise diária e forçada. Se o sujeito é chato considero que chata posso ser eu, que não o acolho dentro de mim com paciência. Se me aborreço com quem não aceita críticas me pergunto por que isso me irrita? E daí que o cara seja imaturo? Novamente a vilã sou eu. Posições políticas, equívocos de interpretação, precipitações, inconveniências, chatices gerais, tudo isso aponta também para mim, que me irrito quando tudo que eu queria na vida era ser um mar de serenidade e simpatia.
E as eternas discussões insepultas? E os meus brilhantes argumentos que já me enojaram de tão repetidos e inúteis? Pois ninguém está lá para mudar de ideia mas para expor ideias eternamente, incansavelmente, pelos séculos dos séculos amém.
E a opinião que ninguém pediu? E indireta? E a felicidade falsa? E a feiura cinicamente elogiada? E a vontade de dizer que o brega é brega?
Fora os assuntos repetitivos temos também os assuntos do momento. De dez em dez dias aparece um escândalo ou piada ou vídeo incrível que eram para trazer baforadas de novidade ao ambiente mas por serem tão exaustivamente comentados ficam logo com cara de velhos. O vídeo do momento, o escândalo, a mancada da vez, tudo é remastigado por dias.
Na verdade nada disso é bom nem mau. Só que enjoei. Além do mais todos achamos razoável que uma pessoa "recolha" as próprias imperfeições debaixo de uma roupa ou maquiagem estratégica. Pois meu recolhimento pra fora do Facebook equivale a vestir um belo vestido para esconder as "celulites da alma". Isso porque entrei em crise. Aos poucos fui me sentindo disforme, inconveniente, má, passional. E essa passionalidade é pesada pra mim. Estou em crise com o que sou, o que sinto, com o país e o planeta. Tá tudo me espetando. O país corroído por todo tipo de sífilis social e eu condenada a apenas assistir e protestar em libras? Chega. Preciso tirar férias dessa coisa.
6 de abr. de 2018
Reis e rainhas
Quem me conhece sabe que sou fascinada pela história da monarquia inglesa. Sei lá por que. Talvez isso seja até meio bobo e te dou todo o direito de me criticar. Mas acho que isso tem tudo a ver com o fato de que, quando era criança, eu vivia envolta em histórias de princesas e fadas. Adorava os contos.
Bem, esses dias eu estava assistindo um vídeo sobre a rainha Elizabeth I e a rainha Mary, da Escócia. A história é longa e bem interessante mas uma das coisas que me chamou a atenção foi o fato de que, comprovadamente, Elizabeth não queria executar a rainha Mary. Mary fora condenada à morte por conspirar contra a vida de Elizabeth. Acontece que Elizabeth gelou com esse abacaxi nas mãos por que certamente se lembrou do que significou para si a morte de sua própria mãe, Anna Bolena, decapitada a mando de seu pai, o rei Henrique VIII. Elizabeth deve ter sofrido muito com isso e deve ter execrado tanto o mandante quanto os executores da sentença. Deve ter odiado seu próprio pai. Sei lá. Mas de repente, por uma tremenda ironia do destino, ela se vê em situação semelhante, tendo que decidir sobre a vida de uma mulher. Não uma mulher qualquer mas uma rainha, uma legítima "ungida". Isso foi emocionalmente muito pesado para ela. Mas analisando a sequência de fatos Elizabeth não poderia ter agido de outra coisa. Ela postergou o quanto pôde. Demorou, pensou, rezou, mas não teve jeito: assinou. E Mary foi decapitada.
Isso tudo pra dizer que a gente costuma pensar que os poderosos são de fato poderosos. Teoricamente sim, mas não de fato. Há toda uma cadeia de interesses e pressões e consequências que não pode ser ignorada. E nessa cadeia o tal "poderoso" nada mais é do que um fantoche. Não sei quantas pessoas xingaram Elizabeth. Não sei quantas outras a pressionaram para autorizar a execução. Mas o fato é que ela foi obrigada a fazer algo que, definitivamente, não queria, e isso lhe pesou em demasia.
Até onde podemos crer que os poderosos de hoje realmente poderiam agir de outra forma? Quem será que os pressiona? Quem monta neles, às escondidas, e lhes dá as ordens? Como garantir que neutralizar a própria consciência não seja a única forma de não morrer de angústia? E uma vez desativada a consciência, quem me garante que seria possível ligá-la de novo?
Há caminhos sem retorno. O caminho do poder, o caminho da maldade. O poder nada mais é do que o lugar onde a pessoa descobre que quem tem realmente poder, não aparece.
Acho que de todas as etapas que se precisa vencer para chegar ao poder, uma delas se chama "vender a alma ao diabo". E não sei a partir de qual momento é impossível voltar atrás.
Não digo isso para justificar nada nem ninguém. Ma acho que não considerações válidas. Um poderoso que se vê obrigado a tomar uma decisão, de fato não a tomou. Apenas obedeceu.
Queria poder ouvir cada autoridade desse país e do mundo. As coisas devem ser bem piores do que imaginamos. Acho até que alguns "não largam o osso" simplesmente porque não podem fazê-lo.
Bem, esses dias eu estava assistindo um vídeo sobre a rainha Elizabeth I e a rainha Mary, da Escócia. A história é longa e bem interessante mas uma das coisas que me chamou a atenção foi o fato de que, comprovadamente, Elizabeth não queria executar a rainha Mary. Mary fora condenada à morte por conspirar contra a vida de Elizabeth. Acontece que Elizabeth gelou com esse abacaxi nas mãos por que certamente se lembrou do que significou para si a morte de sua própria mãe, Anna Bolena, decapitada a mando de seu pai, o rei Henrique VIII. Elizabeth deve ter sofrido muito com isso e deve ter execrado tanto o mandante quanto os executores da sentença. Deve ter odiado seu próprio pai. Sei lá. Mas de repente, por uma tremenda ironia do destino, ela se vê em situação semelhante, tendo que decidir sobre a vida de uma mulher. Não uma mulher qualquer mas uma rainha, uma legítima "ungida". Isso foi emocionalmente muito pesado para ela. Mas analisando a sequência de fatos Elizabeth não poderia ter agido de outra coisa. Ela postergou o quanto pôde. Demorou, pensou, rezou, mas não teve jeito: assinou. E Mary foi decapitada.
Isso tudo pra dizer que a gente costuma pensar que os poderosos são de fato poderosos. Teoricamente sim, mas não de fato. Há toda uma cadeia de interesses e pressões e consequências que não pode ser ignorada. E nessa cadeia o tal "poderoso" nada mais é do que um fantoche. Não sei quantas pessoas xingaram Elizabeth. Não sei quantas outras a pressionaram para autorizar a execução. Mas o fato é que ela foi obrigada a fazer algo que, definitivamente, não queria, e isso lhe pesou em demasia.
Até onde podemos crer que os poderosos de hoje realmente poderiam agir de outra forma? Quem será que os pressiona? Quem monta neles, às escondidas, e lhes dá as ordens? Como garantir que neutralizar a própria consciência não seja a única forma de não morrer de angústia? E uma vez desativada a consciência, quem me garante que seria possível ligá-la de novo?
Há caminhos sem retorno. O caminho do poder, o caminho da maldade. O poder nada mais é do que o lugar onde a pessoa descobre que quem tem realmente poder, não aparece.
Acho que de todas as etapas que se precisa vencer para chegar ao poder, uma delas se chama "vender a alma ao diabo". E não sei a partir de qual momento é impossível voltar atrás.
Não digo isso para justificar nada nem ninguém. Ma acho que não considerações válidas. Um poderoso que se vê obrigado a tomar uma decisão, de fato não a tomou. Apenas obedeceu.
Queria poder ouvir cada autoridade desse país e do mundo. As coisas devem ser bem piores do que imaginamos. Acho até que alguns "não largam o osso" simplesmente porque não podem fazê-lo.
7 de mar. de 2018
27 de fev. de 2018
Discussão & bate-papo
O Facebook pode ser chatíssimo mas também interessante. Hoje discordei de uma pessoa e por isso ela pediu respeito. Meu Deus... Argumentei que discordar não é desrespeitar e oha essa pérola que acabei que recebi: "Respeitar é não tentar influenciar uma discussão".
Cara... Qual a discussão que não visa influenciar? rsrsrsrs PUTZ!
Quem não quer influenciar nem quer ser influenciado, nem discute! Tem gente que nunca discute. Ok. Geralmente é por um desses motivos abaixo:
1- Não discute porque não tem curiosidade alguma em conhecer as razões do outro. A pessoa se fechou em seu próprio mundo e está satisfeito assim;
2- Tem preguiça do exercício intelectual de discutir. Porque dá um certo trabalho mental elaborar respostas, questionamentos e ainda detectar as incoerências no discurso do outro.
3- Tem gente que não discute porque acredita que encontrou a verdade e que ninguém pode lhe acrescentar mais nada de útil naquele assunto.
4- Já há outros que não discutem justamente por desapego à verdade: edificou toda a sua vida em cima de uma determinada crença e odeia a ideia de que alguém possa lhe provar que sempre esteve errado.
A discussão SAUDÁVEL é justamente a troca de argumentos visando chegar a um senso comum. ESTOU FALANDO EM DISCUSSÃO , NÃO EM UM SIMPLES BATE PAPO. No bate-papo cada um apenas vai falando o que pensa sem interesse algum na opinião do outro. Bater papo é muito diferente de discutir. Ao fim de uma discussão alguém pode mudar de idéia. Ou podem ambos permanecer com suas ideias iniciais. Nada de errado nisso. Mas o intuito de qualquer debate é convencer ou ser convencido. A discussão visa CHECAR A VERDADE DE CADA UM.
O bate-papo tem uma finalidade predominantemente emotiva. A pessoa apenas quer proximidade, quer interagir com outros seres humanos, quer estar junto e ser ouvida e para isso finge que também está ouvindo. Eventualmente até ouve o outro mas sem muita atenção porque no bate-papo o que importa é estar junto, não as idéias. Geralmente nem se expõe idéia nos bate-papos, só falamos sobre coisas simples. É uma "prestação de informação descompromissada", de forma que nada que o outro diga é importante o suficiente para merecer alguma observação ou contestação. Já a discussão tem uma finalidade muito diferente: é um exercício intelectual. O que o outro diz não é pra "jogar conversa fora", mas é para ser analisado com carinho . Na discussão a pessoa quer expor idéias, quer ouvir idéias, quer checar idéias. Quer também testar a vulnerabilidade ou robustez de uma afirmação.
3 de fev. de 2018
Migração
Há uma festa para onde elas estão indo, mas elas não dizem nada. Se eu pudesse segui-las chegaria a ti, mas não posso.
Sinto inveja das aves que pousarão no teu ombro e brincarão nos teus cabelos. Sinto inveja desse vôo silencioso, cheio de segredos. Sinto inveja desse caminho certeiro, dessa ausência de dúvidas que só as aves têm.
Sigo meu caminho na Terra. Cumpro a minha sina, que nem tem sido penosa. A vida é boa, embora fique aquela dor antiga incomodando o sapato. Mas é assim mesmo: todos os sapatos doem e as dores nem sempre se despedem.
Sinto saudades, mãe. A senhora sabe disso.
Um dia o meu caminho na Terra me levará ao caminho das aves. Nesse tempo darei o último passo aqui e descobrirei, finalmente, onde você respira e quais os ventos que sacodem as suas roupas brancas.
1 de jan. de 2018
Primeiro de janeiro
O dia de ficar melancólica era, indiscutivelmente, ontem. O último dia do ano é quando a vida dá licença para lembrar, ficar triste e até chorar. Em meio aos fogos de artifícios todas as dores podem vir à tona fantasiadas de emoção deslumbrada. Vale tudo, todos se saúdam e pronto. Não chorei ontem. Nem hoje, para ser sincera. Mas estou sentindo um peso, uma dor. Uma angústia de saudade, uma sensação de subtração. Estou me sentindo profundamente só porque quando nossos pais se vão a gente fica só para sempre. Nada conserta isso. A gente se apaixona, a gente casa, tem filhos, se envolve tanto com o presente que o passado fica suspenso, pairando no ar. Por um tempo ele não nos incomoda. Por um tempo esquecemos e pensamos que mudamos, que somos outra pessoa e não precisamos tanto do que aquelas pessoas nos davam em termos de amor e aconchego de alma. Mas tudo que sobe, desce. Toda água que vai para o céu acaba voltando, mais cedo ou mais tarde, levemente ou destrutivamente. Um dia a vida diminui o ritmo, um dia os problemas se resolvem (ou solidificam), um dia os afazeres se acalmam
, dão um tempo. Aí você senta na varanda para tomar um chá olhando para o céu e descobre que esse foi o seu grande erro. É na varanda do repouso, da reflexão e da cadeira de balanço que tudo o que estava suspenso cai sobre você como uma avalanche.
Cadê minha mãe? Cadê meu irmão? Onde estão meus padrinhos que faziam tudo por mim?
Estou aqui, pequena e assustada, horrivelmente carente nesse corpo de senhora. O presente é um castelo cheio de fantasmas amigos. Eles sopram e dizem que sou um personagem de outra trama. Minha trupe se foi.
Minha saudade caiu sobre mim como chuva de gotas grandes.
Quando estou assim não lembro imediatamente das pessoas. Elas vem depois. O que lembro é de lugares, cenários, sensações, músicas, vozes, coisas muito íntimas, muito minhas, incomunicáveis. Essa incomunicabilidade me aflige imensamente porque impede que eu me alivie. Eu quero te dizer, falar pra você, fazer você conhecer e ficar com parte dessa dor. Mas é impossível.
Lembro muito, muito mesmo de como eu me sentia. E sinto um cheiro de guardado enquanto isso. Cheiro de caixa de relíquias. Lembrei da dor na barriga antes de entrar no palco para aquela apresentação de Natal. Lembro das crianças, dos holofotes, das asas de anjos de cartolina e papel crepon e o tempo que levamos para preparar tudo aquilo. As roupas de cetim barato. Droga! Lembro do que eu era, de como eu era e de como me sentia. Só depois, bem depois, vem as pessoas com suas caras e jeitos compor esse caldeirão. Lembro das expectativas do Natal, da árvore, dos presentes novos, do primeiro dia no colégio, da pasta de couro, da raiva que eu tinha das minhas pernas finas. Tudo se acende de novo, se ilumina dentro de mim só para doer mais. Lembranças por si só não doem. Mas há um algo mais que dá realidade a tudo. Há um componente misterioso que faz a gente re-sentir e re-ver. Aí é um tapa.
Estou mal. Estou vendo a cozinha da casa da minha madrinha com aquele monte de panelas. Estou vendo meus vestidos novos, a mamãe vindo do salão. Sinto o cheiro do glacê do bolo. Mas o que me arrasa é lembrar daquela sensação de acolhimento e segurança que não tenho mais. Estou vendo minhas amigas, o quintal com duas palmeiras. Estou sentindo novamente aquela felicidade meio dolorida, meio misturada com uma melancolia onipresente que eu nunca entendi. Quero o meu pai.Me sinto só. Me sinto órfã de todos os que me amavam. Me sinto tão criança que você nem pode imaginar. E tenho um sentir de abandono, de "sozinha no mundo", de "todos se foram e eu fiquei". Por dentro eu sou uma menina esquecida na estação de trem.
Eu poderia continuar escrevendo meses sobre isso e repetir pensamentos e frases como um pêndulo ou roda gigante cujos assentos sempre voltaram ao mesmo lugar. Ir e vir é o seu destino. Posso falar sobre isso novamente e te enfadar com minhas lembranças repetidas. Preciso fazer isso! Preciso dizer tudo de novo até conseguir me esvaziar dessas coisas e me sentir melhor. Acho que o esquecimento vem depois do cansaço. Se eu cansar de lembrar talvez isso canse de doer. Preciso escrever de novo e de novo até que se esvaiam todos os cheios, até que sequem todas as flores, até que tudo vire apenas fotos amareladas e cansativas. Deve haver algum jeito de isso tudo se perder ou ficar apenas banal.
Dizem que envelhecer é assim, quando o passado volta com mais força, quando você se sente sozinho, quando você tem a impressão de que sua alma ficou lá atrás, desnorteada. Envelhecer é quando você não quer absolutamente nada em troca do que perdeu. É quando você prefere a boneca velha de um olho só porque de todos os que sabiam de você, só ela sobrou. A boneca encardida é a única que sabe de tudo. É a última tabua nesse oceano. Envelhecer é quando você não quer nada novo e se torna uma menina inconsolável exigindo o que não pode ter. Envelhecer é quando a saudade fala mais alto do que tudo. É quando todo consolo se torna um insulto. É quando você não se sente mais mais desse mundo e prefere mesmo que seja assim.
23 de dez. de 2017
Miojo
Hoje o dia se arrastou. A noite promete se arrastar ainda mais. Jantei só pra constar. Não estava com fome. Bebi uma cerveja horrível. Não estava bem gelada. A única coisa em mim que presta hoje são as unhas, pois fui ontem ao salão. Tudo o mais é de afastar, não de atrair.
A salvação, às vezes, é a sacada. é pra lá que vou sentir o fresquinho da noite e pensar em coisas interessante. Mas hoje não funcionou muito. Olhei a rua e achei terrivelmente triste as poucas luzes de Natal mal penduradas, aqui e acolá. Elas me pareceram tão cansadas e desistentes que precisei desviar o olhar.
Da sacada geralmente gosto de imaginar que todos estão felizes em casa. Já até escrevi um texto bem razoável sobre essas coisas de fim de dia. Mas hoje me surpreendi comigo mesma. Dessa vez os pensamentos foram muito antipático. Os prédios que antes me despertavam ideias relaxantes agora me pareceram tão vulgares e encardidos!
Ali, bem em frente, as mesmas janelinhas amarelas piscavam caladas, de costas pra mim. E delas adivinhei um cheiro insuportável de miojo partindo do ventre de suas cozinhas. Miojo: a comida mais barata, fácil e desaconselhável que alguém pode escolher. A comida da dona de casa mal humorada que não tem carinho suficiente para fazer nada melhor. A comida do solteiro entendiado e sem dinheiro, cansado e de saco cheio. Azedo. Todos os prédios estão cheirando miojo fervente. Ao lado dessas cozinhas desprezíveis vi áreas de serviço igualmente nojentas, com migalhas de pão caídas pelo chão, umas baratinhas perdidas e montes de roupas por lavar. Do outro lado um monte de roupas por passar e por guardar. As pobres roupas limpas estavam lá há dias e já haviam perdido todo o encanto que poderiam ter com o cheirinho de sabão em pó. O perfume se fora por completo e tudo o que sobrou foram os amassados e o amarelados das roupas brancas mal lavadas.
Na sala algumas cadeiras saíram de seus lugares e tentaram zanzar, mas pararam no meio do caminho meio indecisas. A televisão joga na cara de todo mundo o Jornal Nacional, que contribui consideravelmente para que cada um tenha uma noite péssima.
Mulheres solitárias, homens indispostos, crianças enjoadas, adolescentes estranhos. E alguns velhos cuja diversão única é imaginar por horas um plano de fuga daquilo tudo. Poucos velhos. Eles morrem de pena dos mais jovens mas mesmo assim fugiriam sem olhar pra trás. Bastaria para isso um plano. Um bom plano.
A salvação, às vezes, é a sacada. é pra lá que vou sentir o fresquinho da noite e pensar em coisas interessante. Mas hoje não funcionou muito. Olhei a rua e achei terrivelmente triste as poucas luzes de Natal mal penduradas, aqui e acolá. Elas me pareceram tão cansadas e desistentes que precisei desviar o olhar.
Da sacada geralmente gosto de imaginar que todos estão felizes em casa. Já até escrevi um texto bem razoável sobre essas coisas de fim de dia. Mas hoje me surpreendi comigo mesma. Dessa vez os pensamentos foram muito antipático. Os prédios que antes me despertavam ideias relaxantes agora me pareceram tão vulgares e encardidos!
Ali, bem em frente, as mesmas janelinhas amarelas piscavam caladas, de costas pra mim. E delas adivinhei um cheiro insuportável de miojo partindo do ventre de suas cozinhas. Miojo: a comida mais barata, fácil e desaconselhável que alguém pode escolher. A comida da dona de casa mal humorada que não tem carinho suficiente para fazer nada melhor. A comida do solteiro entendiado e sem dinheiro, cansado e de saco cheio. Azedo. Todos os prédios estão cheirando miojo fervente. Ao lado dessas cozinhas desprezíveis vi áreas de serviço igualmente nojentas, com migalhas de pão caídas pelo chão, umas baratinhas perdidas e montes de roupas por lavar. Do outro lado um monte de roupas por passar e por guardar. As pobres roupas limpas estavam lá há dias e já haviam perdido todo o encanto que poderiam ter com o cheirinho de sabão em pó. O perfume se fora por completo e tudo o que sobrou foram os amassados e o amarelados das roupas brancas mal lavadas.
Na sala algumas cadeiras saíram de seus lugares e tentaram zanzar, mas pararam no meio do caminho meio indecisas. A televisão joga na cara de todo mundo o Jornal Nacional, que contribui consideravelmente para que cada um tenha uma noite péssima.
Mulheres solitárias, homens indispostos, crianças enjoadas, adolescentes estranhos. E alguns velhos cuja diversão única é imaginar por horas um plano de fuga daquilo tudo. Poucos velhos. Eles morrem de pena dos mais jovens mas mesmo assim fugiriam sem olhar pra trás. Bastaria para isso um plano. Um bom plano.
6 de nov. de 2017
Salvando a própria pele
Sobre a afirmativa de Jesus, de que "quem quiser salvar a sua vida vai perde-la e quem a perder por causa de mim e do evangelho vai achá-la":
É interessante notar que isso não se aplica apenas ao evangelho. Gostaria de tirar da conversa a questão espiritual ou religiosa e refletir no seguinte:
Pra tudo na vida essa máxima pode ser aplicada. Se nossa existência se resume a "salvar a própria vida", a gente simplesmente não vive. Se tudo o que eu fizer ou deixar de fazer tiver a ver com encompridar a existência, acabarei sendo enterrada viva, dentro de casa.
Há pessoas que não vão a lugar algum "por causa da violência". Há os que não comem uma lista imensa de alimentos por causa dos agrotóxicos, por causa dos hormônios ou dos aditivos químicos , do meio ambiente etc. Privam-se de se arriscar em lugares, romances, investimentos, comidas, contato humano, novas experiências... Privam-se da vida "por amor à vida". Não é uma contradição?
Há pessoas que não vão a lugar algum "por causa da violência". Há os que não comem uma lista imensa de alimentos por causa dos agrotóxicos, por causa dos hormônios ou dos aditivos químicos , do meio ambiente etc. Privam-se de se arriscar em lugares, romances, investimentos, comidas, contato humano, novas experiências... Privam-se da vida "por amor à vida". Não é uma contradição?
Não haveria heróis se todos pensassem apenas em preservar a própria pele. Porque "dar a vida" não significa exatamente morrer por alguém. Dar a vida é também disponibilizar a vida, arriscar a vida, meter a cara.
As maiores personalidades do mundo, os grandes aventureiros e revolucionários não colocaram a própria sobrevivência em primeiro lugar. Quem o faz não passa de uma vela apagada, na maioria das vezes. Uma bola murcha. Os grandes homens preocuparam-se mais com o tipo de vida que queriam leva do que com longevidade. Mais qualidade do que quantidade. O resultado é que viveram vidas muito mais intensas e interessantes do que a da maioria das pessoas.
Não sugiro que vivamos irresponsavelmente, mas dedicar toda a vida a apenas resguardar a vida realmente não é viver .
Há pessoas que morreram jovens mas viveram muito. E há os velhos que se preservaram tanto que hoje tem cheiro de naftalina, dinheiro guardado para os outros e um album de recordações chocho.
Há pessoas que morreram jovens mas viveram muito. E há os velhos que se preservaram tanto que hoje tem cheiro de naftalina, dinheiro guardado para os outros e um album de recordações chocho.
2 de nov. de 2017
"Sozinha deles"
Isso era um mistério até um dia desses: solidão. Tenho sido perseguida por um sentimento pesado de solidão, uma coisa triste mesmo. É como um manto que cai sobre a minha cabeça enquanto eu estou distraída. O estranho disso é que eu não estou sozinha. Não sou sozinha.
Custei a entender que saudade e solidão são praticamente a mesma coisa. Dói do mesmíssimo jeito. A solidão diz que tem motivos diferentes da saudade pra doer, mas ela está enganada. A gente não sente solidão por estar sozinha. A gente sente solidão por estar SOZINHA DE ALGUÉM. É como a saudade, só que mais completa. A saudade é uma lembrança que dói. A solidão é um fantasma dentro da alma. Não é uma lembrança mas uma realidade constante. Como os ossos dentro da gente. Quem lembra pode tentar não lembrar, mas quem sofre de solidão carrega essa coisa consigo.
Se você estiver afastado das pessoas do seu coração então vai sentir solidão pra sempre, mesmo que esteja cercada por outras tantas pessoas maravilhosas. Não há substituição. Nada entra em você. A ausência de algumas pessoas gelam nossa cabana. Fica faltando pra sempre aquela chama na lareira.
Não sinto saudade da minha mãe; sinto "solidão da mamãe", "solidão do meu irmão", do meu pai, solidão dos meninos quando eram pequenos. Nada me salvará disso. Aqueles meninos me abandonaram quando cresceram. Tenho rapazes, não tenho mais as crianças, então sempre terei solidão por eles.
Hoje, Finados, o dia foi silencioso e cinzento. A chuva cobriu o dia todo. Sem trovão, sem alarde. Apenas deslizou sobre o asfalto e os prédios para ninguém esquecer o motivo do feriado.
Os mortos não comparecem no dia de Finados. Eles se mantém teimosamente ausentes e não se importam com nossas homenagens. Não vêm colher nossas flores. A chuva caiu inconsolavelmente.
Passei o dia tranquila e de bom humor. Fiz minhas coisas, lavei o cabelo, preparei uma sopa. Tudo certo. Mas lá no fundo havia aquele incômodo, como uma doença com a qual tenho que aprender a conviver. Lá estava a lâmina insolúvel, enfiada enquanto eu sorria.
Alma também sente frio.
Chego a pensar que, com o passar dos anos, essa coisa só tende a piorar. Em algum momento a gente começa a achar que não vale mais a pena continuar. É a velhice: quando a gente começa a fazer as pazes com a morte.
Quando eu viajar não vou mostrar as fotos das férias para a mamãe. Ela não vai se alegrar por mim, nem ganhará lembranças. Ela será lembrança. Não vamos mais planejar, com meu irmão, o cardápio do próximo Natal. Estou "sozinha deles". Sozinha de pessoas que me amavam mas morreram. Sozinha dos meus padrinhos. Sozinha da minha avó.
Custei a entender que saudade e solidão são praticamente a mesma coisa. Dói do mesmíssimo jeito. A solidão diz que tem motivos diferentes da saudade pra doer, mas ela está enganada. A gente não sente solidão por estar sozinha. A gente sente solidão por estar SOZINHA DE ALGUÉM. É como a saudade, só que mais completa. A saudade é uma lembrança que dói. A solidão é um fantasma dentro da alma. Não é uma lembrança mas uma realidade constante. Como os ossos dentro da gente. Quem lembra pode tentar não lembrar, mas quem sofre de solidão carrega essa coisa consigo.
Se você estiver afastado das pessoas do seu coração então vai sentir solidão pra sempre, mesmo que esteja cercada por outras tantas pessoas maravilhosas. Não há substituição. Nada entra em você. A ausência de algumas pessoas gelam nossa cabana. Fica faltando pra sempre aquela chama na lareira.
Não sinto saudade da minha mãe; sinto "solidão da mamãe", "solidão do meu irmão", do meu pai, solidão dos meninos quando eram pequenos. Nada me salvará disso. Aqueles meninos me abandonaram quando cresceram. Tenho rapazes, não tenho mais as crianças, então sempre terei solidão por eles.
Hoje, Finados, o dia foi silencioso e cinzento. A chuva cobriu o dia todo. Sem trovão, sem alarde. Apenas deslizou sobre o asfalto e os prédios para ninguém esquecer o motivo do feriado.
Os mortos não comparecem no dia de Finados. Eles se mantém teimosamente ausentes e não se importam com nossas homenagens. Não vêm colher nossas flores. A chuva caiu inconsolavelmente.
Passei o dia tranquila e de bom humor. Fiz minhas coisas, lavei o cabelo, preparei uma sopa. Tudo certo. Mas lá no fundo havia aquele incômodo, como uma doença com a qual tenho que aprender a conviver. Lá estava a lâmina insolúvel, enfiada enquanto eu sorria.
Alma também sente frio.
Chego a pensar que, com o passar dos anos, essa coisa só tende a piorar. Em algum momento a gente começa a achar que não vale mais a pena continuar. É a velhice: quando a gente começa a fazer as pazes com a morte.
Quando eu viajar não vou mostrar as fotos das férias para a mamãe. Ela não vai se alegrar por mim, nem ganhará lembranças. Ela será lembrança. Não vamos mais planejar, com meu irmão, o cardápio do próximo Natal. Estou "sozinha deles". Sozinha de pessoas que me amavam mas morreram. Sozinha dos meus padrinhos. Sozinha da minha avó.
16 de out. de 2017
De bolha em bolha

A vida segue em linha reta. Nada afeta seu curso. Um dia é igual ao outro. Sol vai, sol vem, chuva cai, chuva seca, pessoas nascem, engordam, emagrecem, brigam, amam e morrem.
Ninguém aguentaria seguir em frente, marchando sem descanso, se não recorresse a alguma forma de fuga. Fuga talvez não... mas pausa sim. O maestro ergue a batuta e fica imóvel frente à orquestra. A música é suspensa e o que entra em curso é outra arte dentro da arte. Outra vida dentro da vida. Alguma coisa fora do tempo - que não para, mas suspende a si mesmo. Tudo cabe nesse espaço. Nessa pausa pode caber um mundo.
O tempo prende a respiração para que as pessoas possam respirar um pouco.
O tempo prende a respiração para que as pessoas possam respirar um pouco.
Essa é a razão pela qual o ser humano especializou-se em "criar climas", datas especiais. As datas especiais nada mais são do que, rigorosamente, NADA.
Somos inventores de datas especiais. Não existe engôdo maior. Não existem datas especiais! Os dias não se repetem. Mas criamos esse tipo de mentira para termos pelo quê esperar quando nada de mais nos espera ali à frente. Queremos ter motivo para usar o vestido novo. Criamos datas e depois olhamos melancólicos para o calendário considerando o quanto fomos felizes no passado e o quanto ainda seremos felizes no futuro - quando nem passado nem futuro existem. É bom ter motivo para contar os dias, por isso inventamos motivos para contar os dias. Precisamos comemorar coisas e esperar por coisas.
Esperamos tudo de bom nos "dias especiais" como se não fossem criações nossas. São flores de plástico. Mas tem algum valor.
Esperamos tudo de bom nos "dias especiais" como se não fossem criações nossas. São flores de plástico. Mas tem algum valor.
Somos seres criadores. Somos incríveis. De onde tiramos essa coisa de comemorar aniversário? O
dia em que nasci não volta nunca mais. Por quê me animo ou fico melancólica a cada 13 de novembro? Porque precisamos dessa alegria ou até mesmo dessa melancolia com data marcada. Porque ao marcarmos data para a tristeza estamos também dizendo que haverá data para a tristeza ir.
É bom marcar datas. É como se tivéssemos algum domínio sobre a vida.
dia em que nasci não volta nunca mais. Por quê me animo ou fico melancólica a cada 13 de novembro? Porque precisamos dessa alegria ou até mesmo dessa melancolia com data marcada. Porque ao marcarmos data para a tristeza estamos também dizendo que haverá data para a tristeza ir.
É bom marcar datas. É como se tivéssemos algum domínio sobre a vida.
Nós criamos datas e criamos músicas. E as músicas, por sua vez, criam climas.
Dia desses assisti um vídeo que apresentava parte de um show. Durante a apresentação da canção era possível notar que a "temperatura emocional" , tanto da cantora quanto da plateia, ia crescendo , crescendo. Gradativamente. Tudo muito artificial, mas muito real. Todos se deixavam levar candidamente e se entregaram àquilo como crianças crescidas no colo Cinderela: tão falso... mas tão bom.
Ninguém iria sair daquele teatro reclamando de hipnose grupal. As pessoas se deixaram levar porque é bom fazer de conta. Parecia que todos estavam felizes e apaixonados. Estavam. Ia passar. E eles sabiam disso.
Precisamos do êxtase. Ou a vida nos dá ou a gente inventa. Temos talento e tecnologia
para isso.
As câmeras mostravam, no meio da canção, as pessoas já com gestos melosos sorrindo umas para as outras e trocando olhares brilhantes. Mulheres deitavam candidamente a cabeça no ombro de seus parceiros. Até a cantora jogou para seu colega, enquanto cantavam, um olhar tão meloso que até parecia amor verdadeiro. Não estava apaixonada. Era a magia da música, tão irresistível quanto volátil. Ilusão. Faz parte. Breve, mas real. Não havia falsidade em nenhum gesto de carinho. E assim que a vida se torna mais palatável.
A vida segue reta e pesada em sua marcha dura mas momentos musicais como aquele criam uma bolha, enorme e cor-de-rosa, que suspende essa marcha monótona. Depois cada um volta à sua rotina.
Precisamos de mais momentos assim, que fiquem pairando enormes e rosados enquanto aterrissamos na vida real. E que venham outros ilusionistas porque em linha reta ninguém aguenta, mas de bolha em bolha até dá para encarar.
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