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Conversamos rapidamente na frente de todo mundo. Depois fui ao seu camarim. Acho que ninguém viu mas também não me demorei.
Como é Madonna de perto? Ela é como eu pensei que fosse. Fisicamente não houve surpresa alguma. A surpresa foi por conta de eu descobrir que jamais havia pensado nela de outra forma que não fosse fisicamente. Não parecia ser nem mais jovem nem mais velha, mais bonita ou menos bonita, gorda ou magra. Era como eu achava que fosse por fora e isso quase me surpreendeu porque de um modo geral os popstar nunca são como pensamos.
Tocou em meu braço e dei-me conta de que me perguntava algo sobre a festa, sobre o pós-show. Gostou do meu braço, olhou-me. Tive vontade de abraçá-la e na despedida abracei. Me senti pequeno e aconchegado. Foi rápido mas adorei seu cheiro. Queria sentir mais.
Como um carinha como eu poderia ser enxergado como pessoa por uma mulher como ela? Como chegar naquele coração? Mas... para quê chegar naquele coração?
Nossas vidas são pontilhadas de instantes, alguns muito especiais e todos eles têm a vocação da efemeridade. Conhecedores da sua volatilidade, afligimo-nos. O que é eterno não precisa ser pontuado porque cobre uma vida toda mas os instantes especiais desaparecem como fadas travessas, duendes, aparições. Precisamos segurá-los bem firme e olhar em seus olhos por mais tempo antes que sumam para sempre
Madonna... ela é delicada. E o mais surpreendente: tem um quê de maternal até então impensável. Não sei se é no jeito de falar, de olhar... não sei explicar. Tem um aconchego assim, de mãe mesmo, que chama a gente para o meio dos seios com uma autoridade irresistível. Seu olhos são profundos, quase melosos e contrastam com a figura autoritária que a gente vê no palco. Soube muito de sua vida tão somente olhando dentro deles. Oceano.
Quero levar-lhe alguma coisa hoje a noite. Um pequeno momento eterno. Para ela poderá ser banal mas para mim não.
É cansativo mas as exigências de um mega show, ao contrário do que pensam, me ajudam demais em momentos como esse. Uma separação... Muito melhor não pensar nisso. Essa semana mais do que nunca vou me dedicar aos ensaios, a cada detalhe do que for preciso. Quero dormir exausta sempre. Só preciso dormir bem na véspera da apresentação.
Hoje conheci um rapaz - um modelo. Lindo como tantos outros. Senti que ele não se aproximaria se eu não tomasse a iniciativa. Foi o que fiz. Por que fiz? Porque estou tensa, porque estou cansada, porque posso, porque ele é lindo e jovem e cheio de vontade de crescer.
Conversamos rapidamente em meu camarim. Banalidade: nome, você conhece os EUA? Aceita uma cerveja? Gostei do jeito que me olhou. Geralmente esses meninos colocam-se na posição de mercadoria. Esse apenas me fitava e sorria de um jeito despretensioso, como se estivesse tranquilo com a idéia já certa de que não havia como nascer dali alguma coisa maior, um relacionamento. Olhava-me apenas atento a princípio. Depois, pareceu-me, já com crescente simpatia. Em alguns momentos pareceu-me lamentar que não palmilhássemos as mesmas estradas na vida, só aquele breve cruzamento.
Novo, muito novo para ter notado tão de pronto que jamais me apegaria a ele. E no entanto ele é lindo, tão lindo quanto pode ser uma pantera que escolha livremente deitar em seu tapete e partir para a selva tão logo deseje. Infinitamente mais livre do que eu.
Jovem e quente e duro. Claro que o desejei. Claro que seria meu. E claro, ele iria gostar sim.
Estivemos juntos outras poucas vezes, brevemente, antes de estarmos a sós.
Não é justo olhar um homem como um animal de estimaçao mas eu assim o vi. Mas me redimo porque esse olhar sobre ele não foi gerado no sentido caprichoso do termo mas da melhor maneira que se possa entendê-lo: na paixão que nos desperta a idéia da beleza selvagem capturada e usufruida dia e noite sob os olhos, ao alcance da mão. Quem nunca desejou apanhar um tigre, tê-lo, brincar com ele?
Ele não esperava nada de mim. Gostei disso também. Eu não esperava que ele conseguisse me comover - mas conseguiu.
Quando por fim descansei em seu torax enorme ele me falou, como todos falam, de suas primeiras impressões a meu respeito. Ri de sua ingenuidade ao contar que se surpreendeu ao encontrar em mim um "ar maternal" marcante e bonito. Que homem diria isso a uma mulher mais velha sem pedir desculpas logo em seguida? Mas ele disse, e com tanta graça e sinceridade que comoveu. Ele viu em mim o que penso ter de mais importante, o que mais prezo. Foi o maior elogio que um homem poderia me dar.
Levantou-se e vasculhou os bolsos de seu jeans. Voltou com um minúsculo pacote de presente. Não me entregou. Ele mesmo abriu e de lá tirou uma finíssima corrente de ouro com uma pequena imagem da Madona com a qual circundou meu pescoço. Nesse movimento senti seu hálito novamente. Essa imagem já possuía um significado enorme e lagrimei. Ando especialmente emotiva esses dias.Estaremos juntos no Ano Novo. Não se trata de um romance. Não se trata de nada que não seja um hoje no qual preciso estar com alguém que não faça planos nem peça "presentes" para estar comigo; que não meça as palavras e que daí acabe dizendo sem querer coisas que me acalente o coração. Alguém que veja em mim a mãe que tanto prezo, que pensei que ninguém mais visse. Por fim, que entenda que preciso descansar minha cabeça em um peito assim... como um barco moreno perdido no oceano azul.
Cristina Faraon

Bem, já disse que adoro Os Simpsons. Por quê raios adoro os Simpsons?
Agora já acostumei mas eles são feios, muito feios. Considerei (da primeira vez que vi) horrívelmente desagradável a voz da Margie e desnecessariamente feio o seu cabelo. E etc, etc. Depois fui deixando-me cativar pela crítica ferina que costumam fazer a respeito do modo de vida ocidental. Os diálogos são impregnados de malícia e fel. Mas isso ainda não é motivo suficiente para gostar tanto deles.
Homer por exemplo é o cara mais execrável do mundo!
Talvez agora surja uma interessante discução a respeito da força que a familia empresta ao ser humano; uma espécie de "moldura de dignidade" que o circunda (posso dizer assim?) sem a qual ele não seria nada. Admitamos: o Holmer seria insuportável sem a família dele. Nâo teria a menor graça. Será que foi essa a "mensagem subliminar" que seus idealizadores quiseram passar? Talvez não porque poderia ser considerado piegas demais.
Mas peraí! Qual o problema em ser piegas? Se a onda sempre foi contrariar regras estabelecidas então eles acertaram em cheio no calo dos moderninhos-abaixo-a-família. Aliás estes espécimens ainda existem? Deixa pra lá, continuemos:
Uma família legal... com um pai abaixo da crítica mas pai ainda assim, cercado de gente que está com ele de um jeito ou de outro. Estão juntos e formam alguma coisa talvez não muito exemplar mas que vale a pena ser preservada. Alguma coisa bonita que a gente nem sabe explicar bem o por quê de ser bonita.
Por que gostamos tanto dos Simpsons? Bart e Homer são incorretíssimos e mostram pra todo mundo sem o menor pudor TODAS as nossas vergonhas (aqueles defeitos e pensamentos horríveis que passamos a vida toda tentando enfiar debaixo do tapete). Como podem se sentir tão a vontade dizendo o que dizem? Como um pai aperta o pescoço do filho daquele jeito e a gente ainda ri? E o filho supera tudo! Seria essa a grande resposta? Seria isso o que eles tem de mais atraente?
Provavelmente sim.
Eles podem morrer de inveja, de despeito e desrespeito, pagar o bem com o mal, ser gananciosos, odiosos, vis, vingativos, preguiçosos e tudo o mais e ainda assim continuam tendo uma família, são amados e até têm vizinhos bons. O mundo deles jamais desmorona.
Os Flanders (uns chatos, "certinhos" demais para os padrões Simpsons) são cristãos verdadeiros e os aceitam como são; estão sempre dispostos a ajudá-los e perdoá-los. Você não gostaria que isso existisse?
Eles não são tudo o que gostaríamos de ser mas têm tudo o que gostaríamos de ter, essa é que é a verdade. Não vivem aflitos tentando "conservar o amor incondicional" dos outros; eles simplesmente o têm. E abusam, claro.
Os Simpsons representam a liberdade de exercermos nossa humanidade sem grandes efeitos colaterais. No final sempre dá tudo certo e eles ainda têm milhões de fãs.
Cristina Faraon
a felicidade está em aproveitar as coisas simples da vida?" Pois não é que é verdade?