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30 de out. de 2013

Caminhando em círculos


Cada qual escolhe o seu caminho. Tranquilo. A dificuldade surge quando a coisa acontece em massa.

Posso derrubar uma árvore. O mundo não vai se acabar. Posso abrir mão da eletricidade e passar a queimar umas toras sem problema. Acontece que se todos fizerem o mesmo teremos o caos.  Precisamente aí reside a minha queixa:  "os outros" limitam muito a minha liberdade.

Posso fazer qualquer coisa por pior que seja e a repercussão será mínima ou nula. Quanto mais insignificante eu for, maior será minha área livre de ação.  Minha liberdade é inversamente proporcional à minha relevância como personagem social. Quanto mais invisível, mais livre.  Maravilha!  O problema é quando aparece um monte de macacos de imitação querendo fazer o mesmo que eu faço.

O mundo é cheio de macacos.

É impressionante o leque de possibilidades que o "Só Eu" nos proporciona! O "Só Eu" é quase um deus!  Enquanto for "Só Eu", tá limpo.

Claro que também existe outro personagem muito simpático: o "Nada a Ver". "Nada a Ver" é aquilo que era proibido até um dia desses mas agora liberou pra "Todo Mundo". Ninguém precisa se preocupar com o "Nada a Ver",  mas o "Só Eu" precisa ficar sob severa vigilância.

O  "Nada a Ver" beneficia a todos, mas o "Só Eu"  é para uma galerinha bem reduzida. Trata-se daquilo que é vedado ao povão mas a gente pode fazer  discretamente porque, afinal, somos especiais e temos muita consciência das coisas. "Todo Mundo" não pode mas se for "Só Eu" não tem problema.

"Todo Mundo" é um ajuntamento de manés, tolos, pessoas sem consciência que sempre extrapolam e não sabem o que fazem. "Só Eu" não! O "Só Eu" é chique e informado, prevenido e consciente.

É aí que nos lascamos. Todo mundo quer ser VIP.  Todo mundo quer ser "Só Eu" mas ninguém quer ser "Todo Mundo".

Acho que as regras sociais mais modernas estão totalmente voltadas para estender a área de ação do "Só Eu".  Todos estão ansiosos e tendentes a esquecer o resultado de se generalizar condutas que não eram liberadas antigamente. Uma coisa puxa outra SEMPRE.

Um exemplo: "Só Eu" posso desrespeitar as autoridades. Isso é facilmente solucionado. Só que estamos caminhando para o "Todo Mundo" - e o Brasil está se tornando um lugar cada dia mais assustador para se viver.

Outro exemplo: a nossa tão cara liberdade sexual, estendida para pessoas dependentes, imaturas e frequentemente irresponsáveis - os adolescentes - tem gerado frutos muito amargos. Não adianta inventar pílula nem camisinha porque nada disso neutraliza um impulso tão primitivo como o sexo casual. E nada disso neutraliza a irresponsabilidade. Só existe um remédio para irresponsabilidade: rédea curta. Mas ninguém gosta dele - nem eu!

A verdade é que todos achamos que podemos fazer o que quisermos porque sabemos o que estamos fazendo. "Eu sei gerenciar isso!"  "Todo Mundo" diz o mesmo e todos sabemos que não é verdade.

Você passa a juventude fazendo planejamento familiar e idealizando a aposentadoria e uma velhice legal - para mais tarde se deparar com uma filha grávida que vai lhe impor algo que você não escolheu, não se preparou, não quis. Vai lhe impor um tipo de vida que você já cumpriu, já venceu, não quer mais. Então a momentânea liberdade dela encolheu a sua liberdade para sempre. Acho que não foi uma troca justa. Eu preferia aquele tempo em que a momentânea limitação dela assegurava a liberdade tanto da mãe quanto da filha.

Semáforos e esquinas estão repletos de crianças não planejadas, geradas por pessoas "livres que sabiam muito bem o que estavam fazendo".   Caímos no conto. Posso estar enganada, mas parece-me que na época em que os pais vigiavam os filhos e os controlavam não havia tanta criança abandonada.  A regra não era nada agradável no varejo mas era excelente no atacado.

Não existem leis para o "Só Eu". O que sempre existiu foram regras pra "Todo Mundo" mas que o "Só Eu" desrespeitava sem grandes alardes, por debaixo dos panos e a repercussão era pequena em termos sociais. Tais regras nunca foram 100% respeitadas mas enquanto ainda havia algum controle o mundo era melhor.  No tempo em que o adolescente só saída de casa com autorização, tinham hora pra chegar e precisavam dar satisfação de tudo, havia menos assaltantes, menos viciados, menos gente estuprada, menos gestações involuntárias, menos gangs.

Tenho pensado muito nas regras "idiotas e repressivas" que vieram de um passado longínquo e misterioso. Será que elas surgiram do nada, sem uma motivação explicável? Ou foram criadas em resposta a algum problema social muito real, complicado e grave, que tirou o sono dos nossos antepassados?  O que levou aquelas sociedades "antigas, rudes e repressivas" a abrirem mão de tantas liberdades?  Será que foram forçadas a tomar o remédio amargo para reverter um mal maior?

É muita pretensão da nossa parte achar que sabemos como era o mundo a sete mil anos atrás - por exemplo. Por mais que vejamos documentários, tudo não passa de especulações.  Há muito, muito tempo atrás, provavelmente o mundo era um ambiente estranho, irreconhecível.


Talvez a herança que as civilizações antigas deixaram para nós tenham sido essas "regras idiotas e incompreensíveis", que nada mais são do que a reverberação de broncas monumentais que explodiram naquela época remota. Aí as sociedades aceitaram as limitações, as regras, as proibições... e depois de muito tempo os problemas foram sendo sanados. Ufa!

Contornaram a coisa... mas as regras permaneceram, até por força do hábito. E viraram tabu. Como o problema não existia mais, as gerações posteriores começaram a achar que aquelas regras eram gratuitas, não tinham sentido algum pois pareciam não ter qualquer relação com a vida real.

Talvez  as categorias de pessoas que recentemente se sentiram prejudicadas por tabus repressivos tenham trazido tanto, mas tanto problema no passado, que os antigos aceitaram fechar um acordo que limitaria a liberdade, mas pelo menos salvaria a sociedade. Os tabus podem ter sido a salvação da lavoura em tempos idos. Chato pensar isso, mas é uma possibilidade.

Mas aí "Todo Mundo" ficou com inveja do "Só Eu". Claro. Então brotaram do chão teóricos de toda espécie para provar por A+B que aquelas regras eram esdrúxulas. E o povo acreditou, claro, porque a gente acredita sempre no que nos convém.  Que não quer ser "Só Eu"?

Deu no que deu. Acho que estamos criando um mundo propício ao ressurgimento de todas as ervas daninhas do passado. É algo parecido com o mosquito da dengue: todos pensavam que tinha sido erradicado mas agora as condições se tornaram totalmente favoráveis ao seu ressurgimento.

Nossa sociedade está se deteriorando de tal forma que finalmente vamos entender o motivo daquelas regras limitantes do passado.   Vamos ter o "privilégio" de ressuscitar diversos fantasmas que terão grande prazer em nos explicar o motivo de tudo aquilo.  Muitas gerações se passarão até que alguém tenha coragem de admitir a mancada e colocar limite na permissividade ensandecida de hoje.

Não estou advogando nada. Apenas gosto de fazer uso da minha imaginação.

Por mais que minha hipotética teoria se provasse verdadeira, ainda assim nossas ânsias animais nos impediriam de lhe dar ouvidos. Sei que assim é porque assim sempre foi.

Mas vamos que vamos. Nosso destino é mesmo andar em círculos.


14 de out. de 2013

Bola de cristal

Atualmente muita gente já perdeu o direito de dizer desaforadamente "eu não tenho bola de cristal!"  Temos bola de cristal sim.  Não exatamente redonda.

Nosso querido tablet!  Elegante, precioso, fininho e de superfície tão lisa quanto a da bola.

O que uma bola de cristal faz que meu tablet não faz melhor? Só para começar: nunca vi bola de cristal mandar  documento para impressão. Nem arquivar nada.

Você deve lembrar de como era falho o software das bolas de cristal: as coisas apareciam enigmaticamente na "tela" de forma meio turva, estranha, depois de muita invocação. E o enigma ainda tinha que ser interpretado. De "revelação" pra "dica falsa" era um pulo.

As bolas travavam mais que Windows Explorer e não havia a colher de chá das janelas. As bruxas - ou ciganas, dependendo da idade - ficavam de plantão esperando alguma coisa mais esclarecedora aparecer. Claro que se você quiser pegar uma promoção da TAM vai passar por coisa parecida, mas o tablet nos possibilita acessar uma pesquisa enquanto bisbilhotamos outra coisa em outra aba. As bolas de cristal não tinham abas.

Em sua telinha iluminada podemos observar o mundo em tempo real. Não é mágico?  Podemos ver e nos deixar ver.

Mas há um item para o qual o tablet perde pontos para a bola de cristal:  no quesito "místério". (Ou não. A sua vó talvez lidasse melhor com a bola...)   De qualquer modo é verdade que havia todo um clima nebuloso ao redor da bola. No tablet é tudo muito curto e grosso. Até guris suados com média 4 no colégio dão conta do recado.

Seguindo um pouco mais com o raciocínio: vocês já viram como é incrível a quantidade de magias que viraram tecnologia? A quantidade de feitiço que virou ciência é assustadora.  Ou somos gênios ou merecemos, todos, a fogueira.

Estamos vivendo em uma época de grandes revelações. Nossos antepassados nos considerariam serem misteriosos. Lamento demais não ter a chance de me exibir para eles.  A tecnologia é algo tão empolgante que não deixa de ser uma afronta ainda termos que nos deparar com problemas como coleta de lixo e cocô de cachorro. Estamos na era das luzes, do poder da comunicação irrestrita! Posso ouvir vozes, ver sem estar lá, comunicar-me com alguem do outro lado do planeta, sondar. Hoje é possível entender que todo o mistério em torno de Joanna D'Arc tinha um nome: bluetooth.  Pobre Joanna D'Arc...  A velharada da época não entendeu o lance. Ela, por sua vez, não soube explicar. Deu no que deu: tostaram a menina.  Hoje ela posaria patricinha high tech, garota antenada e tal.  Aprenda de uma vez por todas: é muito mais seguro dizer que está recebendo mensagens por bluetooth do que atacar de "estou ouvindo vozes." Faltou malícia à garota.

...  Isso me leva a pensar que qualquer apresentador de telejornal mereceria a fogueira também, se fosse para sermos justos.

Outra conclusão: ateus, os profetas não eram malucos! apenas estavam de posse de uma tecnologia avançada demais para a época. Eles só tentaram explicar a experiência de uma maneira mais simples. aí vem vocês, desinformados, querem fazer com o nome deles, figuradamente, o mesmo que os religiosos fizeram com Joanna D'Arc - ao pé da letra.

Qual a diferença entre um tablete e uma bola de cristal?  A principal é que o tablet foi liberado pela igreja e pelos ateus. Depois de longas reuniões decidiram que não era questão de fé, então passa.

Estou até pensando em sugerir a criação de um tablet em forma de globo, só para provocar as mentes empedernidas. A dificuldade seria conciliar a ideia de "tablete" com a de bola. Mas confio na capacidade dos nossos cientistas. Se tiverem algum problema com coerência ou "idéias conflitantes" basta chamar algum político para contribuir com o projeto.


E por falar nisso...  Estou começando a achar muito suspeita aquela história de Moisés descendo do Monte Sinai com  duas "tábuas" contendo os mandamentos. Para ser uma aparição tão impressionante a ponto de passar para a história, com certeza não se tratava de Moisés descendo do monte com dois pedaços de pedra. Eram tablets sim! Outro indício: quando Moisés se aborreceu, jogou as "tábuas" no chão e elas não prestaram mais pra nada. Se fossem mesmo de pedra ainda dava para consertar.

Vai ver que o túnel do tempo sempre existiu. Adoro acreditar nisso!

Como podem notar, hoje tirei o dia para desvendar mistérios.



2 de out. de 2013

Não é o que dizem por aí, mas...

Estou cada vez mais convencida de que amor não tem nada a ver com sexo. Sério.

 Quanto mais eu penso sobre isso mais convicta me torno: o amor é espiritual, imaterial, é do outro mundo, de outro nível. Amar é ter a compreensão subterrânea do que jamais entenderemos.

O fato é que ninguém, quando ama, ama o corpo. A gente ama uma coisa que está lá dentro do corpo, escondida. Por isso queremos ficar sempre juntos e acabamos nos comportando como se quiséssemos entrar no outro. É que instintivamente temos a esperança de achar o lugar secreto onde aquilo que amamos está escondido.

É um fogo chamando outro fogo; são duas energias se puxando. O amor ama o amor.

O sexo é o equívoco disso tudo. O sexo só acontece porque o corpo vai junto, de carona, nessa viagem. Acontece quando as almas amantes, ansiando por estarem unidas, se aproximam. Aí os corpos, mesmo não entendendo nada, se inflamam e roubam a cena por alguns minutos.

O sexo vem sem querer. As ânsias do amor são diferentes mas como quer proximidade acaba atiçando o corpo.  Então, claro, os dois corpos se aproximam, porque, mal ou bem, é no corpo que a alma está presa. A alma não tem como não levar o corpo junto. Ele vai, sem entender nada. Aí as pessoas se abraçam ...e os corpos se acordam. Os corpos  não conseguem se comportar de outra forma quando são estimulados.


O amor sobrevive ao sexo. Quando dois velhos se abraçam, o desejo da alma deles é o mesmíssimo da juventude. A alma não fica velha nunca.. Então eles novamente se abraçam, na mesma sede e ânsia, só que agora os corpos não interferem mais nem tentam roubar a cena.

O corpo se gasta e acaba, mas a chama continua intacta Quando o corpo murcha, fica mais evidente ainda que sexo era uma concessão, uma distração, mas não tinha nada a ver com a história.

28 de set. de 2013

A gente aprende... *

Com o tempo a mulher aprende umas coisinhas básicas:

É bobagem essa fissura por "mudar o visual". Depois de uma certa idade uma mulher inteligente e antenada já chegou à sua melhor versão. Subverter os padrões a essas alturas do campeonato pode resultar em mico. Quando insistimos nisso, geralmente só o que conseguimos é ficar meio esquisitas. Aí com uns dias os amigos se resignam e deixam de franzir a testa.

É bobagem ter cinquenta batons se só gostamos de uns cinco e só ficamos bem com uns três. é chato dizer, mas a mesma regra vale para os amigos.

Acho que somos todos muito bonitos, só que os deuses tem inveja. Como não podem nos roubar a beleza, eles  se vingam fazendo a gente se dar conta dela sempre com dez anos de atraso - pelo menos.

Outra coisa que a gente aprende: comentarem a sua vida é muito diferente de "se importarem" com a sua vida. Não confunda nem se iluda. O suposto interesse dos outros pelas suas atividades pode estar no nível do entretenimento, coisa para se falar quando não há assunto. É, talvez você seja menos interessante do que supõe. As pessoas falam, falam, seguem seus caminhos e esquecem tudo.

E os elogios? Não significam NADA. Saiba: há pessoas que elogiam para promoverem a si mesmas à imagem de pessoa gentil. Marketing pessoal. Às vezes é falta de assunto ou sentimento de dever, em reuniões sociais. Uma mulher, por mais feia que seja, se gastou muito tempo e dinheiro na produção, merece algum enaltecimento. Há um certo consenso nisso - aponta estudo.

Por outro lado, a falta de elogio também não significa nada. Esse é o lado bom da notícia. Porque há os que se calam por inveja, por despeito. Há os que olham para você e deduzem que não se juntarão à multidão que lhe enche a bola. Nesse caso o silêncio é o elogio mais sincero que você poderia ter.

Outra coisa: pessoas que, por falta de espelho ou por saúde emocional, se comportam como se fossem bonitas, vão "embonitando" com o tempo. Sério: funciona.  Beleza tem muito a ver com hipnotizar os outros, não é uma coisa real.

Detalhe: o contrário também acontece: adotar "atitudes de feio" acaba com o visual de qualquer um.

Amenidades úteis.

24 de set. de 2013

Cenas de Metrô

(Texto de Márcia Gabrielle Dantas, jornalista)

Meia noite. Último metrô. Ela está concentrada em si mesma. Headphone, música alta, lê um jornal qualquer. Ela é mais uma de tantas mulheres com traços fortes, cabelo escuro, árabe talvez? Não dá para saber. 

Tantas misturas.

Todos do vagão estão voltados para si. Todos evitam trocar olhares. Todos apenas observam sentido da linha cinza gravado na parede acima da porta. 

Todos parecem cansados...todos, mas calma.... Menos um! Um homem alto, branco, de nariz afilado. Ele está diferente dos demais. Ele olha só para a moça mais bonita do vagão, aquela de traços fortes. Olha com um sorriso no canto da boca. Resolve sentar-se ao lado. Ela finge que não percebe. Ele vai além: pergunta as horas. Ela responde sem titubear e continua a leitura. Tem um ar esnobe ao falar. Ele parece encantando, não desiste. Respira fundo e pergunta: "Whats your name?" Só aí então ela realmente volta os olhos para ele e responde..."No..." Depois fica em silêncio, três segundos que parecem uma eternidade.
"Meu deus, é você?" Ela abre um sorriso gigante junto com uma gargalhada e começa a pedir desculpas.
Ele sorri junto e parece mais relaxado. Eram amigos de infância!  Mas senti um clima de romance no ar...Quem sabem não foram namorados? Ela fica tão surpresa com o encontro que esquece de descer... Os dois se dão conta algumas estações depois. Ele se oferece para levá-la até o destino. Ela aceita. Então, os dois saem do vagão juntinhos, cheios de nostalgia.

Me perdoem os headphones, os jornais, tablets, smartphones e toda tecnologia do mundo... A vida é mais interresante se olharmos ao redor.


20 de set. de 2013

Romantismo


A mesma sociedade que metralha o romantismo entre casais, acaba engolindo outras formas igualmente furadas de romantismo. 

A ideia do "bom selvagem" é uma tremenda tolice, mas ainda continua viva e gerando filhotes.

Índio bonzinho? Onde?  Aí ensinam nossas crianças que os índios vivem no mundo de Avatar, que adoram as árvores e respeitam a natureza.  Ora faça-me o favor!  São exatamente como nós: as árvores só duram enquanto não precisarem ser trocadas por outras coisas prazerosas. Dependendo da situação, a primeira coisa que fazem é entrar em acordo com os madeireiros. Não estão nem aí.

Há também o romantismo direcionado ao reino animal.  É essa tinta dourada que lambrega as mentes atuais. O raciocínio é: o ser humano é mau, os irracionais são bons e só matam o que pretendem comer. Mentira.

Tive uma gatinha cujos olhos brilhavam de prazer quando conseguia despedaçar um passarinho ou calango. Nem vou descrever aqui as técnicas de tortura que ela usava contra os pobres calangos porque não quero agredir as mentes mais sensíveis. Detalhe: a Lucrécia (o nome da gata) jamais comeu um calango sequer ou um passarinho. Não os prendia e despedaçava por fome. Nem por medo.

E as cobras? Matam muito mais do que aguentam comer. Capturam animais e quando não aguentam comer tudo de uma vez, os guardados como numa espécie de poupança. Igual a nós.

 Não tenham dúvidas: se os irracionais precisassem de dinheiro para sobreviver você os veria adotar as mesmas safadezas dos humanos. Todos os dias ia ter elefante dando trambique, cachorro vendendo mercadoria vencida, cobra assaltando, pinguins vendendo drogas, borboleta se prostituindo. Por outro lado, se nós não precisássemos de dinheiro estaríamos hoje nos matando e despedaçando uns aos outros com a mesma crueldade sangrenta das onças, aranhas, tubarões e outros bichos.

Cachorro, quando se invoca, pode atacar seus próprios donos. Já soube de vários casos. Não foram maltratados ou provocados. "Tipo do nada".

Pare de chamar os bichinhos de santos e humanos de monstros. Só o que nos eleva é o amor. Tirou isso, o que sobra é SELVA!

13 de set. de 2013

Roupas no varal


Palmeiras espiando por detrás dos prédios. Luzinhas piscando "eu tô aqui!"  A torre do O Liberal toda azul, imponente e calma. As meias, shortes e blusinhas penduradas na sacada. Minhas plantinhas com os olhos fitos na minha direção. Claro que querem se comunicar. Querem saber  o que estou escrevendo, afinal de contas. 

Difícil acreditar que o inanimado  seja isso mesmo: sem vida. As coisas convivem, se expressam e relacionam. Não pode ser só impressão.

As roupas adoram quando são sacudidas pelo vento. Ela riem, festejam. É a grande travessura do dia, de brincar de ser pássaro. Elas riem e arregalam os olhos, são crianças felizes.  Da sala os móveis espiam pelos cantos dos olhos, cheios de admiração. Desejariam a mesma brincadeira ao mesmo tempo que a temem. Parece ser tão arriscado! Móveis não brincam nunca, não sabem o que é acenar para os vizinhos segurando o fio só pela pontinha. As cortinas acompanham timidamente, ensaiam o mesmo movimento mas não passam muito disso. Não ousam ser tão efusivas. 

Em todo canto há cor e vida. Parece que só consigo participar disso um pouquinho quando estou só, completamente só, com meus pensamentos e percepções.

Às vezes sou roupa no varal. Às vezes sou como os sofás. 


8 de set. de 2013

O homem de Todo Sentimento

"Meus olhos molhados
Insanos dezembros!
Mas quando eu me lembro
São anos dourados!"

Quem é o Chico Buarque?


É o homem bonito dos olhos verdes. Mas claro que não é só isso.

Há um certo mistério cercando o Chico. As canções mais profundas, ele escreveu ainda tão jovem! Seriam necessários muitos e muitos quilômetros de praia para enxergar e entender tão bem e tão sentidamente o que ele percebia. A partir de quando essa percepção quase telepática, do sentimento humano, passou a ser tão clara pra ele?

A poesia do Chico é indiscreta de tão exata. É denunciadora em sua capacidade de descobrir o que cobrimos. É então desconcertante, bocuda, tocante.  

Conta a lenda que todo gênio decepciona na intimidade. Geralmente - dizem - são chatos, distraídos, distantes. Até maus, às vezes. Não sei. Dizem que são capazes de friezas glaciais, indelicadezas espinhentas, inafetividades grotescas. Dizem que Einstein era um marido horrível, que Mozart era um irresponsável, que Guimarães Rosa era esquisito, inseguro e cruel com a mulher.

Quem é o Chico Buarque, nas entrelinhas? Talvez o homem de "Todo Sentimento" nunca tenha encontrado a paz do amor. Seria possível? Seria possível entender tão claramente as nuances do sentimento feminino sem se comover?  Talvez o que ele escreveu tenha sido direcionado mais pela sua intuição do que por sua sensibilidade. Talvez ele escrevesse apenas o que gostaria tanto de conseguir sentir.  

Não posso crer que ele seja apenas um mestre das palavras. Ninguém domina o verbo a esse ponto. As frases tem vida própria e são forjadas a partir de uma matéria prima muito especifica. Nenhum verso tem magica sem amparo na verdade. Pode ser a verdade nua e clara ou uma segunda verdade, virtual. Pode ter a ver com a uma certa verdade almejada. Verdade escondida, verdade intuída, verdade abafada. Mas tem que ser verdade.

O Chico ama? Amou? Do que escreveu, o que viveu? 

Saudade, desesperança, solidão, lembranças, sentimentos persistentes... Se ele sabe tudo que escreveu, se nada saiu por encomenda ou acidentalmente ... Então o homem de Todo Sentimento não cabe em si de tanta lindeza. E talvez sofra muito porque, sem a música, não tem onde reclinar a cabeça. Onde encontrar alguém que lhe faça par, que olhe no fundo dos seus olhos verdes e enxergue  o que ele realmente é?

"Pretendo descobrir
No ultimo momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolha todo sentimento"

31 de ago. de 2013

Ana Clara *

E hoje me vi, depois de semanas, com a Ana Clara. Ana Clara no colo, na água, na praia morna, debaixo da luz. Muita luz.

E hoje me vi com aquele nó na garganta porque ela quis sentar em meu colo e porque os cabelos da Ana Clara tem um cheiro, assim, impossível de descrever. Irreproduzível. Talvez azul. Os cabelos dela fizeram aliança com o vento e às vezes leva a nossa alma pra longe. Num instante vi minha vida como quem voa e olha pra baixo. E como quem anda e olha pra trás. E como quem, na floresta, divisa uma casinha com luz ao longe e não sabe se fica alegre ou fica com medo.

Fico triste e fico alegre pelo que perdi e pelo que tenho. O coração sobre e desce, fica instável como qualquer coisa que o vento sacuda. Como qualquer coisa frágil e deslumbrada, nervosa e indecisa, que não sabe mais o que faz de si mesma nem como aquietar o coração.

A pele dela é macia. Macia e morena e ela ri pra mim. Gosta de brincar na areia: faz um bolo, enfeita com gravetos e canta "parabéns pra você". E rebola enquanto canta - você precisa ver! Mas ela não sabe nada, nadinha -  mas é como se soubesse de tudo. É a fragilidade e a força, é pedra e bruma.

Só depois de um tempo é que vou pensar no passado e no futuro. Tudo porque o cheiro da Ana Clara me faz isso, me traz coisas.  Fico pequena e confusa e viro uma tela em branco onde começa a projeção de várias histórias, vários filmes, várias vidas.

Que longo caminho o meu!  Minhas vidas e personagens me caem no colo, tudo de uma vez. Preciso apreciá-los todos antes que se esvaiam.

Que longo caminho o meu!   Não sei se andamos cada um em sua própria estrada ou se a estrada é uma só para todos nós. Só sei que nos perdemos e nunca mais nos achamos e tudo muda e não sabemos mais quem somos. Penso nas pessoas que me deixaram pela estrada, nas solidões, na minha mãe que me teve na barriga, no colo, nos braços e nas tantas vezes que me beijou. Talvez se eu pensar bem, se pensar com força, concentrada mesmo... talvez consiga trazer de volta o cheiro do seu hálito quando sua boca chegava perto do meu nariz. Eu ouvia seu coração. Penso e penso e penso... que alguém, algum dia, também já cheirou meus cabelos e beijou meu rosto e marcou minha alma e fechou os olhos e se encheu de ternura. E penso que tudo acabou, meus pais morreram e não há possibilidade alguma de eu inspirar isso em mais ninguém.

Penso e penso ... que as melhores coisas da vida não se anunciam nem se despedem e só nos resta catar os restos, os rastros e guardar  os pequenos cacos em caixinhas.

Não sei mais separar felicidade e saudade daquela emoção simples da beleza . Essas coisas sempre me chegam misturadas, de forma que eu sofro e suspiro de amor e me sinto tão feliz ao mesmo tempo em que uma dor lá no fundo atravessa meu coração.

É confuso pegar a Ana Clara no colo e perceber a alminha dela. É como uma música linda, mas muito fina e afiada, me atravessando. Dói um pouco.

... e o vento bate e seus cachinhos fazem cócegas em meu rosto. Silêncio.

Do que vale a vida sem as aflições da felicidade extrema e sem o sofrimento das lembranças que são o nosso próprio fundamento? Não sei mais nada. Meu mundo é indefinível. Mas ainda existe a pele lisa da Ana Clara, o  seu peso gentil,  o sonzinho dos seus pés na lajota, a risada que te joga flores na cara. Ainda há cabelos harmonizados com o vento; cabelos que me contam histórias sentidas.

25 de ago. de 2013

Eles ou eu?



A gente vê tanta miséria que acaba cansando de pensar nela. Ou se acostuma a pensar que é um fato da vida e ponto final. O detalhe é que ao vivo é diferente.

Na televisão toda verdade fica com cara de filme. O mundo da fantasia entorpece a gente.  Para defender a saúde mental temos um dispositivo interno que arquiva as informações horrorosas na mesma prateleira dos filmes. Acho que funciona. Mas tudo cai por terra quando damos de encontro com a realidade.

Hoje a noite vi uma cena comum. Para mim, que vivo em uma bolha-classe-média não é comum. É uma coisa do outro mundo - mesmo!  Quando fui pegar meu carro para voltar para casa vi umas pessoas no meio de um monte de lixo catando algo para comer. Eles reviravam o lixo como se fossem cães! Uma coisa degradante. Me senti desconcertada com aquilo porque elas não tinham pêlos nem garras nem patas. Eram iguais a mim! Tudo fedia. Como não tinham nojo?

Quanto tempo levamos para perder o nojo das coisas? 

Na televisão não choca mas ao vivo e à cores é um soco no estômago. Dói o coração, alma e consciência.  

Como será que aquelas pessoas se sentem? Ou será que não se sentem?  Só sei que elas não perderam tempo me olhando. Eu estava pertinho mas minha presença era insignificante. Não chamei a mínima atenção. Não despertei o menor interesse. Para eles o lixo tinha mais a oferecer do que eu. Havia mais esperança no lixo do que na minha pessoa. 

Deve haver alguma coisa de muito errado comigo para um montão de lixo  parecer mais promissor do que eu.

E o que estou fazendo aqui? Escrever pode ajuda-los? Claro que não.

Seres humanos como eu, catando lixo como cães... E o que fiz por eles? Resposta: não fiz nada. Na verdade temi que me assaltassem ou agredissem. Sabe-se lá o que passa na cabeça daquelas pessoas estranhas!

Tendo em vista tudo o que foi dito, quem se desumanizou dentro desse contexto: eles ou eu?

21 de ago. de 2013

Complicou

A gente muda. Sempre achei que isso acontecesse quando fossemos carregados pela maré incontestável da verdade. Mas não é bem assim que acontece.

Tenho uma certa melancolia quanto a isso. Antes eu pensava que mudávamos porque a vida ia simplificando, simplificando, a gente passava a sacar as coisas... então a névoa sumia. Tudo ia se descortinando - pensava eu. Mas não são os fatos que nos transformam: somos vencidos pela falta deles. Quando a gente descobre que nada descobriu, mudamos.

Durante a caminhada a coisa vai ficando tão intrincada, mas tão intrincada que somos forçados a abrir mão das nossas certezas. Mas isso muito a contra-gosto. Cada caminho que escolhemos jamais é reto, jamais nos deixa descansar. Pouco depois de uma escolha somos confrontados com outra e mais outra. Uma bifurcação nos leva a nova bifurcação que por sua vez se desdobra em várias outras.  O resultado é que vamos perdendo aos poucos aquela certeza inicial quanto às nossas opções. É fácil sabermos a melhor opção entre duas, mas não entre três mil.

Sei que estou sendo enigmática. Entenda como preferir.

Só sei de uma coisa: a vida não vem se explicar para nós em respeito aos nossos cabelos brancos. Um dia temos que admitir o quanto fomos simplórios no passado. Depois  da décima vez que adotamos um caminho seguro que depois se complica, mudamos. Amaciamos as certezas e somos forçados a admitir que talvez um caminho aparentemente suspeito pode até ser o acertado; e que o obvio às vezes é uma tremenda cilada. Começamos a achar que, quem sabe, as aparências enganem e que podemos ter sido muito tolos no passado. Talvez não sejamos tão sensatos, tão racionais. Talvez não tenhamos capacidade para guiar ninguém. Baixamos nossas bandeiras, amenizamos o grito de guerra, olhamos o antigo inimigo com outros olhos. Talvez a vida se transforme em um imenso e instigante "talvez"; um "talvez" que vale a pena, afinal de contas!

Tudo isso é só pra dizer que a gente muda, mas não porque quis. Muda porque a vida nos põe em xeque-mate. Por conseguinte jamais meus ouvidos estiveram tão atentos a todos os sons ao meu redor. E nunca estive tão sinceramente interessada no que VOCÊ pensa.

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