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19 de dez. de 2025

Quando ouço a Janis Joplin

Não espero escrever um bom texto com esse tema. Só quero explicar (pra quem?) ou melhor:  tentar entender o que eu sinto quando ouço a Janis Joplin

É muito estranho. Ela cantava com a alma e de um jeito tão intenso que me afeta de uma maneira incômoda, desconfortável. 

Embora eu a considere   genial, o que sinto não é bom. É como se eu entrasse em um túnel escuro de inquietação e tristeza. Como se fosse puxada para um lugar e um tempo esquecido, nebuloso, fatal, para o qual eu não devesse retornar. 

É muito incômoda essa identificação com ela. Dói. Fico mal.   É uma identificação tão forte que me angustia. 

De repente é como se eu sentisse tudo o que ela sentia. Isso não faz nenhum sentido.  Há uma energia naquelas músicas que em mim funcionam como veneno. É como se eu a conhecesse, como se estivesse dentro dela ou fôssemos a mesma pessoa só que em uma realidade alternativa.  Como se, pelo tempo que a música dura, eu voltasse ao passado e sentisse tudo de novo, vivesse tudo de novo.  Sinto uma  agitação, uma espécie de "sede de estrada", uma necessidade esquisita de ir embora. 

Não estou infeliz. Não quero ir embora. Gosto da minha vida. Está tudo bem comigo. Não tenho depressão nem vícios. Adoro minha família. Que raio é isso então?! 

Só me vem essa maluquice quando a ouço cantando.   Aí tudo "volta". Como assim? Tudo o quê?   Tudo volta de onde? 

É como se eu tivesse sido arrancada daquela vida. Meu Deus, eu sinto "tudo de novo" sem nunca ter sido.   Então me vem uma... uma espécie de saudade não sei do quê exatamente. Uma "saudade" e uma dor,  um nó na garganta, uma coisa intensa e difícil de explicar. Uma melancolia profunda. Olho para as pessoas ao redor, minha família,  e é como se eles não me conhecessem de fato.  

Isso suga toda a minha alegria e me traz de volta um passado que não quero lembrar de jeito nenhum, que escondo de mim mesma. Só que nada disso existe! É só fantasia por causa das músicas!   

Como se eu guardasse um antigo vestido em um baú muito venho. Esse baú está lá em cima, no sótão, totalmente esquecido. Eu sempre prometo a mim mesma que nunca mais vou abrir o baú, só que esqueço. Então quando não tenho o que fazer retorno ao sótão e distraidamente abro o baú novamente e tudo retorna.  O cheiro do vestido, o botão frouxo, a barra suja de lama, as botinas. Onde estão?   

Em algum momento fui tirada daquilo tudo.  Minha vida hoje é uma realidade alternativa. Solaris... (você viu o filme?). Fui tirada como quem é salva de alguma coisa ruim. Só que minha alma não acostumou, não encaixou totalmente. De vez em quando "dá bug". Meu temperamento e todas as minhas inclinações ficaram lá. Eu só tenho paz quando esqueço. 

Por que sinto essa flechada,  essa dor no coração, essa melancolia tão pesada quando ouço Janis Joplin? O que tenho a ver com ela? Nada!  Por que isso me afeta tanto? Porque ela me faz sentir como se eu tivesse sido separada de alguém que nem sei quem é?  Não conheço o rosto, não tenho registros. Nada. Mas há uma falta dolorosa.   É como uma foto de onde você recortou uma pessoa. Fica só o espaço vazio, o contorno de alguém que você não consegue lembrar quem é. 

O que houve? Houve alguma coisa? O que eu tenho a ver com a Janis Joplin?

Evito ouvi-la. Evito vê-la. Não quero lembrar do que não existe. Sou tendente a fantasias. Sempre fui.  Não quero levar a sério uma realidade virtual que não faz sentido nenhum.   Não quero me sentir como se eu fosse uma cópia de mim mesma. Uma cópia com outras roupas, outro jeito no cabelo, uma cópia mais comportada e sem asas. 

Alguém escreveu um livro. Anos depois resolveu escrever outra história com a mesma personagem. Outra época, outras roupas, outro final. Dessa vez um final mais aceitável. Mas os leitores não gostaram muito. A personagem perdeu sua força, perdeu sua essência. Ela mesma não se reconhece e as vezes sente como se estivesse fingindo ser o que não é.  Não deveriam reaproveitar personagens.  A verdade dela está na primeira edição. Nessa segunda o autor a salva mas...  

Tudo fica bem. Ela só não pode ouvir Janis Joplin.


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"A Direita é frouxa"

Tenho ouvido muito isso nos últimos dias. Acusações. A vítima é culpada. Quem está com uma arma apontada para a cabeça é covarde.   

Seguindo esse raciocínio poderíamos dizer que todos os judeus que foram para as câmaras de gás eram frouxos. Se todos se unissem ao mesmo tempo poderiam  esquartejar os guardas nazistas e fugir dali. O pessoal que estava nos guetos também: bastaria que se revoltassem.  Bastaria que se negassem a entrar nos trens.  Se não fossem frouxos poderiam derrubar Hitler fazendo protestos pacíficos nas ruas. 

Que raciocínio, meu Deus!

Se somos frouxos então temos que admitir que tudo que a esquerda fez até hoje era o certo.   Teremos que admitir humildemente que eles estão corretos quando dizem que nossos padrões morais são elitistas e burros. Tantos são burros que nós estamos aprisionados justamente por causa desses padrões morais que professamos cegamente e que agora nos imobilizam.  Então vamos dar o braço a torcer e passar a acreditar que os fins justificam os meios e que infringir a lei é um ato de coragem, louvável ousadia. É só mais uma ferramenta necessária para alcançarmos os nossos "elevadíssimos objetivos"  (dar poder infinito aos líderes e continuar comendo barro em nome da igualdade).

Ao admitirmos que somos frouxos devemos repensar tudo o que professamos.  Precisamos entender que isso equivale a apostatar de tudo o que defendemos até então.  Até então acreditamos em conceitos de moralidade e justiça, coisas que, segundo os "corajosos  de plantão",  não passam de historinha para boi dormir. (Ouvi coisas desse tipo na faculdade).

Todos os foras da lei são muito corajosos.  Eles andam armados mesmo e estão cagando  para a regrinha de porte de arma que o governo exige de otários  como nós.  Usaram drogas na cara das autoridades até forçar essas mesmas autoridades a fazerem ativismo judicial e liberarem o uso, ao arrepio da lei.   É, é preciso ter coragem.  Admito. Uma coragem usada para o mal ainda assim é coragem. 

Estamos afundando porque não queremos roubar , não queremos depredar a residência dos desafetos, não queremos colecionar dossiês, não queremos nos arriscar,  não queremos sequestrar , não queremos difamar,  não queremos apoio do narcotráfico,  não queremos comprar consciências,  não queremos obter armas no mercado negro, não queremos ameaçar autoridades, não queremos fazer guerrilha urbana, não queremos torturar e matar dissidentes e acreditamos cegamente que obedecer às leis é a coisa certa a fazer.   Todos os esquerdistas fazem isso?  NÃO! Mas fazem vista grossa, defendem e votam em quem fez um monte dessas coisas no passado e ainda faz algumas delas no presente.  Pra mim dá no mesmo. 

Todo conservador é santo? Não. Nenhuma regra no mundo se aplica a todas  as pessoa. Mas não preciso ficar explicando isso. Você entendeu do que estou falando.

A direita é frouxa e covarde porque na sua maioria é formada por pessoas que vieram de famílias estruturadas e que tiveram pais que lhes passaram valores - valores esses que estão nos atrapalhando agora.   Os filhos de chocadeira são muito mais livres para abraçar a moral que lhes convém.  Por isso lutam contra a família tradicional e contra a religião.  

Se somos frouxos então eles sempre estiveram certos e nós sempre estivemos errados.

Já fizemos tudo que cidadãos honestos podem fazer.  Só nos falta apelar para a violência.  Se fôssemos "corajosos" faríamos o que a esquerda fez no passado: entre outras coisas eles sequestraram um embaixador norte-americano para troca-lo por um militante  que estava preso.  Quando nos chamam de frouxos será que estão insinuando que é isso que deveríamos fazer?  

Agimos diferente deles por quê? Porque temos caráter ou porque somos frouxos?  Está na hora de sermos sinceros conosco mesmos. Em quê você acredita?

 Repito: já usamos de todos os meios legais nessa luta.  Todas as ferramentas que a lei nos permite foram e estão sendo usadas.  O resultado é ZERO.  Só nos restam dois caminhos a escolher:

1) Aceitar os fatos e entregar nossa vida a Deus porque é ele quem estabelece reis e derruba reis, é ele que endurece o coração de faraó mas é também quem amolece o coração de Ciro.  

2) Vamos provar para o mundo o quanto somos valentes, que frouxo é a vovozinha!  Vamos barbarizar ,  meter os pés pelas mãos,  dar murro em ponta de faca e entrar para a história -  talvez como Tiradentes: enforcado e esquartejado rsrs

Como já dizia a minha avó "o cemitério e os presídios estão cheios de  gente valente."

Vou escolher ser frouxa e covarde segundo o critério desse sistema podre e quero que meus filhos e netos sejam frouxos também .  Porque  "valentia" é uma coisa muito linda quando são os filhos dos outros que estão na linha de fogo.

 A esquerda é "corajosa"? OK, é mesmo.  Parabéns para eles. Palmas! Será que conseguem ser felizes com esse  troféu dado pelo diabo?



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