Não espero escrever um bom texto com esse tema. Só quero explicar (pra quem?) ou melhor: tentar entender o que eu sinto quando ouço a Janis Joplin.
É muito estranho. Ela cantava com a alma e de um jeito tão intenso que me afeta de uma maneira incômoda, desconfortável.
Embora eu a considere genial, o que sinto não é bom. É como se eu entrasse em um túnel escuro de inquietação e tristeza. Como se fosse puxada para um lugar e um tempo esquecido, nebuloso, fatal, para o qual eu não devesse retornar.
É muito incômoda essa identificação com ela. Dói. Fico mal. É uma identificação tão forte que me angustia.
De repente é como se eu sentisse tudo o que ela sentia. Isso não faz nenhum sentido. Há uma energia naquelas músicas que em mim funcionam como veneno. É como se eu a conhecesse, como se estivesse dentro dela ou fôssemos a mesma pessoa só que em uma realidade alternativa. Como se, pelo tempo que a música dura, eu voltasse ao passado e sentisse tudo de novo, vivesse tudo de novo. Sinto uma agitação, uma espécie de "sede de estrada", uma necessidade esquisita de ir embora.
Não estou infeliz. Não quero ir embora. Gosto da minha vida. Está tudo bem comigo. Não tenho depressão nem vícios. Adoro minha família. Que raio é isso então?!
Só me vem essa maluquice quando a ouço cantando. Aí tudo "volta". Como assim? Tudo o quê? Tudo volta de onde?
É como se eu tivesse sido arrancada daquela vida. Meu Deus, eu sinto "tudo de novo" sem nunca ter sido. Então me vem uma... uma espécie de saudade não sei do quê exatamente. Uma "saudade" e uma dor, um nó na garganta, uma coisa intensa e difícil de explicar. Uma melancolia profunda. Olho para as pessoas ao redor, minha família, e é como se eles não me conhecessem de fato.
Isso suga toda a minha alegria e me traz de volta um passado que não quero lembrar de jeito nenhum, que escondo de mim mesma. Só que nada disso existe! É só fantasia por causa das músicas!
Como se eu guardasse um antigo vestido em um baú muito venho. Esse baú está lá em cima, no sótão, totalmente esquecido. Eu sempre prometo a mim mesma que nunca mais vou abrir o baú, só que esqueço. Então quando não tenho o que fazer retorno ao sótão e distraidamente abro o baú novamente e tudo retorna. O cheiro do vestido, o botão frouxo, a barra suja de lama, as botinas. Onde estão?
Em algum momento fui tirada daquilo tudo. Minha vida hoje é uma realidade alternativa. Solaris... (você viu o filme?). Fui tirada como quem é salva de alguma coisa ruim. Só que minha alma não acostumou, não encaixou totalmente. De vez em quando "dá bug". Meu temperamento e todas as minhas inclinações ficaram lá. Eu só tenho paz quando esqueço.
Por que sinto essa flechada, essa dor no coração, essa melancolia tão pesada quando ouço Janis Joplin? O que tenho a ver com ela? Nada! Por que isso me afeta tanto? Porque ela me faz sentir como se eu tivesse sido separada de alguém que nem sei quem é? Não conheço o rosto, não tenho registros. Nada. Mas há uma falta dolorosa. É como uma foto de onde você recortou uma pessoa. Fica só o espaço vazio, o contorno de alguém que você não consegue lembrar quem é.O que houve? Houve alguma coisa? O que eu tenho a ver com a Janis Joplin?
Evito ouvi-la. Evito vê-la. Não quero lembrar do que não existe. Sou tendente a fantasias. Sempre fui. Não quero levar a sério uma realidade virtual que não faz sentido nenhum. Não quero me sentir como se eu fosse uma cópia de mim mesma. Uma cópia com outras roupas, outro jeito no cabelo, uma cópia mais comportada e sem asas.
Alguém escreveu um livro. Anos depois resolveu escrever outra história com a mesma personagem. Outra época, outras roupas, outro final. Dessa vez um final mais aceitável. Mas os leitores não gostaram muito. A personagem perdeu sua força, perdeu sua essência. Ela mesma não se reconhece e as vezes sente como se estivesse fingindo ser o que não é. Não deveriam reaproveitar personagens. A verdade dela está na primeira edição. Nessa segunda o autor a salva mas...
Tudo fica bem. Ela só não pode ouvir Janis Joplin.

