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12 de jan de 2012

A moça do taxi

Pra começar resolvi não ser humilde e revelar logo: sou sobrinha da "Moça do Taxi."  Desculpa aí.  E se você não sabe quem é a Moça do Taxi não tem problema: em uma das suas aparições ela mesma vai poder te explicar.

Brincadeira. Deixa que eu explico:

Belém tem uma lenda urbana: A MOÇA DO TAXI.   O nome dela antes de desencarnar era JOSEPHINA CONTE.  Nasceu em 19 de abril de 1915 e faleceu de tuberculose aos 16 anos, em 1931.  Dizem que ela reaparece sempre no dia do seu aniversário, pega um taxi, vai para seu antigo endereço, entra em casa e deixa o taxista esperando o pagamento na porta. Ou ela desce perto do cemitério Santa Izabel (onde está enterrada) e diz para o taxista cobrar a corrida no seu antigo endereço. O resto já dá pra desconfiar: quando ele chega no endereço a família diz que não tem nenhuma moça morando lá. Aí ele vê a foto da moça na parede e diz: "foi essa moça que pediu para eu cobrar a corrida de vocês!" E a família responde: mas ela já morreu há décadas!"   Ao lado de Severa Romana ela distribui graças em Belém do Pará.  The End.

Mas tá: JOSEPHINA CONTE era filha do meu avô NICOLAU CONTE, italiano, que veio para o Brasil depois de adulto.  Josephina faleceu de tuberculose antes de minha mãe nascer. Minha mãe, Alba Felícia Conte, nasceu em 1934.  Se você der uma olhadinha no blog que fiz em homenagem à minha mãe,  na galeria de fotos da parte de baixo da página você verá que elas guardavam semelhanças fisionômicas.   

Minha mãe que me contou sobre Josephina. Na verdade não havia muito o que contar. Era uma moça fina, educada, criada com mimo. Digo isso porque meu avô foi rico, dono da fábrica de sapatos Boa Fama. Perdeu tudo quando ficou doente. Ele veio da Itália para o Brasil para esquecer um romance desaprovado pela família. Mas não tem jeito, destino é destino. Aqui ele teve outro romance desaprovado: com minha avó Esther - que não era a mãe de Josephina. Mas isso é oooutra história.  

Fica difícil eu acrescentar ou consertar a história. Como consertar uma invenção? Como dizer que não foi bem assim, foi assado?  O que posso dizer é que ela teve morte natural e nunca apareceu para a família. Ninguém da família sabe de onde saiu essa história de aparição. Sabemos é que a crendice surgiu muitos anos depois da sua morte e causou estranheza aos parentes.  Minha mãe já era moça quando esse boato surgiu. Ela nos contava que seu pai (meu avô) de vez em quando falava em sua filha com saudade e carinho e sempre ia com a mamãe visitar o túmulo de Josephina e levar flores. Nesse tempo ela não era nem fantasma nem santa.

Meu avô era espírita e no fundo acreditava que minha mãe, talvez, fosse sua Josephina reencarnada. Minha mãe achava isso curioso mas nunca acreditou ou se impressionou, apenas achava meigo da parte dele, que era um pai muito carinhoso. Eu fui algumas poucas vezes ao cemitério com minha mãe. Em uma das vezes era dia de Finados e ela ficava abismada com a quantidade de "devotos" e admiradores da sua falecida irmã. Flores, velas, fitas... Ela dizia: "Gente, de onde surgiu isso? Não tem nada a ver! Meu pai jamais imaginaria que o povo fosse inventar uma coisa dessas! Que povo supersticioso meu Deus!"    Palavras dela, não tenho nada a ver com isso. Vá brigar com minha mãe - que também já morreu.

Minha mãe supunha que a história tenha começado por causa de um broche que Josephina usa nessa foto em sua tumba. Observe que é um carrinho. Poderia ser um ursinho, um sol, uma flor, uma jaca. Mas era um carrinho que com o tempo virou táxi na imaginação do povo. Diz a lenda que ela adorava andar de carro. Pode ter sido por isso - dizia minha mãe.  Faz sentido...  (Faz?!)

Como já disse, minha mãe Alba era irmã de Josephina apenas por parte de pai. Josephina tinha uma irmã da mesma mãe. Seu nome era Itália Conte, que nós chamávamos carinhosamente de "Tia Minutti" embora não tenhamos convivido quase nada com ela. Ela chegou a dar entrevista sobre isso ao Jornal O Liberal em 1977. Ela tinha 86 anos na época.  Minha mãe jamais foi procurada.

 O que dizer que uma moça que morreu jovem? Quase nada! Vida curta e muito semelhante a das moças da sua idade. Alba, Minutti e Josephina devem estar juntas agora rindo muito dessa história toda.

Só pra esclarecer: CONTE é meu sobrenome de solteira. Cristina Conte Corrêa. Aí casei e ficou Cristina Corrêa Faraon. Aí descasei e continuei com o Faraon, pra não ficar diferente dos meus filhos.  Até hoje me arrependo de ter tirado o Conte. Será que dá pra pegar de volta? Ah, deixa pra lá.

Acho sempre curioso observar o quanto o ser humano gosta de mitos. Se os criamos é porque eles vem ocupar um lugar vazio dentro de nós. É algum tipo de necessidade que não sabemos explicar direito. Por esse motivo às vezes penso que não deveríamos desfazer os mitos. Se o fizermos, outros virão ocupar seu espaço e, talvez, com menos glamour.

Alguns links que contam a história de Josephina Conte:

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