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14/09/2014

Cremação? Soy contra!

Talvez não exista ocasião boa para se falar em morte mas vez por outra o assunto me aparece e não me resta outro remédio a não ser escrever a respeito. Melhor escrever do que falar disso em uma festa de aniversário - principalmente se for no aniversário daquela tia de 79 anos que anda sempre adoentada...

Dessa feita o aspecto do assunto macabro é o seguinte: sou terminantemente contra esse lance irreverente de transformar funeral em churrasco.
Refiro-me a idéia estapafúrdia - isso mesmo! - de cremar o "de cujus". Quem teve essa idéia? Nero?

Além do mau gosto em si (imaginar um ente querido ardendo em chamas) isso deveria ser contra a lei. Por quê? Ora, porque essa estranha prática trabalha contra o Direito.

Vejam bem: o corpo humano é um arquivo vivo, mesmo quando o sujeito morre. Não sei se seria o caso de passar a chamá-lo de "arquivo morto-vivo" ... mas é por aí.
Bactérias, vermes, gases e toda a sorte de seres microscópicos estão mais vivos do que nunca naquele quarteirão prontinhos para dar com a língua nos dentes e contar tudo o que realmente aconteceu: se a morte "acidental" foi provocada, se a cirurgia precisava ser feita, se a apendicite não passava de gases, se houve barbeiragem, se a mulher estava gravida, se (pior!) engravidou na UTI, se o bebê teria sobrevivido, se chegou no hospital com dois rins e dois pulmões e foi enterrada só com um exemplar de cada, etc. Cremando, todas essas informações relevantes desaparecem para a alegria de alguém. E provavelmente esse alguém deverá estar ganhando uma grana com a queima de arquivo.
Isso mesmo: cremar um corpo é queima de arquivo. Sou contra!

Mesmo quando as trocas de gases e de vida microscópica terminam e as minhoquinhas cansam de confraternizar, ainda assim o corpo é uma espécie de biblioteca onde uma história interessante pode ser desenterrada a qualquer tempo. Pensam que não assisto documentários?

Quanto um bandido não pagaria para se fazer confundir com um defunto cremado? Sendo impossível desfazer o equívoco ele teria a garantia de uma vida nova para cometer novos crimes sem ser incomodado.
Já ouvi vários casos de pessoas que são paulatinamente envenenadas e tem a causa mortis atribuida erroneamente a determinada doença. Dizem ter sido esse o caso de Napoleão! Aquela dorzinha do estômago não era gastrite coisa nenhuma, mas envenenamento contínuo. Se fosse hoje, uma vez contestado o laudo médico, seria possível constatar se houve homicídio.

Já ouvi falar também de exames de paternidade feitos meses depois de o defunto ter sido entregue à terra (Gostei. Fica mais chique falar assim). Impossível fazer exame de paternidade em cinzas. Menos ainda se forem jogadas "romanticamente" ao mar.

É como eu já disse: tem gente que dá entrada em hospital e roubam-lhe o fígado, o rim, trocam os pulmões de lugar, é uma zorra! A família desconfia. Se cremarem, como desmascarar o médico açougueiro? Tá cheio de Frankenstain por aí defendendo a prática da cremação. Cuidado!

Acho que esse negócio de cremar foi inventado pela indústria dos órgãos - e não me refiro a instrumentos musicais.  Pintam o sete, deixam o paciente oco e depois transformam ele em cinzas.

Quero uma sepultura de terra fofinha com árvores ao redor. Só mais uma coisa: é meio caro mas se o dinheiro der providenciem aquelas estátuas de mármore de menininha chorando ou coisa assim.
Tá bom, já sei que o dinheiro não dá. Um vaso de flores de plástico aplacará meu espírito. Minhoquinhas simpáticas poderão fazer o seu trabalho calmamente como manda a natureza. Doarei meu silicone aos pobres e enquanto caveira cooperarei como puder com a polícia, caso seja necessário.

Se você ainda não se convenceu vou te dar mais uma razão para concordar comigo: fique você sabendo que existem SIM fraudes muito cara de pau nesse lance de cremar corpos. Não fique pensando que em três horas de forninho alguém vira cinzas. Nem a sua cozinheira consegue destruir um frango tão rapidamente. Onde eu quero chegar: o processo demora pra caramba e custa uma grana em energia elétrica. E você não fica lá vendo "a coisa" acontecer.  Já soube de casos de enganação horrorosa, onde certas empresas funerárias sem escrúpulos cremam "meio que pela metade" juntam mais de um falecido pra economizar energia, misturam tudo, colocam qualquer cinza numa caixina e dá para os manés chorarem. Quem é que vai saber? Cinza é tudo igual! Preto, branco, olho azul, olho puxado, com dentes, sem dentes... Virou cinza, igualou.

Pois é, bobão!  Você acha que vão gastar uma fortuna em energia elétrica só porque você acha bonitinho jogar pozinho no mar? Se toca! Num país como o nosso, onde  dão remédios de farinha de trigo pra quem tá morrendo, você acha que estão preocupados com suas cinzas do seu avô? Acorda!



09/09/2014

Três caras da chuva

A experiência física com a chuva é uma coisa muito sensual a qual raramente nos entregamos. O corpo desperta, por mais cansado que esteja. O coração acelera com os toques gelados, os bicos dos seios endurecem, a carne se põe em  alerta e fica até mais jovem. Na chuva estamos sempre prontos para o amor, ainda mais sabendo que o outro corpo virá sempre quente e rijo como o nosso. Será tão bem-vindo em contraste com o frio! Há mil corpos quentes desejando outros corpos quentes enquanto tremem debaixo da chuva. 

Bem estranhamente, a experiência visual com chuva é muito contrastante com a anterior. A chuva , diante dos nossos olhos, desfila muito triste, desmaiando entre soluços. E lamenta, lamenta muito aquele acontecimento doloroso que não ousa descrever e que  desconhecemos ... mas intuímos. Sabemos de tudo, sem palavras, por experiência de vida. E quando não lamenta, a chuva assume aquele ar profético, anunciando alguma coisa muito muito grave que está prestes a acontecer. Ficamos pensativos.

A chuva  só é feliz pela manhã, quando nos visita junto com o sol e vem morninha e transparente, sem fazer barulho, cheirando a vapores. Se enfia desinibida e sem convite pelo meio do sol e nesse "Romeu e Julieta" atrai moleques de todos os lados.   E é assim que a chuva vive o seu breve momento de glória.
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06/09/2014

Liberdade de novo

É justo e compreensível que desejemos reconhecimento pelos nossos esforços no trabalho. Acho tolo dizer que devemos dar o melhor de nós mesmos sem esperar reconhecimento. Tudo bem não esperar uma recompensa em dinheiro ou um Oscar, mas reconhecimento é normal, é humano.

Sei que isso vai contra um monte de frase de Facebook, mas é o que penso. É justo, humano e desejável que as pessoas tenham suas realizações reconhecidas ou pelo menos admitidas. É um direito. Embora seja louvável fazer o bem "distraidamente", não é crime pensar. Ponto.

Agora vou, aparentemente, me contradizer: acontece que tenho observado que a felicidade muitas vezes está em abrirmos mão de certos direitos. Porque alguns direitos, embora nos pertençam sim, são uma bagagem pesada demais.

Entenda:  perder direitos é muito diferente de abrir mão de direitos. 

O reconhecimento é algo justo, mas esperar por ele é quase um castigo. A bem dizer, esperar por ele é injusto. Não precisar dele é a glória. Fazer as coisas dentro do seu próprio mundo, sorrir pra si mesmo de prazer quando você é bem sucedido e nem parar para reparar se os outros prestaram atenção - esse é o chique da vida.

Mas isso é um aprendizado. É o próprio "pulo do gato" da saúde emocional. As pessoas comuns querem o óbvio: a justiça de serem reconhecidas. As pessoas top, portanto felizes, já ultrapassaram essa fase. Elas estão além e simplesmente não precisam mais disso. São independentes.

E por falar em liberdade- sim, caso não tenha notado, é disso que falávamos-  felicidade e liberdade estão grudadas como irmãs siamesas e consistem em não precisarmos. Quanto menos necessidade, mais liberdade. Uma coisa puxa a outra. 

Sou obrigada a reconhecer o que toda frase de Facebook diz: a compensação pelo trabalho não é o dinheiro, mas o trabalho em si. O dinheiro é devido, mas está no nível raso da justiça. As pessoas top curtem tanto fazer bem feito que simplesmente não precisam de recompensa. Estão além disso. Elas sao, assim, as únicas donas da própria ventura.  

A pessoa feliz é um tanto louca, porque vai em sentido contrário ao da  manada.

 Se for possível é isso que eu quero.


05/09/2014

Tanque

Lembro de muitos anos atrás, quando fiquei com pena da mamae e fui para o tanque lavar roupas para ajudá-la. Fiquei com as mãos machucadas. Eu não pensava que era tão pesado  lavar roupas. Não sei por que lembrei disso agora...  Não há serviço mais pesado que lavar roupas. Mamãe nunca reclamou...

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31/08/2014

Coisa de filme

Existem algumas expressões muito conhecidas nossas mas que nem assim somos convencidos a adotar. Decididamente há coisas que só se diz em filmes. E é interessante que ouçamos com tanta naturalidade, sem estranhar ou criticar, mas se um amigo começar a falar daquele jeito somos capazes de achar que ele pirou. 

Veja alguns exemplos de expressões naturalissimas em filmes mas imeio estranhas para a vida real: 

1- "Detenham-no!" (O usual é dizer "segurem ele!")
2- "Tire essas mãos sujas de cima de mim!"  ( as pessoa normais dizem apenas "me larga!")
3- "Macacos me mordam!"  ("Cara, que loucura!")
4- "você é um perdedor" ("seu fracassado!")
5- "ora se não é o velho Jack!"  ("Jack, há quanto tempo"!)
6-  "taxi, siga aquele taxi!" (Ninguém diz isso porque sai muito caro)

Né?

30/08/2014

O campo dos sonhos


Acabei de rever um dos filmes que mais me tocaram na vida. Ele novamente me comoveu muito e me levou de novo a longas reflexões. O CAMPO DOS SONHOS  é um sopro, uma ideia, uma possibilidade...

O assunto? Ele fala sobre tudo aquilo que ja veio gravado em nosso disco rígido desde que viemos ao mundo. Fala sobre a angústia de não podermos voltar a uma determinada cena da nossa vida, àquele momento fatídico a partir do qual tudo poderia ter sido diferente. Fala daquela época que ficou para trás, que deixamos incompleta ou torta no passado e já não podemos mais consertar. 


Será mesmo que tudo deveria ser consertado?  Será que temos mesmo a capacidade de discernir o que foi ruim e o que foi bom na nossa vida? Se pudéssemos voltar... mudaríamos mesmo alguma coisa? Nós nos arriscaríamos a alterar dodo o nosso presente se tivéssemos a chance de mudar o passado?

Não, esse não é o assunto principal do filme. É apenas "um dos".

O Campo dos Sonhos não é uma história para ser explicada, apenas entendida. O Paraíso existe? Existe sim. O Paraíso é o lugar onde os nossos sonhos se realizam. Isso quer dizer muito. 


O filme é lindo. Estanho, mas qualquer sinopse o faz parecer meio idiota... Apenas assista. Vá por mim.

22/08/2014

Bulling

Nesse mundo de gente má e sem coração, tenho muita pena de quem não é "mais ou menos".  Diante das mediocridades só estaremos mais ou menos seguros se formos cidadãos "mais ou menos".

Os feios sofrem bulling. Os feios, os magros, os gordos, os muito baixos ou muito altos. Os muito brancos ou muito pretos. Até os muito bonitos são massacrados. Esses dias soube de uma garota que suicidou porque não aguentou a perseguição no colégio pelo farto de ser linda, inteligente e querida pelos professores.

O bulling nada mais é do que vontade de fazer sofrer.  É a arte de uma pessoa fazer com que a outra se sinta tão merda quanto ela.

Quem pratica bulling não é melhor do que nenhum assassino. Porque quem mata aos poucos também tem coragem de matar de uma vez só.



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18/08/2014

Violência! Violência!

Acho curioso como a violência pode ser uma coisa assustadora e ao mesmo tempo tão sedutora. Ela atrai e repele - confesse!  O tempo todo ela e se apresenta para nós; ora como problema, ora como solução.

Violência vende e rende. Gostamos de pessoas fortes, de  filmes com socos, tiros, sangue e lutas. Desde cedo achamos divertido brincar de subjugar.

Observando todo o poder de intimidação que os violentos exercem, isomos levados a concluir que a arma que usam é eficaz mesmo!  Daí somos seduzidos e em um pulo o que é assustador passa a ser desejavel. 

A violência nos deixa acuados. Como  estar acuado é ruim, parece-nos que o remédio para isso é acuar.  Somos tentados a aderir ao inimigo como forma de nos proteger dele. Sentir medo é um fardo muito pesado. 

Parece existir uma crença não confessada de que só a violência nos alivia da escravidão do medo. Mas assim como para me proteger  do medo eu preciso causar medo, devo lembrar que para os outros o remédio também é válido: se tiverem medo também precisarao me intimidar para se protegerem. Dai ninguém estará em paz. Isso é uma desgraça.

Quanto mais amedrontados, maior nossa necessidade de intimidar. É mais ou menos como aderir à máfia por ter medo dela.  A violência é uma espécie de remédio proibido e certamente uma grande mentira. Por algum tempo  parece que nos cura da humilhação do medo, por isso se torna diabolicamente atraente. Isso fará com que cada dia mais pessoas precisem recorrer a ela para se protegerem dela.

Hoje assisti um filme violento. Observei no cinema que as pessoas sentiam um estranho prazer com  as cenas sangrentas. Essas mesmas pessoas sentem prazer quando um lutador tira sangue do seu oponente. Por que acalentam essa coisa mórbida? Porque, mesmo sem saberem, estão sonhando com outra coisa. Quem curte a estética da violência está  na verdade se colocando no lugar do agressor para ter fantasias nas quais nunca mais sentirão medo porque são fortes e podem intimidar. Estão sonhando em nunca mais se sentirem como ratos.  Curtir cenas de soco é fantasiar com o PODER.

Por isso a violência tem se tornado tão atraente: porque se apresenta como a única libertação. E quem não quer ser livre?

Isso é realmente muito triste...







15/08/2014

Gato preto

Gosto de gatos pretos.
Não tenho nenhum gato preto.
Gatos são lindos e os pretos ainda mais. 

Gatos são muito ágeis. Juntando isso ao ar de mistério, passam a impressão de poder. E essa impressão só se confirma quando eles nos olham fixamente.

Gatos trazem uma  mensagem: a de que tamanho e músculos não são documentos pois o cemitério está lotado de brutamontes barulhentos enquanto eles, tão levezinhos, simplesmente se safam.  O poder está na agilidade, no mistério e na beleza, não na força.  Essa é a mensagem.

Sim, em silêncio eles dizem que não precisam de ninguém - embora precisem. É que gostam de posar como auto suficientes. Faz parte do show. Isso é muito deles, "muito gato". E com sua beleza, nos manipulam. Adoram que espalhemos por aí que tem sete vidas. Todos sabemos que não tem, mas o mito tem mais força que a realidade e aí está mais uma grande sacada felina.  

O fato é que acabamos fazendo o joguinho deles. Cuidamos, protegemos, damos tudo o que precisam e ainda fazemos o teatrinho de sermos dispensáveis.  É a fantasia deles, fazer o quê?  Quem não gosta de fantasiar e fazer joguinhos?

Se não fossem como são, não acharíamos divertidas as esquisitices dos gatos. Mas rimos das suas desfeitas encantadoras. Os gatos são a prova viva do poder da beleza.  Há uma provisão maior de perdão disponível para os belos.

Raramente alguém recebe de volta algum agrado de um gato. Eles nos olham  profundamente com aqueles olhos fatais e impressionantes... e vão embora. Ora, e quem não gostaria de ter olhos fatais e impressionantes?

Veja que a fragilidade não é necessariamente um mal. Ela até nos protege porque quem não é ameaçador acaba tendo menos inimigos. E quanto menos inimigos, menos problemas. Outra: com charme se consegue coisas que a força nem sonha em alcançar.

E assim, mansamente, os gatos nos consolam. Eles são nossa fantasia de beleza, agilidade, e poder.   Ainda há esperança em um mundo onde ninguém precisa ser onça pra sobreviver. Até porque o último censo provou que há muito mais gatos do que onças por aí.

Gatos se bastam. Ou conseguem aparentar que se bastam -  o que já quebra o maior galho. 

Ainda vou ter um gato preto.

09/08/2014

Culpa

Chegando quase ao fim de um delicioso dia de preguiça. Não que eu não tenha feito nada. Até que fiz umas tarefazinhas domésticas e com prazer. Mas não fui muito muito além disso. E deveria?

Fiquei um dia lindo inteirinho dentro de casa. Adorei. Mas agora, chegando ao finzinho, tarde acinzentando, começo a me perguntar se não desperdicei alguma coisa por aí no meio dessas horas. 

Será que passar a tarde deitada vendo bobagens na internet é correto? Ou vergonhoso? Pode ser considerado "viver" ou isso está mais pra um parêntesis dentro da vida? Isso é desperdiçar o dia ou é aproveita-lo? 

Tão bom o meu sábado! Por que eu deveria me arrepender de alguma coisa? Não fiz mal a ninguém. Nem bem. Aí é que está! Eu deveria ter feito algum bem mas não fiz. Ou fiz. Cozinhei para a minha família. Não ta valendo?

E eu aqui, egoisticamente no meu apê. Que mal há nisso? Não sei. Era pra ser bom, então por que a dúvida? Estou devendo alguma coisa para alguém?

Acho que só os bebês tem prazer limpo, em estado bruto e sem juízo de valor.

06/08/2014

Mágoa

Você, que me vê todos os dias mas não me intui, não merece que eu me explique.

Fico imaginando o mar. O mar imenso, cheio de peixes estranhos, plantas instigantes, sons, mortos, relíquias, histórias. O mar e seus marinheiros dissolvidos, seus vasos de porcelana de tempos idos. Imagino esse imenso mar cheio querendo abrir seus tesouros, falar de si, fazer-se entender. Imagino o mar, tantas vezes louvado, finalmente criando coragem para uma aproximação. Então ele chega doce e confiante, alisa as pedras, entra nos tímpanos das cavernas, faz sons, extasia-se. Acredita na abertura, crê que viu um sinal, um aceno, um "sim", um despir, um comovente pedido de reciprocidade. O mar ousa, acredita, leva suas histórias e conchinhas, romances interrompidos em naufrágios, saudades e lembranças de céus negros. O mar entra nas pedras, na areia, busca raízes, quer apertar-lhes as mãos. Mas não há resposta. Alguns seres assistem de longe a tentativa patética.  Todos se foram... ou não vieram.  Admiradores ralos e reles. Falsos convites, equívocos, sinais que jamais aconteceram. Corações fechados. Distâncias. Seus tesouros não importam.

Fico imaginando o mar desistindo, indo embora. Penso no mar cansado. A figura do mar desapontado me enche de melancolia. Ele vira as costas e abandona a praia.

Às vezes imagino que o mar vai cansar de se jogar inutilmente sobre as pedras. Arrastará suas vestes pra longe e pra sempre. Para aquele lugar onde os mares nascem, morrem e se tornam inacessíveis.

02/08/2014

Alminha

Por favor, não me fale hoje nas crianças maltratadas, famintas ou abandonadas. Não me conte coisas tristes porque estou com o coração pesado. Só por hoje não insista em me fazer acreditar que a chave do mundo está em minhas mãos. Não posso suportar esse peso. Falhei e tenho falhado muitas vez, de forma que hoje o que mais quero é a paz da pequenez e da incompetência.  Às vezes só a nossa insignificância nos consola do que não fizemos.  Só quero seu o animal cansado que volta à toca. Ninguém lhe cobra nada porque, afinal de contas, ele é só um animal muito cansado.

Hoje não me sinto capaz de mudar o destino de ninguém. Hoje preciso descansar a cabeça com a crença de que existe por aí alguém mais nobre, determinado e impulsivo do que eu. Alguém cheio de dons e pródigo em compartilhá-los.  Sobre essa pessoa especial  recairão todas as responsabilidades e a mais nobre das missões. Ele mudará a vida de muita gente, criará ONG's, revolucionará o bairro, abraçará crianças e iniciará programas de ressocialização.  Orarei por ele.

Pelo menos por hoje não me faça crer que minha opinião muda tudo, que meu voto é revolucionário, que se eu participar da passeata o bem vencerá o mal.  Todos sabemos que é mentira. Pare com isso pelo amor de Deus!

E não me fira com um "todos somos culpados". Já me pesam meus próprios erros. Não me responsabilize pelo dos outros. Pegue sua bicicleta, vá passear e deixe os impotentes em paz.

Que o vento bata sobre minhas ideologias e que elas evaporem por uns dias e que assim, livre dos mais elevados ideais, eu seja apenas um ser humano transitando por esse mundo de meu Deus.  O cansaço, às vezes, é muito amigo.

Os cães, os pássaros, as cobras, as flores, os sapos, os cavalos e urubus estariam todos muito cansados e deprimidos se passassem a maior parte das suas vidas tentando ser o que não são. Mas ninguém lhes cobra isso, nem eles mesmos. Bem-aventurados são.

Tenha piedade, só por hoje, da minha alminha envelhecida. Deixe que eu chegue em casa - não me aborde! - e tire os sapatos, ouça minha música preferida e coma um carboidrato sem sentimento de culpa. Deixe que eu acredite, pelo menos por hoje, que não posso ser melhor do que sou, que não estou atrapalhando o curso da história e que tenho feito a minha parte.