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28 de fev de 2015

Prédios e belezas


Ontem, final de tarde, eu transitava em um dos viadutos da cidade. Do carro olhei e vi o céu desistindo do turquesa. Ele escurecia devagarzinho, meio embaçado por nuvens e poluição. Vi e amei os prédios. Pareciam tão imponentes ignorando o cansaço, a sujeira e o calor! Pareciam tão cônscios da necessidade de parecerem bonitos para a gente que vem do trabalho!

Certamente as árvores parecem belas para os pássaros cansados. Parecem lindas também para a família dos macaquinhos que fazem delas sua casa. Acho que os prédios cumprem, para nós, o papel de árvores.  Talvez por isso eu tenha conseguido achar beleza naquele amontoado de concreto, silenciosos e estéreis.

O céu escurecido, as nuvens com suas cores indecisas, os primeiros postes acordando. Com meu olhar já lapidado pela cidade e sua estranha estética, achei bonitos os prédios assim, levantados contra o céu,  criando um efeito interessante. São nossas árvores onde nos amontoaremos com nossas famílias para nos proteger e descansar. Só por isso são bonitos, porque concreto não tem outra graça.

Num relance vi as primeiras janelas acendendo e quase senti o cheiro da sopa e o cheiro dos vapores perfumados dos banhos dos que voltaram do trabalho. E tudo azulava.

Os prédios são bonitos para nós, que vivemos na cidade. Talvez não sejam tão aconchegantes quanto as árvores, tocas ou cavernas, mas foi o que conseguimos. Daqui não ouvimos barulho de riachos ou de passos pisando folhas. Aqui as pessoas se anunciam de outras formas mas isso já nos serve. Basta que cheguem, basta que não nos deixem sós.

Vistos de cima os prédios parecem menos maternais. São paredes que formam magníficos labirintos.

Interessante como podemos ver beleza em algo tão antinatural. Posso olhar para o céu e partilhar da mesma emoção de civilizações antigas mas não posso olhar para nossos gigantes de concreto e partilhar nada com o passado, nada com o meu eu primal. É uma coisa só nossa, só do hoje.

Não acredito que silvícolas enxerguem qualquer beleza ou romantismos nos prédios mesmo num final da tarde azul.

A beleza mora dentro, não fora da gente. Isso me leva a pensar que talvez as pessoas cruéis tenham seu senso de beleza diminuído devido ao processo de embrutecimento que as tornou más. A maldade é a anti-beleza.   Não acredito então que "eles" sintam o mesmo que eu sinto quando olho as estrelas ou mesmo os prédios encardidos. Eu, em minha maldade, gosto de pensar que a vida subtrai dos cruéis alguma coisa preciosa, independentemente da punição que tenham recebido - ou não - da sociedade. Que percam a capacidade de se emocionar! - penso eu.

E não seria isso maldade também?

Penso agora que a ausência de senso de beleza só tornaria os cruéis mais cruéis ainda.  A beleza não nos enternece? Até que ponto privar-lhes dessa sensibilidade seria uma punição inteligente? A quem interessaria isso?

Nada sei, nada sei...

Será que as pessoas bondosas desfrutam de mais beleza do que as más? Ou não? Talvez eu jamais tenha resposta para essa questão. Só sei que achei bonita-bonita a cidade naquele final de tarde, com seus milhares de prédios... e as nuvens lá em cima.

24 de fev de 2015

O preço de um barraco

De todos os imóveis disponíveis no mercado imobiliário, certamente o barraco é o mais caro.

Até que aprecio um barraco. Eles tem relevância social e são respostas prontas para problemas do aqui-e-agora. Só que não basta gostar de barracos: temos que tem cacife para bancá-los. Porque embora em alguns momentos pareçam irresistíveis, o fato é que podemos passar o resto da vida pagando suas prestações. Todo cuidado é pouco. Mesmo assim, armar  um bom barraco às vezes vale a pena. Nada como a quizumba  certa na hora certa. Veja essas situações:


1- Manifestantes queimando pneus em via pública. Dá vontade de já sair do carro gritando "Você é valente, ô palhaço? Então vá fazer essa gracinha na frente da casa do Prefeito, do Governador ou para o Palácio da Justiça!

2- Flanelinha que jura que é dono da rua. 

3- Discurso de pseudo-intelectuais convictos de que Cuba é o paraíso.

4- Vizinho dando festa infantil com palhaço surtado e musiquinhas insuportáveis. 

5- Motorista mal educado.

6-  Corruptos criando dificuldades para vender facilidades.

7- Novas leis que só pioram nossa vida.

8- Amigo pidão.

9- Vizinho que não respeita vaga de garagem.

Não vou mentir: já "comprei" alguns barracos poderosos ao longo da minha vida.  Mas mais cedo ou mais tarde a conta chega, pode crer.

Pensando nesses aborrecimentos, as minhas fantasias de hoje tem a ver com bomba, chuva de meteoros, vulcões em erupção e fim do mundo. Mas calma, não sou uma pessoa perigosa, até porque a maioria das nossas fantasias a gente acaba não realizando. Você sabe disso muito bem.



23 de fev de 2015

Cansada

Filmes, noticiários e vida real: estou cansada do mundo. Cansada de tanto sangue e de tanta maldade. Cansada de tentar entender como é possível existir pessoas que dedicam a própria vida a criar um inferno para si e para os outros. Cansada de ver tudo se desintegrar a minha volta e não conseguir fazer nada. Cansada, cansada. Não quero salvar o mundo; quero o fim do mundo. Juro. Isso aqui não tem mais jeito. O mal já alcançou uma proporção tal que estamos falando de uma laranja podre. Pra que serve uma laranja podre? 

Estou cansada do engano, dos enganadores e dos que gostam de ser enganados. Estou cansada dos que preferem viver uma mentira e se satisfazem com superficialidades vendendo a alma em troca de uma boa imagem. Estou cansada de ver crianças nascerem e nós saudarmos seu nascimento como se fosse algo bom para elas. Não é. Ninguém precisa nascer. O mundo não é um lugar bom. É maldade trazer esses anjinhos à luz. Eles não sabem o que os espera. Estou então cansada de ter pena dos anjinhos, cansada de chorar pelo seu futuro, cansada de ter medo pelos meus filhos, cansada do mal. Cansada até de me sentir culpada pelo alívio que sinto quando uma pobre criança, por fim, não nasce.

Cansada.

20 de fev de 2015

À margem


Jesus disse que veio ao mundo para "desfazer as obras do diabo". Disse também que quem o seguisse e imitasse iria enfrentar todo tipo de perseguição.

Alguns entendem que "desfazer as obras do diabo" tenha a ver com sair por aí praticando o exorcismo. Se fosse isso seria tão fácil! Estou certa de que Cristo nos chamou para desfazer o mal onde há maldade, impor o bem onde o mal impera, limpar o que está sujo, desentortar o que está torto e por aí vai. Ele não se referia simplesmente a assuntos "espirituais" e impalpáveis.

Acabei de assistir Clube de Compras de Dallas. Um bom exemplo do que é ir se deixando levar pelo que é certo e descobrir de repente que está andando na contramão do mundo.

O mundo se move por interesse, ambição, vaidade, dinheiro e sexo. Ninguém liga muito para essas afirmativas até o dia em que vê, como o personagem, as pessoas morrerem por causa do lobby da indústria de remédios. A indústria de remédios pressiona o governo para só liberarem o medicamento que é do interesse deles, que dará mais lucro, ainda que isso custe a vida de milhões. Lutar contra isso significa perder dinheiro, conquistar inimigos, perder o emprego, perder a vida talvez.  Sim, "desfazer as obras do diabo" dá mais trabalho do que gritar "sai desse corpo que não te pertence."

De todas as lutas possíveis e imagináveis, nenhuma é mais árdua do que lutar contra leis injustas. No Brasil isso é claríssimo. Estamos lotados de leis injustas.

Lutar contra injustiças legais é lutar contra nosso sistema maligno em seu nascedouro. É nesse ponto que o sujeito se desespera. Percebe que as pessoas se vendem, que tudo depende de interesses mesquinhos e que essa historinha de justiça, igualdade, respeito, proteção à vida, é tudo conversa fiada. Ninguém está interessado nisso.

Fazer o bem é estar à margem, nadar contra, se desgastar, chorar e arrumar inimigos mortais. Se pra você "fazer o bem" se resume a distribuir cestas básicas, você ainda está vivendo no país dos sonhos. Distribuir cestas é bom e válido, mas lutar contra o mal é atacar justamente onde a pobreza é gerada. Aí você se indispõe tanto com o opressor quanto com o oprimido. Porque enquanto estiver adulando o discurso de vitimização tudo bem, mas quando começar a mostrar que certos maus hábitos tem que ser abandonados para a vida melhorar, aí você deixa de ser visto como santo e passa a ser visto como monstro.

É difícil. É dificil mesmo. Inclusive porque o mal está compartimentado. O poder não está  só na mão de um sujeito exatamente. É uma cadeia sem fim que não sabemos onde começa nem onde termina. Dessa forma ninguém se sente responsável pelas próprias maldades porque não começou com ele nem acabará com ele e qualquer coisa que se faça parece não afetar o todo. Chego a pensar que o poder centralizado seria melhor. Porque se tudo vai mal, sabemos a quem culpar. Quando a culpa não é de ninguém todos se sentem anistiados. Será? Nem sei...

É fácil fazer campanha na televisão contra o bulling. Quero ver você chamar atenção dos seus amigos, dizer que precisam conversar com seus filhos, corrigi-los e orientá-los. Você vai atrair ódio. Quero ver fazer campanha de conscientização no colégio pressionando diretores e professores, procurando os pais dos alunos opressores e dizer o que o filho deles está fazendo.

Ao fim de cada discussão para tratar de qualquer problema veremos que a culpa é dos outros, de um ser sem rosto que ninguém sabe onde mora. Ninguém tem culpa de nada. Somos uma sociedade de inocentes. Essa é a nossa desgraça.

19 de fev de 2015

Esforço amarelo

Estava lendo um texto sobre fazer amigos. Popularidade. Achei interessante constatar que a garota que escreveu, assim como eu, nunca teve muito jeito com essa coisa.

Minha vida toda ouvi comentários de que alguns me acham antipática. Ou metida. "Tipo assim".

Nunca fiz esforço para ser antipática. Sei que a afirmativa é meio estranha mas tem razão de ser. Porque existem pessoas tão amargas e despeitadas que fazem questão de provar pra todo mundo que não precisa cativar ninguém. Não sou assim.  Acho que o meu grande problema é não levar a sério minha fama de metida. Se eu me importasse seriamente talvez já tivesse me transformado em uma pessoa mais fofa. Mas deixo o assunto pra lá...e não evoluo.

Por que não evoluo? Ou melhor: por que me aceito? Primeiro porque as pessoas que vencem a impressão inicial e convivem comigo geralmente dizem que "não sou nada daquilo" e que muita gente que me critica iria mudar de ideia se tão somente me conhecesse melhor.  Outro motivo por que não tento mudar é que ...  na verdade tento, mas não adianta.

Sempre achei que todo esforço para a alguém ser simpático é um esforço amarelo. A coisa sai sem graça, o riso vai encardido e, por fim, falta assunto para continuar o papo-conquista. Sou uma pessimista: acho que não adianta. De antipático o sujeito vira um chato. Então entenda: não é que eu, orgulhosamente, não me esforce. É que eu não sei como se faz.

E tem mais: vejo com certa desconfiança as pessoas super-ultra-simpáticas. Estão sempre felizes mesmo? Aquele riso constante é o quê? Normal? Sei não...  Será que elas acham mesmo todo mundo legal?   Ou são tão ralas mas tão ralas que não conseguem ver a diferença entre uma pessoa vazia e alguém interessante?

Talvez seja essa a resposta: eu tenho é medo de parecer estranha como esse pessoal do sorriso constante. Eu hein!

14 de fev de 2015

Solução final

Embora gerados durante o dia, sem dúvida eles são seres noturnos. De noite é a hora em que respiram e finalmente olham para o céu. É a hora da viagem, a hora de partir para outra.

Passo de carro, distante e perfumada. Sou o oposto deles. Observo-os tristes, cinzentos, desistentes. Todos "penteados para morrer" com um ridículo "pitó" no alto da cabeça. Uma idignidade.

Estão azedos, empanturrados. Foram postos para fora às pressas. Uma vez paridos, incomodam.  Não pediram pra existir.  Chegaram a acreditar que guardavam relíquias mas descobriram que são apenas o excremento, aquilo que ninguém mais quer. 


Ali estão, à beira da calçada, como quem espera o trem para o campo de concentração. Serão submetidos à "solução final". 

Cansados e sem nada a dizer uns aos outros, esperam. Estão doloridos mas olham o nada sem reclamar ou pedir alívio. Talvez ainda guardem uma esperançazinha de reciclagem. Uma nova chance - quem sabe? 

Juntos, espremidos na calçada, não conversam entre si nem fazem perguntas. Não há curiosidade, só medo e cansaço. 

De dentro do meu carro me pergunto se eles sabem para onde estão indo. Há uma silenciosa e triste expectativa. 

Ajuntamento de mães-sem-filho, de velhas doentes, de trabalhadores inutilizados... Assim se parecem. Amparam-se uns nos outros com suas sujidades. Desvalidos.  É possível vê-los infalivelmente ali, nas calçadas, com suas olheiras e papadas.

Um barulho! Breve comoção. Não, nada de nave espacial. Só um caminhão sujo que lhes abre a  boca. Então embarcam um a um, úmidos da noite, em conformado silêncio. Eles sabem do que se trata mas aceitam ir.  Preferem ir

Morro de pena dos sacos de lixo.

10 de fev de 2015

Colecionar sonhos

Às vezes me irrito com essas pessoas que nos mandam sonhar mas ao mesmo tempo nos advertem - veementemente - de que temos mais é que viver o presente. Elas precisam saber que quem se põe a cultivar sonhos acaba dando um tempinho no presente. Porque os sonhos são justamente o que nos ajudam a aguentar o presente sem precisar pensar demais.

Não acho que todos precisemos de sonhos. Basta que tenhamos bons planos. Gosto mais de planos do que de sonhos - e não me venha dizer que é a mesma coisa.

Planos não envolvem necessariamente fantasias fabulosas nem são o centro da nossa vida.  Planos são apenas um caminho escolhido entre tantos outros. Se não der certo a gente encontra outro plano e segue em frente. Já os sonhos grudam na alma e nos perseguem até quando dormimos.

Planos a gente escolhe. Sonhos nos sequestram.

Para nossos planos temos roteiro e GPS. Para os sonhos não. A gente não consegue nem saber onde começam e onde terminam. São desfocados do começo ao fim. São bonitos mas meio turvos e sem objetividade. Não tem forma definida nem cabrestos.

Você pode sonhar a vida toda e não fazer nada. Já os planos, eles não aceitam de você tamanha passividade.

Pra sonhar basta não ter o que fazer. Já para ter planos é preciso pelo menos uma caneta e um papel. E uma calculadora.

Não sou contra sonhar. Sou é contra essa coisa de acharem que é possível cavalgar em sonhos e ao mesmo tempo viver intensamente o presente.

4 de fev de 2015

Manhã calma



O sol me espreita por trás de algumas nuvens cinzentas. Parece rir.  Ele vai e vem, indeciso entre brilhar e dormir. Acho que ele ainda não acordou direito. Sei que isso não é real, mas a impressão dessa manhã é de que está tudo bem e brotam esperanças pelos cantos das ruas. De vez em quando alguma esperança cresce, vinga, se estabelece e coisas boas acontecem. Aqui onde moro é bem silencioso, embora seja o centro da cidade. Amo o silêncio e amo o sol brincando de esconde-esconde.

3 de fev de 2015

Profanação


Gosto de museus  mas me sinto culpada quando os visito. Sinto uma coisa meio estranha enquanto transito por seus corredores arrastando minha curiosidade mórbida. Esbarro distraída em todos aqueles espíritos antigos e tristonhos como se fossem nada. No entanto eram pessoas, tinham sentimentos e não vieram ao mundo para nos entreter.

Me parece condenável tirar aquelas fotos gaiatas enquanto vou espiando, tossindo, vasculhando  e tentando me apossar de segredos de família. É mau querer completar os pontos obscuros das suas histórias a meu bel prazer. E é insana a facilidade com que passamos a acreditar em nossas próprias conclusões quando tentamos completar as lacunas das suas vidas. Como se todos fôssemos pura lógica... Não somos. Ao meu redor tudo é surpreendente, estranho e encantador.

Pelos corredores encontramos, aqui e acolá, versões mal costuradas de personalidades enigmáticas. Penso agora que talvez tenham sido cobertas por falsos enigmas e só posteriormente envoltas em mistérios que agora são vendidos como souvenires. Nosso desconhecimento atribui a eles mistérios que jamais o foram enquanto viviam. Talvez eles tenham sido pessoas simples e previsíveis, só que insistimos em nos encantar com o a parte que não tivemos acesso. Como em qualquer fofoca de vizinhos passamos a julgar os mortos como se detivéssemos informações privilegiadas e suficientes, como se tivéssemos convividos com eles. Pesamos suas motivações sabendo que eles não podem se defender. Atribuímos-lhes falas e gestos que não presenciamos. Transformamos registros tendenciosos de história em oráculo.  Divertimo-nos com isso tudo como se eles fossem saídos do mundo Disney. É como se, depois de mortos, eles passassem à categoria de "desenho animado".

É uma forma estranha de desrespeito isso de entrar em palácios para revirar angústias. Eu não gostaria que hordas de estranhos invadissem meu lar para reduzir a história da minha família a uma tese furada ou mero entretenimento.

Ninguém sabe se realmente se divertiam naquelas festas ou se choravam escondido. Talvez tenham sido maus por puro medo. Talvez tenham sido bons. Talvez - muito provavelmente  - tenham sido as duas coisas, como todos nós.

Ninguém sabe das ânsias que percorriam aquelas carnes brancas envelopadas em brocados herméticos. São fantasmas saqueados, abusados pela indústria do entretenimento.

Sei lá, acho que isso incomoda alguém em algum lugar. Na eternidade deve haver algum lugar de castigo reservado especificamente para os turistas.

Eles eram reais, aquela era a casa deles, seu lugar íntimo onde você jamais entraria se ainda estivessem vivos. Lar é um lugar sagrado. Nenhum lar deveria virar museu.

Meio estranho o que digo... mas é isso que sinto. Você não?

28 de jan de 2015

Dormindo...




Madrugada. Pedi a noção da hora e do tempo. Essa é a maneira mais eficaz de entendermos o que é eternidade: eternidade é quando o tempo não passa; ou não passa de uma ideia distante. É quando o tempo vira um presente distraído, sem pretensão de ser eterno mas sendo. E o tédio é esquecido.

Não há tédio na eternidade, porque tédio pressupõe um gotejar constante do tempo. Só que a eternidade não goteja.

Penso em coisas doces que só são doces porque assim pensei.  Sou seduzida pela ideia de que as pessoas todas estão dormindo e ao dormir estão sendo inocentadas. Ninguém é mau dormindo.

Madrugada é quando todos nos tornamos tão desprotegidos e inocentes quanto as crianças. Oito horas sem disputas nem mágoas nem crimes, ódios, cansaço, medo, egoísmo, luxúria.  Oito horas sem dor ou traição. É nessa hora que os anjos descem do Céu para passar bálsamo nas feridas das pessoas ou simplesmente passar-lhes as mãos pelos cabelos.  E enquanto isso sugerem sutilmente em seus ouvidos sonhos mágicos que terão o poder de satisfazer-lhes todas as insatisfações.  

A cidade vira um imenso berçário. Como condenar alguém enquanto dorme tão mansamente e desarmado?  A morte só deveria ter permissão de chegar durante o sono, quando ninguém tem pecado. Felizes os que morrem dormindo.

É nessas horas que chego a acreditar que há uma salvação para a humanidade.  Me ocorre que assim, desprevenidos, todos poderíamos ser reprogramadas para o bem. Um novo chip.

Gosto de pensar que agora todos estão sendo acometidos de um sonho lindo, lindo de morrer! E quem sabe cada uma dessas pessoas vai se comover muito com o sonho e acabar se convencendo de que precisam muito mudar o mundo.  Um anjo com voz doce pode sussurrar coisas irresistíveis nesses ouvidos distraídos derretendo até o mais empedernido dos corações. Talvez uma linda música seja o suficiente...

Aí ...   aí esses bebezões acordam, leves como a leveza, leves como o perdão, como se tivessem dormido por mil anos.  E assim, como que por nada, uma vontade de perdoar torna irresistível o ato de perdoar. Disso resulta que de cada relacionamentos brota uma primavera atrasada, com flores desencontradas e encantadoras e todos se esquecem de cobrar dívidas.  E, "do nada", todas as exigências dos dias passados se tornam absurdas demais para serem levadas a serio. 

O que as impede de acordarem melhores? Nada! E se essa ideia for uma premonição?

O que convenceria as pessoas invencivelmente? 

Me disseram que sonhos mudam tudo. E quem pode contra os sonhos? Eles pousarão sobre nossas cabeças como mosquitos dourados contra os quais ninguém pode lutar.   Uma dessas madrugadas pode ser a madrugada fatal que mudará nossos destinos. 

E assim, noite adentro, começo a achar que um milagre gigantesco está minando as pessoas e eu assistirei tudo, encantada, tão logo o dia surja.  "Amanhã será um lindo dia da mais louca alegria que se possa imaginar" - já cantou o profeta Guilherme Arantes. 

A madrugada esvaiu-se. E eu não estava  acordada. Tampouco dormindo. Não sei onde estive ou como estava, que fui capaz de acreditar numa contaminação milagrosa desse gênero. Agora, com o barulho das buzinas, toda a fé ingênua me abandona como se tivesse sido apenas um encosto distraído que esbarrou onde não devia.

Bom dia.

15 de jan de 2015

A beleza repentina - Gustav Klimt


Como todos os seres normais, emociono-me com cenas tristes. Mas como os seres não muito normais, a tristeza me comove muito menos que a beleza.  

Um quadro, uma criança rindo, uma música, um ambiente especial, uma "qualquer-coisa" linda demais... e então lá dentro eu me dissolvo e tudo em mim fica lânguido. É uma espécie de "abalo interior". Ou um a espécie de "pequeno susto" que dura uns três segundos antes do nó na garganta. O nó na garganta, por sua vez, dura uns cinco segundos antes  do invencível alagamento dos olhos. 

Não aprecio essa característica minha. Acho que existe uma hierarquia nos sentimentos que deve ser respeitada. A tristeza tem que vir em primeiro lugar. Mas estranhamente eu a suporto no coração por mais tempo. Já a beleza não, ela explode sem eu querer.

Talvez a tristeza se forme mais lentamente, aderindo aos poucos, tomando corpo. Nesse mundo complicado estamos propensos a ficar mais alertas ao ataque da tristeza. Por isso ela perde a capacidade de nos surpreender. Já a beleza não. Ela tem o estranho dom de ser repentina. Você não a vê: depara-se com ela. É como a morte: te pega sempre desprevenido.

Não, não sei se essa é uma boa explicação. Mas algo me diz que preciso de uma boa explicação para essa inversão de valores. 

Bem, a gente não escolhe esse tipo de coisa. Nossa alma é independente. É como uma criança não muito educada vagueando pela sala de uma amiga rica, cheia de cristais. Nossa alma insiste em esbarrar onde não deve, correr entre os móveis. Precisamos tomá-la pela mão e mandar sentar. Minha alma chorando mais por beleza que por tristeza é uma criança, voluntariosa, inconveniente, espontânea.

AMO Gustav Klimt. Identifico-me demais com as suas pinturas. Aquelas cores, aquelas minúcias, flores com dourados, aqueles olhares, a respiração das mulheres, a candura dos homens, as expressividade das mãos, os momentos exatos, o ruído das sedas, a intimidade dos ambientes,  o silêncio, os rostos sonhando, o gozo, aqueles seios que não precisam ser grandes - meu Deus! Tudo evoca um mundo adormecido, intenso, colorido e inconfessável que trago dentro de mim. Então me ponho a olhar, olhar, olhar...  e sinto que por instantes me tornei mais sensível e propensa e perceber emotivamente as cores do mundo. 

Apenas anotem: Gustav Klimt é o meu pintor preferido. Ele só pinta o que meu coração pede. 

Se alguém souber onde posso conseguir reproduções das suas obras, por favor me diga.




e


9 de jan de 2015

Lá dentro

Hoje estou achando o seguinte: tudo já está lá dentro, encubado.

O ciúme, por exemplo, é desse jeito. É um estado doentio que só precisa de um fiapo de qualquer coisa para subir no palco o fazer o show. Na verdade o ciumento não precisa de fatos. Se existem, ótimo, está tudo justificado. Se a realidade não coopera, não tem problema. Fatos a gente inventa pra se distrair.

E a maldade? Também precisa de uma desculpa para mostrar a cara, mas todos deveríamos saber que ela existe antes dos fatos que pretensamente a geraram. Ela está lá dentro, latente. No início é apenas uma ameaça que ninguém percebe. Só se vê uma pontinha, mesmo assim só se prestarmos muita atenção. Irmãos injustos, pais violentos, mães ausentes, governo corrupto, colegas cruéis, tudo coopera não para ela existir, mas para ela sair do armário. Ela só aparece porque já existia antes de ser chamada.

Algumas pessoas sofrem violência e isso lhes dá a "licença necessária" para serem o que elas acham que têm o direito de ser. Outras pessoas, no entanto, preferem iniciar um movimento contra a violência e ajudar o próximo. Uns estupram porque foram estuprados; outros tornam-se terapeutas que ajudarão pessoas com esse histórico. É sempre uma escolha.

Ou não...

Caramba, esses dias escrevi uma frase dizendo justamente o contrário disso tudo. Comentei sobre o quanto achava estranho perceber que escolhemos tão pouco na vida. Naquele dia minha cabeça militava em sentido inverso ao de hoje. Parecia-me, isso sim, que as coisas acontecem independentemente das nossas escolhas. Somos impelidos pelos fatos e pelo destino assim como folhas são impelidas pelo vento.  Somos seres aleatórios com delírios de controle. Tudo ilusão.

Pois termino o texto com essa "conclusão inconclusiva". Mudo assim como o vento muda e talvez o mesmo vento que desenhe o meu destino seja o que brinca com minhas conclusões e faz das reflexões o mesmo que ele faz com qualquer coisa leve e solta nesse mundo.