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26 de mar de 2015

Em casa


A tarde está realmente linda! Uma cara alegre, um resto de sol laranja. Mas meu apartamento está arrumado, cheiroso, e não consigo pensar em melhor lugar para estar do que aqui mesmo.

Lembro de um ditado antigo que minha madrinha sempre recitava, para a minha revolta: "boa feitoria faz quem na sua casa fica em paz."   Ela sempre dizia isso nas horas que eu mais queria sair. Eu a pressionava para nos levar para passear e ela vinha com essa. Pois hoje concordo e repito, rindo, o mesmo para os meus botões.

Quando criança o que eu mais queria era crescer logo para poder sair sozinha. Sair sem precisar de permissão nem guarda-costas nem dar satisfações a ninguém. Pois veja você como a vida é irônica... hoje posso tudo isso mas prefiro me refestelar aqui no sofá, escrevendo, ouvindo música e depois vendo um filme, cochilando, pensando na vida, visualizando o futuro, considerando o passado. Banho tomado, toalha úmida.

Eu queria crescer logo para poder ficar sozinha e fazer o que eu quisesse. E hoje tudo o que eu quero fazer é o mesmo que os adultos da época faziam.

22 de mar de 2015

Percepção


Os daltônicos não conseguem perceber algumas cores. Nem por isso alguém imagina que tenham melhor ou pior caráter do que os outros.

Claro que você já sabe onde quero chegar. Cada dia mais me convenço de que acreditar na existência de Deus não é exatamente uma questão de fé, mas de percepção. Não posso ser considerada incrédula se não consigo enxergar o verde.

Parece-me que quem não percebe Deus é apenas alguém com uma vida menos colorida do que a minha. É uma forma de "daltonismo espiritual".  Para alguns Deus parece tão obvio, tão claro! Mas para outros não. Eles juram que não existem números nos discos dessa ilustração. O que a gente faz com eles? Nada. Basta saber que são daltônicos.

18 de mar de 2015

Meu pedestal e o conceito de utilidade

Há coisas que me irritam. Uma delas é essa teoria que tenta me desbancar do pedestal que ocupo.

Coisa mais chata é essa ideia de atribuir obrigação aos humanos. O tal "conceito de utilidade".  Ele consiste na ideia de que estou aqui no mundo para cuidar dele, para garantir árvores e mares para as próximas gerações. Isso é algo que me encolhe, como se eu não fosse mais que uma minhoca a arar a terra. Tudo bem que Adão recebeu a tarefa de gerenciar o mundo, mas acho que o lance teve um caráter marcadamente hierárquico. Ele era o chefe. Não é?

Acho desconfortável a ideia de que eu "existo para".  Prefiro pensar que minha nossa presença no mundo é algo ótimo independentemente de qualquer conceito de utilidade que possa ter.  Prefiro considerar minha nossa existência como sendo um fim em si mesmo. É porque é. Valemos a pena, foi uma boa ideia e não precisamos de motivo melhor do que este para continuarmos desfrutando do planeta.  Por exemplo: eu. Se eu não fizer nada na vida ainda assim valho a pena tão somente por ser um exemplar único e interessante. Pode procurar por aí e não vai encontrar ninguém igual a mim. Presumo que o mesmo fato curioso ocorra em relação a você.

A galinha, o porco, o boi, a árvore, os rios, são "para". Eu, não.

Aprecio e curto essa visão egocêntrica do mundo. Ainda não apareceu nenhum bicho para contestá-la e dizer na minha cara que estou errada.

Desfilo então entre cães e árvores perfeitamente convencida de ser a estrela da criação. Se não tenho permissão para depredar, nem por isso deixa de ser verdade que a natureza está aí para me dar alimento, segurança e entretenimento. Note que há espécies incríveis de seres com cores e caras as mais engraçadas possíveis. Para quê existiriam se não para divertir o único terráqueo com senso de estética e humor?  Bicho só presta atenção em bicho se for pra comer. Fora isso pouco importa que carreguem em si todas as cores do arco-íris ou que não passem de pássaros chochos.

Ser o centro do mundo é emocionalmente saudável. Auto estima e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.  Além do mais tenho o bom senso de levar comigo, ao topo da natureza, todos os demais companheiros humanos. Observe que não vou sozinha. Carrego-os alegremente no samburá da minha teoria à posição hierarquicamente mais elevada do mundo. A eles me igualo - mas só a eles! Não abro exceção nem pra cachorros. Ou melhor: muito menos pra cachorros, que vivem fuçando e batalhando uma carona no nosso trono.


13 de mar de 2015

Liberdade - terceiro estágio


Em um primeiro momento as pessoas relacionam "liberdade" a locomoção e expressão. Está certo. Poder ir e vir sem impedimentos ou importunações e poder expressar livremente o pensamento, isso é liberdade. Mas há o segundo estágio. 

O segundo estágio de liberdade está ligado ao TER. Só seria realmente livre quem não tem necessidade de se vender. Segundo essa visão, minha liberdade seria do tamanho da minha conta bancária. Esse conceito é muito utilizado por militantes e militontos - dependendo da situação. Não é um conceito errado - faz sentido! A pobreza escraviza e dificulta que uma pessoa escolha seu caminho e expresse seu "eu".  Só que há também o terceiro estágio. 

Não sei bem se posso chamar de "terceiro estágio" ou  seria melhor "terceiro conceito". E não tenho muita certeza, mas me ocorre que o terceiro conceito pode entrar em choque com o segundo.

O terceiro estágio - ou conceito - é a LIBERDADE DESESPERADA.  Acho que é a liberdade mais autêntica, profunda e animal. É a liberdade de quem não tem mais nada a perder. E odeio dizer isso, mas talvez seja a liberdade que mais nos falte. Nossas posses nos prendem. Só quando nos desvestirmos delas é que seremos realmente livres, pois não temeremos nenhuma ameaça.  Eu e meu tacape - vai encarar?   Aqui deixamos o conceito de ir e vir ou  liberdade de ter. O lance agora é  "liberdade para se rebelar".  

Os movimentos operários só foram possíveis a partir da exploração extrema. Enquanto há bônus, há medo de perder o bônus.  Quanto maior o conforto, mais mole é a bunda. Quanto mais pobre o trabalhador, mais fácil é organizá-los para a luta. E se nem trabalhador ele é, aí temos uma fera, uma bomba nuclear. 

Vejam os senhores a relevância social do dinheiro - e da sua ausência. 

Se por um lado o governo tem nos tirado muito, lembremos que o efeito colateral disso é que está nos empurrando para esse nível primitivo e feroz. Jamais encurrale um homem; ele se torna perigoso e imprevisível. Até certo ponto tirar enfraquece. Mas a partir de determinado momento tirar animaliza e, de certo modo, fortalece

Nunca tire tudo de uma pessoa. Deixe uns agrados, umas migalhas, para mantê-la na coleira.

Vem aí as passeatas do dia 15.  Será uma data importantíssima mas desconfio que seu valor fique mais no aspecto simbólico. Pelo menos a princípio. Isso porque ainda não chegamos ao estágio animal da liberdade. Ainda temos muitos receios, muitos pequenos confortos que não queremos perder. Nossa fúria ainda não foi realmente despertada.  E justamente para não perder esses pequenos confortos é que nos manifestaremos. Deu pra perceber o nível de contradição dessa situação? 

Seríamos uma massa poderosa e assustadora se não tivéssemos mais nada a perder. Não somos - e estamos lutando para continuar não sendo. Lutamos para continuar sendo fracos. Não sei como fugir disso.

Não estou fazendo apologia a nada. Só estou constatando uma situação curiosa.

O governo está testando nossos limites. Mas precisamos perder mais ainda.   Ainda não perdemos o suficiente para nos tornarmos ferozes. Ainda somos gatinhos miando.

9 de mar de 2015

Tapetinhos tortos


Acho que me agarrei primeiramente às meias velhas da mamãe. Você entende o desespero por guardar pedacinhos das pessoas.  Eu queria relíquias. Fiquei também com umas blusas e uns pentinhos de cabelo, mas nada era mais "real" do que o par de meias velhas e os óculos quebrados.

Guardei essas coisas com a reverência dos tolos mas evito olhar para elas. Sempre me pergunto "por quê?" e digo a mim mesma que vou jogar tudo fora.  O fundo do meu armário é que sabe das minhas decisões inconclusas...  Vai chegar um momento em que precisarei me desfazer dessas e de outras coisas. Acho que tem a ver com "maturidade sentimental" - se é que isso existe.

Hoje, saindo do banho, me dei conta de que meu tapetinho de barbante  também é uma relíquia da mamãe. Apesar do carinho em tece-lo para mim, ela já estava cansada e sentia dores. Ela me confessou que não contou corretamente os pontos do crochê, de forma que o tapete ficou meio tortinho. Ela não teve paciência de desfazer tudo desde o início para corrigir a falha. Pediu para eu não reparar e me deu assim mesmo, carinhosa e encabulada.  Ela era perfeccionista mas a idade chega...  E essa foi a primeira vez  que vi seu perfeccionismo ser vencido.

Que reconfortante é meu tapetinho torto!  Como acolhe carinhoso os meus pés! Ele ainda me ensina e adverte. Quando o vejo, se estou alegre ele me aponta o dedo no nariz avisando que o tempo passa e nos rouba paciência e habilidades.  Quando estou meio triste ele diz  que  "-  Eu sou tortinho muito a propósito. É para você lembrar que não precisa se amargurar pelos seus erros. Não precisamos ser perfeitos para sermos amados. E eu estou aqui como testemunho disso, como um recado de sua mãe pra você!"

Acho que toda a nossa história com as pessoas são assim:  coisas que tecemos e que se perpetuam, sobrevivem a nós mesmos.   Nossa ternura e nossas falhas ficam impressos com toda a sinceridade do mundo, como uma espécie de DNA simplificado pra quem quiser ler.  É o nosso "livro da vida" . Deixamos pra trás carinho entremeado com pequenas falhas que não estragam tudo, mas também não podem ser ignoradas.  Não conseguimos puxar o fio, voltar atrás até o começo para consertar as coisas, mudar o início do que deu errado.  No final da vida temos que entregar o tapetinho torto mesmo, com um pedido de desculpas.

O tapetinho do banheiro é sempre um doce sermão. Se ele fosse reto e perfeito não seria tão amigo.

Minha mãe possuía tantas virtudes que eu me sentia uma formiga perto dela.  Foi um gesto imensamente delicado abrir mão de sua vaidade para me deixar uma lembrança de sua própria imperfeição.  Como uma mãe que se abaixa para abraçar a filha, ela desceu um pouco para que eu me sentisse melhor ao longo da vida. Desconfio agora que o "erro", ao tece-lo, não foi acidental. Ela queria que eu entendesse que a perfeição não é o sentido da vida. O sentido da vida é o amor. Se eu amar, ainda que deixe para trás tapetinhos tortos, eles sempre serão olhados com ternura, com perdão e com sorrisos.

5 de mar de 2015

Um sonho aproximado

Pela enésima vez fiquei desapontada com a raça humana.

Lamentável o festival de alegria que se instalou na internet quando descobriu-se que a Globo não renovou o contrato com a Xuxa - lembram?  Notei que as pessoas curtiam o fato com uma mórbida alegria. Adoraram imaginar  Xuxa sem emprego, rejeitada, esquecida. Delícia poder acreditar que ela sofria e finalmente iria pagar por se atrever a ser bonita e rica. 

A  mesma espécie de alegria acometeu os internautas quando noticiaram que  Eike Batista estava mal nos negócios, amargando prejuízos.

Embora o espírito de justiça carniceira exista e a inveja impere, é necessário entendermos que esses ricos são a encarnação do nosso sonho dourado. E a encarnação de qualquer sonho traz o sonho mais pra perto. Pelo menos teoricamente.

Em contraponto aos abutres existe também outra maneira de encarar os bem sucedidos. Para mim "o mundo de Caras" tem um grande valor simbólico e só por isso ele subsiste. Ele nos passa a mensagem fundamental de que tudo aquilo que sonhamos, de fato existe. Há pessoas reais vivendo em um "mundo perfeito". E há também pessoas reais que viviam no nosso mundo imperfeito e conseguiram passar para o lado de lá. 

Claro que a vida dos ricos não é perfeita mas pelo menos do ângulo que olhamos ela se parece com um sonho. Ninguém quer um mundo onde não exista a chance, ainda que remota, de passarmos para o lado de lá.  Poucos conseguem, mas a simples possibilidade teórica já acalenta e joga uma cor à vida. Sei que é politicamente incorreto dizer coisas assim. O certo é odiar os ricos, torcer pelo seu infortúnio e roubar para tentar ser como eles. Mas dá licença, tá? Eu não consigo!

Sonhar faz bem. Sem isso a vida é nada.

Gosto de saber que essas pessoas existem. Desculpa aí! Elas representam um conto de fadas trazido para a vida real. Porque fadas e duendes não existem, mas ricos existem!  Por isso que a família real inglesa está lá, firme e forte. Eles são relíquias, são quadros viventes a serem visitados para encherem nossos olhos de beleza.  Acho que a gente precisa desse sonho aproximado. Sapos virando príncipes eram distantes demais!

É justamente esse último alento que o comunismo rouba das pessoas. Ele o desintegra por completo e transforma em pó qualquer fantasia que acalentemos de um futuro mais dourado. Ele é cruel também por isso.

28 de fev de 2015

Prédios e belezas


Ontem, final de tarde, eu transitava em um dos viadutos da cidade. Do carro olhei e vi o céu desistindo do turquesa. Ele escurecia devagarzinho, meio embaçado por nuvens e poluição. Vi e amei os prédios. Pareciam tão imponentes ignorando o cansaço, a sujeira e o calor! Pareciam tão cônscios da necessidade de parecerem bonitos para a gente que vem do trabalho!

Certamente as árvores parecem belas para os pássaros cansados. Parecem lindas também para a família dos macaquinhos que fazem delas sua casa. Acho que os prédios cumprem, para nós, o papel de árvores.  Talvez por isso eu tenha conseguido achar beleza naquele amontoado de concreto, silenciosos e estéreis.

O céu escurecido, as nuvens com suas cores indecisas, os primeiros postes acordando. Com meu olhar já lapidado pela cidade e sua estranha estética, achei bonitos os prédios assim, levantados contra o céu,  criando um efeito interessante. São nossas árvores onde nos amontoaremos com nossas famílias para nos proteger e descansar. Só por isso são bonitos, porque concreto não tem outra graça.

Num relance vi as primeiras janelas acendendo e quase senti o cheiro da sopa e o cheiro dos vapores perfumados dos banhos dos que voltaram do trabalho. E tudo azulava.

Os prédios são bonitos para nós, que vivemos na cidade. Talvez não sejam tão aconchegantes quanto as árvores, tocas ou cavernas, mas foi o que conseguimos. Daqui não ouvimos barulho de riachos ou de passos pisando folhas. Aqui as pessoas se anunciam de outras formas mas isso já nos serve. Basta que cheguem, basta que não nos deixem sós.

Vistos de cima os prédios parecem menos maternais. São paredes que formam magníficos labirintos.

Interessante como podemos ver beleza em algo tão antinatural. Posso olhar para o céu e partilhar da mesma emoção de civilizações antigas mas não posso olhar para nossos gigantes de concreto e partilhar nada com o passado, nada com o meu eu primal. É uma coisa só nossa, só do hoje.

Não acredito que silvícolas enxerguem qualquer beleza ou romantismos nos prédios mesmo num final da tarde azul.

A beleza mora dentro, não fora da gente. Isso me leva a pensar que talvez as pessoas cruéis tenham seu senso de beleza diminuído devido ao processo de embrutecimento que as tornou más. A maldade é a anti-beleza.   Não acredito então que "eles" sintam o mesmo que eu sinto quando olho as estrelas ou mesmo os prédios encardidos. Eu, em minha maldade, gosto de pensar que a vida subtrai dos cruéis alguma coisa preciosa, independentemente da punição que tenham recebido - ou não - da sociedade. Que percam a capacidade de se emocionar! - penso eu.

E não seria isso maldade também?

Penso agora que a ausência de senso de beleza só tornaria os cruéis mais cruéis ainda.  A beleza não nos enternece? Até que ponto privar-lhes dessa sensibilidade seria uma punição inteligente? A quem interessaria isso?

Nada sei, nada sei...

Será que as pessoas bondosas desfrutam de mais beleza do que as más? Ou não? Talvez eu jamais tenha resposta para essa questão. Só sei que achei bonita-bonita a cidade naquele final de tarde, com seus milhares de prédios... e as nuvens lá em cima.

24 de fev de 2015

O preço de um barraco

De todos os imóveis disponíveis no mercado imobiliário, certamente o barraco é o mais caro.

Até que aprecio um barraco. Eles tem relevância social e são respostas prontas para problemas do aqui-e-agora. Só que não basta gostar de barracos: temos que tem cacife para bancá-los. Porque embora em alguns momentos pareçam irresistíveis, o fato é que podemos passar o resto da vida pagando suas prestações. Todo cuidado é pouco. Mesmo assim, armar  um bom barraco às vezes vale a pena. Nada como a quizumba  certa na hora certa. Veja essas situações:


1- Manifestantes queimando pneus em via pública. Dá vontade de já sair do carro gritando "Você é valente, ô palhaço? Então vá fazer essa gracinha na frente da casa do Prefeito, do Governador ou para o Palácio da Justiça!

2- Flanelinha que jura que é dono da rua. 

3- Discurso de pseudo-intelectuais convictos de que Cuba é o paraíso.

4- Vizinho dando festa infantil com palhaço surtado e musiquinhas insuportáveis. 

5- Motorista mal educado.

6-  Corruptos criando dificuldades para vender facilidades.

7- Novas leis que só pioram nossa vida.

8- Amigo pidão.

9- Vizinho que não respeita vaga de garagem.

Não vou mentir: já "comprei" alguns barracos poderosos ao longo da minha vida.  Mas mais cedo ou mais tarde a conta chega, pode crer.

Pensando nesses aborrecimentos, as minhas fantasias de hoje tem a ver com bomba, chuva de meteoros, vulcões em erupção e fim do mundo. Mas calma, não sou uma pessoa perigosa, até porque a maioria das nossas fantasias a gente acaba não realizando. Você sabe disso muito bem.



23 de fev de 2015

Cansada

Filmes, noticiários e vida real: estou cansada do mundo. Cansada de tanto sangue e de tanta maldade. Cansada de tentar entender como é possível existir pessoas que dedicam a própria vida a criar um inferno para si e para os outros. Cansada de ver tudo se desintegrar a minha volta e não conseguir fazer nada. Cansada, cansada. Não quero salvar o mundo; quero o fim do mundo. Juro. Isso aqui não tem mais jeito. O mal já alcançou uma proporção tal que estamos falando de uma laranja podre. Pra que serve uma laranja podre? 

Estou cansada do engano, dos enganadores e dos que gostam de ser enganados. Estou cansada dos que preferem viver uma mentira e se satisfazem com superficialidades vendendo a alma em troca de uma boa imagem. Estou cansada de ver crianças nascerem e nós saudarmos seu nascimento como se fosse algo bom para elas. Não é. Ninguém precisa nascer. O mundo não é um lugar bom. É maldade trazer esses anjinhos à luz. Eles não sabem o que os espera. Estou então cansada de ter pena dos anjinhos, cansada de chorar pelo seu futuro, cansada de ter medo pelos meus filhos, cansada do mal. Cansada até de me sentir culpada pelo alívio que sinto quando uma pobre criança, por fim, não nasce.

Cansada.

20 de fev de 2015

À margem


Jesus disse que veio ao mundo para "desfazer as obras do diabo". Disse também que quem o seguisse e imitasse iria enfrentar todo tipo de perseguição.

Alguns entendem que "desfazer as obras do diabo" tenha a ver com sair por aí praticando o exorcismo. Se fosse isso seria tão fácil! Estou certa de que Cristo nos chamou para desfazer o mal onde há maldade, impor o bem onde o mal impera, limpar o que está sujo, desentortar o que está torto e por aí vai. Ele não se referia simplesmente a assuntos "espirituais" e impalpáveis.

Acabei de assistir Clube de Compras de Dallas. Um bom exemplo do que é ir se deixando levar pelo que é certo e descobrir de repente que está andando na contramão do mundo.

O mundo se move por interesse, ambição, vaidade, dinheiro e sexo. Ninguém liga muito para essas afirmativas até o dia em que vê, como o personagem, as pessoas morrerem por causa do lobby da indústria de remédios. A indústria de remédios pressiona o governo para só liberarem o medicamento que é do interesse deles, que dará mais lucro, ainda que isso custe a vida de milhões. Lutar contra isso significa perder dinheiro, conquistar inimigos, perder o emprego, perder a vida talvez.  Sim, "desfazer as obras do diabo" dá mais trabalho do que gritar "sai desse corpo que não te pertence."

De todas as lutas possíveis e imagináveis, nenhuma é mais árdua do que lutar contra leis injustas. No Brasil isso é claríssimo. Estamos lotados de leis injustas.

Lutar contra injustiças legais é lutar contra nosso sistema maligno em seu nascedouro. É nesse ponto que o sujeito se desespera. Percebe que as pessoas se vendem, que tudo depende de interesses mesquinhos e que essa historinha de justiça, igualdade, respeito, proteção à vida, é tudo conversa fiada. Ninguém está interessado nisso.

Fazer o bem é estar à margem, nadar contra, se desgastar, chorar e arrumar inimigos mortais. Se pra você "fazer o bem" se resume a distribuir cestas básicas, você ainda está vivendo no país dos sonhos. Distribuir cestas é bom e válido, mas lutar contra o mal é atacar justamente onde a pobreza é gerada. Aí você se indispõe tanto com o opressor quanto com o oprimido. Porque enquanto estiver adulando o discurso de vitimização tudo bem, mas quando começar a mostrar que certos maus hábitos tem que ser abandonados para a vida melhorar, aí você deixa de ser visto como santo e passa a ser visto como monstro.

É difícil. É dificil mesmo. Inclusive porque o mal está compartimentado. O poder não está  só na mão de um sujeito exatamente. É uma cadeia sem fim que não sabemos onde começa nem onde termina. Dessa forma ninguém se sente responsável pelas próprias maldades porque não começou com ele nem acabará com ele e qualquer coisa que se faça parece não afetar o todo. Chego a pensar que o poder centralizado seria melhor. Porque se tudo vai mal, sabemos a quem culpar. Quando a culpa não é de ninguém todos se sentem anistiados. Será? Nem sei...

É fácil fazer campanha na televisão contra o bulling. Quero ver você chamar atenção dos seus amigos, dizer que precisam conversar com seus filhos, corrigi-los e orientá-los. Você vai atrair ódio. Quero ver fazer campanha de conscientização no colégio pressionando diretores e professores, procurando os pais dos alunos opressores e dizer o que o filho deles está fazendo.

Ao fim de cada discussão para tratar de qualquer problema veremos que a culpa é dos outros, de um ser sem rosto que ninguém sabe onde mora. Ninguém tem culpa de nada. Somos uma sociedade de inocentes. Essa é a nossa desgraça.

19 de fev de 2015

Esforço amarelo

Estava lendo um texto sobre fazer amigos. Popularidade. Achei interessante constatar que a garota que escreveu, assim como eu, nunca teve muito jeito com essa coisa.

Minha vida toda ouvi comentários de que alguns me acham antipática. Ou metida. "Tipo assim".

Nunca fiz esforço para ser antipática. Sei que a afirmativa é meio estranha mas tem razão de ser. Porque existem pessoas tão amargas e despeitadas que fazem questão de provar pra todo mundo que não precisa cativar ninguém. Não sou assim.  Acho que o meu grande problema é não levar a sério minha fama de metida. Se eu me importasse seriamente talvez já tivesse me transformado em uma pessoa mais fofa. Mas deixo o assunto pra lá...e não evoluo.

Por que não evoluo? Ou melhor: por que me aceito? Primeiro porque as pessoas que vencem a impressão inicial e convivem comigo geralmente dizem que "não sou nada daquilo" e que muita gente que me critica iria mudar de ideia se tão somente me conhecesse melhor.  Outro motivo por que não tento mudar é que ...  na verdade tento, mas não adianta.

Sempre achei que todo esforço para a alguém ser simpático é um esforço amarelo. A coisa sai sem graça, o riso vai encardido e, por fim, falta assunto para continuar o papo-conquista. Sou uma pessimista: acho que não adianta. De antipático o sujeito vira um chato. Então entenda: não é que eu, orgulhosamente, não me esforce. É que eu não sei como se faz.

E tem mais: vejo com certa desconfiança as pessoas super-ultra-simpáticas. Estão sempre felizes mesmo? Aquele riso constante é o quê? Normal? Sei não...  Será que elas acham mesmo todo mundo legal?   Ou são tão ralas mas tão ralas que não conseguem ver a diferença entre uma pessoa vazia e alguém interessante?

Talvez seja essa a resposta: eu tenho é medo de parecer estranha como esse pessoal do sorriso constante. Eu hein!

14 de fev de 2015

Solução final

Embora gerados durante o dia, sem dúvida eles são seres noturnos. De noite é a hora em que respiram e finalmente olham para o céu. É a hora da viagem, a hora de partir para outra.

Passo de carro, distante e perfumada. Sou o oposto deles. Observo-os tristes, cinzentos, desistentes. Todos "penteados para morrer" com um ridículo "pitó" no alto da cabeça. Uma idignidade.

Estão azedos, empanturrados. Foram postos para fora às pressas. Uma vez paridos, incomodam.  Não pediram pra existir.  Chegaram a acreditar que guardavam relíquias mas descobriram que são apenas o excremento, aquilo que ninguém mais quer. 


Ali estão, à beira da calçada, como quem espera o trem para o campo de concentração. Serão submetidos à "solução final". 

Cansados e sem nada a dizer uns aos outros, esperam. Estão doloridos mas olham o nada sem reclamar ou pedir alívio. Talvez ainda guardem uma esperançazinha de reciclagem. Uma nova chance - quem sabe? 

Juntos, espremidos na calçada, não conversam entre si nem fazem perguntas. Não há curiosidade, só medo e cansaço. 

De dentro do meu carro me pergunto se eles sabem para onde estão indo. Há uma silenciosa e triste expectativa. 

Ajuntamento de mães-sem-filho, de velhas doentes, de trabalhadores inutilizados... Assim se parecem. Amparam-se uns nos outros com suas sujidades. Desvalidos.  É possível vê-los infalivelmente ali, nas calçadas, com suas olheiras e papadas.

Um barulho! Breve comoção. Não, nada de nave espacial. Só um caminhão sujo que lhes abre a  boca. Então embarcam um a um, úmidos da noite, em conformado silêncio. Eles sabem do que se trata mas aceitam ir.  Preferem ir

Morro de pena dos sacos de lixo.