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23 de set de 2016

E tudo começou com uma moedinha...


É chato ser chamada de miserável. Mas já fui. Só por  reclamar da imposição ameaçadora dos flanelinhas que insistem em se auto contratarem como nossos funcionários para desempenharem a "dificílima" tarefa de olhar os nossos carros.

Por muito tempo me recusei, na medida do possível, a pagar tal imposto. Hoje me rendi. Não sei o que é pior: o olhar ameaçador desses "cidadãos de bem" ou a pressão social dos "amigos" que acham que temos que nos sentir culpados por andar de carro próprio.

Antigamente as pessoas achavam que tínhamos o dever moral de fazer papel de babacas, tudo em nome da "caridade". Disfarçavam a covardia debaixo de um sorriso bonachão e trêmulo de quem não quer conflito. Agora como a coisa cresceu, enraizou e tomou conta de tudo, estes mesmos já começam a reclamar. Tarde demais. Antes nos chamavam de miseráveis. Agora que o valor da "taxa" só faz crescer e já estão até exigindo pagamento antecipado, agora reclamam.

O brasileiro perdeu a noção dos seus direitos. Não entende que imposto só se paga para o Estado - e olha lá!  Custam a assimilar a noção de  que você só tem que pagar pelos serviços de alguém a quem tenha contratado livremente e que se a gente sente receio de dizer "não" é porque tem alguma coisa errada aí.  Mas nosso povinho não entende que eu não tenho que reconhecer os direitos de ninguém sobre uma via pública. Que a via pública é pública.

Se há uma coisa que me irrita é covardia disfarçada de caridade.

Sou uma incentivadora de atos de generosidade. Ajudas, esmolas, auxílios, tudo isso deve fazer parte das nossas vidas. Não faz  bem a ninguém se trancar em uma bolha de egoísmo.  Mas uma coisa é DAR e outra bem diferente é ser EXTORQUIDO.

Pra extorsão não exite valor mínimo.

É necessário entendermos que se hoje alguém se julga no direito de me exigir dois reais, nada o impedirá de aumentar o valor da exigência amanhã. Se continuarmos assim, em pouco tempo teremos que começar a pagar pedágio pra bandido.  E não espere que o poder público nos defenda. É mais fácil o governo se associar a eles pra levar uma fatia.

Há uns anos, quando estive no Rio, fui estacionar perto do Pão de Açúcar e o bandido da área  queria cobrar trinta reais para eu deixar o carro em via pública. Não, eles não estão tomando conta dos carros. Eles simplesmente tomaram posse da rua e cobravam por seu uso.  Nossos governantes não fazem nada porque são da mesma laia. Um ladrão não se indigna contra outro ladrão. Há uma camaradagem implícita.

Nossa idiotice é tão crassa que observei por várias vezes pessoas amigas dando dinheiro a flanelinha com ar blasè, posando como se fosse um charme muito grande fazer papel de otário. Posando como quem diz "sou bem sucedido, umas moedinhas não me farão falta. Eu posso."   Dar dinheiro seria então uma evidência de que você está acima da plebe.

Se cinquenta reais por mês não fazem diferença para você então porquê não o dá a quem trabalha? Por que não aumentar o salário da sua empregada? Ou dê de gorjeta mensal para o porteiro.

Ah, e tem mais essa: eles já têm até associação! "Associação dos Flanelinhas, Lavadores e Manobristas" . Que direito pode ter alguém que me subtrai direitos?   Lavadores e Manobristas tudo bem mas querer remuneração por "olhar" o meu carro ? E sem meu consentimento?   Eu olho centenas de carros todos os dias e nunca ganhei um tostão com isso.

Ser explorada pelo Governo é uma fatalidade para a qual eu não contribuí. Mas pagar imposto para flanelinha foi uma coisa que CADA UM DE NÓS PLANTOU por pura palermice. Você, que sempre criticou pessoas como eu, é um dos responsáveis por estarmos nas mãos deles.

E antes que você me corrija eu já vou dizendo: NÃO, isso não é caridade; é extorsão mesmo.

19 de set de 2016

Eu perdôo o Neymar

Não entendo como é possível uma pessoa plantar manga e querer colher banana. Vejam só: pegam um adolescente pobre e, dizendo que ele é um pequeno gênio do futebol o colocam num altar.  Dali pra frente, sempre diante de holofotes e aplausos, submetem-no à seguinte rotina: eles o elogiam, adulam, lotam seus bolsos de dinheiro, comentam cada detalhe da sua vida como se isso tivesse alguma importância para o destino da humanidade, adulam, aplaudem,  imitam, oferecem a própria filha. Depois de vários anos de "tratamento intensivo" essas mesmas pessoas ficam indignadas quando descobrem que ele não se tornou um cidadão humilde.  Só pode ser piada.
Estou falando do Neymar. Vocês criaram o Neymar! 

Aprendam: quando a gente passa a vida tratando uma pessoa como se ela fosse especial, muito provavelmente essa pessoa va acabar acreditando que é mesmo uma pessoa especial. Ela foi convencida disso.

Neymar é humano e previsível. É suscetível a influencias externas. É produto do meio. Não é assim que se diz?  Então estão reclamando de quê?

Eu perdôo o Neymar.

4 de set de 2016

Um certo tipo de beleza

Odeio usar termos manjados.  Queria uma expressão mais criativa para a velha e gasta "beleza interior". Enquanto não encontro, prossigamos.

Há um certo tipo de poder - podemos chamar assim? -  um certo tipo de sedução que não se mede por exterioridades.  Essa coisa misteriosa se torna mais "perigosa" que a beleza física justamente porque nos desarmamos com ela. Não percebemos seu poder de fogo, não farejamos o perigo.  Somos então pegos de surpresa.

Não estou aqui afirmando que pessoas fisicamente horrorosas - se é que isso existem mesmo - não são o que são. Só estou dizendo que suas feiuras não tem, ou não teriam necessariamente poder algum sobre como as pessoas as vêem. Porque há "algo mais" dentro da gente. 

Essa coisa interior, que doravante chamaremos de "alma", tem sua existência comprovada justamente quando vamos a um funeral. A pessoa morta geralmente não se parece muito com ela mesma quando viva. Muda demais, parece outra pessoa. Sempre achei isso estranho. Esse fenômeno acontece porque o exterior não se manifesta sozinho. Um travesseiro cheio não se parece em nada com um travesseiro murcho. Tá bom, essa comparação não é muito boa mas dá pra entender.

Uma pessoa tem a aparência completamente alterada quando está feliz, quando está com inveja, quando está com ódio, quando está dormindo, quando está apaixonada, quando se ama, quando se odeia, quando está morta. Quem se acha feio, fica mais feio. Quem se gosta parece mais bonito. Fato. Pois então sem pieguice alguma concluo que é o interior que define como o exterior será percebido pelo mundo.

Eu até preferiria que não existisse  essa tal beleza interior porque ai poderíamos colocar a culpa das nossas feiuras no acaso, apenas.

Existem pessoas realmente especiais, que realmente não são "bonitas" mas são bonitas. Possuem um certo magnetismo que não sabemos explicar como funciona.  São bonitas mas não sabemos dizer "em quê" são bonitas. Há algo nelas que faz com que as tratemos como se fossem bonitas, que as desejemos como se fossem bonitas, que nos apaixonemos por elas como se fossem bonitas.

É esse poder que todos deveríamos desejar por se tratar da beleza real.  
Essa beleza da alma é a beleza que não acaba nem com as rugas. Alma é alma e alma se impõe. 

Admito que alma também envelhece e até envilece. Mas ela não está obrigada a isso. Ela não está, como nosso corpo, debaixo dessa sentença inexorável. A deterioração aqui é opcional. 

Para o corpo existem tratamentos, maquiagem, exercícios, roupas, remendos diversos. Para o embelezamento do espírito existe a convivência com as artes, com boas companhias, espiritualidade sadia, prática do amor, desenvolvimento do auto conhecimento...  

A feiura interior não é um destino de todos os mortais. Acho que por dentro talvez sejamos muito mais moldáveis do que por fora. 

Se eu pudesse escolher um tipo de beleza eu iria preferir a beleza que não acaba, não desvanece, não sai de moda. Eu ia preferir o charme irresistível que vem da alma e ofusca o corpo e tudo o mais.



1 de set de 2016

Desunamo


Chega a ser engraçado ver pessoas "neutras"cobrarem cabeça fria dos brasileiros nesse momento triste na nossa história. A gente vê a Constituição ser prosituida, cuspida e aviltada, vê baderna, vê todo tipo de roubo e de engano. E não podemos ficar irados e manifestar livremente essa ira justa. Por que não pode? Porque incomoda os "isentos". 

Há uma categoria de pessoas que ou está do lado errado ou está "isenta". Por medo de mostrar que simpatiza com a banda podre a pessoa posa de "imparcial" nos momentos mais críticos.  Não se incomoda com os terroristas , com grupos ameaçadores, com o quebra-quebra. Nada disso incomoda. Nunca se manfestam quando essas pragas estão corroendo nossa vida social. Mas quando alguém se levanta para protestar e mostrar indignação... Aí sim a pessoa se manifesta pedindo um comportamento ZEN de quem se vê afundando. Querem que afundemos em silêncio por ser mais "elegante".

Esse tipo de pessoa, quando não está defendendo a banda podre resolve dar  o braço a torcer de uma forma muito peculiar, dizendo que tudo bem, "os dois lados estão errados".  Não podendo defender os nojentos tenta jogar todo mundo no mesmo balaio. Ou então faz como eu já disse: posa de isento e cobra isenção silenciosa (é conivente) dos outros.

Não sei essas pessoas não se mancam ou pensam que a gente não as enxerga. Não sei qual é a delas. E sinceramente não quero saber.

31 de ago de 2016

OBSTINAÇÃO



"Quem é injusto, faça injustiça ainda: 
e quem está sujo, suje-se ainda; 
e quem é justo, faça justiça ainda; 
e quem é santo, santifique-se ainda."

Esse é mais u daqueles textos bíblicos meio "esquisitos".  Parece, a primeira vista, que as pessoas não estão sendo incentivadas a mudar de vida enquanto a finalidade da Bíblia seria exatamente o contrário.  Calma, a coisa não é bem assim.

Deixe-me explicar. Esse texto (de Apocalipse 21) está se referindo "aos últimos dias", àquela reta final da nossa era. Está se referindo a um tempo no qual cada um seguirá o caminho que escolheu. Seguindo-o em linha reta, lá mais adiante ficará bem clara a diferença entre uns e outros. A persistência numa escolha é que mostra a qualidade dessa escolha e a qualidade de quem a escolheu.

Ha pessoas que cometem injustiça e há pessoas que fizeram uma opção de vida pela injustiça. Há pessoas que eventualmente fazem o bem mas há daquelas que fizeram uma opção de vida pelo bem, querem o bem e se afeiçoaram a ele. São coisas bem distintas, pessoas muito diferentes, mas a curto prazo parecem farinha do mesmo saco. Não são. É disso que o texto fala.

Dias virão - diz o profeta - em que a diferença entre uns e outros se tornara cada vez mais evidente. Porque dias virão em que as pessoas terão dificuldade em mudar o caminho escolhido. Isso se chama OBSTINAÇÃO: seguir em frente sempre e sempre e não se desviar nem para a direita nem para a esquerda.

Se você desenhar no papel duas linhas retas e se essas linhas forem curtas você poderá jurar que são perfeitamente paralelas e que "caminharão" em linha reta para sempre, até o infinito, sem se distanciarem ou se cruzarem mais a frente. Se as linhas "não fizeram opção por terem a mesma direção", só muito mais adiante é que descobriremos isso. Porque em algum momento o que as diferencia ficará evidente.

O que o Apocalipse diz é que o justo e o injusto continuarão agindo como tais. Só que ainda que no começo eles pareçam alinhados um com o outro, tal ilusão de ótica se desvanecerá no final dos tempos.  O Apocalipse declara que as linhas não estão perfeitamente alinhadas e com o tempo todos veremos que cada uma estava "olhando" para um alvo diferente. 

As diferenças milimétricas se revelarão imensas se você continuar com o desenho por quilômetros.

A pessoa que optou pelo bem mas as vezes age mal e a pessoa que optou pelo mal mas as vezes age bem... Só mesmo numa primeira olhada são iguais. O tempo mostrara que não. por isso "continue o justo fazendo justiça e continue o ímpio praticando impiedades" para que a verdade venha a tona.  

O justo continuará na prática da justiça e o injusto continuará na prática da injustiça até que a máscara caia. Seguindo em linha reta no tempo e no espaço essas duas opções de vida se revelarão. 

Continuemos em linha reta. Mais adiante vamos ver que 0toda a semelhança entre justo e injusto é mera coincidência.

27 de ago de 2016

Ele está de volta

Comecei a assistir despretensiosamente.  Quase desligo porque o filme começou mal pra caramba. Achei uma droga,  sem graça, um pastelao idiota. Mas depois a historia se torna bem instigante. Levanta questões muito interessantes.
Em determinados momentos parecia que estavam se referindo ao Brasil. Cheguei a desconfiar de que o filme foi encomendado para nos cutucar.
Mas sabe o que dá mesmo um nó na cabeça? A constatação de que ao longo do filme a figura de Hitler deixa  aos poucos de causar repulsa ou revolta.  Sua postura cheia de orgulho pelo seu país, "fé  na Alemanha  e  sincero disposição em trabalhar para a grandeza do seu povo" é algo que pode conquistar pessoas a qualquer tempo,  inclusive hoje. Alguém que realmente acredite em seu povo, na grandeza da sua nação e seja capaz de insuflar isso nas pessoas. Quem não se deixaria seduzir por um lider assim?  Isso é assustador.
Com a abordagem correta, sem as formalidades do passado e uma pitada de humor  Hitler bem poderia ser reintroduzido na sociedade inclusive com a ajuda daqueles que não lhe levam a sério. Acho que ele faria sucesso aqui e agora. Porque é como ele disse: as pessoas o escolheram porque no fundo elas são como ele. 
É um perigo brincar com o mal, esquecer que o mal é mal, rir do mal. Porque de repente o mal seduz, igualzinho como no passado.
Recomendo. Mas repito: o início é uma droga.



Confira "Ele está de volta" na Netflix
www.netflix.com/title/80094357?source=android

17 de ago de 2016

Falsos desprazeres

Na aposentadoria a gente sente uma necessidade imperiosa de comemorar coisas. Algo tem que compensar o ocaso da nossa vida. Celebramos então a liberdade quase que total que nos acomete. Comemoramos também outras coisas menores, como poder viver de bermudas e chinelos.

Economizar com gastos de roupas é um desses temas de comemoração de aposentados. Como disse acima, posso andar de bermudas e chinelos o quanto queira. Nada mais delicioso principalmente quando se exercia uma profissão que nos obrigava a adotar uma aparência nem sempre confortável.

Comprar roupas é um desses falsos desprazeres que a gente comemora talvez sem pensar. Ultimamente tenho passeado pelo shopping com certo desgosto. Às vezes posso comprar a linda roupa que vi na vitrine mas não consigo evitar a pergunta: pra quê? Pra usar onde? Pra deixar no armário? Sapatos lindos, bolsas desejáveis, vestidos, blusinhas, um novo jeans. Eram gastos que eu fazia fingindo que era só por necessidade. Não era. Comprar roupas é se expressar, renovar.  Usar uma bela roupa nova dá prazer. Muito prazer. Afeta o emocional. Mas não consigo! Não preciso! É realmente frustrante poder mas não ter motivo para adquirir.

Não vou jogar fora minhas roupas de qualidade. E sendo assim é claro que não vou repor algo de que não me desfiz. E me tornar uma acumuladora de roupas também não quero. Abrir o armário e ver aquelas peças ultrapassadas se tornando cada dia mais cafona sem que eu me dê conta disso?  E vez por outra eu acabar usando essas velharias  e me tornando velharia com elas? Não, obrigada.

Cada vez menos roupas, cada vez menos sapatos e bolsas. É todo um estilho de vida sendo desmantelado para dar lugar a não sei o que exatamente.

O pior de tudo é notar que as roupas tem uma grande influência em nossa postura e gestos. O vestuário não é apenas uma expressão do nosso eu. Ele também nos molda e projeta nossa imagem para o mundo exterior. É essa imagem é percebida também por nós, de tal forma que é retroalimentado o tempo todo. Ao abrir mão disso em prol do tênis e camiseta você se torna cada vez menos sofisticado, menos marcante, menos elegante. Seus gestos e postura se alteram não para melhor. Você não vai se tornando simples, mas simplório. Até chegar ao nível da insignificância da qual, uma vez convencido, convencerá também o mundo. E vice-versa.

Você achou essa conversa fútil? Sério? Auto percepção, imagem própria, é amor próprio lhe parecem assuntos bobos?

Encerro com uma dica: ao aposentar, não comemore a economia de gasolina. O que você economizar em combustível acabará sendo gasto em energia elétrica porque você ficará mais tempo dentro de casa.

12 de ago de 2016

Administrando-me

Estou um pouquinho melancólica aqui na minha sacada. Normal, pois hoje é sexta e sexta sempre foi um dia difícil para mim. Tenho uma longa história de vazios e desapontamentos em vésperas de sábados. A coisa tem sido tão marcante ao longo da vida que ainda que tudo esteja bem o perigo ronda. Preciso ficar alerta na torre de vigia. Ou alerta ou muito, muito, mas muito ocupada com outras coisas.

 Ainda que não tenha de que me queixar, ainda assim uma tristeza persistente e estranha sempre chega perto e funga no meu pescoco. Parece sair de debaixo dos móveis. Preciso passar um pano debaixo do sofá. Ali parece ter um viveiro de angústias.  

As angústias não são como gatos. São talvez emanações, vapores saídos de coisas velhas que a gente guarda. Não dá pra se desfazer de tudo, você entende. Então acontece. Vem vindo, vem vindo...  Parece que ela vigia meus momentos vagos, minhas horas de folga. Talvez vigie o pôr do sol esperando o momento mais melancólico. Talvez. Não sei. Às vezes parece que a melancolia espera a grande bola solar viajar para a outra parte do mundo para então tomar conta do pedaço.

Pois aqui estou eu, sobrevivente, na quietude.  Estou escrevendo, estou ouvindo música, tomando um licorzinho e pegando um vento na minha varanda.  E pra rebater toda essa coisa distraio-me fazendo mil planos de ser mais feliz. Tomo decisões valentes e passo a admirar a mim mesma pelas sábias atitudes que tomarei a partir de segunda feira. Sou independente, livre e antenada. 

Parece que está funcionando. Estou me sentindo quase poderosa e disposta a desprezar qualquer proposta de diversão. No momento isso me basta. Preciso não precisar: esse é o segredo da felicidade.   

Tenho dificuldade em abandonar a ideia estapafúrdia de que todo o mundo está do outro lado do navio, do lado oposto ao meu, fazendo coisas divertidíssimas. Esse pensamento não tem sentido algum. 

Tive outra idéia: preciso estudar. Vou estudar e adentrar em um portal novo e instigante. 

Está decidido. 

Vaias

Poucas coisas provam com tanta exatidão o caráter e a forca interior de uma pessoa do que uma bela salva de vaias. Acho ate que todos deveríamos ser vaiados em público pelo menos uma vez na vida, para aprendermos a ser gente. Deixar de frescura e levantar a cabeça.
Uma pessoa mimada  é uma pessoa fraca. Uma pessoa mimada não tem forca, não consegue seguir em frente,  não tenta de novo. Fica assustada, coloca o rabo entre as pernas, entra em depressão enão  quer mais nada com o mundo.
Quer saber se seu filho é um guerreiro? Submeta-o a vaias.
Esses dias vi uma manifestação da Lucinha Lins em video. Ela dizia que já fora veementemente vaiada varias vezes na vida. Uma das vezes eu lembro bem: ganhou um festival de canção com uma música ridicula que ninguem mais lembra, enquanto o Guilherme Arantes ficou em segundo lugar com uma obra prima lindissima, inesquecivel, que apaixonou o pais: Planeta Agua.
Lucinha Lins cresceu no meu conceito. Podem dizer isso a ela. Atriz e cantora, se fosse uma fraca jamais seguiria em frente. Estaria até hoje chorando e fazendo terapia.  Mas ela foi forte, não se deixou intimidar e se tornou uma profissional reconhecida. Se fosse outra iria afundar no alcool, nas drogas, na amargura.
Sim, admiro quem aguenta vaias sem desistir, sem paralizar. Acho que é a grande prova nessa vida. A rejeição escrachada e sem misericórdia.  Quem se dá valor entende que aquele momento não define seu talento, não te define como pessoa. Quem vaia apenas exerce um direito sem compromisso com nada, a não ser com a animação do momento. 
Voce pode pensar que é guerreiro mas se nunca foi vaiado você não sabe de nada. Ainda não se conhece.
Resumo de tudo: não me vaiem pelo amor de Deus. Não sei se sou guerreira. Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe. E depois de uma sessão de vaias não sei se eu voltaria a levantar a cabeça algum dia.   
Pensou que eu iria terminar o texto de modo mais glorioso? Não. Poupem-me dos seus testes. Preciso de carinho.

11 de ago de 2016

A exaustão

Disseram por aí que a diferença entre o remédio e o veneno é a quantidade. Gostei do ditado. Aplica-se a tudo, inclusive ao fenômeno da transmissão de informações.

Imagino os transtornos que os povos antigos amargavam por pura falta de informação. Táticas de guerra falidas, alimentos prejudiciais,  tratamentos de saúde inócuos ... Como sofriam os mal informados!  

Não sei se é verdade mas li em algum lugar que há anos atrás encontraram um velho soldado vivendo em uma ilha quase deserta. Levava uma vida solitária e sofrida,  em suspense e aflição. Durante uma das batalhas havia se desgarrado do seu grupo. Então escondeu-se na selva com medo de ser feito prisioneiro.  Esperou longamente por um resgate que nunca veio e ficou sem a informação vital de que a guerra havia terminado há décadas. Se fosse hoje em poucos segundo ele já estaria arrumando sua jangadinha pra voltar pra casa. Caramba, tomara que essa história seja mentira. Coitado.

Quantos anos se passaram até que todos ficássemos perfeitamentes cientes de que Coca Cola faz realmente mal à saúde? Ou que o aspartame pode acelerar o processo de osteoporose? Quantos sabiam, há trinta anos atrás, que comer carboidrato é o mesmo que ingerir açúcar ? Essa informação em particular eu preferia nem ter tomado conhecimento.

Estou convencida de que de uns tempos para cá estamos recebendo uma overdose cavalar de informações e isso não é nada bom. Não são informações certificadas mas informações desencontradas!

É um tal de pode/não pode, verdade/mentira, as pesquisas comprovam/as pesquisas comprovaram o contrário do que já tinham comprovado. O Sudário de Turim? Já foi confirmado e escrachado umas dez vezes. Alguma coisa preciosa lá dentro de nós se desgasta, certamente.

Estamos no limiar de uma situação muito pior do que a dos nossos antepassados. Eles não tinham acesso à tantas informações mas quando as tinham, tomavam providências e mudavam o rumo de suas vidas.  As revoluções foram assim. Havia trocas e mais trocas de informações, de folhetos, manifestos e comunicados que de um modo geral ninguém questionava a veracidade da origem. E dava certo.  Hoje estamos tão encharcados de manchetes que vamos ficando com as alminhas gastas. Estamos entrando em um processo de dormência.  

Me dói imaginar que maior verdade do mundo perderá a força vital. Daqui há alguns anos ela não terá mais o poder de causar perplexidade. Nenhuma informação bombástica afetará nossos hábitos - saudáveis ou nocivos. Estaremos surdos, incrédulos e inertes.  

Hoje a gente já não acredita mais em muita coisa, é verdade. Mas mantivemos a saudável iniciativa de tentar confirmar as informações recebidas.  Mas já  estamos começando a cansar.  Pesquisar TUDO cansa. E além disso quem garante que qualquer outra informação posterior, contrária à inicial, é a fidedigna? Ninguém.

Já pensou o que acontecerá a partir do momento em que nenhuma informação for tida como verdadeira? Nem revista nem jornal ou artigo científico?  Imagine que absolutamente tudo deverá ser ""re-pesquisado" e que apesar do nosso esforço jamais cheguemos ao conforto emocional gerado pela verdade? 

Hoje ainda nos damos ao trabalho de tentar confirmar informações mas brevemente estaremos tão saturados de afirmativas ditas e desditas que passaremos a odiar os arautos de qualquer coisa.  

O próximo passo depois de não acreditar é pesquisar;  e depois disso o próximo passo é mandar tudo  às favas: não absorver mais nada.  Dias virão em que ainda que nos advirtam da existência de um precipício logo ali na curva da estrada, nosso cansaço nos fará seguir em frente. Desapareceremos no buraco. Surdez emocional mata.  

Pior do que censurar os meios de comunicação é desacreditar os meios de comunicação. Deixar que se choquem tristemente uns contra os outros, que caiam no ridículo, que se destruam pelo palavrório.  Quando nada mais for confiável entraremos novamente na idade das trevas. 

Nenhum ditador teria uma tática tão eficiente para roubar do povo o direito à informação.

A censura é um meio por demais grosseiro. É  flagrantemente canalha, ninguém gosta dela. Mas ao mesmo tempo um povo bem informado é um perigo para qualquer governo. Não dá pra soltar as verdades aí pelo mundo. Descobriram então a cartada de mestre:  que tudo vire piada, que tudo vire entretenimento!   Ninguém precisará se desgastar impondo censura. A verdade poderá ser gritada e estampada com provas sobejas, mas ninguém mais ouvirá. 

Assustador.  Acho que é isso o que temos pela frente: a exaustão. O cansaço aliado à incredulidade suicida.  

"Eles venceram e o sinal está fechado pra nós, que somos jovens."










4 de ago de 2016

Feiuras

Não acredito que tudo o que consideramos belo ou feio seja uma construção cultural.  

Já li algumas pesquisas que provam que os bebês se sentem mais atraídos e encantados por certos traços fisionômicos harmônicos. E por favor não me diga que eles, os bebês, também foram doutrinados "pela sociedade de consumo e pelos padrões do poder vigente". Existem parâmetros mínimos. Assim eu creio. Há sim o feio e o bonito. A dificuldade em defini-los não anula a sua existência. 

Mesmo assim parece muito possível que, forçando um pouco a barra, obriguemos as pessoas a professarem adesão aos padrões dos mandões do momento.  Até certo ponto o que é instintivo pode ser arredondado, aparado aqui e acolá. Mas só até certo ponto. Fora isso ainda que há pessoas impermeáveis a esse tipo de forçação de barra. Também é bom lembrar que nem todo ganho é real. Sempre há espaço para a hipocrisia humana, do tipo "ai que lindo! - só não quero pra mim". 

Não sei até que ponto conseguimos reais vitórias na militância por um gosto estético mais democrático. Penso que jamais saberemos.  Lá no fundo, nos nossos porões particularíssimos, somos o que somos e a partir disso fazemos e faremos nossas escolhas. Nada mudará isso.

30 de jul de 2016

Anéis flutuantes

Pareciam dois anéis girando em direções distintas.  Dois mundinhos afetuosamente interligados mas não prestando muita atenção ou dependendo um do outro. 

O núcleo eram os adultos, serenos  e sorridentes comemorando um aniversário. Visivelmente harmônicos entre si, pareciam muito cônscios do seu poder de atração sobre os demais corpos celestes. Nenhuma preocupação, nenhuma irritação ou suspense ultrapassava o cinturão invisível que circundava o núcleo. Todo movimento ao redor era de astros subjugados, incapazes de ir mais longe. 

Orbitando ao redor desse núcleo haviam três pequenos asteróides. Movimentavam-se em elipse, presos e seguros num magnetismo quase palpável. Mesmo quando iam um pouco mais longe não olhavam interrogativamente seus pais nem eram vigiados por eles. Parecia ser muito natural que o movimento fosse aquele e que o tamanho da sua liberdade já estivesse acordado e decidido.

Os adoráveis asteroidinhos também traziam presos a si outros corpos celestes, só que de gás: um era no formato de um avião, outro com as caras do Frozem e mais outro tipo Princesa Sofia.  

O asteroidinho mais velho era por demais agitado e se comprazia em perseguir e ameaçar com caretas e evoluções de luta. As meninas, fugindo da perseguição, formavam com ele um divertido trenzinho celeste onde cada vagão conhece o ritmo certo de correr sem pegar ninguém e sem se deixar pegar. Essas investidas geravam muitas cenas engraçadas. Mais de uma vez parei de comer minha pizza pra rir ou para me conter, pois queria intervir naquela pequena cena de injustiça social. Devido à impetuosidade do menino, o direito à posse das garotinhas estava sendo ameaçado! Mas tive que me conformar porque a minha galáxia era outra.  Então me limitei a rir daquele menino comicamente ameaçador que fazia as menininhas darem mil voltas em torno da mesa sem socorro algum. Ninguém se importava, só eu. 

Os adultos conversavam em paz, alheios àquelas  opressões infantis como se soubessem, desde sempre, que tudo estava controlado.  As crianças então giravam sua história para um lado enquanto eles giravam para outro, num desencontro curioso que não os separava. Estavam interligados e separados, presos e alheios.

Eu me deliciei observando a harmonia daquela desconexão,  daqueles giros e magnetismo. Guardei a visão do menino danado, da mãe desestressada, da avó serena, do pai seguro... e especialmente da menininha elegante em seu vestido fresco, limitando-se a fugir do meteoro sem correr, numa velocidade constante e estudada.    

Por fim todos se foram,  leves como os balões. Parece-me agora que não fizeram outra coisa a não ser dançar em orbita a noite toda de um jeito afinado que não se vê muito por aí.