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3 de fev de 2018

Migração


Olho para o céu e, parece-me: todas as aves voam para ti.

Há uma festa para onde elas estão indo, mas elas não dizem nada. Se eu pudesse segui-las chegaria a ti, mas não posso.

Sinto inveja das aves que pousarão no teu ombro e brincarão nos teus cabelos. Sinto inveja desse vôo silencioso, cheio de segredos. Sinto inveja desse caminho certeiro, dessa ausência de dúvidas que só as aves têm.

Sigo meu caminho na Terra. Cumpro a minha sina, que nem tem sido penosa. A vida é boa, embora fique aquela dor antiga incomodando o sapato. Mas é assim mesmo: todos os sapatos doem e as dores nem sempre se despedem.

Sinto saudades, mãe. A senhora sabe disso.

Um dia o meu caminho na Terra me levará ao caminho das aves. Nesse tempo darei o último passo aqui e descobrirei, finalmente, onde você respira e quais os ventos que sacodem as suas roupas brancas.

1 de jan de 2018

Primeiro de janeiro



O dia de ficar melancólica era, indiscutivelmente, ontem. O último dia do ano é quando a vida dá licença para lembrar, ficar triste e até chorar.  Em meio aos fogos de artifícios todas as dores podem vir à tona fantasiadas de emoção deslumbrada. Vale tudo, todos se saúdam e pronto. Não chorei ontem. Nem hoje, para ser sincera. Mas estou sentindo um peso, uma dor. Uma angústia de saudade, uma sensação de subtração.  Estou me sentindo profundamente só porque quando nossos pais se vão a gente fica só para sempre. Nada conserta isso. A gente se apaixona, a gente casa, tem filhos, se envolve tanto com o presente que o passado fica suspenso, pairando no ar. Por um tempo ele não nos incomoda. Por um tempo esquecemos e pensamos que mudamos, que somos outra pessoa e não precisamos tanto do que aquelas pessoas nos davam em termos de amor e aconchego de alma.  Mas tudo que sobe, desce. Toda água que vai para o céu acaba voltando, mais cedo ou mais tarde, levemente ou destrutivamente. Um dia a vida diminui o ritmo, um dia os problemas se resolvem (ou solidificam), um dia os afazeres se acalmam
, dão um tempo. Aí você senta na varanda para tomar um chá olhando para o céu e descobre que esse foi o seu grande erro. É na varanda do repouso, da reflexão e da cadeira de balanço que tudo o que estava suspenso cai sobre você como uma avalanche.

Cadê minha mãe? Cadê meu irmão? Onde estão meus padrinhos que faziam tudo por mim?


Estou aqui, pequena e assustada, horrivelmente carente nesse corpo de senhora.  O presente é um castelo cheio de fantasmas amigos. Eles sopram e dizem que sou um personagem de outra trama. Minha trupe se foi.

Minha saudade caiu sobre mim como chuva de gotas grandes.

Quando estou assim não lembro imediatamente das pessoas. Elas vem depois. O que lembro  é de lugares, cenários, sensações, músicas, vozes, coisas muito íntimas, muito minhas, incomunicáveis. Essa incomunicabilidade me aflige imensamente porque impede que eu me alivie. Eu quero te dizer, falar pra você, fazer você conhecer e ficar com parte dessa dor. Mas é impossível. 

Lembro muito, muito mesmo de como eu me sentia. E sinto um cheiro de guardado enquanto isso. Cheiro de caixa de relíquias. Lembrei da dor na barriga antes de entrar no palco para aquela apresentação de Natal. Lembro das crianças, dos holofotes, das asas de anjos de cartolina e papel crepon e o tempo que levamos para preparar tudo aquilo. As roupas de cetim barato.  Droga! Lembro do que eu era, de como eu era e de como me sentia. Só depois, bem depois, vem as pessoas com suas caras e jeitos compor esse caldeirão. Lembro das expectativas do Natal, da árvore, dos presentes novos, do primeiro dia no colégio, da pasta de couro, da raiva que eu tinha das minhas pernas finas. Tudo se acende de novo, se ilumina dentro de mim só para doer mais. Lembranças por si só não doem. Mas há um algo mais que dá realidade a tudo. Há um componente misterioso que faz a gente re-sentir e re-ver.  Aí é um tapa.

Estou mal. Estou vendo a cozinha da casa da minha madrinha com aquele monte de panelas. Estou vendo meus vestidos novos, a mamãe vindo do salão. Sinto o cheiro do glacê do bolo. Mas o que me arrasa é lembrar daquela sensação de acolhimento e segurança que não tenho mais. Estou vendo minhas amigas, o quintal com duas palmeiras. Estou sentindo novamente aquela felicidade meio dolorida, meio misturada com uma melancolia onipresente que eu nunca entendi. Quero o meu pai.

Me sinto só. Me sinto órfã de todos os que me amavam. Me sinto tão criança que você nem pode imaginar. E tenho um sentir de abandono, de "sozinha no mundo", de "todos se foram e eu fiquei".  Por dentro eu sou uma menina esquecida na estação de trem.

Eu poderia continuar escrevendo meses sobre isso e repetir pensamentos e frases como um pêndulo ou roda gigante cujos assentos sempre voltaram ao mesmo lugar. Ir e vir é o seu destino. Posso falar sobre isso novamente e te enfadar com minhas lembranças repetidas. Preciso fazer isso! Preciso dizer tudo de novo até conseguir me esvaziar dessas coisas e me sentir melhor. Acho que o esquecimento vem depois do cansaço. Se eu cansar de lembrar talvez isso canse de doer.   Preciso escrever de novo e de novo até que se esvaiam todos os cheios, até que sequem todas as flores, até que tudo vire apenas fotos amareladas e cansativas. Deve haver algum jeito de isso tudo se perder ou ficar apenas banal.

Dizem que envelhecer é assim, quando o passado volta com mais força, quando você se sente sozinho, quando você tem a impressão de que sua alma ficou lá atrás, desnorteada. Envelhecer é quando você não quer absolutamente nada em troca do que perdeu.  É quando você prefere a boneca velha de um olho só porque de todos os que sabiam de você, só ela sobrou. A boneca encardida é a única que sabe de tudo. É a última tabua nesse oceano. Envelhecer é quando você não quer nada novo e se torna uma menina inconsolável exigindo o que não pode ter.  Envelhecer é quando a saudade fala mais alto do que tudo. É quando todo consolo se torna um insulto.  É quando você não se sente mais mais desse mundo e prefere mesmo que seja assim.

23 de dez de 2017

Miojo

Hoje o dia se arrastou. A noite promete se arrastar  ainda mais. Jantei só pra constar. Não estava com fome. Bebi uma cerveja horrível. Não estava bem gelada.  A única coisa em mim que presta hoje são as unhas, pois fui ontem ao salão. Tudo o mais é de afastar, não de atrair.

A salvação, às vezes, é a sacada. é pra lá que vou sentir o fresquinho da noite e pensar em coisas interessante.   Mas hoje não funcionou muito.  Olhei a rua e achei terrivelmente triste as poucas luzes de Natal mal penduradas, aqui e acolá.  Elas me pareceram tão cansadas e desistentes que precisei desviar o olhar.  

Da sacada geralmente gosto de imaginar que todos estão felizes em casa. Já até escrevi um texto bem razoável sobre essas coisas de fim de dia. Mas hoje me surpreendi comigo mesma. Dessa vez os pensamentos foram muito antipático. Os prédios que antes me despertavam ideias relaxantes agora me pareceram tão vulgares e encardidos!

Ali, bem em frente, as mesmas janelinhas amarelas piscavam caladas, de costas pra mim. E delas adivinhei um cheiro insuportável de miojo partindo do ventre de suas cozinhas. Miojo: a comida mais barata, fácil e desaconselhável que alguém pode escolher. A comida da dona de casa mal humorada que não tem carinho suficiente para fazer nada melhor. A comida do solteiro entendiado e sem dinheiro, cansado e de saco cheio. Azedo. Todos os prédios estão cheirando miojo fervente. Ao lado dessas cozinhas desprezíveis vi áreas de serviço igualmente nojentas, com migalhas de pão caídas pelo chão, umas baratinhas perdidas e montes de roupas por lavar. Do outro lado um monte de roupas por passar e por guardar. As pobres roupas limpas estavam lá há dias e já haviam perdido todo o encanto que poderiam ter com o cheirinho de sabão em pó. O perfume se fora por completo e tudo o que sobrou foram os amassados e o amarelados das roupas brancas mal lavadas.

Na sala algumas cadeiras saíram de seus lugares e tentaram zanzar,  mas pararam no meio do caminho meio indecisas. A televisão joga na cara de todo mundo o Jornal Nacional, que contribui consideravelmente para que cada um tenha uma noite péssima.

Mulheres solitárias, homens indispostos, crianças enjoadas, adolescentes estranhos. E alguns velhos cuja diversão única é imaginar por horas um plano de fuga daquilo tudo. Poucos velhos. Eles morrem de pena dos mais jovens mas mesmo assim fugiriam sem olhar pra trás.  Bastaria para isso um plano. Um bom plano.

6 de nov de 2017

Salvando a própria pele


Sobre a afirmativa de Jesus, de que "quem quiser salvar a sua vida vai perde-la e quem a perder por causa de mim e do evangelho vai achá-la":

É interessante notar que isso não se aplica apenas a Jesus e ao evangelho. Gostaria de tirar aqui a questão espiritual ou religiosa e refletir no seguinte:

Em tudo nessa vida essa máxima pode ser aplicada. Se nossa vida se resumir a "salvar nossa própria vida", a gente não vive. Se tudo o que eu fizer ou deixar de fazer tiver a ver com salvar a própria pele ou tentar viver um pouco mais, eu acabo sendo enterrada viva dentro de casa. Tem gente que não vai a lugar algum "por causa da violência", que não come nada delicioso por causa dos agrotóxicos ou dos hormônios ou dos aditivos químicos ou por causa do meio ambiente ou bla bla bla.

Não haveria heróis se todos pensassem apenas em salvar a própria pele. Porque "dar a vida" não significa exatamente morrer por alguém. Dar a vida é também disponibilizar a vida, arriscar a vida por.

As maiores personalidades do mundo, os grandes aventureiros e revolucionários não colocaram a própria subsistência em primeiro lugar. O resultado é que viveram vidas muito mais intensas e interessantes do que a da maioria.

Não sugiro que vivamos irresponsavelmente ou que não devemos dar atenção alguma à nossa saúde alimentar ou segurança. Mas viver em função disso é morte em vida. A vida acaba ficando bem triste quando tudo se resuma a estica-la.

2 de nov de 2017

"Sozinha deles"

Isso era um mistério até um dia desses:  solidão.  Tenho sido perseguida por um sentimento pesado de solidão, uma coisa triste mesmo. É como um manto que cai sobre a minha cabeça enquanto eu estou distraída.  O estranho disso é que eu não estou sozinha. Não sou sozinha.

Custei a entender que saudade e solidão são praticamente a mesma coisa. Dói do mesmíssimo jeito. A solidão diz que tem motivos diferentes da saudade pra doer, mas ela está enganada. A gente não sente solidão por estar sozinha. A gente sente solidão por estar SOZINHA DE ALGUÉM. É como a saudade, só que mais completa. A saudade é uma lembrança que dói. A solidão é um fantasma dentro da alma. Não é uma lembrança mas uma realidade constante. Como os ossos dentro da gente. Quem lembra pode tentar não lembrar, mas quem sofre de solidão carrega essa coisa consigo.

Se você estiver afastado das pessoas do seu coração então vai sentir solidão pra sempre, mesmo que esteja cercada por outras tantas pessoas maravilhosas. Não há substituição. Nada entra em você. A ausência de algumas pessoas gelam nossa cabana. Fica faltando pra sempre aquela chama na lareira.

Não sinto saudade da minha mãe; sinto "solidão da mamãe", "solidão do meu irmão", do meu pai, solidão dos meninos quando eram pequenos. Nada me salvará disso. Aqueles meninos me abandonaram quando cresceram. Tenho rapazes, não tenho mais as crianças, então sempre terei solidão por eles.

Hoje, Finados, o dia foi silencioso e cinzento. A chuva cobriu o dia todo. Sem trovão, sem alarde. Apenas deslizou sobre o asfalto e os prédios para ninguém esquecer o motivo do feriado.

Os mortos não comparecem no dia de Finados. Eles se mantém teimosamente ausentes e não se importam com nossas homenagens. Não vêm colher nossas flores. A chuva caiu inconsolavelmente.

Passei o dia tranquila e de bom humor. Fiz minhas coisas, lavei o cabelo, preparei uma sopa. Tudo certo. Mas lá no fundo havia aquele incômodo, como uma doença com a qual tenho que aprender a conviver. Lá estava a lâmina insolúvel, enfiada enquanto eu sorria.

Alma também sente frio.

Chego a pensar que, com o passar dos anos, essa coisa só tende a piorar. Em algum momento a gente começa a achar que não vale mais a pena continuar. É a velhice: quando a gente começa a fazer as pazes com a morte.

Quando eu viajar  não vou mostrar as fotos das férias para a mamãe.  Ela não vai se alegrar por mim, nem ganhará lembranças. Ela será lembrança. Não vamos mais planejar, com meu irmão, o cardápio do próximo Natal. Estou "sozinha deles". Sozinha de pessoas que me amavam mas morreram. Sozinha dos meus padrinhos. Sozinha da minha avó.

16 de out de 2017

De bolha em bolha


A vida segue em linha reta. Nada afeta seu curso. Um dia é igual ao outro. Sol vai, sol vem, chuva cai, chuva seca, pessoas nascem, engordam, emagrecem, brigam, amam e morrem. 

Ninguém aguentaria seguir em frente, marchando sem descanso, se não recorresse a alguma forma de fuga. Fuga talvez não... mas pausa sim. O maestro ergue a batuta e fica imóvel frente à orquestra. A música é suspensa e o que entra em curso é outra arte dentro da arte. Outra vida dentro da vida. Alguma coisa fora do tempo - que não para, mas suspende a si mesmo. Tudo cabe nesse espaço. Nessa pausa pode caber um mundo.

O tempo prende a respiração para que as pessoas possam respirar um pouco.

Essa é a razão pela qual o ser humano especializou-se em "criar climas", datas especiais. As datas especiais nada mais são do que, rigorosamente, NADA.  

Somos inventores de datas especiais. Não existe engôdo maior. Não existem datas especiais! Os dias não se repetem. Mas criamos esse tipo de mentira para termos pelo quê esperar quando nada de mais nos espera ali à frente.  Queremos ter motivo para usar o vestido novo.   Criamos datas e depois olhamos melancólicos para o calendário considerando o quanto fomos felizes no passado e o quanto ainda seremos felizes no futuro - quando nem passado nem futuro existem.  É bom ter motivo para contar os dias por isso inventamos motivos para contar os dias. Precisamos comemorar coisas e esperar coisas.

Esperamos tudo de bom nos "dias especiais" como se não fossem criações nossas. São flores de plástico mas tem algum valor.

Somos seres criadores. Somos incríveis. De onde tiramos essa coisa  de comemorar aniversário? O
dia em que nasci não volta nunca mais. Por quê me animo ou fico melancólica a cada 13 de novembro?  Porque precisamos dessa alegria ou até mesmo dessa melancolia com data marcada. Porque ao marcarmos data para a tristeza vir estamos também dizendo que depois da festa ela vai ter que ir. E a alegria, se não estiver sempre com a gente, podemos esperar por ela no próximo aniversário.

É bom marcar datas. É como se tivéssemos algum domínio sobre a vida e suas benesses.

Nós criamos datas e criamos músicas. E as músicas, por sua vez, criam climas.    Dia desses assisti um vídeo que apresentava parte de um show. Durante a apresentação da canção  era possível notar que a "temperatura emocional" , tanto da cantora quanto da plateia, ia crescendo gradativamente. Tudo muito artificial muito real. Todos se deixaram levar e se entregaram  àquilo como crianças crescidas no colo Cinderela: tão falso mas tão bom.  

Ninguém iria sair daquele teatro reclamando de hipnose grupal. As pessoas se deixaram levar até o ápice, quando parecia que todas estavam felizes e apaixonadas. Estavam. Ia passar. Elas sabiam disso.

Precisamos do êxtase. Ou a vida nos dá ou a gente mesmo cria. Temos talento e tecnologia para isso.

As câmeras mostravam, no meio da canção, as pessoas já com gestos melosos sorrindo umas para as outras e trocando olhares brilhantes. Mulheres já deitavam candidamente a cabeça no ombro de seus parceiros.  Até a cantora jogou para seu colega, enquanto cantavam, um olhar tão meloso que até parecia amor verdadeiro. Não estava apaixonada. Era a magia da música, tão irresistível quanto volátil. Era breve, mas real.  Não havia falsidade em nenhum gesto de carinho.   E é assim que a vida se torna mais palatável.

A vida segue reta e pesada mas aquele momento musical criou uma bolha, enorme e cor-de-rosa, que suspendia a marcha monótona. Depois cada um voltou à sua rotina mas com certeza permaneceram, lá dentro, aqueles acordes, os gestos de carinho, os olhares e a vontade de dizer "eu te amo!" nem que fosse de brincadeira. 

Precisamos  de mais momentos assim, que fiquem pairando enormes e rosados enquanto aterrissamos na vida real.  E que venham outros ilusionistas porque em linha reta ninguém aguenta mas de bolha em bolha a gente encara.  

12 de out de 2017

A seta



Sempre amei essa pintura. A Criação de Adão - Michelangelo. Vejo nela tanto significado! Em várias ocasiões já fiz comentários a seu respeito, as vezes até com emoção.

Acho belíssima a idéia de que Deus tornou possível o contato com os humanos. Ele estendeu a mão para nós e a partir daí passamos a desejar para sempre o sublime, o eterno, o mistério. Fomos feitos “alma vivente”, usando a linguagem bíblica. Capazes de apreciar o belo, nos emocionar, amar.

O toque, o sopro de vida, o acesso ao transcendente...

Acontece que de uns tempos para cá a minha alma está mais para o lado daqui do que para o lado de lá. Mais pra baixo do que para cima. Tenho até vergonha de dizer. 

Contraditoriamente essa pintura também foi por muito tempo a prova inconteste da minha baixeza animal, primária e rude. Em épocas mais elevadas o que me chamava mais a atenção eram os dedos, humano e divino, se tocando, numa metáfora belíssima que você já sacou, então não vou explicar.

A verdade é que hoje a conversa é outra. A primeira coisa que enxergo é o pinto do Adão. Olho para um lado e para outro, vejo se ninguém está me observando e fixo o olhar teimoso no pintinho dorminhoco.

A questão: onde estava o pintor com a cabeça quando resolveu colocar no quadro a imagem desse homão tão mal dotado? Por que não arrastou o pincel mais um pouquinho? Não custava nada.
Era para ser maior. Tinha que ser maior. Por que não é maior? Claro que o problema não foi falta de tinta nem de espaço na tela.  O assunto é sério e clama por reflexão. Aceitemos o desafio.

Primeiro necessário se faz excluir intenção de comicidade do trabalho de Michelangelo. Qualquer um nota que o quadro chega a ser grandiloqüente em sua proposta. Então qual o enigma do pinto miúdo deitado eternamente em coxas esplendidas? Jaz distraído e inocente provavelmente ao som de trombetas e à luz do céu profundo.

Queria o pintor eliminar o efeito erótico de seu trabalho? Se assim fosse, nada mais fácil do que esconder-lhe os “documentos” debaixo de um lençol esvoaçante, tão em moda na época. Mas não! Ele dispensou o lençol e fez questão de que nos deparássemos com essa curiosidade anatômica. Veremos que ele tinha seus motivos.

Observe que Adão não está encabulado mas parece muito a vontade, despreocupado e recém acordado de um profundo sono sem sonhos. Claro, porque o HD dele ainda estava vazio.
Um homem com mais de um metro e oitenta e pesando em torno de noventa quilos precisava ser mais bem dotado. E mais: não tem barba nem pelo algum pelo corpo. É o retrato da inocência segundo Michelangelo.

Tcham! Foi aí, em meio a essas considerações especulativas que uma luz brilhou. Eureca! Era essa a intenção do pintor: confirmar o livro de Gênesis! Esse quadro é o Credo de Michelangelo. Esse pinto-Credo carrega em si um enorme significado, inversamente proporcional ao seu tamanho.

Note que Adão não está em posição de reverência contrita. Pelo contrário: a pintura mostra a inocência, a paz e o desassombro da raça humana antes de pecar. A tranqüilidade até infantil de Adão diante do Criador é tocante. Mais tocante ainda é a facilidade com que o alcança - apenas esticando o braço.

Qual a lição? Tome nota: para “alcançar Deus” deveríamos, metaforicamente, ter o pinto de uma criança. Lembra quando Jesus falou que quem não se tornasse como uma criança de modo algum entraria no Reino dos Céus? Pois então! O pintinho significa isso, precisamente.

Pode olhar a vontade que Adão não está nem aí. Meçam, cochichem, dêem risadinhas. Adão leve e elevado, pelado na nuvem,  ignora por completo os gostos das multidões que perambulam pelo museu. Adão ainda faz um gesto característico dos bebês: esticar o braço, estender a mãozinha, querer contato. Querer contato com o divino é um dos anseios mais primais e puros dos seres humanos.

Chamo ainda a sua atenção para o fato de que bebê recém-nascido não tem senso de distância. Ele apenas vê e estica o bracinho como se tudo fosse possível. Aí também existe uma importante lição: para alcançar Deus isso deve nos parecer perfeitamente possível, bastando que estiquemos o bracinho. Não é lindo? Olhe que amor Adão completamente entretido com o Criador e sentindo no fundo de sua alminha clara que aquele ali flutuando no céu é o seu papai. Nada a declarar, nada a esconder.

Agora desçamos.

Agora, já com a cabeça erguida, volto-me mais uma para vez para “o centro” desse quadro: o pinto do Adão, que doravante pode ser considerado parte indissociável de todas as religiões, a chave primeira para quem quiser chegar ao transcedente. Não mais um objeto sexual. Não um brinquedo lascivo, não um troço de fazer bebês e subjugar as mulheres. Não, meus amigos! Agora, de cabeça erguida posso e devo encarar com coragem e emoção essa seta que nos aponta o caminho. Sim, essa é a abordagem correta. Posso agora, sem constrangimento, considerar sua aparência, calcular seu peso, tamanho e textura e mesmo assim estar fazendo um exercício intelectua/religioso/filosófico.

Imaginem vocês quantas pessoas “passaram batido” sem perceber o tanto de sabedoria contida nesse respeitável membro que, reverentemente observado, coloca o expectador já com um pé na espiritualidade.

Só mesmo um gênio como Michelangelo poderia explorar todo o poder magnetizante dessa imagem, ainda que murchinha.

Essa tela é a muda pregação para a qual a humanidade precisa dar atenção. Devemos prestar a esse pinto o melhor de nossas considerações e coloca-lo, de uma vez por todas, no lugar onde sempre deveria ter estado: no centro. Quer dizer: no centro das nossas mais elevadas reflexões!

Duas Cristinas

É como se eu fosse duas pessoas, uma bem diferente da outra.  A Cristina teórica não tem nada a ver com a Cristina ao vivo, olhando nos olhos das pessoas.

Sinto-me muito mal quando me flagro com preconceitos ou desprezando intimamente essa ou aquela categoria de pessoas. Tenho minha teorias, algumas delas bem ácidas e politicamente incorretas. Nem sei se são teorias. Talvez não sejam. São sentimentos que vem como naquela comparação comum: pássaros que pousam na cabeça da gente.  Há pessoas que me irritam profundamente. Há pessoas que defendem coisas para mim absurdas, que inflamam raiva, desprezo. Eu protesto. Eu reclamo. Escrevo coisas virulentas. Quero combater coisas e costumes, detesto algumas ideologias. Não aceito.

O que acontece com meu coração quando me encontro frente a frente com essas pessoas teoricamente desprezíveis?   O que sinto por elas? Quando a vejo, fico perto, olho nos olhos... tudo o que sinto é simpatia. Uma simpatia real, desconcertante, natural.    Não sinto, no real, o que sinto quanto escrevo. Não entendo como pode ser isso.  Ao vivo não sei para onde vai toda aquela ira. Não consigo ter raiva. Não consigo odiar ninguém.   Tenho carinho por essas pessoas, vontade de ser amiga.  Aquela Cristina simplesmente desmonta na vida real.

E tanto me inflamo quando considero uma questão teoricamente...   Para quê?  Por que defendo teorias tão duras se na vida real tudo evaporam?  O que há comigo?

Há verdade no que digo? Ou minha verdade está no que sinto quando olho nos olhos?  Não sou sincera?  Qual a Cristina verdadeira: aquela que vocifera aborrecida com os rumos do mundo ou a Cristina presencial,  que não consegue sentir ao vivo o que sente "no papel"?  

Uma não reconhece a outra. Elas sequer brigam entre si. Convivem não sei como. Quando uma entra em cena a outra simplesmente silencia. Não esperneiam nem protestam, apenas esperam calmamente sua vez de entrar novamente no palco.

Não odeio ninguém. Não quero matar ninguém. Não quero amarrar ninguém no poste. Não quero ninguém sofrendo. Não quero nada disso quando estou diante da pessoa de verdade, do ser humano, meu irmão. Quando olho nos olhos não consigo sentir nada de ruim a respeito de ninguém. Ninguém. Nem mesmo o político que eu xingo no Facebook. Tenho certeza de que se eu encontrasse com qualquer um deles eu iria sentir quem sabe até uma certa pena, pelas trevas em que estão metidos.  Os maus não tem paz e quem não tem paz é um pobre coitado.

Frequentemente encontro pessoas cuja conduta critico e quando as vejo sinto real simpatia, real apreço, de coração. Aí não sei para onde foi aquela mulher com todas aquelas palavras pesadas.

No juízo final qual das duas Cristinas comparecerá diante do Juiz?  E qual delas será desconsiderada?

8 de out de 2017

Explorando a fé alheia


Preâmbulo:

Há muitas coisas nessa vida que podem ser exploradas. Praticamente tudo. Seu corpo pode ser explorado. Sua sensibilidade, seus dons, seu trabalho, seus sentimentos, sua fé, sua beleza, sua juventude, sua saúde pode ser explorada.   Há muitas coisas que podem ser exploradas. Há muita gente que se deixa explora. Precisamente por exploradores sempre haverão.

Claro que exploradores não merecem defesa mas não nos esqueçamos: cada pessoa tem que valorizar a si mesma. A maior interessada em mim, sou eu. Se eu descuido de mim, por que esperar que outro tenha mais consideração por mim do que eu mesma?

Sobre pregadores que "exploram a fé alheia": 


1)    Primeiramente a fé alheia sempre foi explorada através dos séculos e não foram os pregadores evangélicos que inventaram isso. Claro que isso não os inocenta mas um é fato.  Alguns deles só fazem, de forma mais desinibida, o que sempre se fez no mundo em TODAS AS RELIGIÕES.   Por exemplo: não vejo diferença entre vender "água do rio Jordão" e vender um santinho. Em ambos os casos tem alguém ganhando dinheiro com a fé de alguém. Uns ganham mais, outros menos... mas em essência não é a mesma coisa?

Fé é fé. Só que a fé dos outros é feia e a nossa é sempre linda. Somos parciais. Somos injusto na maioria das vezes.

2) Em segundo lugar: Tenho um pouco de dificuldade em concordar com essa teoria de que tais líderes religiosos exploram "a inocência das pessoas".    Não sei se estão mesmo explorando a "inocência". Acho que estão explorando mesmo é a cobiça, a PREGUIÇA de pensar. Na idade média as pessoas comuns não tinham acesso a livros A maioria nem mesmo sabia ler. Hoje ninguém tem mais desculpa para ser otário.   Quem rejeita o conhecimento come dos frutos do seu próprio desvario - é o que vemos na Bíblia, no livro de Provérbios.   

Semelhantemente o traficante não está explorando a inocência de ninguém. O viciado não é "vítima das drogas".  Ele é vítima da sua própria arrogância em desafiar leis. Ele é vítima do próprio espírito rebelde, que debocha das autoridades. Ele é vítima da vaidade tola que tem em "desafiar o poder". Aí se estrepa. O traficante só entra aí, cobrando ingresso quando o circo já está todinho armado. Entra nesse vácuo. Esse que é o caminho do lucro. Rebeldia gera riqueza - para uns. E ruína para outros.


Ou seja: o explorador geralmente explora o que as pessoas tem de PIOR, não de melhor. Vaidade, preguiça, indolência, rebeldia, raiva, vontade de aparecer, etc.  Nada disso me parece com essa coisa bonitinha chamada "inocência".


3 de out de 2017

Sonho maluco

Quanto mais sem sentido for um sonho, mais interessante ele nos parece.

Temos que tolerar em nosso dia a dia a teimosa imposição da coerência. É enfadonho tudo ter que fazer sentido se não o mundo não vai para a frente.   Nossa mente se sente desconfortável se alguma peça for defeituosa e não se encaixar nas demais.

Ficar o dia todo checando conexões e encaixando as peças desse monstruoso Lego exige muito de nós.  Precisamos de alguma subversão para não enlouquecermos. É ai que entram as piadas, para dar uma refrescar a nisso tudo.  Só que até as piadas tem que fazer sentido  no Mundo! Voltamos então à  estaca zero.

Mas nem tudo está perdido. Ha algo em nós que sabe das coisas . Sendo assim,  na falência das piadas - pois não cumprem cem por cento sua finalidade - nosso cérebro  elabora uma valvula de escape mais eficiente: os sonhos malucos.  Sim, porque sonho certinho, redondinho, com começo meio e fim,  não serve pra nada.   A verdadeira subversao é sonhar maluquice. Isso sim é libertador. É algo como voar.

Tenho para mim que quanto mais maluco for o sonho mais saudável a mente é .  Minha teoria. Quem tem sonhos certinhos  possui uma mente domada, subserviente, corcunda. É como usar coleiras.

Sonhos certinhos vem de mentes subjugadas.   Uma mente domada é uma mente prisioneira. Mente prisioneira é mente angustiada. E mente angustiada é o quê? Isso mesmo: mente insana. Cuidado.

Essa noite tive um sonho bem maluco. Acordei de bom humor (ja que, como vimos, é essa mesmo a finalidade do sonho maluco).   Resolvi então contar meu sonho pra vocês hoje,  aqui no blog. Mais exatamente nessa postagem.  Só que depois de tantas considerações... Gelei. Preferi  guardar meu sonho só  para mim . Temi que meu sonho não fosse considerado louco o suficiente para atestar minha sanidade. 

E foi assim que deixei os meus leitores no vácuo.

Ter melasma é...

Ter melasma é sofrer toda vez que se olha no espelho.

Ter melasma  é  ter que escolher entre viver maquiada ou viver malhada.

Ter melasma é  rebocar o rosto com meio quilo de maquiagem, sair de casa toda serelepe , encontrar uma amiga que você não via há muito tempo e ela exclamar "poxa o que aconteceu com o seu rosto? Sua pele era tão bonita! "

Ter melasma é  ficar apavorada com a possibilidade de emporcalhar a roupa de um amigo que te cumprimenta.

Ter melasma em um lugar quente é desejar ardentemente lavar o rosto para se refrescar e não poder, para não arrancar a maquiagem que deu o maior trabalho pra fazer.

Ter melasma é  fazer o maior contorcionismo para tirar a oleosidade do rosto com um papel sem tlarrancar a maquiagem junto. 

É gastar fortunas com maquiagem à prova de água para poder frequentar uma praia ou piscina condignamente.

É querer dar um cheio em uma criança linda e não poder. Ou dar assim mesmo e sujar todo o moleque de marrom.

É  gastar uma grana doida com tratamentos com ácido e depois de 2 meses enlouquecer  sob o "efeito rebote" :  volta tudo pior que antes.  Dois meses de ilusão.

É  ver todos os dias descobrirem cura para câncer,  para aids, para as piores doenças  mas ninguém se importar com a sua doença que, afinal de contas, não mata.

Ter melasma é  jurar que entregaria o carro e o apartamento pela cura mas ter certeza de que vai continuar com o carro e o apartamento simplesmente porque não tem cura.

29 de set de 2017

Manifestações culturais da esquerda

Sobre as "manifestações culturais" recentes:   a pessoa vai quebrando pequenas barreiras emocionais. Coisa pouca, aparentemente insignificante. Leve os outros a quebrarem suas micro barreiras  e quando menos perceberem estarão todos  afundados na lama como qualquer porco.  E assim os porcos terão o conforto de não se sentirem mais diferentes dos humanos.

O ideal era ter feito o contrário : educar,  pegar os porcos e trazê-los para um nivel mais elevado, uma cultura melhor , um comportamento mais digno.  Assim eles não se sentiriam porcos , mas humanos. Mas foram ignorados.  Quem vive à margem  é sempre ignorado,  infelizmente. Não deveria ser assim . Erramos. O resultado  é  semelhante à proliferação de qualquer inseto:  eles fazem seus ninhos  às ocultas  e quando percebemos a casa está cheia deles.

Eles tomaram conta tudo .  Tudo não passa de uma espécie de vingança  social: "aqueles que me desprezaram serão castigados da maneira mais dura:  verão seus filhos se tornarem como eu, comendo da mesma lata de lixo. E eu vou rir muito porque essa é a melhor vingança."