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6 de jan de 2017

Se tiver um novo amor...


Se tiver um novo amor
Lave melhor os cabelos
Escove melhor os dentes
Não digas tudo o que sentes
Pra não arrepender depois.
Dê presentes bem mais caros
E "pitis" muito mais raros
Saia do feijão-com-arroz!

Se tiver um novo amor
Sorria com mais candura
Mate baratas com mais bravura
Beije o dedão dos pés
Faça tudo mais certinho
Brigue até com mais carinho
E largue os amigos manés

Seja melhor dessa vez
E enfrente com altivez
As conversas de cobrança
Tenha cerveja gelada
Carne-seca apimentada
Faça as pazes com a balança

Que o retrovisor da vida
Não te atormente por nada
Pois pior do que a ferida
É repetir a mancada

Vê se acerta dessa vez!
Esqueça seu lerdo passado
Porque Deus está do lado
De quem recomeça do zero
Beije mais vezes de língua
E que a raiva morra à míngua
- Largue de ser tão severo!

No verão, dá-lhe refresco
No inverno, o bom calor
Vê se acerta dessa vez:
Roupa nova e altivez!
Se tiver um novo amor.

Cristina Faraon

2 de jan de 2017

Revelação ou delírio?

Dia desses escrevi um novo texto no meu blog Diário de Mãe Morta.  Considerei o texto, ficticiamente, como uma carta que minha mãe teria me mandado lá do além. Alguém perguntou se eu achava que a "carta da mamãe" era delírio ou uma "revelação do além".  Respondi que quando convém são revelações e quando não convém são delírios.   O esquema da felicidade é fixar a mente no que faz bem e fazer vista grossa para o que faz mal.

O fato é que às vezes me delicio em imaginar que seria possível vez por outra "receber alguma coisa" emitida pela mamãe. Se eu sonho com minha mãe fantasio que Deus está rodando um DVD no meu cérebro durante a noite, só pra ser legal comigo.   Pense bem: se a Globo tem vídeos dos seus artistas  e dispõe dessas imagens, por que será que Deus não teria o mesmo direito sobre as nossas imagens?

Digo isso porque descreio do pensamento espírita. Mesmo assim sei que a vida é cheia de mistérios e que menos de 1% do que existe no universo é feito de matéria visível. Talvez não seja absurdo imaginar que as energias do pensamento viajam como ondas de rádio, que não se perdem.   Teríamos capacidade de captar acidentalmente ondas cerebrais "viajantes" espalhadas pelo universo?

Deveríamos usar tudo o que nos faz bem para, finalmente, viver bem. Desde que não descreiamos da Verdade. Porque há uma Verdade.

30 de dez de 2016

Uma Copacabana indescritível




Estes dias estive revendo umas filmagens do final de ano que passamos no Rio de Janeiro, o último conosco, os quatro irmãos, ainda juntos. Era a despedida e não sabíamos. Estávamos em Copacabana vendo os fogos de artifício. Meia noite. Rever aquele momento foi e continuará sendo muito comovente. Seis meses depois meu irmão, que fez as filmagens, partia para sempre.

Pensei comigo: não é justo morrer e deixar todo mundo na curiosidade. Quando eu morrer vou voltar e dar com a língua nos dentes. Vou arranjar uma maneira de escapar ou pedir permissão mas acabo com o mistério da morte e jogo tudo no ventilador. Podem esperar. Podem cobrar. Chega de suspense.

As pessoas sempre se emocionam com o espetáculo dos fogos... Tenho uma teoria para isso e este parágrafo não está desconectado do anterior.

Enquanto eu pensava nessas coisas e olhava no vídeo os fogos, as pessoas emocionadas e ouvia a música tocante ao fundo, pensei que quem morre talvez fosse mesmo assim, como os fogos. O paralelo me pareceu perfeito.

Talvez quando a pessoa se vai, parta em um tal impulso, velocidade e empolgação que esqueçe completamente de quem está aqui em baixo. Assim como os fogos. E brilham por um tempo que na verdade nem existe, posto que eles saíram do tempo.

Impossível dizer por quanto "tempo" os mortos pairam no ar sorridentes, deslumbrados com o fato de agora serem eles o objeto do deslumbramento alheio. Agora são eles a luz, o show, o rastro, as explosões e estrelas. Deve haver platéia nesse não-sei-onde, certamente. Há "os outros" que riem muito e se divertem com os novatos num não sei quê de festa na qual eles, bobos, muito bobos pelo seu novo estado, demoram-se brincando consigo mesmos. Sabe, assim como os bebês levam horas admirando seus incríveis pezinhos e mãos.

Sim, os novos "mortos" devem ser muito engraçados para os que já estão por lá. São fogos em explosão numa Copacabana indescritível!

Segundos de fogos... Que para nós, pobres ficantes, representam meses ou quem sabe anos. Milênios talvez. Quando enfim eles se acostumam com sua própria leveza e velocidade, com o risco de luz e os desenhos imensos que formam, com a infindável possibilidade de arte, sons e alegria que isso representa... ah! Tentam voltar. E não conseguem.

Meu Deus, não conseguem mais. Talvem nem saibam mais para onde voltar ou ... esvaem-se, assim como os fogos de Copacabana.

Tenho a dizer a vocês que eles tentam. Todos tentam. Sei disso porque vi com meus próprios olhos. Sou testemunha!

Todas aquelas pequenas chamas viventes, depois do congraçamento e daquela alegria inenarrável, em um lampejo de memória lançam para nós um último olhar, um "oh, vocês ainda estão por aí!?" e fazem menção de retornar mas não conseguem.

Talvez apenas quisessem dizer "adeus" ou "até breve". Talvez só falar-nos que tudo é muito agradável e não temos nada a temer. Quem sabe quisessem realmente retornar? Jamais saberemos porque apagam-se e fica tudo escuro e não as encontramos mais. Nossos olhos percorrem o céu até onde ele se deixa percorrer mas nos perdemos em um olhar confuso, silencioso. Então é como se nunca tivessem passado por ali. Temos que confiar cegamente em nossa memória.

Estranho que seja assim depois de tanta festa.


Talvez por isso os fogos de artifício nos façam chorar. Instintivamente nós sabemos o que eles significam.

23 de dez de 2016

Ah... Natal na França...


Sou uma mulher de fantasias. A vida não é nada sem ela. Hoje resolvi passar o Natal na França.

Cheguei. Todo mundo sabe o que é neve mas nem todos conhecem neve bem educada, de primeiro mundo, posando para foto. Neve decorativa tingida por lâmpadas coloridas; neve carinhosa abraçando pinheiros, neve meiga encostando a cabecinha nos umbrais das portas, espalhando-se em nosso caminho gentilmente para que carimbemos ali nossos pés. Tudo iluminado. Xô trevas! Laços vermelhos, cães graciosos, gatos graciosos, ratos graciosos, cavalos graciosos. Tudo com lacinhos e meias vermelhas. E ainda um coral de crianças saudáveis entoando (quem canta é pobre; rico "entoa") comoventes canções natalinas. Todos tem pais, avós, irmãos, primos, bichinhos de estimação, boneco de neve e todos, sem exceção, vão ganhar presente. A vida é bela.  Olho tudo de fora. Não sou convidada para entrar em nenhuma casa mas posso bater pernas tranquilamente com minhas botas de couro as quais estão sendo pagas de dez vezes.

E por falar em prestação, lembrei que tudo o que vi pressupõe dinheiro. Ruas tranquilas e sem trombadinha? Dinheiro. Ninguém segura em casa um pivete faminto. Neve aplainada à máquina: dinheiro. Luzes decorativas? Dinheiro.  Coral, jantar, roupas de veludo?  Dinheiro, dinheiro, dinheiro.

Mundo cão. E ter um cão também custa dinheiro.

Mas aqui no meio na neve e com um certo receio de ser mandada aos porões fico novamente me perguntando: o Natal não fica capenga sem aquele garotinho da manjedoura? Fica sim. Minha viagem para a França nevada foi fictícia, mas Jesus, a estrela, os sábios do Oriente, Maria, José... É tudo muito real. O Natal não está na neve. O Natal não está na França. Nem mesmo em Israel. O Natal está aqui.


21 de dez de 2016

O espinho da sanidade


(Texto de Caio Fábio D'Araújo)

"...E quando você encontra um ser humano mais sadio, com as coisas mais bem resolvidas, e ao invés de essa pessoa ser a companhia que faz bem ela é a companhia que te perturba, que você rejeita, que quanto melhor ela te trata pior você fica? E quanto mais carinhosa ela é mais desmontado você se torna? E quanto mais normal ela se manifesta, mais os calombos da sua alma se manifesta?...

Você nunca teve essa experiência? Nunca terminou um namoro e teve que honestamente dizer "eu terminei porque era bom demais para mim?" "Porque eu não tinha cacife pra bancar aquilo ali, porque me botava numa maratona existencial de melhora interior, porque a sua forma mostrava a minha deformação e aí era um convívio que eu não quero porque a pessoa vira um espelho que me mostra, que eu me enxergo, que me aflige, que me angustia!"

... Um ser louco como o Gadareno é mais útil à comunidade do que um ser maravilhoso como Jesus. O maluco é muito mais útil, comunitariamente falando. Ele é um ser cármico! Ele é um bode expiatório! Ele é aquele indivíduo que carrega todas as projeções. O ser maravilhoso não, ele faz as reflexões.

O louco faz a absorção das nossas maluquices; o maravilhoso reflete a nossa loucura..."

17 de dez de 2016

Conta outra, cara!


Aprecio os guarás. Eles tem uma cor linda que "agarra" o nosso olhar. Eles se destacam em qualquer paisagem. São muito bonitos.

Conversando sobre isso com meu marido ele me informou com a cara mais séria do mundo que os guarás tem essa cor porque comem muito caranguejo.   Olhei para ele com o canto do olho e ar de desprezo porque ele estava tentando gozar com a minha cara, abusar da minha credulidade. Mas ele completou a historinha: o caranguejo tem em si um pigmento que passa para as penas dos guarás. Comeu, coloriu.

Eu ri. Muito criativo! Aí ele me olhou e disse que era sério. Eu falei que ele estava de gozação e que tava bom de parar mas ele sustentou que o lance dos guarás era aquele mesmo. Eu já estava ficando aborrecida por ele me achar capaz de crer numa bobagem dessa. Ele insistiu na "teoria do caranguejo". Aquela insistência já estava me irritando. Ele me desafiou a pesquisar. Pesquisei e vi que é tudo verdade. Esse mundo é absurdo. Esse mundo é impossível.

A gente acredita em um monte de mentira convincente e deixa de acreditar em um monte de verdade estranha. O guará é só um exemplo de como a realidade pode ser maluca.

Se parar pra pensar, a história da nossa concepção é então mais estranha ainda. Esse negócio de olimpíada de espermatozóide parece fantasioso demais.  Pense:  o espermatozoide sai correndo no meio de uma multidão. Ninguém explicou nada mas todos eles sabem direitinho o caminho. Nasceram sabendo. Como assim?  Até hoje tem um monte de lugar que não acerto ir sem GPS! Aí um deles se destaca no meio da galera e chega na frente. Dá de cara com o óvulo que está lá distraído de porta aberta. Ele aproveita a deixa e invade. Dá uma de posseiro, na raça. Se tranca lá dentro e não sai mais nem com notificação de oficial de justiça.  Os outros ficam do lado de fora desesperados, esperando a morte chegar com um vergonhoso sentimento de derrota. Depois que está tudo calmo e a gritaria cessou ele se entrega a uma estranha mutação. No começo ele não passava de uma vírgula que sabia nadar mas depois vão nascendo uns acessórios que o faz parecer um girino. Mas ele não quer ser girino! Então continua mudando, mudando, crescendo e pumba! Vira um bebê. Poderia virar qualquer coisa: um coelho, um dedão independente, uma lacraia ou apenas uma vírgula maior, mas não, ele vira um bebê humano! E ninguém sabe dizer ao certo como se deu a mágica. Um dia ele se enfada com aquele desconforto e resolve cair fora. Mas esse clamor por espaço só acontece aos nove meses certinho. E ele não tem relógio nem calendário.  Como ele sabia que é justamente esse o prazo do contrato de aluguel?  Ninguém explica.  Ele sai por um orifício mínimo, uma estranha porta automática que estica e depois encolhe.  E tem mais! O bebê cresceu naquele ambiente horrivelmente apertado mas quando sai não se torna corcunda.

Só quem acredita em Papai Noel engole de cara uma história dessa sem questionar. As crianças estão perfeitamente aptas a acreditarem nessa loucura. Não entendo por quê inventaram a história sem graça da cegonha.

A história da nossa vinda ao mundo é muito mais maluca do que a do guará. E eu confesso que só acredito mesmo porque já vi acontecer comigo. Só não me peçam detalhes porque se eu parar para pensar bem... acho a história da cegonha muito mais plausível.


14 de dez de 2016

O pato da generosidade


Esses dias dei de cara com uma verdade obvia, como obvias são todas as verdades, só que a gente não enxerga. A verdade não se esconde de nós. Nós é que andamos distraídos demais vendo as vitrines e passamos por ela sem perceber.

Me toquei, assim de repente, de que nada é mais libertador do que o cristianismo verdadeiro. Libertador mesmo, no sentido social inclusive.  Uma sociedade que abrace, leve a sério e cultive princípios cristãos é uma sociedade de homens livres que jamais serão escravizados.

Nenhuma pessoa tem o poder de escravizar alguém que seja realmente livre por dentro.  Uma nação de homens espiritualmente livres é uma nação "inescravizável".

Ninguém é livre se estiver preso a paixões, bens, posições. Não tem como! 
Jesus não ensinou esses princípios para que fossemos "bonzinhos e religiosos", mas para que fossemos LIVRES. Não apenas no “sentido espiritual” mas no sentido social, político. No sentido total. Ele estava dando aos judeus o mapa da mina, mas eles não entenderam. Nem nós tampouco.

Por que não derrubamos ditadores? Por que não erradicamos opressores? Por que não tiramos o poder das mãos de quem tem poder? Por que não lutamos? Por que baixamos a cabeça? Por que deixamos que pessoas sejam exploradas? Só por um motivo: porque estamos presos às migalhas que temos. E por que estamos presos a essas migalhas? Porque não sacamos o que Cristo ensinou. Não entendemos, por isso não levamos a sério. 

Jesus nos ensinou o DESPRENDIMENTO, o ALTRUÍSMO. "Ninguém tem maior amor do que esse: de dar a vida pelos seus amigos."   E eu diria que ninguém tem mais poder do que esse sujeito que está disposto a dar a vida pelos seus amigos (seu país).  Quem dá a vida é porque não tem medo de perder mais nada. E quem não tem medo de perder é impossível de ser ameaçado. E sem ameaça não há domínio.  Domínio pressupõe ameaça.

Jesus ensinou que vale a pena dar a vida pelos outros. Quantos acreditam nisso, realmente?  Pois é.  Ele ensinou que isso é poder. O poder de um povo reside no fenômeno do desprendimento, da generosidade. A grade mentira é ensinar que isso seria um sinal de fraqueza. Não é!  Aí está exatamente a força de um povo. É a nossa escravidão interior que possibilita que outros nos escravizem. É o nosso apego às coisas materiais que dá força aos nossos opressores. Quanto mais você tem, menos livre você é. Talvez por isso que o apóstolo Paulo falou (primeira carta aos coríntios, capítulo 7) que "... desejo vos fazer entender é que o tempo se abrevia sobremaneira. De agora em diante, aqueles que têm esposa, vivam como se não tivessem, aqueles que estão tristes, como se não chorassem; os que estão alegres, como se não houvessem alcançado a felicidade; os que podem comprar o que desejam, como se nada possuíssem; os que se beneficiam dos produtos do mundo, como se não tivessem acesso a nada..."    Assim como Jesus ele não pregou a abstinência, mas a liberdade.

“Usem tudo o que for bom, mas como se nada possuíssem. Porque quem não possui, não tem medo de perder e quem não tem medo de perder não tem medo de NADA. E quem não tem medo de nada jamais usará coleira.” 

Estamos todos de coleira nesse Brasil. Tudo porque não entendemos ainda o poder libertador do Evangelho.  

Onde está esse povo generoso , desprendido, sem medo de perder?  Não o temos. Não o somos. Se fôssemos assim o governo perderia todo o poder que tem.   Quem lhes dá poder somos nós, com nossos vícios e ganâncias.   O governo poderia ser desafiado, totalmente despojado. Bastaria que as pessoas não tivessem medo de perder o emprego, de perder a vida, de perder a posição social ou a liberdade em prol de um ideal maior. Mas o que vemos? Vemos todos tentando se preservar. 

Jesus disse que quem quisesse salvar sua vida acabaria por  perde-la mas quem se dispusesse a perder a sua vida, de fato a salvaria.  Nunca isso fez tanto sentido em minha cabeça quanto agora. Isso tudo é muito prático e real e lógico. Por que não entendemos?  No Brasil estamos todos nos perdendo justamente porque estamos todos tentando salvar tudo. Sempre existe alguém traindo um movimento para auferir vantagens junto ao opressor, já notou?  

O Evangelho é libertador porque só a generosidade é capaz de libertar. O libertador às vezes morre. O libertador se machuca. O libertador pode perder tudo. Mas o libertador, por fim, liberta! Nós não temos libertadores porque todos estamos apegados demais ao que temos.

A simples desobediência civil seria suficiente para desmontar todo o governo. Mas esse movimento não acontece simplesmente porque ninguém quer se prejudicar. Todos queremos salvar a própria pele, por isso perdemos até a pele.   Ninguém quer ser o primeiro, ninguém quer ser o mártir, ninguém quer "pagar o pato" . Mas o cristianismo nos ensina justamente a pagarmos o pato. Um  povo de pagadores de pato é um povo livre.

Não, não estou conseguindo expressar a profundidade e a grandeza do que estou percebendo. É IMPOSSÍVEL ESCRAVIZAR E EXPLORAR UMA NAÇÃO COMPOSTA DE PESSOAS GENEROSAS, ALTRUÍSTAS E HONESTAS. Os políticos só fazem conosco o que fazem porque todos amamos o dinheiro.

Quem estiver disposto a perder tudo, descobriu a árvore da vida.

Somos todos escravos hoje. Somos todos sugados. Não precisava ser assim. Eles não teriam tanto poder se nós mesmos não déssemos isso a eles. E o poder deles reside exatamente no nosso egoísmo. Não precisamos nem assassinar o presidente ou explodir bombas em palácios. Basta que não nos movamos quando não quisermos nos mover. Basta que desobedeçamos, que os ignoremos, que nos insurjamos pacificamente. É impossível colocar coleira em um povo assim.

Basta que não tenhamos medo da morte.
Basta que não tenhamos medo de perder tudo por amor à nossa causa e por amor ao nosso próximo.
Basta que abramos mão.
Basta que não baixemos a cabeça.
Basta que levemos o cristianismo a sério. Nenhuma doutrina tem o mesmo poder libertador.

Quanto mais egoístas, mais propensos à escravidão.
Quanto mais "espertos", mais talhados para usar coleira.
Quanto mais generosos, mais livres.
Isso não é pieguice; é ESTRATÉGIA!



9 de dez de 2016

Não quero ouvir falar



  1. Hoje quem for meu amigo não me venha contar "a última do Supremo Tribunal Federal". Não quero saber.
  2. Também não me interessa:  a última do Governo, a última da Dilma, a última do Temer  nem das feministas  nem do LGBT nem do Edir Macedo nem de ninguém.  Encheu.
  3. Não me explique nada hoje. Estou desconfiando de tudo porque tá tudo complicado demais e quando está tão complicado desconfio de que estejam me enrolando.
  4. Não me interessa a nova lista dos alimentos cancerígenos. Todos sabemos que tudo dá câncer. 
  5. Não quero saber os dez pontos mais violentos da cidade nem qual o mais novo golpe na internet. .
  6. Não quero ouvir as palavras: "sustentável", "cidadania", "conscientização", "discriminação", "ecológico", "reciclável", "aquecimento global", "nova lei" nem "ressocialização". Cheeeeeeegaaaaa desses papoooos!
  7. Não quero ouvir falar em dieta. Hoje quero comer muita jujuba. Adoro jujuba e vou comer até minha língua ficar colorida.
  8. Hoje não me mande anotar nada. Não quero anotar: quero "desanotar".   
  9. Hoje não quero ouvir críticas. Só recebo críticas a partir da semana que vem, em duas vias, papel timbrado e firma reconhecida.

Tenho dito.

5 de dez de 2016

Pulcrícomo e outros mais

Pulcrícomo é um cara que tem uma formosa cabeleira. Você já ouviu alguém ser chamado de pulcrícomo? Nem eu. Ninguém precisa disso. Ninguém precisa dessa palavra. Ninguém precisa do que não precisa.

Já está na hora de começarmos a bolar como será nosso próximo ano. Poderíamos iniciar nossa lista de intenções com a decisão de nos livrarmos de toda sorte de pesos inúteis. Minha sugestão aqui é que comecemos pelo dicionário.

Nada como um dicionário fininho, esguio e dobrável como o corpo de um atleta.  Porque não considerarmos inexistente, daqui por diante, todas as palavras-tranqueiras?

Assim como uma mente enrolada enrola tudo, uma mente prática e reta descomplica tudo.

Há palavras que, se um dia foram utilizadas, esse dia se perdeu na poeira do passado. Essas palavras estão lá, enfileiradas e caquéticas fazendo número e gastando o sei-lá-o-quê do que são feitas.  Agora diante dos meus olhos vejo esse aglomerado de "seres" no limbo, no porão esquecido da nossa comunicação. Estão lá em estado caquético, há décadas sem ver a luz do sol e sem notícias do mundo exterior. Aglomeram-se diante de qualquer fresta de sol ansiosas para serem acionadas por algum professor de Português ou poeta mofado. Pobres palavras semimortas... Matemo-las.

Deveriam existir funerais periódicos para as palavras. Uma espécie de eutanásia. Já bolei uma cerimônia simples, talvez na Academia Brasileira de Letras. Os homens usariam terno e gravata e as mulheres qualquer coisa que combinasse com isso. Tudo não levaria mais que trinta ou quarenta minutos. As honras e despedidas seriam dadas a todas as palavras palavras aposentadas (esquecidas, ou impraticáveis, impronunciáveis, envelhecidas, inúteis, ridículas ou ... chamem como quiserem). Os imortais se despediriam dessas palavras mortas não sem antes louvar-lhes o poder expressivo existente em sua juventude ou a sonoridade agradável (se é que um dia a tiveram). Lamentariam o seu desuso chamando a atual sociedade de simplista, sem afeição pelo rebuscado.  O adeus viria não sem antes protestarem  as mentes ralas da atualidade. Quem sabe um singelo poema poderia ser composto servindo-se dessas tristes palavras pela última vez?  Seria o momento tocante da cerimônia. E quando o celebrante pronunciasse cada uma delas pela derradeira vez, uma vela seria apagada.  Uma vela para cada palavra falecida. Coquetel ao final da cerimônia? Acho que sim.

Depois disso elas seriam excluídas das próximas edições dos dicionários. Qualquer gaiato que resolvesse utilizá-las dali por diante perderia ponto na redação.

Pois é...   Quem me conhece sabe que tenho o cacoete emocional de atribuir personalidade aos seres inanimados. É o que estou fazendo agora, precisamente.

Acho que todos nós seríamos mais felizes com um dicionário mais fino, pois ele seria a promessa silenciosa de descomplicações futuras.  Por exemplo:

1- "Ficante" que você não vai usar mais, que não deu certo, que não dá futuro: pra quê ocupar lugar na agenda telefônica?
2- Pessoas que não foram legais, que nunca tem tempo pra você ou que sumiram do mapa e você nem sabe se ainda estão vivas.  Corta!
3- Sonhos sem cabimento?  Jogue fora.
4- Más poesias que você compôs no passado e hoje morre de vergonha de que alguém leia? Delete.
5- Mágoa e traumas já comentados, trabalhados, analisados, desabafados e chorados? Chegaaaaa!

Ano novo vem aí, gente. Bora refrescar o armário.

11 de nov de 2016

Ciclos



Ninguém segura a vida. Ninguém segura a morte. A deterioração é inevitável mas o universo continua. Segue seu rumo pisando duro, desaforadamente, apesar de nós. Mesmo que destruamos todo esse planeta ainda assim ele continuará existindo com outras formas de vida. Árvores foram assassinadas para dar lugar a esse prédio que aí jaz. E outra geração de plantas se levanta sobre os escombros, ri deles e sacode suas bandeiras. Vão viçosas e atrevidas, recém chegadas ao mundo e descansam tranquila em plena posse do que pensam ser seu. 
Quem ri por último ri melhor. Mas ninguém sabe quem ri por último porque o ciclo é infinito.
Deixemos que as trepadeiras gozem a inebriante ilusão da sua eternidade. 

Relevância

É bem desconfortável quando me dedico a fazer contabilidade da minha vida. Sempre concluo que tal exercício não me leva a nada mas insisto só pra redescobrir que nada do que fiz ou faço tem relevância a não ser para mim mesma.  É como se em um imenso corredor todas as portas que eu abrisse estivessem vazias.

Civilizações importantes do passado se empenharam em registrar sua passagem pelo mundo. Eram irrelevantes e não sabiam.   Eu mesma não me sinto devedora de coisa alguma aos grandes imperadores do passado. 

Admitir nossa irrelevância é um ato de sensatez mas deixar-se vencer por ela talvez seja preguiça. Somos irrelevantes mas temos o dever moral de tentar não ser. Nesse caso os "imperadores eternos" estavam certos e eu errada.   Somos reles? Ou só o somos quando nos conformamos em sê-lo?


Todos temos a desculpa perfeita para continuar vivendo egoisticamente já que nada muda nada.  Nosso álibi pode ser a própria Humildade; essa virtuosa senhora que esconde em seu manto todos os negligentes do mundo. 

Mas por que alguém deveria se empenhar em ser "relevante"  e "fazer a diferença"?  Que mania de grandeza é essa? Quem já ultrapassou a si mesmo, afinal? Se todos não passamos de formiguinhas num planeta microscópico, qual a necessidade de nos sobressairmos? Que diferença isso faz?  Por que não cumprir tranquilamente apenas minhas funções biológicas e depois morrer em paz

Nossa vida nós não podemos invocar e nossa morte nós não podemos evitar. Por que achar que entre uma e outra coisa teremos mais controle do que tivemos em seu início ou teremos em seu fim?

Tenho certeza de que filósofos renomados já se detiveram com muito mais elegância e arte diante dessa questão. Não estou sendo nada criativa. Mas a certeza da minha irrelevância me permite caminhar  desajeitadamente por essa estrada que já foi tão mais bem frequentada. Posso fazê-lo porque com isso nada mudarei no mundo que me cerca. Não posso causar estrago então lá vou eu.  Sim, a irrelevância nos traz conforto emocional.

De repente me ocorre que desejar os louros da relevância apaga o brilho de qualquer ato. E que a relevância, se não é um mito ridículo é uma verdade passageira que não gera nada a não ser uma leve bolha no ar que logo espoca. 

Não consigo ver importância em nada do que faço - volto ao ponto inicial.  Mas é daí? Devo me incomodar com isso?  Essa constatação é um bom ou mal sinal? 

Quem saberá se meu estado é mesmo de nulidade?   E pra quê colocar cada um dos meus dias na balança se no final das contas Deus vai pesar tudo de novo numa balança muito mais exata?  

Qual o peso real da minha existência? Qual o peso de saber o peso da minha existência? A quem interessa isso?   Toda a beleza da vida está no conjunto de incontáveis coisas irrelevantes, desimportantes, efêmeras. Mas o conjunto todo é magnífico! E se o conjunto é magnífico por que seriam irrelevantes as  minúcias que o compõe?

Não cheguei a lugar algum, como era de se esperar. E se há alguma conclusão aqui eu diria que é a seguinte: o amor torna desnecessárias todas as perguntas. O amor faz tudo ter sentido. Sem ele a gente apenas se perde filosofando em círculos. Mas o amor paira acima de tudo e nos faz entender tudo sem que haja explicação para coisa alguma.

Odeio chegar a lugares comuns mas é exatamente nesses lugares que o universo guarda todas as suas verdades e segredos. Não há como fugir disso.

Dia 13 é meu aniversário. 


27 de out de 2016

Trégua

Às vezes a gente apenas quer ver umas coisas bonitas para ter alivio. Às vezes a gente precisa apenas lembrar do quanto o mundo pode ser um lugar lindo.
Às vezes nos damos conta de que nossos olhos não estao sendo generosos para conosco. Nossos olhos nem sempre cooperam para nossa felicidade porque nem sempre repousam sobre aquelas coisas que nos fazem bem.
Agora mesmo, da minha janela, vejo que o céu esta azul-calmo com flocos de nuvens.  Pequenas palmeiras ali na rua balançam animadamente. Nada há mais comum e ainda assim é tão bonito!
Quero pensar em coisas boas e lembrar de coisas bonitas. Quero sacodir todas as minhas esperança caso constate que elas estavam mesmo dormindo. Elas não tem esse direito!  Têm se manter alertas!
Gosto do meu quarto, da minha cortina listrada, meu criado-mudo vermelho e dos prédios desbotados cheios de histórias secretas.  Tomara que dentro deles as pessoas vivam em paz e que tenham olhos para as graças cotidianas.
Da minha janela também vejo bandeiras na portaria de um hotel. Bandeiras as vezes remetem a coisas tristes. Não quero ver bandeiras hoje. 
Basta regular a cortina e tudo o que terei é o azul, as nuvens, pássaros e palmeiras: lugares-comuns de todo mal escritor feliz.
Precisamos aprender a usar nossas cortinas.