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31/08/2014

Coisa de filme

Existem algumas expressões muito conhecidas nossas mas que nem assim somos convencidos a adotar. Decididamente há coisas que só se diz em filmes. E é interessante que ouçamos com tanta naturalidade, sem estranhar ou criticar, mas se um amigo começar a falar daquele jeito somos capazes de achar que ele pirou. 

Veja alguns exemplos de expressões naturalissimas em filmes mas imeio estranhas para a vida real: 

1- "Detenham-no!" (O usual é dizer "segurem ele!")
2- "Tire essas mãos sujas de cima de mim!"  ( as pessoa normais dizem apenas "me larga!")
3- "Macacos me mordam!"  ("Cara, que loucura!")
4- "você é um perdedor" ("seu fracassado!")
5- "ora se não é o velho Jack!"  ("Jack, há quanto tempo"!)
6-  "taxi, siga aquele taxi!" (Ninguém diz isso porque sai muito caro)

Né?

30/08/2014

O campo dos sonhos


Acabei de rever um dos filmes que mais me tocaram na vida. Ele novamente me comoveu muito e me levou de novo a longas reflexões. O CAMPO DOS SONHOS  é um sopro, uma ideia, uma possibilidade...

O assunto? Ele fala sobre tudo aquilo que ja veio gravado em nosso disco rígido desde que viemos ao mundo. Fala sobre a angústia de não podermos voltar a uma determinada cena da nossa vida, àquele momento fatídico a partir do qual tudo poderia ter sido diferente. Fala daquela época que ficou para trás, que deixamos incompleta ou torta no passado e já não podemos mais consertar. 


Será mesmo que tudo deveria ser consertado?  Será que temos mesmo a capacidade de discernir o que foi ruim e o que foi bom na nossa vida? Se pudéssemos voltar... mudaríamos mesmo alguma coisa? Nós nos arriscaríamos a alterar dodo o nosso presente se tivéssemos a chance de mudar o passado?

Não, esse não é o assunto principal do filme. É apenas "um dos".

O Campo dos Sonhos não é uma história para ser explicada, apenas entendida. O Paraíso existe? Existe sim. O Paraíso é o lugar onde os nossos sonhos se realizam. Isso quer dizer muito. 


O filme é lindo. Estanho, mas qualquer sinopse o faz parecer meio idiota... Apenas assista. Vá por mim.

22/08/2014

Bulling

Nesse mundo de gente má e sem coração, tenho muita pena de quem não é "mais ou menos".  Diante das mediocridades só estaremos mais ou menos seguros se formos cidadãos "mais ou menos".

Os feios sofrem bulling. Os feios, os magros, os gordos, os muito baixos ou muito altos. Os muito brancos ou muito pretos. Até os muito bonitos são massacrados. Esses dias soube de uma garota que suicidou porque não aguentou a perseguição no colégio pelo farto de ser linda, inteligente e querida pelos professores.

O bulling nada mais é do que vontade de fazer sofrer.  É a arte de uma pessoa fazer com que a outra se sinta tão merda quanto ela.

Quem pratica bulling não é melhor do que nenhum assassino. Porque quem mata aos poucos também tem coragem de matar de uma vez só.



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18/08/2014

Violência! Violência!

Acho curioso como a violência pode ser uma coisa assustadora e ao mesmo tempo tão sedutora. Ela atrai e repele - confesse!  O tempo todo ela e se apresenta para nós; ora como problema, ora como solução.

Violência vende e rende. Gostamos de pessoas fortes, de  filmes com socos, tiros, sangue e lutas. Desde cedo achamos divertido brincar de subjugar.

Observando todo o poder de intimidação que os violentos exercem, isomos levados a concluir que a arma que usam é eficaz mesmo!  Daí somos seduzidos e em um pulo o que é assustador passa a ser desejavel. 

A violência nos deixa acuados. Como  estar acuado é ruim, parece-nos que o remédio para isso é acuar.  Somos tentados a aderir ao inimigo como forma de nos proteger dele. Sentir medo é um fardo muito pesado. 

Parece existir uma crença não confessada de que só a violência nos alivia da escravidão do medo. Mas assim como para me proteger  do medo eu preciso causar medo, devo lembrar que para os outros o remédio também é válido: se tiverem medo também precisarao me intimidar para se protegerem. Dai ninguém estará em paz. Isso é uma desgraça.

Quanto mais amedrontados, maior nossa necessidade de intimidar. É mais ou menos como aderir à máfia por ter medo dela.  A violência é uma espécie de remédio proibido e certamente uma grande mentira. Por algum tempo  parece que nos cura da humilhação do medo, por isso se torna diabolicamente atraente. Isso fará com que cada dia mais pessoas precisem recorrer a ela para se protegerem dela.

Hoje assisti um filme violento. Observei no cinema que as pessoas sentiam um estranho prazer com  as cenas sangrentas. Essas mesmas pessoas sentem prazer quando um lutador tira sangue do seu oponente. Por que acalentam essa coisa mórbida? Porque, mesmo sem saberem, estão sonhando com outra coisa. Quem curte a estética da violência está  na verdade se colocando no lugar do agressor para ter fantasias nas quais nunca mais sentirão medo porque são fortes e podem intimidar. Estão sonhando em nunca mais se sentirem como ratos.  Curtir cenas de soco é fantasiar com o PODER.

Por isso a violência tem se tornado tão atraente: porque se apresenta como a única libertação. E quem não quer ser livre?

Isso é realmente muito triste...







15/08/2014

Gato preto

Gosto de gatos pretos.
Não tenho nenhum gato preto.
Gatos são lindos e os pretos ainda mais. 

Gatos são muito ágeis. Juntando isso ao ar de mistério, passam a impressão de poder. E essa impressão só se confirma quando eles nos olham fixamente.

Gatos trazem uma  mensagem: a de que tamanho e músculos não são documentos pois o cemitério está lotado de brutamontes barulhentos enquanto eles, tão levezinhos, simplesmente se safam.  O poder está na agilidade, no mistério e na beleza, não na força.  Essa é a mensagem.

Sim, em silêncio eles dizem que não precisam de ninguém - embora precisem. É que gostam de posar como auto suficientes. Faz parte do show. Isso é muito deles, "muito gato". E com sua beleza, nos manipulam. Adoram que espalhemos por aí que tem sete vidas. Todos sabemos que não tem, mas o mito tem mais força que a realidade e aí está mais uma grande sacada felina.  

O fato é que acabamos fazendo o joguinho deles. Cuidamos, protegemos, damos tudo o que precisam e ainda fazemos o teatrinho de sermos dispensáveis.  É a fantasia deles, fazer o quê?  Quem não gosta de fantasiar e fazer joguinhos?

Se não fossem como são, não acharíamos divertidas as esquisitices dos gatos. Mas rimos das suas desfeitas encantadoras. Os gatos são a prova viva do poder da beleza.  Há uma provisão maior de perdão disponível para os belos.

Raramente alguém recebe de volta algum agrado de um gato. Eles nos olham  profundamente com aqueles olhos fatais e impressionantes... e vão embora. Ora, e quem não gostaria de ter olhos fatais e impressionantes?

Veja que a fragilidade não é necessariamente um mal. Ela até nos protege porque quem não é ameaçador acaba tendo menos inimigos. E quanto menos inimigos, menos problemas. Outra: com charme se consegue coisas que a força nem sonha em alcançar.

E assim, mansamente, os gatos nos consolam. Eles são nossa fantasia de beleza, agilidade, e poder.   Ainda há esperança em um mundo onde ninguém precisa ser onça pra sobreviver. Até porque o último censo provou que há muito mais gatos do que onças por aí.

Gatos se bastam. Ou conseguem aparentar que se bastam -  o que já quebra o maior galho. 

Ainda vou ter um gato preto.

09/08/2014

Culpa

Chegando quase ao fim de um delicioso dia de preguiça. Não que eu não tenha feito nada. Até que fiz umas tarefazinhas domésticas e com prazer. Mas não fui muito muito além disso. E deveria?

Fiquei um dia lindo inteirinho dentro de casa. Adorei. Mas agora, chegando ao finzinho, tarde acinzentando, começo a me perguntar se não desperdicei alguma coisa por aí no meio dessas horas. 

Será que passar a tarde deitada vendo bobagens na internet é correto? Ou vergonhoso? Pode ser considerado "viver" ou isso está mais pra um parêntesis dentro da vida? Isso é desperdiçar o dia ou é aproveita-lo? 

Tão bom o meu sábado! Por que eu deveria me arrepender de alguma coisa? Não fiz mal a ninguém. Nem bem. Aí é que está! Eu deveria ter feito algum bem mas não fiz. Ou fiz. Cozinhei para a minha família. Não ta valendo?

E eu aqui, egoisticamente no meu apê. Que mal há nisso? Não sei. Era pra ser bom, então por que a dúvida? Estou devendo alguma coisa para alguém?

Acho que só os bebês tem prazer limpo, em estado bruto e sem juízo de valor.

06/08/2014

Mágoa

Você, que me vê todos os dias mas não me intui, não merece que eu me explique.

Fico imaginando o mar. O mar imenso, cheio de peixes estranhos, plantas instigantes, sons, mortos, relíquias, histórias. O mar e seus marinheiros dissolvidos, seus vasos de porcelana de tempos idos. Imagino esse imenso mar cheio querendo abrir seus tesouros, falar de si, fazer-se entender. Imagino o mar, tantas vezes louvado, finalmente criando coragem para uma aproximação. Então ele chega doce e confiante, alisa as pedras, entra nos tímpanos das cavernas, faz sons, extasia-se. Acredita na abertura, crê que viu um sinal, um aceno, um "sim", um despir, um comovente pedido de reciprocidade. O mar ousa, acredita, leva suas histórias e conchinhas, romances interrompidos em naufrágios, saudades e lembranças de céus negros. O mar entra nas pedras, na areia, busca raízes, quer apertar-lhes as mãos. Mas não há resposta. Alguns seres assistem de longe a tentativa patética.  Todos se foram... ou não vieram.  Admiradores ralos e reles. Falsos convites, equívocos, sinais que jamais aconteceram. Corações fechados. Distâncias. Seus tesouros não importam.

Fico imaginando o mar desistindo, indo embora. Penso no mar cansado. A figura do mar desapontado me enche de melancolia. Ele vira as costas e abandona a praia.

Às vezes imagino que o mar vai cansar de se jogar inutilmente sobre as pedras. Arrastará suas vestes pra longe e pra sempre. Para aquele lugar onde os mares nascem, morrem e se tornam inacessíveis.

02/08/2014

Alminha

Por favor, não me fale hoje nas crianças maltratadas, famintas ou abandonadas. Não me conte coisas tristes porque estou com o coração pesado. Só por hoje não insista em me fazer acreditar que a chave do mundo está em minhas mãos. Não posso suportar esse peso. Falhei e tenho falhado muitas vez, de forma que hoje o que mais quero é a paz da pequenez e da incompetência.  Às vezes só a nossa insignificância nos consola do que não fizemos.  Só quero seu o animal cansado que volta à toca. Ninguém lhe cobra nada porque, afinal de contas, ele é só um animal muito cansado.

Hoje não me sinto capaz de mudar o destino de ninguém. Hoje preciso descansar a cabeça com a crença de que existe por aí alguém mais nobre, determinado e impulsivo do que eu. Alguém cheio de dons e pródigo em compartilhá-los.  Sobre essa pessoa especial  recairão todas as responsabilidades e a mais nobre das missões. Ele mudará a vida de muita gente, criará ONG's, revolucionará o bairro, abraçará crianças e iniciará programas de ressocialização.  Orarei por ele.

Pelo menos por hoje não me faça crer que minha opinião muda tudo, que meu voto é revolucionário, que se eu participar da passeata o bem vencerá o mal.  Todos sabemos que é mentira. Pare com isso pelo amor de Deus!

E não me fira com um "todos somos culpados". Já me pesam meus próprios erros. Não me responsabilize pelo dos outros. Pegue sua bicicleta, vá passear e deixe os impotentes em paz.

Que o vento bata sobre minhas ideologias e que elas evaporem por uns dias e que assim, livre dos mais elevados ideais, eu seja apenas um ser humano transitando por esse mundo de meu Deus.  O cansaço, às vezes, é muito amigo.

Os cães, os pássaros, as cobras, as flores, os sapos, os cavalos e urubus estariam todos muito cansados e deprimidos se passassem a maior parte das suas vidas tentando ser o que não são. Mas ninguém lhes cobra isso, nem eles mesmos. Bem-aventurados são.

Tenha piedade, só por hoje, da minha alminha envelhecida. Deixe que eu chegue em casa - não me aborde! - e tire os sapatos, ouça minha música preferida e coma um carboidrato sem sentimento de culpa. Deixe que eu acredite, pelo menos por hoje, que não posso ser melhor do que sou, que não estou atrapalhando o curso da história e que tenho feito a minha parte.

28/07/2014

O grande sono e a pequena morte




Dormir é morrer um pouquinho. Precisamos entender que esse rosário de  "pequenas mortes"  tem um propósito: preparar-nos para "o grande sono".

A "pequena morte" nos pega pela mão todas as noites quando estamos narcotizados pelo cansaço. Então saímos por aí meio zonzos. Pra quê? Só pra começar a gostar do mistério. Pra dar curiosidade.

O fim do dia, com todo o seu cansaço, é uma parábola.

Não costumo questionar a brevidade da vida nem a inexorabilidade da morte. Creio na vida depois da morte, de forma que isso não me intriga. Mas um dia me flagrei com um questionamento bem semelhante ao dos nobres incrédulos: embora eu não me indigne com a brevidade da vida, é certo que me chateio com  a brevidade do dia. Muitas vezes cheguei em casa depois do trabalho e perguntei às paredes qual o sentido de trabalhar o dia todo para, no final das contas, ir dormir?  Foi pra isso que corri o dia todo?

Quando estou liberada dos meus afazerer para desfrutar algumas horas como eu quiser, sou quase sempre vencida pelo cansaço. Aí então nada me parece mais atraente do que um banho, um perfume e meus lençóis.

Por quê, quanto finalmente temos tempo, falta-nos a disposição?

Essa falta de disposição do final do dia não seria uma miniatura da falta de apetecimento no final da vida? E não deveríamos ser gratos por ser assim?

Acho que o cansaço da noite é uma maneira que Deus inventou para entendermos como a coisa funciona. No final das contas não somos perseguidos pela morte da mesma forma como não somos perseguidos pelo sono: nós é que nos entregamos a ele porque queremos e ainda achamos muito bom.

Dia a dia somos alfabetizados pelas exigências do dia e da noite: essas graciosas miniaturas da vida. Assim como uma noite de sono é o grande prêmio pelos nossos trabalhos, a morte também. Ela é uma espécie de aposentadoria; o justo reconhecimento para quem ralou muitas décadas e merece se refugiar num spa de luxo.

Você pode achar um prêmio muito fuleiro mas não é. Nada é mais atraente, para quem está cansado, do que uma proposta de descanso.

Depois de tantos afazeres seremos brindados com alguns "anos vagos" nos quais poderemos fazer o que bem quisermos. O nome disso é velhice. Mas o que vamos querer fazer nessas derradeiras "oito horas" da vida?    Essas  "oito horas" podem ser comparadas a uma virgem que fica sentadas à frente do namorado esperando que ele saiba muito bem o que vai fazer com ela.  Entre tantas opções de comportamento ela vai mesmo preferir apenas "deixar-se possuir" - ora bolas!

Acredite: você vai querer ser vencido pelo "grande sono" do mesmo jeito que todos os dias é nocauteado pela "pequena morte".

A incerteza de despertar depois "do grande sono" é o que perturba as pessoas. Se não haverá "depois", qual a graça do "agora"?

Não conheço os mistérios da vida, muito menos os da morte. Não conheço, mas intuo e faço links. A certeza de que terei muitas noites e muitos despertares me fazem dormir tão bem! Quanto à morte... Ora, é a mesma coisa.

Qual o sentido da vida? O sentido é que estou ocupada demais vivendo. Não vou parar tudo pra pensar sobre isso. E quando chegar a hora derradeira..  estarei ocupada demais morrendo. Aí vou pensar como penso hoje: "ah, estou cansada demais. vou dormir e quando eu acordar penso no assunto."







"A morte não é nada.
Apenanas passei para o outro mundo.
Eu sou eu. Tu és tu.
O que fomos um para o outro, ainda somos.
Dá-me o nome que sempre me deste.
Fala-me como sempre me falaste.
Não mudes o tom a triste ou solene.
Continues a rir do que ríamos juntos.
Reza, sorri, pensa em mim, reza comigo.
Que meu nome se pronuncie em casa como sempre se pronunciou.
Sem nenhum exagero, sem rosto de sombra.
A vida continua significando o que significou.
Continua sendo o que era.
O cordão da união não se quebrou.
Por que eu estaria fora do teu pensamento, apenas porque estou fora de tua vista?
Não estou longe, somente estou do outro lado do caminho.
Seca tuas lágrimas e, se me amas, não chores mais."
Santo Agostinho


24/07/2014

O banquinho

Passei aqui só pra dizer que assisti novamente Forrest Gump. Chorei de novo.

Não tenho fama de sensível. Sou à prova de quase tudo. Aguento firme vários tipos de provocação emotiva mas sempre há uma parte do coração que escapa da armadura, se expõe e acaba levando uma flexada.

"Posso não ser inteligente, mas eu conheço o amor!"

O que é a nossa vida? Caminhamos inexoravelmente para aquilo a que fomos destinados? O que nos cabe é inegociável? Imutável? Ou a vida é como uma pluma solta, soprada por ventos caprichosos? Ela se vai sem rumo ou proveito. Seus movimentos, por mais que pareçam belos, são gratuitos. Queremos muito que suas evoluções no ar expressem arte, destreza ou qualquer coisa a ser compreendida,  mas não! Tudo é desconcertantemente aleatório. Aquele vagar bêbado é apenas confuso, sem significado algum.

Ou ... ou será que as duas coisas acontecem ao mesmo tempo?

É possível que tantas voltas nos levem a um lugar exato? Ou abraçamos a ideia de "destino" como quem abraça um ursinho de pelúcia? Temos mesmo uma necessidade imensa de viver com um propósito reconhecível, de ver sentido em tudo.

Talvez todas as nossas buscas nos levem àquele banquinho onde Forrest refletia sobre a vida. E ali, sentados, lembrando de tudo, é que começamos a perceber o sentido das coisas. Não há o que esperar. A vida não será, ela já foi.  Sente aqui e veja. Tudo foi mais suave e criativo do que poderíamos planejar.

Enquanto prosseguimos atarantados buscando algum motivo nobre pra existir, fazemos papel de bobos. Deus olha e ri, condescendente. Somos bem engraçados às vezes.  Ele deixa que continuemos a procurar o chocolate escondido pela casa e ri porque o colocou no nosso bolso. Estava o tempo todo lá e não percebemos. Mas a gente sempre descobre quando para, cansa e senta no banquinho.

Só podemos entender o passado. O presente, jamais.

A sua história também é fantástica. Como a minha. Como a de Forrest Gump.

17/07/2014

Negruras


Comecei a assistir, com uns amigos, um desses filmes horrorosos com sangue, gritos e torturas. Claro que não consegui ficar até o fim. Repulsivo e angustiante.

Que tipo de vida têm as pessoas que, dentro de si, concebem um filme assim?  É necessário marcas escondidas, dores, doenças e um certo tanto de lixo como matéria prima armazenada. Que tipo de mente respira imaginando isso? Por quantas horas durante o dia?  Não se assustam consigo mesmas?  E se há mercado pra isso, esse mundo é um lugar tenebroso mesmo!

As vezes acho que a Terra é uma enorme caverna muito, muito escura. Nós nos assustaríamos se pudéssemos enxergar tudo. A escuridão, no caso, é um alento. Enquanto caminhamos pisamos em insetos, esbarramos em cadáveres e moscas enormes. Há baratas e larvas, escarros e dedos. Lesmas estão debaixo dos nossos pés mas não percebemos. Seguimos em frente, reclamando apenas da ausência de luz.

Talvez convivamos com pessoas que, se pudessem ser viradas do avesso, seriam um filme de terror. Há zumbis por todos os lados, estou certa disso. Quem são eles? Não sei. 

E por falar em zumbi, acabei de reler ainda agora um texto meu, aqui no blog, no qual eu dizia que a vida só é completa se contiver também dor e o sofrimento. Quando reli lembrei do filme horroroso que comecei a ver e disse para mim mesma, assustada, que eu não estava me referindo àquilo. Não! Deixem-me explicar que a "atração pela dor"  que eu mencionava tinha a ver com cometer erros, envolver-se em situações de risco e relações tensas. Nada parecido com esse pesadelo da tela.   Então expliquei a mim mesma que não sou um desses seres deturpados que trazem à luz diversões macabras. Sou uma pessoa boa. 
Sou uma pessoa boa?

Tenho realmente condições de enxergar a mim mesma a ponto de poder recomendar-me aos outros com segurança?  Ou a caverna por onde anda meu verdadeiro EU é tão escura quando a que acabei de imaginar?

Se acendêssemos uma lamparina no labirinto da nossa mente - sim, da nossa própria mente, não na dos outros! - não ficaríamos assustados?  Do que somos capazes?     O pai que matou a filha: será que ela sabia desde sempre que era capaz disso? E a moça que matou os pais à pauladas? Desde quando se sentiu capaz?

Nossa cegueira nos protege de enlouquecer. Ou nos protege de notarmos que somos loucos. Nos protege da angústia da descoberta. Como se fôssemos mais de um: o EU ingênuo e "acreditador" e o "'EU" mau e louco; meu irmão gêmeo a quem não posso ser apresentado. Sou a pessoa má e sou a que acredita que sou boa. Sou duas, separadas uma da outra pela parede da escuridão. A parede que nos separa das nossas dolorosas verdades.

Não vemos tudo. Somos estranhos a nós mesmos. O interessante é que temos no peito um ideal de bondade e beleza que nos motiva, nos enternece e, de certa forma, levanta o nosso olhar e nos faz continuar andando nas trevas enquanto acreditamos na luz.

Não sei bem qual o nome desse "lado puro que não se enxerga". Dizem que é "espírito".

13/07/2014

Uma mulher irresistível


Cada dia mais me convenço de que não teríamos tantos problemas se déssemos mais atenção ao MARKETING PESSOAL. A maneira como nos apresentamos ao mundo determina nosso sucesso ou insucesso profissional, político, afetivo (sim, até afetiva!) e social.

Tudo bem, mas se é assim, isso pode se tornar uma coisa meio neurótica. Tudo que "rende frutos" pode render neuroses.  Como relaxar?

Conheço várias pessoas muito bem sucedidas nessa arte. Será que nunca relaxam ou já acordam no piloto automático? Sim,  porque vender a própria imagem inclui até gestos mínimos.

Já estive entre as pessoas que fazem tudo errado nessa área e depois ficam achando que o mundo as odeia ou que são muito azaradas. Faz alguns anos que tenho observado a minha própria trajetória. Poucos se boicotaram tanto quanto eu. Confesso que por muito tempo achei que o mundo me odiava. Agora, que alcancei um certo nível de entendimento, sei perfeitamente bem onde pisei na bola - mas continuo sem energia pra mudar o rumo.  Em diversas situações escolhi a roupa menos indicada, critiquei a pessoa errada no tom menos aconselhável. Pior: não foi distração, foi consciente. Mas era irresistível!

Hoje eu sei de uma coisa: quanto mais vezes a palavra "irresistível" constar em seu vocabulário, maior a chance de você ser um fracasso de marketing.

Sempre achei "irresistível" dizer certas verdades para certas pessoas. Menos um ponto. Mesmo que essa "certas pessoas" fosse um superior hierárquico. Menos dez pontos. Acho irresistível abrir mão do traje "executivo" mesmo que esse fosse o recomendado para a ocasião. Menos cinco pontos. Se estou com problemas, isso fica estampado na minha cara. Menos três pontos. E por aí vai. E por ser "essa mulher irresistível" já perdi oportunidades interessantes.  Não sei fazer "as amizades certas". Acho irresistível optar pela espontaneidade. Também é irresistível dar a minha opinião sincera quando indagada. Menos um ponto aqui, menos um ponto ali.

Meu mal não é "não saber usar o marketing pessoal". Meu mal é não ter paciência para  as suas exigências.

Já os bem sucedidos são divididos em três grupos: 1) os sortudos,que já nasceram formatados para o sistema; 2) os determinados, que sabem o que querem e instintivamente caminham naquela direção sem pestanejar, por mais artificial que seja o comportamento a ser adotado; 3) e os orientados. São aqueles que contratam um profissional da área para lhes apontar o caminho que eles são incapazes de enxergar.

Dos três, o segundo grupo é o que mais me causa admiração. Isso porque o primeiro não tem mérito algum por ter nascido como nasceu. O terceiro grupo tem mérito pela humildade em reconhecer o próprio fracasso e correr atrás da solução, só são sempre flagrados, então a coisa fica muito artificial e cômica. O segundo grupo, dos determinados, pra esses sim eu tiro o chapéu.  Não são a maioria. Eles percebem como deveriam ser, então vão à luta. Sem alarde, sem se importar com mais ninguém, confiando apenas em si mesmos. Metem a cara, mudam de cara, dão a cara a tapa... e conseguem alguma coisa.

Política é tudo. E eu aqui, do alta da minha "irresistibilidade",  só tomando nota...