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27 de ago de 2016

Ele está de volta

Comecei a assistir despretensiosamente.  Quase desligo porque o filme começou mal pra caramba. Achei uma droga,  sem graça, um pastelao idiota. Mas depois a historia se torna bem instigante. Levanta questões muito interessantes.
Em determinados momentos parecia que estavam se referindo ao Brasil. Cheguei a desconfiar de que o filme foi encomendado para nos cutucar.
Mas sabe o que dá mesmo um nó na cabeça? A constatação de que ao longo do filme a figura de Hitler deixa  aos poucos de causar repulsa ou revolta.  Sua postura cheia de orgulho pelo seu país, "fé  na Alemanha  e  sincero disposição em trabalhar para a grandeza do seu povo" é algo que pode conquistar pessoas a qualquer tempo,  inclusive hoje. Alguém que realmente acredite em seu povo, na grandeza da sua nação e seja capaz de insuflar isso nas pessoas. Quem não se deixaria seduzir por um lider assim?  Isso é assustador.
Com a abordagem correta, sem as formalidades do passado e uma pitada de humor  Hitler bem poderia ser reintroduzido na sociedade inclusive com a ajuda daqueles que não lhe levam a sério. Acho que ele faria sucesso aqui e agora. Porque é como ele disse: as pessoas o escolheram porque no fundo elas são como ele. 
É um perigo brincar com o mal, esquecer que o mal é mal, rir do mal. Porque de repente o mal seduz, igualzinho como no passado.
Recomendo. Mas repito: o início é uma droga.



Confira "Ele está de volta" na Netflix
www.netflix.com/title/80094357?source=android

17 de ago de 2016

Falsos desprazeres

Na aposentadoria a gente sente uma necessidade imperiosa de comemorar coisas. Algo tem que compensar o ocaso da nossa vida. Celebramos então a liberdade quase que total que nos acomete. Comemoramos também outras coisas menores, como poder viver de bermudas e chinelos.

Economizar com gastos de roupas é um desses temas de comemoração de aposentados. Como disse acima, posso andar de bermudas e chinelos o quanto queira. Nada mais delicioso principalmente quando se exercia uma profissão que nos obrigava a adotar uma aparência nem sempre confortável.

Comprar roupas é um desses falsos desprazeres que a gente comemora talvez sem pensar. Ultimamente tenho passeado pelo shopping com certo desgosto. Às vezes posso comprar a linda roupa que vi na vitrine mas não consigo evitar a pergunta: pra quê? Pra usar onde? Pra deixar no armário? Sapatos lindos, bolsas desejáveis, vestidos, blusinhas, um novo jeans. Eram gastos que eu fazia fingindo que era só por necessidade. Não era. Comprar roupas é se expressar, renovar.  Usar uma bela roupa nova dá prazer. Muito prazer. Afeta o emocional. Mas não consigo! Não preciso! É realmente frustrante poder mas não ter motivo para adquirir.

Não vou jogar fora minhas roupas de qualidade. E sendo assim é claro que não vou repor algo de que não me desfiz. E me tornar uma acumuladora de roupas também não quero. Abrir o armário e ver aquelas peças ultrapassadas se tornando cada dia mais cafona sem que eu me dê conta disso?  E vez por outra eu acabar usando essas velharias  e me tornando velharia com elas? Não, obrigada.

Cada vez menos roupas, cada vez menos sapatos e bolsas. É todo um estilho de vida sendo desmantelado para dar lugar a não sei o que exatamente.

O pior de tudo é notar que as roupas tem uma grande influência em nossa postura e gestos. O vestuário não é apenas uma expressão do nosso eu. Ele também nos molda e projeta nossa imagem para o mundo exterior. É essa imagem é percebida também por nós, de tal forma que é retroalimentado o tempo todo. Ao abrir mão disso em prol do tênis e camiseta você se torna cada vez menos sofisticado, menos marcante, menos elegante. Seus gestos e postura se alteram não para melhor. Você não vai se tornando simples, mas simplório. Até chegar ao nível da insignificância da qual, uma vez convencido, convencerá também o mundo. E vice-versa.

Você achou essa conversa fútil? Sério? Auto percepção, imagem própria, é amor próprio lhe parecem assuntos bobos?

Encerro com uma dica: ao aposentar, não comemore a economia de gasolina. O que você economizar em combustível acabará sendo gasto em energia elétrica porque você ficará mais tempo dentro de casa.

12 de ago de 2016

Administrando-me

Estou um pouquinho melancólica aqui na minha sacada. Normal, pois hoje é sexta e sexta sempre foi um dia difícil para mim. Tenho uma longa história de vazios e desapontamentos em vésperas de sábados. A coisa tem sido tão marcante ao longo da vida que ainda que tudo esteja bem o perigo ronda. Preciso ficar alerta na torre de vigia. Ou alerta ou muito, muito, mas muito ocupada com outras coisas.

 Ainda que não tenha de que me queixar, ainda assim uma tristeza persistente e estranha sempre chega perto e funga no meu pescoco. Parece sair de debaixo dos móveis. Preciso passar um pano debaixo do sofá. Ali parece ter um viveiro de angústias.  

As angústias não são como gatos. São talvez emanações, vapores saídos de coisas velhas que a gente guarda. Não dá pra se desfazer de tudo, você entende. Então acontece. Vem vindo, vem vindo...  Parece que ela vigia meus momentos vagos, minhas horas de folga. Talvez vigie o pôr do sol esperando o momento mais melancólico. Talvez. Não sei. Às vezes parece que a melancolia espera a grande bola solar viajar para a outra parte do mundo para então tomar conta do pedaço.

Pois aqui estou eu, sobrevivente, na quietude.  Estou escrevendo, estou ouvindo música, tomando um licorzinho e pegando um vento na minha varanda.  E pra rebater toda essa coisa distraio-me fazendo mil planos de ser mais feliz. Tomo decisões valentes e passo a admirar a mim mesma pelas sábias atitudes que tomarei a partir de segunda feira. Sou independente, livre e antenada. 

Parece que está funcionando. Estou me sentindo quase poderosa e disposta a desprezar qualquer proposta de diversão. No momento isso me basta. Preciso não precisar: esse é o segredo da felicidade.   

Tenho dificuldade em abandonar a ideia estapafúrdia de que todo o mundo está do outro lado do navio, do lado oposto ao meu, fazendo coisas divertidíssimas. Esse pensamento não tem sentido algum. 

Tive outra idéia: preciso estudar. Vou estudar e adentrar em um portal novo e instigante. 

Está decidido. 

Vaias

Poucas coisas provam com tanta exatidão o caráter e a forca interior de uma pessoa do que uma bela salva de vaias. Acho ate que todos deveríamos ser vaiados em público pelo menos uma vez na vida, para aprendermos a ser gente. Deixar de frescura e levantar a cabeça.
Uma pessoa mimada  é uma pessoa fraca. Uma pessoa mimada não tem forca, não consegue seguir em frente,  não tenta de novo. Fica assustada, coloca o rabo entre as pernas, entra em depressão enão  quer mais nada com o mundo.
Quer saber se seu filho é um guerreiro? Submeta-o a vaias.
Esses dias vi uma manifestação da Lucinha Lins em video. Ela dizia que já fora veementemente vaiada varias vezes na vida. Uma das vezes eu lembro bem: ganhou um festival de canção com uma música ridicula que ninguem mais lembra, enquanto o Guilherme Arantes ficou em segundo lugar com uma obra prima lindissima, inesquecivel, que apaixonou o pais: Planeta Agua.
Lucinha Lins cresceu no meu conceito. Podem dizer isso a ela. Atriz e cantora, se fosse uma fraca jamais seguiria em frente. Estaria até hoje chorando e fazendo terapia.  Mas ela foi forte, não se deixou intimidar e se tornou uma profissional reconhecida. Se fosse outra iria afundar no alcool, nas drogas, na amargura.
Sim, admiro quem aguenta vaias sem desistir, sem paralizar. Acho que é a grande prova nessa vida. A rejeição escrachada e sem misericórdia.  Quem se dá valor entende que aquele momento não define seu talento, não te define como pessoa. Quem vaia apenas exerce um direito sem compromisso com nada, a não ser com a animação do momento. 
Voce pode pensar que é guerreiro mas se nunca foi vaiado você não sabe de nada. Ainda não se conhece.
Resumo de tudo: não me vaiem pelo amor de Deus. Não sei se sou guerreira. Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe. E depois de uma sessão de vaias não sei se eu voltaria a levantar a cabeça algum dia.   
Pensou que eu iria terminar o texto de modo mais glorioso? Não. Poupem-me dos seus testes. Preciso de carinho.

11 de ago de 2016

A exaustão

Disseram por aí que a diferença entre o remédio e o veneno é a quantidade. Gostei do ditado. Aplica-se a tudo, inclusive ao fenômeno da transmissão de informações.

Imagino os transtornos que os povos antigos amargavam por pura falta de informação. Táticas de guerra falidas, alimentos prejudiciais,  tratamentos de saúde inócuos ... Como sofriam os mal informados!  

Não sei se é verdade mas li em algum lugar que há anos atrás encontraram um velho soldado vivendo em uma ilha quase deserta. Levava uma vida solitária e sofrida,  em suspense e aflição. Durante uma das batalhas havia se desgarrado do seu grupo. Então escondeu-se na selva com medo de ser feito prisioneiro.  Esperou longamente por um resgate que nunca veio e ficou sem a informação vital de que a guerra havia terminado há décadas. Se fosse hoje em poucos segundo ele já estaria arrumando sua jangadinha pra voltar pra casa. Caramba, tomara que essa história seja mentira. Coitado.

Quantos anos se passaram até que todos ficássemos perfeitamentes cientes de que Coca Cola faz realmente mal à saúde? Ou que o aspartame pode acelerar o processo de osteoporose? Quantos sabiam, há trinta anos atrás, que comer carboidrato é o mesmo que ingerir açúcar ? Essa informação em particular eu preferia nem ter tomado conhecimento.

Estou convencida de que de uns tempos para cá estamos recebendo uma overdose cavalar de informações e isso não é nada bom. Não são informações certificadas mas informações desencontradas!

É um tal de pode/não pode, verdade/mentira, as pesquisas comprovam/as pesquisas comprovaram o contrário do que já tinham comprovado. O Sudário de Turim? Já foi confirmado e escrachado umas dez vezes. Alguma coisa preciosa lá dentro de nós se desgasta, certamente.

Estamos no limiar de uma situação muito pior do que a dos nossos antepassados. Eles não tinham acesso à tantas informações mas quando as tinham, tomavam providências e mudavam o rumo de suas vidas.  As revoluções foram assim. Havia trocas e mais trocas de informações, de folhetos, manifestos e comunicados que de um modo geral ninguém questionava a veracidade da origem. E dava certo.  Hoje estamos tão encharcados de manchetes que vamos ficando com as alminhas gastas. Estamos entrando em um processo de dormência.  

Me dói imaginar que maior verdade do mundo perderá a força vital. Daqui há alguns anos ela não terá mais o poder de causar perplexidade. Nenhuma informação bombástica afetará nossos hábitos - saudáveis ou nocivos. Estaremos surdos, incrédulos e inertes.  

Hoje a gente já não acredita mais em muita coisa, é verdade. Mas mantivemos a saudável iniciativa de tentar confirmar as informações recebidas.  Mas já  estamos começando a cansar.  Pesquisar TUDO cansa. E além disso quem garante que qualquer outra informação posterior, contrária à inicial, é a fidedigna? Ninguém.

Já pensou o que acontecerá a partir do momento em que nenhuma informação for tida como verdadeira? Nem revista nem jornal ou artigo científico?  Imagine que absolutamente tudo deverá ser ""re-pesquisado" e que apesar do nosso esforço jamais cheguemos ao conforto emocional gerado pela verdade? 

Hoje ainda nos damos ao trabalho de tentar confirmar informações mas brevemente estaremos tão saturados de afirmativas ditas e desditas que passaremos a odiar os arautos de qualquer coisa.  

O próximo passo depois de não acreditar é pesquisar;  e depois disso o próximo passo é mandar tudo  às favas: não absorver mais nada.  Dias virão em que ainda que nos advirtam da existência de um precipício logo ali na curva da estrada, nosso cansaço nos fará seguir em frente. Desapareceremos no buraco. Surdez emocional mata.  

Pior do que censurar os meios de comunicação é desacreditar os meios de comunicação. Deixar que se choquem tristemente uns contra os outros, que caiam no ridículo, que se destruam pelo palavrório.  Quando nada mais for confiável entraremos novamente na idade das trevas. 

Nenhum ditador teria uma tática tão eficiente para roubar do povo o direito à informação.

A censura é um meio por demais grosseiro. É  flagrantemente canalha, ninguém gosta dela. Mas ao mesmo tempo um povo bem informado é um perigo para qualquer governo. Não dá pra soltar as verdades aí pelo mundo. Descobriram então a cartada de mestre:  que tudo vire piada, que tudo vire entretenimento!   Ninguém precisará se desgastar impondo censura. A verdade poderá ser gritada e estampada com provas sobejas, mas ninguém mais ouvirá. 

Assustador.  Acho que é isso o que temos pela frente: a exaustão. O cansaço aliado à incredulidade suicida.  

"Eles venceram e o sinal está fechado pra nós, que somos jovens."










4 de ago de 2016

Feiuras

Não acredito que tudo o que consideramos belo ou feio seja uma construção cultural.  

Já li algumas pesquisas que provam que os bebês se sentem mais atraídos e encantados por certos traços fisionômicos harmônicos. E por favor não me diga que eles, os bebês, também foram doutrinados "pela sociedade de consumo e pelos padrões do poder vigente". Existem parâmetros mínimos. Assim eu creio. Há sim o feio e o bonito. A dificuldade em defini-los não anula a sua existência. 

Mesmo assim parece muito possível que, forçando um pouco a barra, obriguemos as pessoas a professarem adesão aos padrões dos mandões do momento.  Até certo ponto o que é instintivo pode ser arredondado, aparado aqui e acolá. Mas só até certo ponto. Fora isso ainda que há pessoas impermeáveis a esse tipo de forçação de barra. Também é bom lembrar que nem todo ganho é real. Sempre há espaço para a hipocrisia humana, do tipo "ai que lindo! - só não quero pra mim". 

Não sei até que ponto conseguimos reais vitórias na militância por um gosto estético mais democrático. Penso que jamais saberemos.  Lá no fundo, nos nossos porões particularíssimos, somos o que somos e a partir disso fazemos e faremos nossas escolhas. Nada mudará isso.

30 de jul de 2016

Anéis flutuantes

Pareciam dois anéis girando em direções distintas.  Dois mundinhos afetuosamente interligados mas não prestando muita atenção ou dependendo um do outro. 

O núcleo eram os adultos, serenos  e sorridentes comemorando um aniversário. Visivelmente harmônicos entre si, pareciam muito cônscios do seu poder de atração sobre os demais corpos celestes. Nenhuma preocupação, nenhuma irritação ou suspense ultrapassava o cinturão invisível que circundava o núcleo. Todo movimento ao redor era de astros subjugados, incapazes de ir mais longe. 

Orbitando ao redor desse núcleo haviam três pequenos asteróides. Movimentavam-se em elipse, presos e seguros num magnetismo quase palpável. Mesmo quando iam um pouco mais longe não olhavam interrogativamente seus pais nem eram vigiados por eles. Parecia ser muito natural que o movimento fosse aquele e que o tamanho da sua liberdade já estivesse acordado e decidido.

Os adoráveis asteroidinhos também traziam presos a si outros corpos celestes, só que de gás: um era no formato de um avião, outro com as caras do Frozem e mais outro tipo Princesa Sofia.  

O asteroidinho mais velho era por demais agitado e se comprazia em perseguir e ameaçar com caretas e evoluções de luta. As meninas, fugindo da perseguição, formavam com ele um divertido trenzinho celeste onde cada vagão conhece o ritmo certo de correr sem pegar ninguém e sem se deixar pegar. Essas investidas geravam muitas cenas engraçadas. Mais de uma vez parei de comer minha pizza pra rir ou para me conter, pois queria intervir naquela pequena cena de injustiça social. Devido à impetuosidade do menino, o direito à posse das garotinhas estava sendo ameaçado! Mas tive que me conformar porque a minha galáxia era outra.  Então me limitei a rir daquele menino comicamente ameaçador que fazia as menininhas darem mil voltas em torno da mesa sem socorro algum. Ninguém se importava, só eu. 

Os adultos conversavam em paz, alheios àquelas  opressões infantis como se soubessem, desde sempre, que tudo estava controlado.  As crianças então giravam sua história para um lado enquanto eles giravam para outro, num desencontro curioso que não os separava. Estavam interligados e separados, presos e alheios.

Eu me deliciei observando a harmonia daquela desconexão,  daqueles giros e magnetismo. Guardei a visão do menino danado, da mãe desestressada, da avó serena, do pai seguro... e especialmente da menininha elegante em seu vestido fresco, limitando-se a fugir do meteoro sem correr, numa velocidade constante e estudada.    

Por fim todos se foram,  leves como os balões. Parece-me agora que não fizeram outra coisa a não ser dançar em orbita a noite toda de um jeito afinado que não se vê muito por aí.

26 de jul de 2016

A pior perda

Já existe  um consenso: a pior perda da velhice é a saúde.  Depois vem a beleza. Claro que estou aqui para dizer que pensei muito a respeito e por fim discordo.  

Ontem eu observava uma senhora. Mais exatamente "uma velhinha".  Todos os seus movimentos eram em câmera lenta em comparação ao resto do mundo. Ela contava suas histórias e as vezes se queixava da vida. Tossia, passava a mão na cabeça, sorria às vezes, tudo de dentro da sua impenetrável bolha slow motion.  Durante todo tempo em que eu tentava lhe prestar atenção,  lá dentro da minha cabeça bimbalhava a questão: "quanto disso tudo que ela diz é verdade?  Não tem nenhum delírio aí misturado? Será que foi assim mesmo? E suas queixas? Quais são reais e o que não passa de manha?"  

Minha mãe,  antes de nos contar algum evento notável ou antes de fazer alguma queixa gostava de se valer de um preâmbulo: "estou contando mas sei que ninguém acredita no que velho diz.  Ninguém dá bola para conversas de velhos mas vocês podem checar o que estou dizendo! "

É triste "clamar no deserto". Poucas vezes eu havia parado pra considerar o quanto poderia ser doloroso perder a CREDIBILIDADE.  Agora tenho pensado mais nisso concluo, melancólica, que essa é a perda mais dolorosa da velhice pois afeta nosso próprio sentimento próprio de honra. Essa "cabeça erguida espiritual" às vezes é todo o nosso quinhão no fim da vida. 

Pior do que ficar feio é ficar engraçado, pitoresco. É pior do que doença,  pior do que o afastamento da morte. A perda da credibilidade te afasta emocionalmente das pessoas. A conexão da amizade morre. Morre! Sobra o respeito penalizado, a compaixão. E todos nós caminhamos pela vida achando que vamos ter mais que isso das pessoas. 

Perder a credibilidade e perder a relevância social. A pessoa vai ficando invisível. É a mudez social.

Quantos velhos precisamente agora estão denunciando maus tratos sem serem levados a sério? Quantos sofrem na cara de todo mundo mas ninguém vê? Quantos testemunham crimes e traições mas ninguém lhes dá ouvidos? O que poderia ser mais angustiante?

Quando penso em fantasmas imagino esse tipo de cena: a pessoa já morta mas sem consciência disso, tentando pegar um objeto do mundo físico mas não conseguindo. Mentalmente vejo o espírito como no filme Gost, tentando desesperadamente tomar parte no que vê, mas sem condições de fazê-lo. Impossível pegar um simples como. As mãos atravessam os objetos e a pessoa se sente um nada, impotente. Ainda que se sinta viva,  o mundo não a enxerga mais. 

Essa possibilidade é triste e impressionante. Me ponho a pensar e não consigo encerrar o texto de uma forma digna. Só me resta fazer um apelo: não deixe um velho perceber que você não acredita no que ele lhe conta. Não lhe dirija olhares distantes durante suas denúncias. Pode ser tudo verdade. Não deixe ele se sentir invisível e jamais presuma que ele está mentindo. 

Acho que negar fé é pior do que negar um abraço.

22 de jul de 2016

Idiotas

É uma palavra forte: idiota. Xingamento que humilha. Chegamos até a achar que os idiotas não deveriam ter nascido ou que bem poderiam ser banidos, se não do mundo, pelo menos das proximidades.
Não sejamos tão duros com eles. Em primeiro lugar porque você é um idiota. Eu sou também.  Todos somos idiotas aos olhos de alguém. Não dá para escapar disso. Mesmo quem se cala, temeroso por não  querer ser xingado por forças contrárias,  esse ser nulo é mais idiota ainda do que nós.
Isto posto só nos resta dividir a categoria em duas classes: os idiotas irritantes e os idiotas divertidos.
Pensando bem... o idiota insípido formaria uma terceira categoria. Mas deixa pra lá.
Os idiotas irritantes nem precisam de apresentação. Quem tem Facebook conhece pelo menos meia dúzia. São os emocionalmente cegos, os incoerentes, os impermeáveis ao raciocínio logico,  os que recitam chavões sem pé nem cabeça e adotam frases que não resistem à menor argumentação.  São os que não podem ser questionados que se tornam agressivos, querem ganhar no grito.  Só Deus sabe por que eles existem.
Mas felizmente existem também os idiotas divertidos. Aqueles que adotam atitudes ridículas mas que ao invés de causar repulsa causam risadas. Tentam explicar as coisas com  um raciocínio tão torto e cheio de erros que nos rendem gargalhadas a ponto de salvar o nosso dia. Estão absurdamente equivocados mas pela postura inofensiva são quase fofos. Eu disse quase. Se fossem mesmo fofos não seriam idiotas - seriam crianças.  Só elas erram com graça cativante.
Como hoje resolvi divertir você,  segue o exemplo de uma idiotice do bem, do tipo que nos inspira a estudar a raça humana.  Ou a rir, simplesmente.  Descobri um curioso grupo de idiotas que defende a idéia de que a Terra não é redonda, mas plana. Incrível!  A seguir veja o link de um vídeo bem legal onde os argumentos da "terra plana" são detonados um por um de forma bem divertida.
Delicie-se:  https://youtu.be/YNROku4jjx4

18 de jul de 2016

É show!


Vou tomar banho, me perfumar e passar creme no rosto. Amanhã de manhã vai acontecer novamente aquele evento luminoso no qual a estrela sou eu.

Não estou aqui para me gabar mas você há de concordar que não é todo mundo que provoca um ajuntamento organizado e sorridente por onde passa. Eu provoco.

Todos os dias o meu percurso pela Almirante Barroso é um a-con-te-ci-men-to. Claro que já me perguntei o motivo. Não sou má pessoa mas também ainda não fiz nada que merecesse essa reação do público. Mas vou reclamar? Claro que não. Um dia entenderei o que me faz parecer tão nobre. Enquanto não entendo, relaxo e gozo.

É tão bom ser admirada! Digo isso porque o que mais poderia explicar a emocionada saudação que recebo das árvores todas as manhãs quando passo pela avenida principal da cidade? Como explicar os aplausos, os acenos emocionados, a discreta agitação que cresce a partir do momento em que meu carro surge lá na curvinha, no início da passarela avenida?

Qualquer um que esteja por perto no momento da minha aparição verá as árvores perfilarem e me saudarem emocionadas, vestidinhas de verde, com as folhas recém escovadas e lustradas sem nenhuma poeira. Quanto carinho! Algumas vem em turma se amontoando na bira da calçada. Outras me acenam mais solitárias, deslocadas no meio de algum terreno mal cuidado. Não importa. Legal é saber que todas acordam cedo para me recepcionar. Cantam, assoviam, fazem chique-chique com os galhos à minha passagem. Só não pulam mesmo porque não dá.  Que belo momento!

Tento entender os motivos depois. Bem depois.  Na hora "hagá" não me detenho nessas questões. Por que desconfiar de gestos de amizade? Tudo o que tenho que fazer é não desapontá-las. Quando me acenam diminuo a velocdiade e retribuo com o sorriso mais simpático que consigo. É o suficiente. Amanhã estarão lá de novo, cheias de vida.

Já reparei que no terreno do  Tribunal há três dessas simpáticas árvores uniformizadas. Elas são mais contidas, claro. Não levantam os braços nem fazem barulho mas o leve aceno, sem muito alarde, já me deixa alegre. Não podem fazer mais do que isso provavelmente por estarem de serviço.

Observo também aquelas que não podem ir para perto da pista, como as outras. Sei lá como é a hierarquia vegetal mas estas de baixa patente também são tão meigas! Não deixam de comparecer por nada desse mundo. Ficam disputando espaço umas com as outras debruçadas sobre os muros da avenida se acotovelando esperando eu passar. Não há espaço nem para acenar, tadinhas. Apenas arregalam um sorriso verde e brilhoso.

Não desfazendo das árvores de serviço nem das contidas pelos muros (segundo escalão) registro aqui meu especial apreço àquelas mais expansivas que sorriem festivas, agitam bandeirinhas à minha passagem, jogam folhas e assoviam. São a alma da festa, certamente. Quando vou me aproximando elas cutucam umas às outras avisando "lá vem, lá vem ela!"

Ainda vou descobrir quem organiza essa festa. Sabe, isso me põe pra cima! Até esqueço os problemas. As árvores da Almirante Barroso são super alto astral.

Tenho que admitir: existe uns dez por cento delas que são, digamos assim, menos expansivas. São as mais altas e mais e quietas. Não há vento que as anime. Não sei se isso tem a ver com a idade. Geralmente elas se colocam perfiladas próximo à Doutor Freitas. Bonitonas. Parecem - ou querem parecer - mais nobres.

Sabe, não fico ressentida com essa falta de viço.  Não fazem auê mas baixam o olhar quando passo. Permitem-se um discretíssimo sorriso e pronto. Pra mim é o suficiente.

Todos os dias pela manhã para mim é Sete de Setembro.

Bora comigo amanhã.  Você vai ver que animação. De repente, vendo você comigo, pode até ser que elas lhe joguem umas folhinhas também.  Leve máquina.


13 de jul de 2016

Feixe


Ele era um pequeno feixe de inquietudes. Precisava de uma dose maior de aconchego. Precisava precisando mesmo, não era onda. Era coisa lá de dentro, dessas que a gente enxerga e não duvida. Era um precisar comovente pulsando dentro daquele corpinho frágil e por mais que eu o socorresse nunca era o suficiente. Eu via que não era, mas não sabia o que fazer. Às vezes era como se ele estivesse perdido na noite. No cúmulo da sua inocência ele se expunha assim, tão sem medo de se mostrar, tão sem medo de que usassem sua fragilidade contra ele mesmo. Às vezes eu me expunha, a mim mesma também, porque às vezes eu me via nele e não queria que se sentisse sozinho.  Ele era eu mesma, só que sem disfarces. Nele encontrei a mim, desnuda e pequena.  Ele era o meu retrato mais inquietante e foi por isso, e nessa época, que passei a me vestir de preto.

Ele existia e eu o amava e não poderia deixar que ninguém lhe fizesse mal.

Ele era um pequeno feixe de nervos e amor e a vida lhe pesava embora ele não soubesse disso. Seu coração pequeno batia na caixinha de ossos.  Eu não  sabia se o abraçava apenas, se isso lhe bastaria. Eu queria tanto que bastasse!  Eu não sabia se o melhor era ralhar para força-lo a ser forte, prepará-lo para o mundo, ou se deveria deixar claro que aquilo afligia a humanidade toda e que a vida é assim mesmo.   Eu me inquietava considerando se era exigir muito de uma criança abraçá-la dizendo que aquele abraço deveria lhe bastar.

Eu não tinha respostas nem abraços que lhe bastassem e na maioria das vezes meu coração doía profunda e longamente em seus bracinhos finos que nada podiam fazer por mim. Então diante de mim eu tinha um feixe de sentimentos tremulando, inquieto e cheio de vida. O potencial de angustia que poderia me sobrevir por causa dele era incomensurável. Melhor que não soubesse disso. E eu seguia não sabendo como agir e me desesperando em querer ser  para ele a maior bênção da vida.   Eu, solícita e desajeitada.

Ele todo era feito para sentir e me lançava, sem saber, num mar de aflições pelo passado, pelo presente e pelo futuro.

12 de jul de 2016

Download e Refresh

A maioria das pessoas vive afirmando que adora fazer novas amizades. Sou uma delas - mas não hoje. Resolvi fazer uso da porção de incoerência a que todos os humanos tem direito.

Chega um momento da vida em que a gente pensa mais no passado. É aí que começamos a duvidar de que qualquer nova amizade possa ser real e firma. As vezes acho meio difícil acreditar que quem não conhece minha família, não me viu adolescente, não conhece o passo a passo da minha vida, possa me amar. Porque como podemos amar quem não conhecemos realmente?

É possível amar, mas amar mesmo, quem a gente não conhece?

É possível conhecer alguém realmente?

Bem, hoje vou ficar com a tese de que a gente não ama quem não conhece. Amar uma miragem, uma construção mental unilateral, não tem valor algum. Eu sou o meu passado. Eu sou o que eu fui e o que eu gostaria de ter sido. E você jamais saberá o que eu gostaria de ser nem o que eu sou se não souber quem eu fui.

Me conhecer agora é mais ou menos como começar a ler um livro a partir do meio, deixando para lá o prefácio, a dedicatória, a introdução e os primeiros capítulos.  Não digo que você não vá entender nada. Entende, mas entende pouco. E às vezes "entende errado".

Uma pessoa pode ter novas amizades, mas se não tiver as antigas estará para sempre com o coração capengando. Eu me sentiria uma fraude se só conhecesse novas pessoas. É como se eu estivesse enganando a todas, sonegando-lhes meu passado, minhas verdades.

Uma amizade requer tempo, requer download de arquivos antigos. Enquanto o download não terminar não teremos entre nós nada de consistente.

Download demora. As vezes requer tempo e paciência. Por isso nem sempre posso repetir com toda a sinceridade que adoro fazer novos amigos. Adoro conhecer gente; esse é um aplicativo leve. Mas fazer novos amigos... aí já é um programa pesado. Excelente mas pesado. Requer muito HD.

Por fim declaro que às vezes é necessário um "refresh", para interrompermos dowloads desnecessários e reavaliarmos a capacidade do nosso disco rígido.