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11 de nov de 2016

Ciclos



Ninguém segura a vida. Ninguém segura a morte. A deterioração é inevitável mas o universo continua. Segue seu rumo pisando duro, desaforadamente, apesar de nós. Mesmo que destruamos todo esse planeta ainda assim ele continuará existindo com outras formas de vida. Árvores foram assassinadas para dar lugar a esse prédio que aí jaz. E outra geração de plantas se levanta sobre os escombros, ri deles e sacode suas bandeiras. Vão viçosas e atrevidas, recém chegadas ao mundo e descansam tranquila em plena posse do que pensam ser seu. 
Quem ri por último ri melhor. Mas ninguém sabe quem ri por último porque o ciclo é infinito.
Deixemos que as trepadeiras gozem a inebriante ilusão da sua eternidade. 

Relevância

É bem desconfortável quando me dedico a fazer contabilidade da minha vida. Sempre concluo que tal exercício não me leva a nada mas insisto só pra redescobrir que nada do que fiz ou faço tem relevância a não ser para mim mesma.  É como se em um imenso corredor todas as portas que eu abrisse estivessem vazias.

Civilizações importantes do passado se empenharam em registrar sua passagem pelo mundo. Eram irrelevantes e não sabiam.   Eu mesma não me sinto devedora de coisa alguma aos grandes imperadores do passado. 

Admitir nossa irrelevância é um ato de sensatez mas deixar-se vencer por ela talvez seja preguiça. Somos irrelevantes mas temos o dever moral de tentar não ser. Nesse caso os "imperadores eternos" estavam certos e eu errada.   Somos reles? Ou só o somos quando nos conformamos em sê-lo?


Todos temos a desculpa perfeita para continuar vivendo egoisticamente já que nada muda nada.  Nosso álibi pode ser a própria Humildade; essa virtuosa senhora que esconde em seu manto todos os negligentes do mundo. 

Mas por que alguém deveria se empenhar em ser "relevante"  e "fazer a diferença"?  Que mania de grandeza é essa? Quem já ultrapassou a si mesmo, afinal? Se todos não passamos de formiguinhas num planeta microscópico, qual a necessidade de nos sobressairmos? Que diferença isso faz?  Por que não cumprir tranquilamente apenas minhas funções biológicas e depois morrer em paz

Nossa vida nós não podemos invocar e nossa morte nós não podemos evitar. Por que achar que entre uma e outra coisa teremos mais controle do que tivemos em seu início ou teremos em seu fim?

Tenho certeza de que filósofos renomados já se detiveram com muito mais elegância e arte diante dessa questão. Não estou sendo nada criativa. Mas a certeza da minha irrelevância me permite caminhar  desajeitadamente por essa estrada que já foi tão mais bem frequentada. Posso fazê-lo porque com isso nada mudarei no mundo que me cerca. Não posso causar estrago então lá vou eu.  Sim, a irrelevância nos traz conforto emocional.

De repente me ocorre que desejar os louros da relevância apaga o brilho de qualquer ato. E que a relevância, se não é um mito ridículo é uma verdade passageira que não gera nada a não ser uma leve bolha no ar que logo espoca. 

Não consigo ver importância em nada do que faço - volto ao ponto inicial.  Mas é daí? Devo me incomodar com isso?  Essa constatação é um bom ou mal sinal? 

Quem saberá se meu estado é mesmo de nulidade?   E pra quê colocar cada um dos meus dias na balança se no final das contas Deus vai pesar tudo de novo numa balança muito mais exata?  

Qual o peso real da minha existência? Qual o peso de saber o peso da minha existência? A quem interessa isso?   Toda a beleza da vida está no conjunto de incontáveis coisas irrelevantes, desimportantes, efêmeras. Mas o conjunto todo é magnífico! E se o conjunto é magnífico por que seriam irrelevantes as  minúcias que o compõe?

Não cheguei a lugar algum, como era de se esperar. E se há alguma conclusão aqui eu diria que é a seguinte: o amor torna desnecessárias todas as perguntas. O amor faz tudo ter sentido. Sem ele a gente apenas se perde filosofando em círculos. Mas o amor paira acima de tudo e nos faz entender tudo sem que haja explicação para coisa alguma.

Odeio chegar a lugares comuns mas é exatamente nesses lugares que o universo guarda todas as suas verdades e segredos. Não há como fugir disso.

Dia 13 é meu aniversário. 


27 de out de 2016

Trégua

Às vezes a gente apenas quer ver umas coisas bonitas para ter alivio. Às vezes a gente precisa apenas lembrar do quanto o mundo pode ser um lugar lindo.
Às vezes nos damos conta de que nossos olhos não estao sendo generosos para conosco. Nossos olhos nem sempre cooperam para nossa felicidade porque nem sempre repousam sobre aquelas coisas que nos fazem bem.
Agora mesmo, da minha janela, vejo que o céu esta azul-calmo com flocos de nuvens.  Pequenas palmeiras ali na rua balançam animadamente. Nada há mais comum e ainda assim é tão bonito!
Quero pensar em coisas boas e lembrar de coisas bonitas. Quero sacodir todas as minhas esperança caso constate que elas estavam mesmo dormindo. Elas não tem esse direito!  Têm se manter alertas!
Gosto do meu quarto, da minha cortina listrada, meu criado-mudo vermelho e dos prédios desbotados cheios de histórias secretas.  Tomara que dentro deles as pessoas vivam em paz e que tenham olhos para as graças cotidianas.
Da minha janela também vejo bandeiras na portaria de um hotel. Bandeiras as vezes remetem a coisas tristes. Não quero ver bandeiras hoje. 
Basta regular a cortina e tudo o que terei é o azul, as nuvens, pássaros e palmeiras: lugares-comuns de todo mal escritor feliz.
Precisamos aprender a usar nossas cortinas.

19 de out de 2016

O filé da vida

Alguns assuntos sempre voltam. Esse é um deles. Quais os melhores momentos da minha vida?

Lembro de quando os meninos ainda eram pequenos. Tantas cenas doces e divertidas me vêm à mente! Eles eram tão lindos, tão frágeis e engraçados! E pensando nisso inescapavelmente lembro do quanto eu mesma era jovem, bonita e cheia de energia. Do quanto ainda sonhava, acreditava, imaginava, queria, tentava. A minha extrema juventude somada a extrema juventude deles me faz acreditar, as vezes, que aqueles foram os meus melhores anos.

Hoje me vejo avó e me deparo com a delicia de ter os filhos criados e não precisar me cobrar por mais nada em relação ao futuro deles. Nunca o futuro deles foi tão deles quanto agora. Nunca tive tão pouco a acrescentar ao futuro deles. E me olho saudável e cercada de netos, ainda cheia de possibilidades. Vivo um momento em que as cobranças, se ainda existem, são minimas. e ignoráveis.   Estou na idade em que todos nos incentivam não a estudar ou trabalhar. Todo mundo quer que a gente se divirta. Não é o máximo?  Acho que em nenhum momento da vida temos tanto direito à diversão. Tudo tem um motivo... Acho que é porque essa é também a idade das grandes despedidas.

A gente se despede, definitivamente, dos sonhos que não vingaram. Há sonhos que nunca deram certo e nunca darão, motivo pelo qual devem ser sumariamente descartados. Nada hã mais insano do que "nuca desistir dos seus sonhos." Aconselhar alguém a carregar até a morte seus sonhos falidos? Não. Precisamos ter bom senso. Há certas mochilas existenciais que não precisamos mais carregar e não cabem mais em nossa moradia.

Despedimo-nos de alguns sonhos, despedimo-nos dos filhos, dos amigos, de tanta gente que está morrendo!  E precisamos nos preparar para nos despedirmos dos nossos netos também.

Hoje tenho saúde e disposição. Mas conforme os netos vão crescendo vão se enchendo de amigos e disposição na mesma proporção em que nós vamos nos esvaziando da nossa disposição e dos amigos. Vai chegar o momento em que eles não vão mais querer brincar com a vovó. Seus olhos vão dar uma guinada em direção contrária e seremos apenas uma lembrança, um vulto, uma homenagem ambulante a alguém que foi. 

Hoje posso abraçá-los. Amanhã eles serão escorregadios, "lisos que nem piaba". É a vida. Então isso tudo me faz pensar que talvez esses sejam os melhores anos da minha vida. Liberdade, saúde, filhos e netos. Mobilidade, amigos ainda. E quando tudo isso me escapar talvez eu volte aqui para dar o veredito final. Quais foram, afinal, os melhores anos da minha vida?

15 de out de 2016

Aquelas coisas

Mãos passando suavemente pelas minhas costas quando acordo. Não consigo imaginar um desejo mais simples e universal. Não consigo imaginar  um prazer mais simples e barato.

É possível fazer uma pessoa se sentir feliz e querida com bem pouco, se quisermos. Quando recebo esse tipo de carinho sinto um arrepio de prazer e felicidade, uma sensação promissora de que tudo vai dar certo só porque sou amada. Um passar de mãos sem pressa e sem pressão, sem intenção de ser nada além disso mesmo. Nada além do que já é. Gesto caríssimo e sem dificuldade que, justamente por não ter dificuldade, poder ser eternamente adiado. É frequentemente o é.

Conheci pessoas que moraram no Rio de Janeiro a vida inteira sem jamais ter ido ao Pão de Açúcar ou ao Corcovado. Não o faziam porque tanto o Cristo quanto o Pão estavam lá pra sempre. Não havia pressa. "Mês que vem talvez eu vá e se não for, ainda posso adiar para o outro e mais outro." Há cariocas que morreram sem ir ao Pão de Açúcar. Não poque não pudessem ir. Não foram justamente porque podiam e poderiam sempre. Aí adiaram e morreram sem jamais pisarem lá. Se fosse algo difícil demais talvez elas tivessem se animado a fazer o sacrifício. Mas como era fácil ficou para o "Dia de São Nunca."

Minhas costas não são o Pão de Açúcar. Não estarão sempre aqui, não podem ser adiadas. O mundo pode acabar amanhã, você pode morrer ou uma bomba pode nos separar.

Dê-me mãos lisas e calmas e serei feliz.


12 de out de 2016

Dia das crianças

Hoje é dia das crianças e a gente ouve cada coisa! O mais comum é a manjada afirmativa de que não deveríamos jamais deixar de ser crianças. Acho que as pessoas falar isso meio que sem pensar.
Como assim "jamais deixar de ser criança"?   A pessoa popularmente denominada "retardada"é exatamente aquela que jamais deixou de ser criança. Torna-se portanto alguém eternamente dependente.

Tá bom, não é isso que as pessoas queriam dizer. Talvez quisessem dizer que:

- Jamais deveríamos deixar de acreditar em toda sorte de mentira que os outros contam?
- Jamais deveríamos desconfiar das pessoas por menos confiáveis que elas fossem?
- Deveríamos rir de tudo e levar tudo na brincadeira ainda que tal atitude colocasse nossa vida em risco?
- Deveríamos nos recusar a ter uma boa alimentação preferindo sempre doces e porcarias vendidas em saquinhos?
- Deveríamos continuar tomando banho e escovando os dentes só quando fossemos obrigados a isso?
- Deveríamos continuar morrendo de medo do escuro?
- Deveríamos continuar sendo manipulado com ameaças de bicho-papão? 
- Deveríamos desconhecer os imensos prazeres que o sexo tem a nos oferecer?
- Deveríamos continuar sem capacidade de nos maravilhar com uma obra de arte mais complexa?

Amei ser criança mas estou muito bem como estou agora. Cada fase tem seu encanto e eu não queria voltar a ser criança por nada desse mundo.

Considerações sobre a verdade

Uma das coisas nos seres humanos que mais dá peninha é quando a gente diz que quer a verdade e implora por ela mesmo não temos a menor estrutura para suportá-la. O máximo que a gente aguenta são fragmentos da verdade. Mais que isso é assassinato.

  A verdade dói? Não só dói: mata.  A verdade requer uma tremenda estrutura emocional. Fragmento de verdade é luz. Verdade inteira é explosão.

Às vezes oramos a Deus pedindo que a verdade nos seja revelada. Muitos de nós temos uma mente curiosa só que curiosidade náo é evidência de preparo. Pedimos que ele complete nosso castelo de informações com os tijolinhos que nos faltam. E se ele dissesse que nenhum dos seus tijolos cabem no meu castelo ilusório? Que tudo o que penso ser verdade não passa de construção infantil da minha mente infantil e que um único tijolo dele destruiria todo o meu castelo que levei a vida toda construindo?

A verdade pesa horrores.

Por que Deus fica tantas vezes em silêncio? Porque ele não mente e a verdade, quando náo é dura demais, é complexa demais. Nós não a alcançamos por mais que nos explicasse. E se é para eu não entender, pra que explicar?

"Por que ele não me quer?"  A resposta poderia destruir você. 
Por que ainda não fui aprovado em nenhum concurso?" A verdade pode te lançar num buraco de depressão.

Talvez o caminho para a felicidade e paz de espírito não seja termos nossas perguntas respondidas. Estou convencida de que a felicidade está em não precisarmos de todas as respostas. A paz vem de amar a vida com seus mistérios e seguir em frente sem encasquetar. Se eu fizer as pazes com o silêncio estarei fazendo um pacto com a vida. Porque a verdade toda, completa, sem rodeios, pode não me fazer bem HOJE. Amanhã talvez. Na eternidade com certeza.

Por que Deus não me diz toda a verdade? Talvez não seja por nada disso que eu falei acima. Talvez não seja pela dureza ou crueldade dela mas pela sua complexidade e extensão. Talvez a verdade inteira seja tão grande mas tão grande que não me caiba.  Cada explicação, para sem verdadeira, tem que ser completa e para ser completa traria em si informações demais. Impossível qualquer ser humano seguir o raciocínio. Nem tudo pode ser resumido. Por mais que Deus "zipe"a resposta talvez nem assim ela caiba no meu HDzinho.

Talvez não devêssemos pedir a Deus  toda a verdade. Peçamos somente a verdade possível, a verdade inteligível, a verdade que convém nessa hora e nesse espaço. Ou talvez eu não devesse pedir nada, apenas confiar que ele sabe o que faz e minha parte é ser feliz.

Melhor assim, né? 

11 de out de 2016

Coca Cola e estrelinhas

Estou eu aqui de peito estufado, satisfeita comigo mesma por não ter desperdiçado meu dia. Cumpri as tarefas propostas por mim mesma e estou cansada. Estou cansada, mas é desses cansaços dos quais a gente se orgulha e faz questão de contar para alguém. Tanto é assim que estou esfregando na cara do mundo a dureza do dia e miinha correspondente virtude.

É o cansaço dos justos. Sim, eu o tenho. Aquele cansaço que se faz muito bem acompanhar por alguma espécie de dor - de preferência nas pernas ou costas. Suponho que a glória seja maior quando alguma coisa dói.  Pois estou dolorida pelos exercícios de ontem, na academia. Não sei se conta ponto mas essas dores bem poderiam ter me impedido de ser útil mas não impediram. Decidido: conta ponto sim.

Observo então meu dia, que coloco diante de mim como quem olha satisfeito os rasgos de sua roupa de guerra.

Claro que esse sentimento exaltado não é para tanto. Não salvei nenhuma vida mas na falta de coisas mais louváveis para me orgulhar congratulo-me pelo meu pouco que não foi tão pouco assim , se não eu não estaria cansada. Se minha labuta não foi das mais gloriosas tenho a dizer que quem vence a preguiça já está no lucro. Vou então tomar banho e depois dormir cheia de estrelinhas no peito. 

Um dos efeitos nefastos de se ter um dia produtivo - sim, há efeitos nefastos! -  é isso: beber Coca Cola. É dar-se ao prazer de transgredir até contra si mesmo só por acharmos que merecemos. A trabalheira seria então uma espécie de compra de indulgência.  Brindo-me com o mal depois de ter feito o bem. Muito estranho isso: jantei, a sede veio. Ao invés do insípido copo d`água ou cansativo suco natural resolvi matar a sede com um copão de Coca Cola. Só porque posso. Só porque tenho moral pra isso.

Poucas coisas são tão loucas e contraditórias quanto as desse tipo:  a capacidade de uma pessoa premiar-se com o mal como se o mal fosse bom. Ou como se uma coisa justificasse a outra. 

A Coca Cola, no caso, é o mal supremo. É o supra-sumo do desmando alimentar. Pois veja: dou-me o direito de fazer esse absurdo só porque fui legal. Posso me comportar mal porque me comportei bem. Desse jeito o certo fica parecendo errado, pois do peso de tê-lo executado  fiz por merecer um prêmio. E o mal passa por bem porque é com ele que me compenso pelo transtorno de ter agido corretamente.

Há algo de errado nesse jogo de compensações cínicas.  Mereço uma reprimenda. Mas quem dirigiria palavras duras a uma guerreira que vai dormir com o peito cheio de estrelinhas?

4 de out de 2016

À espera de um milagre

Vez por outra esse filme me vem à mente. Acho que já escrevi sobre ele em outras ocasiões. Mas como todos os pensamentos obsessivos, ele volta.  Volta primeiramente porque fui uma das raras pessoas que achou esse filme "um pé no saco". Chato, piegas demais, sem cabimento, bobão.  Mesmo assim  esse filme sempre "ataca de novo"porque tenho mania de ficar me medindo por ele. Tenho pouca sensibilidade? Será que sou má? As pessoas legais que conheço acharam esse filme o máximo. Estou na contramão. Deve haver algo de errado comigo.

Hoje o filme voltou novamente mas por outro motivo: ultimamente tenho me identificado com aquele personagem do bem, o "negão"(Michael Clarke Duncan  em seu personagem John Coffey) .  Eu não entendia muito a postura dele na história. Ele era apenas um mala que não dizia coisa com coisa e não fazia questão nenhuma de se defender das acusações "porque o mundo está muito cheio de maldade"é bla bla bla. Aí ele chorava, fazia careta e eu me irritava.

Sei lá... Acho que estou começando a entender o que é cansar de ver maldade. Estou amarga hoje. É muita notícia assombrosa todo dia o tempo todo. Perdi a fé na humanidade. Será que vale a pena viver e ver tanta maldade no mundo? O negao estava certo: cansou. Cansou, aceitou a pena de morte. Jogou a toalha.   Não importa que fosse inocente; ele simplesmente estava de saco cheio de se deparar com o mal sem cura, o mal persistente, o mal cínico e desafiador. O mal, enfim.

Agora uma voz lá no fundo do meu coração me diz que há beleza demais no mundo também. Há prazer demais no mundo, há música, riachos, sol, crianças, bichinhos. Se os meus olhos forem maus eu só vou ver o mal. Mas se meus olhos forem bons eu vou ver o outro lado e acabar concluindo, como todos os puros de espírito concluem, que viver vale a pena.

Vou rever o filme qualquer dia desses só pra ver se eu evolui um pouco. Até lá acho que vou continuar frequentando minha pequena sacada. A noite está fresca, há pessoas relaxando de barriga cheia em cada uma dessas janelinhas dos prédios do mundo. Há crianças rindo a valer. Estou segura, relaxada, escrevendo e ouvindo música.

Como pode tanta beleza e tanta feiura habitarem o mesmo lugar?

Empachamento

Ando ultimamente com uma sensação constante de empachamento. Como se meu estômago estivesse muito cheio e eu vestisse algo apertado. É incômodo. Não estou tão fora de forma assim mas a sensação é de um "empachamento emocional". Ainda que eu não esteja definitivamente gorda é assim que me sinto, tanto quanto me sinto "empachada"sem ter comido muito e sem estar com um jeans dois números menores.

Acho que também estou "socialmente empachada". E quem sabe até mesmo "espiritualmente empachada".
Hoje vi a notícia de que umas adolescentes pegaram uma inimiga - também adolescente - e a surraram e torturaram por horas. 

Primeira reação: angústia. Angústia por ser possível que pessoas tão jovens já estejam tão podres. E angústia por nossos sistema que incentiva tais atos. Se a pessoa faz "e não pega nada", continuará fazendo e outros, igualmente pervertidos, se animarão a cometer coisas semelhantes.

Segunda reação: Passar horas tecendo fantasias tenebrosas de vingança. Me ponho a me imaginar em tal situação, sendo mãe da vítima. Eu descobriria quem são as meninas, contrataria pessoas que as "quebrassem de porrada"até que elas se arrependessem até do que nunca fizeram. Seriam surradas impiedosamente. Ficariam meses "refletindo"em um hospital. Sim, eu pagaria. Eu me vingaria.

Terceira reação: passar dias me sentindo um lixo por ter me permitido acalentar sentimentos tão baixos, tão miseráveis, tão "das trevas", tão "nao-cristaos".   Tristeza por notar que não evolui nada, que eu não daria a outra face, que eu queria vingança. Tristeza porque minha primeira reação não foi dizer "Pai, perdoa! Elas não sabem o que fazem!"

Quem sou eu, na verdade?
Essas fantasias são uma expressão da minha verdade ou apenas bravatas da alma? Essas fantasias de vingança tem chances reais de se tornarem realidade ou na hora eu desarmaria meu coração e alcançaria a graça de perdoar?

Quem eu sou?
Quem eu sou DE VERDADE?
O que eu faria de verdade?
Eu mataria? Me vingaria? 

Isso me inquieta. Deveras.

Pai, perdoa-me. Eu não sei o que faço.

23 de set de 2016

E tudo começou com uma moedinha...


É chato ser chamada de miserável. Mas já fui. Só por  reclamar da imposição ameaçadora dos flanelinhas que insistem em se auto contratarem como nossos funcionários para desempenharem a "dificílima" tarefa de olhar os nossos carros.

Por muito tempo me recusei, na medida do possível, a pagar tal imposto. Hoje me rendi. Não sei o que é pior: o olhar ameaçador desses "cidadãos de bem" ou a pressão social dos "amigos" que acham que temos que nos sentir culpados por andar de carro próprio.

Antigamente as pessoas achavam que tínhamos o dever moral de fazer papel de babacas, tudo em nome da "caridade". Disfarçavam a covardia debaixo de um sorriso bonachão e trêmulo de quem não quer conflito. Agora como a coisa cresceu, enraizou e tomou conta de tudo, estes mesmos já começam a reclamar. Tarde demais. Antes nos chamavam de miseráveis. Agora que o valor da "taxa" só faz crescer e já estão até exigindo pagamento antecipado, agora reclamam.

O brasileiro perdeu a noção dos seus direitos. Não entende que imposto só se paga para o Estado - e olha lá!  Custam a assimilar a noção de  que você só tem que pagar pelos serviços de alguém a quem tenha contratado livremente e que se a gente sente receio de dizer "não" é porque tem alguma coisa errada aí.  Mas nosso povinho não entende que eu não tenho que reconhecer os direitos de ninguém sobre uma via pública. Que a via pública é pública.

Se há uma coisa que me irrita é covardia disfarçada de caridade.

Sou uma incentivadora de atos de generosidade. Ajudas, esmolas, auxílios, tudo isso deve fazer parte das nossas vidas. Não faz  bem a ninguém se trancar em uma bolha de egoísmo.  Mas uma coisa é DAR e outra bem diferente é ser EXTORQUIDO.

Pra extorsão não exite valor mínimo.

É necessário entendermos que se hoje alguém se julga no direito de me exigir dois reais, nada o impedirá de aumentar o valor da exigência amanhã. Se continuarmos assim, em pouco tempo teremos que começar a pagar pedágio pra bandido.  E não espere que o poder público nos defenda. É mais fácil o governo se associar a eles pra levar uma fatia.

Há uns anos, quando estive no Rio, fui estacionar perto do Pão de Açúcar e o bandido da área  queria cobrar trinta reais para eu deixar o carro em via pública. Não, eles não estão tomando conta dos carros. Eles simplesmente tomaram posse da rua e cobravam por seu uso.  Nossos governantes não fazem nada porque são da mesma laia. Um ladrão não se indigna contra outro ladrão. Há uma camaradagem implícita.

Nossa idiotice é tão crassa que observei por várias vezes pessoas amigas dando dinheiro a flanelinha com ar blasè, posando como se fosse um charme muito grande fazer papel de otário. Posando como quem diz "sou bem sucedido, umas moedinhas não me farão falta. Eu posso."   Dar dinheiro seria então uma evidência de que você está acima da plebe.

Se cinquenta reais por mês não fazem diferença para você então porquê não o dá a quem trabalha? Por que não aumentar o salário da sua empregada? Ou dê de gorjeta mensal para o porteiro.

Ah, e tem mais essa: eles já têm até associação! "Associação dos Flanelinhas, Lavadores e Manobristas" . Que direito pode ter alguém que me subtrai direitos?   Lavadores e Manobristas tudo bem mas querer remuneração por "olhar" o meu carro ? E sem meu consentimento?   Eu olho centenas de carros todos os dias e nunca ganhei um tostão com isso.

Ser explorada pelo Governo é uma fatalidade para a qual eu não contribuí. Mas pagar imposto para flanelinha foi uma coisa que CADA UM DE NÓS PLANTOU por pura palermice. Você, que sempre criticou pessoas como eu, é um dos responsáveis por estarmos nas mãos deles.

E antes que você me corrija eu já vou dizendo: NÃO, isso não é caridade; é extorsão mesmo.

19 de set de 2016

Eu perdôo o Neymar

Não entendo como é possível uma pessoa plantar manga e querer colher banana. Vejam só: pegam um adolescente pobre e, dizendo que ele é um pequeno gênio do futebol o colocam num altar.  Dali pra frente, sempre diante de holofotes e aplausos, submetem-no à seguinte rotina: eles o elogiam, adulam, lotam seus bolsos de dinheiro, comentam cada detalhe da sua vida como se isso tivesse alguma importância para o destino da humanidade, adulam, aplaudem,  imitam, oferecem a própria filha. Depois de vários anos de "tratamento intensivo" essas mesmas pessoas ficam indignadas quando descobrem que ele não se tornou um cidadão humilde.  Só pode ser piada.
Estou falando do Neymar. Vocês criaram o Neymar! 

Aprendam: quando a gente passa a vida tratando uma pessoa como se ela fosse especial, muito provavelmente essa pessoa va acabar acreditando que é mesmo uma pessoa especial. Ela foi convencida disso.

Neymar é humano e previsível. É suscetível a influencias externas. É produto do meio. Não é assim que se diz?  Então estão reclamando de quê?

Eu perdôo o Neymar.