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13 de jun de 2017

Momento de ouro

Hoje é o seu dia. Hoje você decidiu dar o primeiro passo e alcançar o que até ontem era inalcançável. Você levou meses, muito meses até chegar aqui. Pensou, sofreu, adiou, se sentiu humilhado, jurou vingança. Mas chegou o momento. Chegou a hora em que você vai jogar fora a triste capa do fracasso e vai mostrar ao mundo do que é capaz. 

É no primeiro passo que a sua melhor versão vem à tona. Seu "eu" se levanta, sai da toca com a cara lustrosa dos vitoriosos.   Todas as certezas do mundo te saúdam. Tudo é fácil, os céus sorriem.  Olhe e veja quantas pessoas não conseguiram ser como você, alcançar sua coragem. Você é um exemplo.  A maioria não consegue, simplesmente não consegue dar o passo fundamental e decisivo que determina se haverá outros ou não. É o dia de hoje que determina todos os demais dias. Não importa o que vem lá na frente: se não houver o primeiro passo não haverá nada mais. Você está criando o seu mundo, seu caminho. Tudo o que te abraçará lá no fim, na linha de chegada, está sendo forjado agora, agorinha, na planta dos seus pés e na força das suas pernas. Percebe?    Abra bem a janela e olhe: esse dia jamais se repetirá.

Vai ser maravilhoso dar o segundo, o terceiro, o milésimo passo. Mas nenhum se compara ao primeiro. Nem de longe!   Nunca mais você vai sentir essa fé ingênua de quem começou o caminho e ainda não sentiu o peso do cansaço. Hoje você é só energia e boas vibrações. que se tem no primeiro. Esse dia nasceu pra ser sozinho, ímpar, único.  Nunca mais você se sentirá tão forte como hoje. Dá uma certa melancolia pensar nisso. Hoje você se pergunta, abismado, por que cargas d'água não tomou essa decisão antes.  Os próximos passos serão marcados pela persistência, teimosia. Serão passos pesados e o mundo todo te puxará para trás e seus amigos lançarão à sua passagem confetes de desculpas. Serão benevolentes ao ver seu esforço e dirão apoiam sua desistência.  Desculpas-confetes. Confetes efêmeros e irresponsáveis da parte dos que ignoram a glória do primeiro passo.  Não aceite. Siga.  que vá ao lixo toda solidariedade mentirosa e toda desculpa vazia das pessoas!

Viva esse momento! Curta essa bem-aventurança. Nunca mais, nunca mais mesmo você terá a certeza do sucesso como tem hoje. Só existe um primeiro passo. Nunca mais a vitória vai te parecer tão ao alcance da mão.

Todos nessa vida deveriam ter emoção semelhante. Viva isso. Esse é o seu momento.

10 de jun de 2017

O mundo

Para começar : não existe uma "repressão do mundo contra o corpo imperfeito".  Ninguém tá nem aí se você é gorda ou magra , pelancuda ou sarada. A única pessoa que te reprime , te critica e te odeia do jeito que você é , é você mesma.  Só você tira a  sua própria  liberdade.  Pare de culpar "o mundo" pelos seus complexos. A pessoa se acha uma merda e fica comprando "o mundo". Ninguém te impede de usar biquíni.  Repito: o mundo não  tá nem aí para você. E mesmo que tivesse, porque você deveria se importar?

A mesma coisa acontece com a dona de casa:  ela tem inveja do trabalho do marido,  acha que o que o que ele faz é superior ao que ela faz , se acha um zero à esquerda e por isso quer sair para trabalhar.  O problema não é ela sair para trabalhar . O problema é a falta de autocrítica quando ela diz que faz isso "porque a sociedade não valoriza o seu trabalho".

Quem é "a sociedade"? Quem são essas pessoas tão importantes a ponto de me fazerem mudar todo o rumo da minha vida só para eu ser aplaudida por ela? 

Conversa fiada . Ela é o seu proprii algoz. Ela mesma é que não se valoriza e fica jogando "para a sociedade".   "O mundo" ...   Por  que os aplausos desse antro de pilantragem deveria importar? 

21 de mai de 2017

Sol e praça

Esses dias me vi em casa tranquila e feliz da vida.  Não com. aquela felicidade esfuziante de quando acontece alguma coisa notável. Não. A tranquilidade de quem apenas tá bem - era assim que eu me sentia.  Aí pensei: onde eu gostaria de estar agora para que meu dia estivesse perfeito? Estranhamente eu não soube responder.  O dia estava lindo, o sol pipocando no céu, tudo muito claro. Que tal uma praia? Não to a fim. Praia perdeu um pouco a graça depois que tive melasma e qualquer raio de sol esculhamba ainda mais a minha pele. Queria estar no sítio? Não, hoje não. E que tal um passeio de lancha? Hmmm... Outro dia sim; hoje não. E ficar em casa, que tal? HHmmm... Não, eu queria estar em algum lugar.

Por que achei que estando em outro lugar as coisas seriam ainda melhores? Porque o sol estava lá. O sol me chamava, a rua me chamava e ficou convencionado que quem fica demais em casa está se escondendo de alguma coisa. Um dia, dois , tá bom mas tempo demais já é doença. Como ser humano saldável era lógico que eu deveria pelo menos querer estar "lá não sei onde".

Hoje descobri um lugar perfeito para ir quando não se quer ir a lugar algum e ao mesmo tempo não se quer ficar em casa:  praça. Mais exatamente Praça Batista Campos.

Pois hoje de manhã me entalquei de animação e parti para o povo. Rua. Carros - não muitos, pois hoje é domingo. Fui dar uma caminhada na praça e vi que ali é um lugar perfeito para estar em qualquer ocasião: na alegria ou na desgraça, na paixão ou na indolência.  Pra começar: todos pareciam calmos e felizes. Tudo era muito família e parecia que ninguém tinha problema, sequer uma unha encravada. Velhinhos pegando ventinho, gente mimando seus queridos cães... Tinha cão de todo o jeito e tamanho, pra todo gosto. Morri de rir com uma garota passeando com um gatinho de coleira. O pobre se contorceu, esperneou mas conseguiu escapar e se enfiar debaixo de um carro. E as moças pedindo pelo amor de Deus. "Detenham-no!!!"  Rsrsrs. Claro que não disseram assim mas bem que poderiam.   Vi também um monte de crianças adoráveis. Dá pra ficar depressivo num lugar assim? Ainda mais quando as crianças estão sob os cuidados dos outros  e tudo o que você tem que fazer é curtir aquelas figurinhas? Garota de laçarote verde enorme, dois irmãos gêmeos circulando de bicicletas, garotinha desenhando, outra correndo, um monte de garças lá em cima nas árvores, casais caminhando de mãos dadas, grupos de bike, turminha tomando água de coco, homem vendendo bolas coloridas... A praça estava linda como se fosse um pequeno paraíso permitido no meio do caos em que vivemos. Aquela é a vida real? Sim? Não? 

Era assim que o mundo tinha que ser: todo mundo em paz levando a sua vidinha na boa, sem grandes preocupações e com roupas multicoloridas. Patins, bicicletas, tênis, sorvete, água de côco, cachorros, gatos, velhinhos, crianças, figuras solitárias, figuras esquisitas, figuras engraçadas... 

Voltei pra casa cansada e completa. Era disso que eu precisava: me misturar com as pessoas, sorrir para elas, puxar conversa com uma vendedora.  Agora sim estou completa. Quando o meu lugar não for aqui, decididamente será lá.   Bora pra praça!

18 de mai de 2017

Esquecimentos

Daqui para a frente quem eu passaria a ser se esquecesse quem fui? Eu me comportaria da mesma maneira? Sorriria do mesmo jeito?  Como trataria as pessoas? Se tudo o que fazemos é motivado pelo nosso passado, quem seria eu sem passado?  Qual é a minha matéria prima a partir da qual a vida me esculpiu?

As únicas pessoas que não tem passado são as crianças. Eu voltaria a ser criança? Voltaria a acreditar e a perdoar facilmente? Dormiria sem preocupações ou sobressaltos? Seria uma pessoa boa e confiante? Seria feliz? Uma pessoa sem passado é uma criança e o fato de desconhecer, pelo esquecimento, todos os sofrimentos e perigos do mundo, me jogaria imediatamente no colo de todos os perigos e sofrimentos do mundo.

O esquecimento só seria bom em um mundo bom. Aqui, precisamente onde estamos, o esquecimento seria uma breve felicidade e imensa vulnerabilidade.

Na vida já tive medo de não conseguir esquecer e já tive medo de esquecer, perdendo assim meus pequenos tesouros do passado.

Ainda que as lembranças boas venham acompanhadas de lembranças ruins, como um colar de contas variadas, ainda assim eu o quero todo. Meu passado sou eu e tudo o que fui é o que me explica hoje e eu preciso dessa lógica. Além do mais, se um dia a felicidade se for, precisarei ainda mais me compensar com a felicidade passada. Não posso perder nada. Não posso esquecer.

15 de mai de 2017

TROVA DO DIA





Não chores se não puderes
teus sonhos realizar:
Chora quando não tiveres
mais razão para sonhar.


Antônio Juraci Siqueira
Poeta paraense

Essa me deprimiu


Sabe quando a gente começa a ler uma história crente que é um lance de auto ajuda? Pior: sabe quando a gente está precisando de uma bombada pra cima (no bom sentido)? Pois comecei a ler o texto VOANDO (no blog Beck em Palavras). Estava gostando. Jurava que teria um final tipo assim, cristão-esotérico-budista-contemplativo pendendo pro nirvana. Óia só o diálogo:

"- Como se faz para voar tão alto? – perguntou o mais novo.
- Não sei explicar.

- Mas você acabou de voar! Eu tento todo dia, todos os dias, nunca consigo, sempre caio.

- Tem coisas que você simplesmente faz. Vem de dentro. É com o coração. Não se pára para pensar antes de fazer algumas coisas. Não é tudo que fazemos com o raciocínio. Eu nunca parei para pensar antes de voar. Enquanto estou voando, lá no alto, eu não penso em como fazer; simplesmente começo a fazer. E quando vejo, já voei.
- Eu queria tanto conseguir voar...
- Por isso não consegue. Fica ansioso demais.
- Então eu nunca voarei?
- Sim. Voará. Você só precisa aprender a relaxar.

- E só relaxar?
- E acreditar que você pode. Se você acreditar que poderá voar e relaxar, quando você não perceber, estará lá no alto, comigo. Tchau.


Alguns meses depois, deitado na grama de um parque qualquer, completamente relaxado, o mais novo ouvia uma música ao longe e começou a sonhar que estava voando. Sonhou com tanta força, que acreditou que fosse verdade. Quando deu por si, continuava deitado na grama.
Ele nunca voou."

P.Q.P! Fiquei mal. Até parece cruzamento de Caetano Veloso com Paulo Coelho. Será que nunca vou voar?

12 de mai de 2017

Parábola do amor (atenção: esse texto não é de minha autoria!)


O Semeador do amor saiu a semear.

Ao semear a sua semente, uma caiu à beira do coração, e, na mesma noite veio um sedutor e a roubou.

Outra caiu num coração que parecia estar aberto. Mas as muitas alternativas logo inibiram a semente, pois, no fundo, o coração não queria se deixar penetrar pelo amor.

Outra semente caiu entre muitos concorrentes. Sementes de todos os tipos de espinho, e que pegam em qualquer lugar, especialmente no chão seco, carente e desértico. Assim, sufocada, a semente do amor morreu antes de morrer no chão da umidade fértil.

Enfim, uma das sementes caiu num coração que queria amar, e que estava limpo e preparado; pois, nele, não havia sementes de enganos. Esse amou, foi feliz, e conheceu o sentido do encontro entre um homem e uma mulher.

Quem tem coração para sentir e entender, que sinta e entenda!

Caio Fábio

10 de mai de 2017

Junho de 1983

Não pensei que aquela sensação fosse possível. Não se limitavam a meras lembranças não. Foram sentimentos intensos, como se de fato eu tivesse retrocedido anos.

Na verdade jamais cheguei a desejar, como outras pessoas, ser novamente criança. Essa vontade nunca tive por diversas razões. Só que quando entrei naquela sala tudo me emocionou.

Lá não havia nada que pudesse ser considerado bonito: era uma sala de madeira com a pintura gasta. O chão igualmente rústico. A mesa da professora era improvisada por outras duas mesinhas menores juntas, cheias de livros. Um ventilador de teto, cadeiras de fórmica azul claro com braço para escrita e o mais interessante: na sala toda um cheiro inexplicável de criança. Exatamente isso.

O cheiro foi o que mais me impressionou e emocionou também. Não me refiro a colônia com cheirinho de bebê. Era muito mais que isso: cheiro de inocência, de gente limpa do pó do tempo, de vida explodindo, de sorriso sincero, de flor abrindo, de dia amanhecendo, capim fresco, pão quentinho, gotinhas de suor na testa macia; cheiro de gente que não partilha da podridão do mundo. Era O Perfume, O Cheiro.

Não sei como essas criaturinhas engraçadas e acesas conseguem deixar rastros tão profundos por onde passam. Foi então que lembrei nitidamente do que fui e não sei como ou quando deixei de ser. Até aquela data eu ainda não havia notado o tempo passar. Estava distraída demais com meus afazeres. Ainda não havia incorporado esse costume de olhar vez por outra no retrovisor da vida.

Naquele dia me assustei. Não com um novo sentimento, mas em perceber o quanto havia mudado a minha maneira de enxergar tudo ao meu redor. Em qual momento fatídico aquele “espírito de criança” caiu fora? Como consegui afugentá-lo? Só sei que por alguns instantes “ele” voltou. Pude sentir! Não precisei fechar os olhos.

Acho que ninguém ali notou o momento mágico em que novamente fui tomada. Pelo que? Fui tomada. Senti de novo aqueles sopros do passado: o esmero em arrumar o material na pasta, a alegria do uniforme novo, a impaciência para que chegasse logo a hora de ir ao colégio, os passos largos de manhãzinha, o prazer de sentir o cheirinho dos livros e cadernos novos recém-encapados. Deu até vontade de chorar. Inesparada viagem!

Outras lembranças doídas também vieram, assim como o vento traz a poeira. Lembrei da insegurança, da timidez, da sensação de não ser aceita. Lembrei de que era desajeitada e feia mas não sofri. Cenas e cenas saltavam em minha mente como se estivessem séculos espremidas no túmulo e de repente agarrassem uma chance única de voltar à vida para serem sentidas novamente. Vi os primeiros sinais da subserviência masculina diante da beleza feminina - as meninas bonitas, os meninos iniciantes... Tudo passageiro, frágil e repetido.

Disso tudo lembrei e senti um grande carinho, de mãe para filha, por aquela menina que fui: sensível, insegura e sonhadora.

Estranhamente tive a impressão de que aquela era a minha sala de aula, aqueles bonecos e letras sorridentes estavam ali para mim. Senti muita vontade de chorar, um nó na garganta, mas ninguém entenderia essa atitude ali, numa reunião de pais e mestres. Emoção estranha, difícil de compartilhar.

Voltei a mim, vim para casa com minha enorme barriga de grávida. Pela primeira vez na vida tive saudade da minha infância.

9 de mai de 2017

Bullying

Confira o Tweet de @MEC_Comunicacao: https://twitter.com/MEC_Comunicacao/status/861960956217356288?s=09

7 de mai de 2017

Eu sou superior. E você?

Nada contra moda aplicada a roupas, aos móveis, à maquiagem, ao design de veículos etc. Nada, nada contra. Futilidade? Não acho, mas se for, e daí?  Viver só no basicão não tem graça nenhuma. Mas quer saber o que me irrita, mas irrita mesmo? É a moda aplicada às idéias.

De repente baixa na cabeça das pessoas um certo tipo de unanimidade invencível e irritante. Todos passam a falar a mesma coisa, ter a mesma opinião e fechar os ouvidos a qualquer argumentação contrária.

De quê estou falando, mais especificamente? Dessa mania chatésima de desmerecer a raça humana. Para começar vou logo dizendo: gosto dos seres humanos, tá? E sei que estou nadando contra a corrente.   Agora é chique dizer que os humanos desaparecerão do planeta e isso é bem feito pra nós! Que somos maus, burros e nada presta.

Bem feito por quê? Até parece que somos a única espécie animal a desaparecer ou prestes a isso. Um número incontável de animais levaram o farelo ao longo dos milênios e ninguém diz "bem feito!" Qual o pecado que eles cometeram? Comeram muito hambúrguer com Coca-Cola? Mataram seus semelhantes? Porque nosso possível desaparecimento é castigo pelos nossos atos mas o dos mamutes não? O quê que o mamute tem que eu não tenho?  (Não responda.)

E está na moda desmerecer até a nossa capacidade intelectual. Há os que simplesmente a negam!  É mole?  Há hereges por aí (fogueira neles!) afirmando que a formiga é mais inteligente do que o homem porque ela sabe se organizar maravilhosamente bem, que nenhum de nós sabe fazer uma teia como uma aranha, portanto seria um erro dizer que somos superiores a elas, blá blá blá.    Quando a bobagem é muito grande, mais extensa e trabalhosa fica a defesa. Por isso é que tem gente que parte logo para a ignorância.

Mande uma aranha fazer um pudim, um avião, um perfume ou lapidar uma pedra. Mande!  Mande a aranha se esforçar para ser "uma aranha melhor e mais humana" ou "pior e mais desumana". Nada. nenhum tipo de apelo entra naquela cabeça peluda.  Ela não tem capacidade para ser nem melhor nem pior do que é. As aranhas, assim como os pássaros e peixes, são umas lindas maquininhas, interessantes mesmo, mas não passam daquilo. Podem até ter sentimento mas até isso é limitado e não sujeito a raciocínio ou constatação de nenhuma espécie.   Se um cachorro te ama (ai que liiiindo) e você morre, ele pode morrer seco no portão da sua casa esperando o retorno do dono que jamais retornará. Sabe o que é isso? Falta de capacidade de entender.   Ele nada sabe sobre o tempo ou a transitoriedade da vida. Sobra um apego assim, infindo, sem raciocínio, sem opção, que você acha lindo mas é apenas um tipo de pane.

Nós temos capacidade de nos tornar anjos ou demônios. Há um mundo de possibilidades dentro de nós e isso é sinônimo de riqueza. Podemos criar e destruir, amar e odiar.

Pense numa máquina de costura que faça pontos absolutamente precisos. Você, ser  humano, jamais conseguirá costurar como ela. Jamais será tão exato. Isso faz daquela máquina "um ser superior" a você?    Pois é. Aí entram baleias e golfinhos, que encontram o caminho de casa no fundo dos oceanos. São máquinas de costura. Jamais dirigirão um carro. Só sabem rebolar pelos oceanos. Chip único.

Gosto desses bichinhos e clamo pela sua preservação mas não dá pra comparar com os humanos. Somos lindos, criativos, misteriosos e imprevisíveis. E a imprevisibilidade é fundamental à beleza. Em toda beleza há surpresa, há um "OH!" exclamando aos sentidos. Qual surpresa esperar de uma abelha? Pode até haver uma aqui ou ali que voe em quadrado, ou em círculo, ou que, no vôo, saiba escrever I Love You no céu (pouco provável)  mas  nada que se compare aos deuses patinadores das olimpíadas de inverno.  Não que o vôo das abelhas seja inferior, mas é que nós criamos e aprendemos mas elas não. O chip delas é desse tamaninho. Foram programadas para só fazerem aquilo, para sempre.

Sinceramente sinto-me ofendida ao me compararem com uma minhoca. Já o fizeram e nem sou magrinha. Pessoas simplórias quando me ouvem dizer que sou superiores àquelas geléias rastejantes, criticam! E entendem, equivocadamente, que estou apregoando que temos o direito de destruir tudo o que não seja humano só porque somos superiores. Não estou dizendo isso e se para fundamentar atos bárbaros alguém já se utilizou da tese da superioridade humana eu não tenho nada a ver com isso. Ser superior é ter também a capacidade de preservar.

... "Nós não preservamos".  Não? Preservamos sim. Uns destroem, outros preservam. Eis aí a nossa variedade!  Lutamos, doutrinamos o outro... e nessa elasticidade está toda a beleza de não se saber como será amanhã nem como cada qual reagirá. Daqui a cem anos os gatos estarão fazendo as mesmas gatarias, os cavalos cavalarão do mesmo jeito mas nós... quem sabe?  Podemos resolver ter os cabelos azuis e dentes fosforescentes. É só querermos. Temos o poder e a tecnologia para isso. Eles não.

Já ouvi um mané dizer que o fato de usarmos tênis e roupas é prova inequívoca da nossa inferioridade, já que as lagartixas não precisam disso. Ai meu Deus, iluminai tais seres!  Precisamente por não poderem se adaptar a tudo é que as lagartixas não podem viver em qualquer lugar. Nós podemos,

Não precisamos de tênis: usamos. É diferente.  Esses acessórios são ferramentas para ganharmos o mundo. Poderíamos viver e morrer em climas amenos, mas como somos escrotos, não nos conformamos. Preferimos explorar e obrigar os ambientes difíceis a nos engolirem. Um urso polar não pode vir para cá. Ele morre. Mas nós podemos ir para onde ele está.

Com os irracionais funciona assim: uns só vivem se for no frio, outros só se for no quente. Há outros ainda, mais frescos, que só se dão bem se for no quente-frio alternados. Uns só comem folhas e se não tiver folhas, morrem. Outros só encaram carne e se não tiver na prateleira da selva, adeus. Nós não. Nós nos adaptamos. Tá frio? Meta-lhe casaco. Tá quente? Todo mundo pelado! O clima se alterna? Não tem problema: arranjamos dois tipos de guarda-roupa, e assim nos espalhamos sobre a superfície da terra fazendo o que dá na cabeça.

"O que dá na cabeça" é sinônimo de "destruir", alguém diria. Não necessariamente destruir. "Alterar" seria o termo mais correto. Mas você já ouviu dizer que ou destruimos as formigas ou elas destroem o mundo? Eu já vi um documentário a respeito. No quesito "destruição" não somos piores do que as formigas. Qualquer predador que se multiplique incontrolavelmente vai acabar alterando drasticamente o meio ambiente.

Quem te garante que se houvesse fortes motivos as lindas gaivotas não destruiriam o mundo?  Você tem garantia disso? Se para sobreviverem elas precisassem adquirir ouro ou a pele dos outros animais você acha que a gaivota pensaria duas vezes? Fala sério!

O leão não pensa duas vezes: tá com fome, te come. Nós é que temos essa conversa mole de ter que comer folha para preservar. Eles não pensam nisso. O passarinho está se lixando se a minhoca tem ou não família, se existem minhoquinhas famintas em casa esperando por elas. Bobeou, dançou.

Pense no cupim. Vá pregar para ele o seu discurso de não-destruição. Vá lá! Ele não quer saber! Deu chance? Adeus maloca!   Não, não somos só nós que destruimos. Tudo o que vive caminha para a morte e leva consigo um monte de coisas. A diferença é que somos suscetíveis a discursos, propagandas verdes. Eles não.

Há quem diga que "destruir com consciência" é pior do que "destruir com inocência", como os irracionais. Bem, esse juízo de valor fica por conta de cada um. Só digo o seguinte: a consciência é a liberdade para fazer ou não. Escolher, afinal. Eles não têm isso. Deram corda no jacaré e ele só consegue fazer todo tempo  a mesma coisa. Sabe, não ocorre nenhuma idéia mais interessante na cabeça dele.  

Acho bom você concordar comigo porque tenho um lado irracional, portanto "muito superior", que instintivamente cai  com as garras em cima dos opositores.

3 de mai de 2017

Uma nova sociedade? Tá doido, cara?

Ei ! Você aí! Sim, você mesmo! Venha cá e me responda: sério mesmo, você está a fim de construir uma nova sociedade?

"Claro que sim" uma ova.  A resposta certa é "claro que não". E não venha me atacar de engajado. Todos nós odiamos e amamos nosso modo de vida. Preferimos ficar com o que odiamos se  para isso pudermos manter o que amamos. O pacote é completo, não dá pra separar.

Por exemplo: não seria maravilhosa uma sociedade que não dependesse economicamente do consumismo desenfreado? Sim. Mas quais seriam as implicações dessa nova sociedade?

1- Isso implicaria em você abrir mão de 80% das suas coisas. Topa?

2- Implicaria em menos gente empenhada em criar. Não haveria motivo para tanta criatividade se não fosse para enriquecer vendendo-a. Para quê ficar criando coisas se não houvesse uma equipe de marketing dedicada a convencer os outros a comprar esses trecos de que não precisam? Menos propaganda = menos consumo. De repente você está condenado a continuar com aquela cadeira de balanço de 40 anos só porque a desgraçada não acaba nunca.

Esse é um exemplo só para começo de conversa. A verdade é que nossas reivindicações sociais mais inflamadas e justas poderiam infernizar nossa vida se fossem realmente aplicadas.  Mais exemplos:

-  Um pequeno erro (no trânsito, por exemplo) cometido sem senhuma intenção de fazer o mal. Você não poderia mais fugir das penalidades de modo algum, sob nenhum argumento, sob nenhuma "maionese". Todos os seus erros trariam sobre você a justa penalidade.  Amigo coronel, parente político ou compadre delegado - nada disso funcionaria. Nem dinheiro.

- Delícias? Só seriam liberados para a venda os alimentos que comprovadamente não prejudicassem nossa saúde de forma alguma. Agora abra a sua geladeira. Depois me olhe nos olhos e responda se você queria mesmo empresários e governo rígidos no que concerne à alimentação da população. Bem-vindo ao maravilhoso mundo dos naturebas.

- Aborto? Nem sonhar. Claro que sei que ele já é proibido. É proibido mas é permitido - se é que você me entende. Imagine se fosse proibido meeeeesmo.  Pense em você e em todo o mundo sem essa horrível opção, ainda que remota. Pense em você sem a opção de fazer nenhuma outra coisa feia nessa vida; não por caráter ou por amor ao próximo, mas por medo da infalível punição.

- Só teriam permissão para fazer sexo as pessoas com condições físicas, financeiras e psicológicas para arcarem pessoalmente pelos resultados do sexo. Ou seja: sexo irresponsável seria terminantemente proibido. Adolescentes que não têm onde cair mortos transando alegremente às custas dos pais e empurrando o bebê para os outros criarem? Acabou.

- Nenhum tipo de promessa ou dívida ou contrato deixariam de ser cumpridos. Nenhum. Sob as mais pesadas penas da lei. Não valeria mais essa coisa de se arrepender das promessas feitas. Falou tá falado, nem que o mundo se acabe. Se você me prometeu uma coisa hoje, saberei que a promessa perdurará até que você morra, ainda que isso leve mais sessenta anos.

- O prazer do novo pelo simples prazer fútil pelo novo, nunca mais. "Enjoei daquela cortina..."  Ééééé?  Você não serve para os novos tempos.

- A morte do "quem indica".  Particularmente eu odeio o  "quem indica" mas desconfio de que seja só porque nunca ninguém me indicou para nada.  Você se parece comigo?

Uma sociedade justa: 

"- Ah, você quer mesmo mais justiça?" pergunta a horrenda Fada Madrinha. 
"-Eu quero. Nas costas dos outros", respondo eu.

Meu amigo cheio de moral, você se garante se o mundo se tornar absolutamente justo? Tipo toma-lá-dá-cá, sem "mas-mas-mas", sem desculpa e sem perdão? Sim, porque o perdão é um ato injusto. A justiça mesmo é olho por olho, dente por dente. O que passar disso é misericórdia.
Particularmente acho que perdão e clemência tem me quebrado um galhão durante a vida. O problema da misericórdia é que não dá pra ela existir só pra mim. Geralmente (no fundo no fundo) achamos que bom mesmo seria "misericórdia para mim e justiça para os outros". Só que esse é um desejo muito cara de pau.    Repito a pergunta: você se garante em uma sociedade mais justa?

Ah, você quer os dois juntos: justiça e misericórdia? Só na Bíblia, meu amigo, só com Deus. Você é cristão?    Vou te contar: aqui entre os homens, justiça e misericórdia são como óleo e água - não se misturam.

- Na nova ordem mundial proibido é proibido e inegociável.  Seja sincero: é isso mesmo que o seu coração pede? Maconhazinha? Porretada. Cola? Mais porretada. Coca Cola? Cem chibatadas. Som no último volume? Condenação. Pequenas transgressões? NEVER. Espalhar boato? Indenização. Pegar emprestado e não devolver? Execração pública. E por aí vai.

Imagine se todas as contravenções e crimes, maiores e menores, fossem realmente e exemplarmente punidos. TODOS. Assim teríamos uma sociedade mais justa, mas... isso não atrapalharia em nada o seu dia-a-dia?

A verdade é que nossa sociedade hipócrita é patologicamente afeiçoada a tudo o que a destrói. Precisamente por isso ela está sendo destruída. São os milhares de pequenas transgressões que estão envenenando o mundo. Os grandes transgressores são fichinha perto do exército inumerável de transgressores-formiga - do qual VOCÊ faz parte.

Acho que se uma fada madrinha viesse nos perguntar se desejávamos que ela transformasse agorinha nossa sociedade em uma sociedade justa, consciente, solidária e coerente, sabe o que responderíamos?

"Dona Fada, valeu a intenção mas... depois a gente fala sobre isso, tá? Deixe seu telefone que a gente entra em contato."

30 de abr de 2017

Aquela menina

Ontem fui assistir o filme A Bela e a Fera. Deixando um pouco de lado os comentários a respeito da produçào (primorosa), dos cenários detalhadíssimos (e um tanto pesados) das músicas (sim, trata-se de um musical. Preferia que náo fosse), dos atores (a Bela bem que poderia ser uma garota mais bonita, com mais graça e mais carne no corpo), o filme foi um teste que me deixou feliz.

Confesso que de uns tempos para cá estou sentindo o que até pouco tempo pensei que jamais começaria a sentir: meu próprio envelhecimento. Estava tão acostumada a ser jovem que comecei a acreditar na balela de que o corpo poderia envelhecer mas as sensações jamais. Eu nunca me sentiria indisposta ou simplesmente "sem vontade de fazer nada". Bem, meu dia chegou e ultimamente quase que não me reconheço mais. Não, não estou deprimida. Minha vida está ótima, límpida, em paz. Não estou doente ou passando por nenhuma desilusão mas sinto que estou perdendo alguma coisa que não sei o que é. Como se estivesse perdendo a mim mesma ou da minha energia mais característica. Mas o que tem isso tudo a ver com o filme? 

Bem, gostei de constatar que continuo capaz de sentir as emoções bolas do meu tempo de menina. Minha mudança de uns tempos para cá tem sido tão palpáveis que pensei ter perdido tudo o mais.  Esses filmes bobos e "cheios de ideais burgueses" me conectam com um mundo de sonhos,  com a melhor parte do meu passado: a menina que não sou mais.  Percebo-me tão diferente dela que já a vejo como outra pessoa. Não mais eu, mas uma filha, fora de mim, que jamais crescerá mas foi embora sei lá pra onde.  

O fato é que sse filme - entre outros - me traz a garotinha de volta.  É delicioso "me coincidir" com ela na hora em que o encanto é quebrado e a fera se transforma num lindo príncipe e o ambiente todo se torna vivo e iluminado e o palácio deixa de ser soturno e volta a ser lindo, riquíssimo, um lugar encantador! E há música, beleza e vontade de bailar por aqueles salões enormes.  Sou até capaz de ver novamente o filme não mais pela história em si mas para me sentir dentro daqueles ambientes maravilhosos com os quais sonhei a infância toda e que jamais farão parte da minha vida.

Sei que essa postagem é tanto infantil e incrivelmente simplória. Talvez até lamentável para alguns, mas me dou essa permissão. Por que não? 

Lembro que uma vez fiquei emocionada,  junto com a Clarinha, enquanto assistíamos Cinderela. Percebi, pela expressão do rosto dela, que ela estava sentindo o mesmo que eu quando o vestido da Cinderela se transformou de trapos para um traje fino e lindo e ela girou, feliz e encantada... e quando dançou com o príncipe. Naquele momento mágico tínhamos a mesma idade, Clarinha e eu. 

Bela Adormecida... Cinderela... A Bela e a Fera... É meu ponto de encontro comigo mesma. Aquela Cristina ainda existe em algum lugar e essas histórias são como portal, um espelho mágico. É quando vejo que tudo continua a existir intacto em alguma outra  dimensão. Na nada no universo é perdido de fato. Eu não me perdi.  Sempre haverá um portal, um modo de termos tudo de volta, ainda que por pouquíssimos segundos.