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28/07/2014

O grande sono e a pequena morte


Muita gente magoada porque não há sentido em vivermos para depois morrermos.  A morte - dizem - tira o sentido de tudo. É um grande desaforo.

Todas as nossas mais caras experiências parecem insignificantes quando as colocamos ao lado da morte, na mesma prateleira.

Não importa como tenha sido a sua vida. Só o que vai sobrar é aquela impressão de filme francês:  acabou?! E as perguntas? E as respostas? "Então foi pra isso que fiquei duas horas na frente dessa tela?" 

Dormir é morrer um pouquinho. Precisamos entender que esse rosário de  "pequenas mortes"  tem um propósito: preparar-nos para "o grande sono". Toda essa repetição é pra tirar o medo.

A vida explica a vida.  A "pequena morte" nos pega pela mão e saímos por aí todas as noites só pra a gente começar a gostar do mistério. Só pra dar vontade de continuar assistindo o filme até o fim mesmo sem entender. Como um pai que põe a mão do filho dentro do tanque para ele perder o medo dos bichos.

O fim do dia, com todo o seu cansaço, é uma parábola. É a nossa mãozinha na água.

Não costumo questionar a brevidade da vida nem a inexorabilidade da morte. Creio na vida depois da morte, de forma que essa questão não me intriga. Bem, é isso que eu pensava, até que me flagrei com questionamentos semelhantes aos dos nobres incrédulos.

Não questiono a brevidade da vida, mas me indigno contra a brevidade do dia. Quantas e quantas vezes cheguei em casa e perguntei às paredes qual o sentido de trabalhar o dia todo para, no final das contas, ir dormir?  Que grosseira banalidade!

Quando estou liberada dos meus afazerem para, enfim, desfrutar horas como eu quiser, sou vencida pelo cansaço e nada me parece mais atraente do que um banho, um perfume, meus lençóis. Por quê, quanto finalmente temos tempo, falta-nos a disposição?

Essa falta de disposição do final do dia não seria uma miniatura da falta de apetecimento no final da vida? E não deveríamos agradecer por ela?  Não seria essa uma maneira de entendermos que, no final das contas, nem a morte nem o sono nos perseguem mas nós é que nos entregamos a eles, deliciados?

Dia a dia somos alfabetizados pelas exigências do dia e da noite: essas graciosas miniaturas da vida. Assim como uma noite de sono é o grande prêmio pelos nossos trabalhos, a morte é a aposentadoria, com louvor.

Você pode achar um prêmio muito fuleiro mas não é. Nada é mais atraente, para quem está cansado, do que uma proposta de descanso.

Depois de tantos afazeres seremos brindados com alguns "anos vagos" nos quais poderemos fazer o que bem quisermos. O nome disso é velhice. Mas o que vamos querer fazer nessas derradeiras "oito horas" da vida ?

As "oito horas" ficarão sentadas à nossa frente como uma virgem que espera que o namorado saiba muito bem o que vai fazer com ela.  Mas entre tantas opções vamos preferir o que todo mundo prefere: deixar-nos possuir. Acredite: você vai querer ser vencido pelo "grande sono" do mesmo jeito que todos os dias é nocauteado pela "pequena morte": sem reclamar, sem espernear.

A certeza de que acordaremos é o que conserva, por assim dizer, o sentido de tudos. Não sei explicar como, mas é assim. A certeza de acordar é que nos acalma, de forma que o "sem-sentido" se torna um assunto adiado sempre pra depois. "Amanhã eu penso nisso" - e assim a vida se acalma dentro de nós.

A incerteza de despertar depois "do grande sono" é o que perturba as pessoas. Se não haverá "depois", qual a graça do "agora"?

Ainda que eu não venha entender todos os mistérios, a certeza de que terei centenas de noites me fazem tão bem! Não tenho pressa de receber resposta. Minha curiosidade pode ser adiada indefinidamente enquanto desfruto a vida.

Não há sentido numa vida que não tem consciência de que vai acordar.

24/07/2014

O banquinho

Passei aqui só pra dizer que assisti novamente Forrest Gump. Chorei de novo.

Não tenho fama de sensível. Sou à prova de quase tudo. Aguento firme vários tipos de provocação emotiva mas sempre há uma parte do coração que escapa da armadura, se expõe e acaba levando uma flexada.

"Posso não ser inteligente, mas eu conheço o amor!"

O que é a nossa vida? Caminhamos inexoravelmente para aquilo a que fomos destinados? O que nos cabe é inegociável? Imutável? Ou a vida é como uma pluma solta, soprada por ventos caprichosos? Ela se vai sem rumo ou proveito. Seus movimentos, por mais que pareçam belos, são gratuitos. Queremos muito que suas evoluções no ar expressem arte, destreza ou qualquer coisa a ser compreendida,  mas não! Tudo é desconcertantemente aleatório. Aquele vagar bêbado é apenas confuso, sem significado algum.

Ou ... ou será que as duas coisas acontecem ao mesmo tempo?

É possível que tantas voltas nos levem a um lugar exato? Ou abraçamos a ideia de "destino" como quem abraça um ursinho de pelúcia? Temos mesmo uma necessidade imensa de viver com um propósito reconhecível, de ver sentido em tudo.

Talvez todas as nossas buscas nos levem àquele banquinho onde Forrest refletia sobre a vida. E ali, sentados, lembrando de tudo, é que começamos a perceber o sentido das coisas. Não há o que esperar. A vida não será, ela já foi.  Sente aqui e veja. Tudo foi mais suave e criativo do que poderíamos planejar.

Enquanto prosseguimos atarantados buscando algum motivo nobre pra existir, fazemos papel de bobos. Deus olha e ri, condescendente. Somos bem engraçados às vezes.  Ele deixa que continuemos a procurar o chocolate escondido pela casa e ri porque o colocou no nosso bolso. Estava o tempo todo lá e não percebemos. Mas a gente sempre descobre quando para, cansa e senta no banquinho.

Só podemos entender o passado. O presente, jamais.

A sua história também é fantástica. Como a minha. Como a de Forrest Gump.

17/07/2014

Negruras


Comecei a assistir, com uns amigos, um desses filmes horrorosos com sangue, gritos e torturas. Claro que não consegui ficar até o fim. Repulsivo e angustiante.

Que tipo de vida têm as pessoas que, dentro de si, concebem um filme assim?  É necessário marcas escondidas, dores, doenças e um certo tanto de lixo como matéria prima armazenada. Que tipo de mente respira imaginando isso? Por quantas horas durante o dia?  Não se assustam consigo mesmas?  E se há mercado pra isso, esse mundo é um lugar tenebroso mesmo!

As vezes acho que a Terra é uma enorme caverna muito, muito escura. Nós nos assustaríamos se pudéssemos enxergar tudo. A escuridão, no caso, é um alento. Enquanto caminhamos pisamos em insetos, esbarramos em cadáveres e moscas enormes. Há baratas e larvas, escarros e dedos. Lesmas estão debaixo dos nossos pés mas não percebemos. Seguimos em frente, reclamando apenas da ausência de luz.

Talvez convivamos com pessoas que, se pudessem ser viradas do avesso, seriam um filme de terror. Há zumbis por todos os lados, estou certa disso. Quem são eles? Não sei. 

E por falar em zumbi, acabei de reler ainda agora um texto meu, aqui no blog, no qual eu dizia que a vida só é completa se contiver também dor e o sofrimento. Quando reli lembrei do filme horroroso que comecei a ver e disse para mim mesma, assustada, que eu não estava me referindo àquilo. Não! Deixem-me explicar que a "atração pela dor"  que eu mencionava tinha a ver com cometer erros, envolver-se em situações de risco e relações tensas. Nada parecido com esse pesadelo da tela.   Então expliquei a mim mesma que não sou um desses seres deturpados que trazem à luz diversões macabras. Sou uma pessoa boa. 
Sou uma pessoa boa?

Tenho realmente condições de enxergar a mim mesma a ponto de poder recomendar-me aos outros com segurança?  Ou a caverna por onde anda meu verdadeiro EU é tão escura quando a que acabei de imaginar?

Se acendêssemos uma lamparina no labirinto da nossa mente - sim, da nossa própria mente, não na dos outros! - não ficaríamos assustados?  Do que somos capazes?     O pai que matou a filha: será que ela sabia desde sempre que era capaz disso? E a moça que matou os pais à pauladas? Desde quando se sentiu capaz?

Nossa cegueira nos protege de enlouquecer. Ou nos protege de notarmos que somos loucos. Nos protege da angústia da descoberta. Como se fôssemos mais de um: o EU ingênuo e "acreditador" e o "'EU" mau e louco; meu irmão gêmeo a quem não posso ser apresentado. Sou a pessoa má e sou a que acredita que sou boa. Sou duas, separadas uma da outra pela parede da escuridão. A parede que nos separa das nossas dolorosas verdades.

Não vemos tudo. Somos estranhos a nós mesmos. O interessante é que temos no peito um ideal de bondade e beleza que nos motiva, nos enternece e, de certa forma, levanta o nosso olhar e nos faz continuar andando nas trevas enquanto acreditamos na luz.

Não sei bem qual o nome desse "lado puro que não se enxerga". Dizem que é "espírito".

13/07/2014

Uma mulher irresistível


Cada dia mais me convenço de que não teríamos tantos problemas se déssemos mais atenção ao MARKETING PESSOAL. A maneira como nos apresentamos ao mundo determina nosso sucesso ou insucesso profissional, político, afetivo (sim, até afetiva!) e social.

Tudo bem, mas se é assim, isso pode se tornar uma coisa meio neurótica. Tudo que "rende frutos" pode render neuroses.  Como relaxar?

Conheço várias pessoas muito bem sucedidas nessa arte. Será que nunca relaxam ou já acordam no piloto automático? Sim,  porque vender a própria imagem inclui até gestos mínimos.

Já estive entre as pessoas que fazem tudo errado nessa área e depois ficam achando que o mundo as odeia ou que são muito azaradas. Faz alguns anos que tenho observado a minha própria trajetória. Poucos se boicotaram tanto quanto eu. Confesso que por muito tempo achei que o mundo me odiava. Agora, que alcancei um certo nível de entendimento, sei perfeitamente bem onde pisei na bola - mas continuo sem energia pra mudar o rumo.  Em diversas situações escolhi a roupa menos indicada, critiquei a pessoa errada no tom menos aconselhável. Pior: não foi distração, foi consciente. Mas era irresistível!

Hoje eu sei de uma coisa: quanto mais vezes a palavra "irresistível" constar em seu vocabulário, maior a chance de você ser um fracasso de marketing.

Sempre achei "irresistível" dizer certas verdades para certas pessoas. Menos um ponto. Mesmo que essa "certas pessoas" fosse um superior hierárquico. Menos dez pontos. Acho irresistível abrir mão do traje "executivo" mesmo que esse fosse o recomendado para a ocasião. Menos cinco pontos. Se estou com problemas, isso fica estampado na minha cara. Menos três pontos. E por aí vai. E por ser "essa mulher irresistível" já perdi oportunidades interessantes.  Não sei fazer "as amizades certas". Acho irresistível optar pela espontaneidade. Também é irresistível dar a minha opinião sincera quando indagada. Menos um ponto aqui, menos um ponto ali.

Meu mal não é "não saber usar o marketing pessoal". Meu mal é não ter paciência para  as suas exigências.

Já os bem sucedidos são divididos em três grupos: 1) os sortudos,que já nasceram formatados para o sistema; 2) os determinados, que sabem o que querem e instintivamente caminham naquela direção sem pestanejar, por mais artificial que seja o comportamento a ser adotado; 3) e os orientados. São aqueles que contratam um profissional da área para lhes apontar o caminho que eles são incapazes de enxergar.

Dos três, o segundo grupo é o que mais me causa admiração. Isso porque o primeiro não tem mérito algum por ter nascido como nasceu. O terceiro grupo tem mérito pela humildade em reconhecer o próprio fracasso e correr atrás da solução, só são sempre flagrados, então a coisa fica muito artificial e cômica. O segundo grupo, dos determinados, pra esses sim eu tiro o chapéu.  Não são a maioria. Eles percebem como deveriam ser, então vão à luta. Sem alarde, sem se importar com mais ninguém, confiando apenas em si mesmos. Metem a cara, mudam de cara, dão a cara a tapa... e conseguem alguma coisa.

Política é tudo. E eu aqui, do alta da minha "irresistibilidade",  só tomando nota...

09/07/2014

Linchar ou não linchar - eis a questão

Somos dia a dia moldados por nossas escolhas. Tudo que a gente faz nos modifica, ainda que não percebamos. Note: um trambiqueiro de décadas vai ficando, aos poucos, com cara de trambiqueiro. Já reparou? Pinguço tem cara de pinguço, malandro vai ficando com os trejeitos de malandro, preguiçoso se movimenta, fala e anda como preguiçoso. Ele pode ser facilmente reconhecido. Quem se prostitui, aos poucos vai dando bandeira claramente. Militar tem jeito de militar, religioso fica com jeitão de religioso. Claro que há exceções e algumas vezes as aparências enganam. Mas só algumas vezes. E só enganam quem é ainda jovem e inexperiente demais. Mas essas são as exceções porque, de um modo geral, todos vamos adquirindo "cara de"  mais cedo ou mais tarde.

A questão que tenho em mente hoje não é se o bandido merece ou não merece levar uma surra amarrado no poste. Quer saber? Até acho que merece. O problema é: e quem vai surrá-lo, será que "merece" se transformar naquilo em que  VAI se transformar?

Acho que é impossível surrar ou torturar alguém sem se modificar por dentro,sem se tornar um ser humano um pouco pior a cada dia.  Não dá pra fazer o mal sem tornar-se vil, sem se manchar e ir tomando a forma de monstro. É isso o que me inquieta.

Minha preocupação aqui não é com o bandido em si, mas com todas as outras pessoas, que não deveriam se deixar arrastar pela mesma maré de sujeira.

Quando vejo fotos e filmagens de linchamentos sempre penso: estamos afundando. A questão não é se "ele" merece mas se vale a pena que aleijemos nosso emocional. Ser vítima de bandido já é suficientemente ruim, mas baixar e baixar e ir descendo cada vez mais ao nível irracional ... aí é mesmo uma lástima!

Não nos iludamos: linchar modifica a pessoa. Embrutece, entorta. Tira a sensibilidade. Mata alguma coisa bonita que todos temos lá dentro desde que nascemos. É como envenenar-se.

A resposta justa à agressão é a agressão. Toma-lá-dá-cá.  É como vejo. Só que a justiça pode ser pesada demais para nós. Porque quem já se embruteceu a ponto de conseguir desfigurar um ladrão é porque está perdendo ou já perdeu uma das características humanas mais marcante.

Urso não tem pena de ninguém nem sente a dor de ninguém. Onça não se põe no lugar da vítima. Cobras e rinocerontes não sabem o que é compaixão.  E são essas coisas que nos diferenciam deles!  Se formos despidos assim de uma fatia tão importante da nossa humanidade, em que nos transformaremos?!  Porque depois de um linchamento ninguém volta pra casa do mesmo jeito nem do mesmo tamanho nem com o mesmo coração. Não nos iludamos.

Repito: o agressor pode até merecer a surra. Merece sim.  Mas ela pode sair caro demais para nós. Sai muito caro deixar-se afundar na mesma lama. Isso traz consequências.

É essa a minha questão filosófica de hoje. Isso me inquieta deveras.

Existe um jeito de sermos justos sem nos mancharmos?

05/07/2014

E se...?!


E se, no final das contas, os errados estivessem certos e os certos estivessem errados?
E se os indomáveis fossem a única categoria livre e os outros fossem os otários?
E se os "marginais" fossem os únicos capazes de fazer o que nós não conseguimos, que é assustar o poder?
E se não ter CPF for justamente o tapa na cara que "eles" merecem levar?
E se o certo for aquilo, e não isso?
E se a submissão for o erro e o veneno que nos está matando?
E se "sair do sistema" for um ato de coragem?
E se os certos, certos mesmo, forem aqueles que se recusam a dedicar a vida inteira para conseguir um carro ou apartamento? E se eles incomodam justamente porque não se dobram?
E se o sentido da vir for ir em sentido contrário?
E se os esquisitos forem a obra prima de Deus?
E se a gente parar de alimentar o sistema?
E se eu me recusar a dar lucro?

Há uma multidão lá fora, uma multidão de pessoas a margem da sociedade. Não sabemos exatamente seu número. Estão fora de controle.  Talvez seja esta  a resposta, a grande sacada. Cair fora, sair do controle, deixar de ser gado.

E se todos os bens que tanto insistem para que eu consuma, não valerem um décimo de um dia do meu trabalho? 
E se o esforço deles para que nos tornemos "cidadãos" não passar de uma sentença de morte disfarçada? 
E se "cidadão" for apenas o apelido de otário?  
Por que meu país não pode ser eu mesma?
Por que eu tenho que creditar nas necessidades que eles dizem que eu tenho?

30/06/2014

Fofura e constrangimento

Quando criança nada me irritava mais do que me constrangerem a demonstrar carinho. Não esqueço de uma dessas cenas do passado: uma amiga da mamãe chegando em casa, de visita, com a filha, que era uma menina da minha idade. Aí minha mãe ficava dizendo: "olha, uma amiguinha, Cristina! Dá um abraço nela! Abraça ela! Beija ela!" E todos faziam coro: "abraça ela!"

Eu me sentia péssima. Meu impulso era sair correndo e me esconder debaixo da cama. Aquilo me deixava muito triste porque fazia com que eu me sentisse um ET, alguém estranho com uma conduta dissonante, antissocial, esquisita. Eu não queria ser esquisita nem má, mas era assim que eu me sentia. Aquelas situações provavam que eu era uma menina má, que não se parecia em nada com as princesinhas doce dos contos que eu amava. Eu me sentia a bruxa, o aleijão, alguém que só minha mãe conseguiria amar. Então eu me sentia desnuda, exposta e humilhada com aquela exibição pública da minha falta de candura. E quanto mais a platéia torcia e me incentivava a ser meiguinha mais irritada, triste e confusa eu me sentia. E por fim eu chorava - para piorar as coisas.

E foi assim que descobri: 1) como as pessoas amam quem é fofo e carinhoso; 2) como as pessoas esperam ser platéia em shows de fofura; 3) como as pessoas se decepcionam com quem não lhes concede esse gosto; 4) como eu estava distante da meiguice que a sociedade exigia de mim. E daí passei o resto da minha vida tentando ser mais legal para nunca mais me sentir tão mal. Houve progresso, felizmente, mas nada que se compare às princesinhas dos contos de fadas ou às Madres Teresas.

Esses dias participei de uma distribuição de sopa a noite, pelas ruas do centro da cidade. Sopão. Fui. Nunca tinha participado e seria uma chance maravilhosa de agradar a Deus, ao próximo e, de quebra, ser moldada para o bem, evoluir.

Gostei de participar. Quer dizer... gostei e não gostei...

Uma série de sentimentos confusos demais agitaram meu ambiente mental. Primeiro: não acredito em amor sem envolvimento. Não amo quem não conheço, por isso preciso me aproximar das pessoas para ativar o amor em mim. Não é assim, de primeira, no automático.  Não me senti compelida a abraçar quem nunca vi, sorrir e dizer "te amo". Não sou assim, não dá.  Como ser de repente o que nunca fui? No entanto eu estava  lá, com o coração aberto e cheia de vontade de fazer o bem para os desfavorecidos. Mas voltei ao passado e tive a impressão de que havia uma platéia esperando uma atitude nobre da minha parte. Não existia platéia, mas isso impregnou minhas impressões por causa daquela situação da minha infância que já contei.

Bastou que eu abrisse a boca para conversar que percebi minha total falta de jeito. Eu me via sem graça, postiça. Talvez aquela fosse somente a voz do mal tentando me afastar do bem. Não sei. Mas minha conversa e meu sorriso eram desajeitados, travados, amarelos... e o amor e emoção que eu esperava que fosse jorrar continuou lá dentro do peito, quietinho, em forma ainda de semente. Não senti vontade de abraçar ninguém.

Um momento péssimo que me trouxe aquela birra infantil de volta foi quando uma das integrantes do grupo  chamou a atenção de outra dizendo coisas do tipo "não é só chegar e dar a sopa! Tem que se aproximar, tem que dar um abraço, dizer meu irmão, estamos aqui, eu amo você" e bla bla bla.  Não me fez bem ouvir isso. Voltaram à memória aquelas senhoras do passado me enchendo o saco: "abraça ela, Cristina! Beija a sua amiguinha!" "Me deixa em paz!" era o que eu queria gritar.

Quero muito chegar ao ponto de abraçar um desses mendigos, fazer amizade, oferecer ajuda e tudo o mais, mas preciso de tempo, preciso aprender, preciso tentar, preciso me sentir a vontade. Ainda não dá. Não que eu queira mal àquelas pessoas - não! Mas forçar a barra e fingir um sentimento que ainda não tenho que ainda não brotou... pra quê? Pra enganar quem? Me diga!

Então fiquei desanimada com a iniciativa do sopão. Me senti inadequada, um aleijão - como no passado. Humilhada pela minha visão de mim mesma em comparação aos outros.

Se não basta um coração aberto e uma mão estendida, adeus. Acho que se eu preciso aceitar o próximo mesmo ele sem banho, sem pente, sem noção, então o próximo precisa me aceitar assim, desajeitada e sem abraço. Se eles não precisam tomar banho para ganhar a sopa, por que tenho que maquiar minhas atitudes e sentimentos?

Uma pena, mas talvez eu não sirva para o papel...


26/06/2014

Malévola



Confesso sem nenhum constrangimento que jamais me libertei do fascínio por histórias de fadas e princesas e castelos e príncipes. Esses contos me encantam profundamente desde que eu era criança.

Não sei exatamente quando isso começou. Talvez tenha sido quando, ainda bem menina, eu entrava naquele quartinho onde guardávamos coisas velhas e resgatava livros de história dos Irmãos Grimm, Monteiro Lobato e outros mais. Eu lia como quem se apossava de um segredo, como quem entrava em um portal mágico, um mundo incrível que existia sim. Era como descobrir poções mágicas.   Não, jamais me livrei desse encantamento. Pensava que conforme envelhecesse tudo ia começar a me parecer  bobagens infantis, mas não. 

Interessante é que nossa alma, quando sob o efeito dessas fantasias, não suscita questionamentos cansativos e politicamente corretos do tipo "mas por que a princesa tem que ser sempre loura e linda?" Felizmente no pais dos sonhos estamos livres para mergulhar em tudo isso com descarada liberdade.

Assisti hoje o filme Malévola. É uma repaginada da história da Bela Adormecida. Não, não me pareceu nada infantil. Para mim era como se uma fada bondosa me pegasse pelas mãos e me levasse de volta  aos sonhos da minha infância, àquele longínquo pais onde as menininhas viviam aventuras que sempre terminariam bem.  O filme foi feito para as menininhas  que as mulheres como eu já foram. Foi como que um beijo que nos acordou do sono profundo. 

Nos, mulheres, somos todas Bela Adormecidas.  O filme é lvisualmente lindo e foi feito para nos levar de volta em um passeio na floresta encantada.  Uma bela colher de chá.

Pois me tomaram pela mão e fui levada ao mesmíssimos ambientes já tão conhecidos desde pequena. É como se eu tivesse voltado e reencontrado velhos amigos. Nada me pareceu novidade. Tudo era muito meu, muito familiar, mas mesmo assim deslumbrante. As paisagens 3D eram tão mágicas (tipo Avatar) que em determinado momento me emocionei com a beleza.

Fiquei agradecida a Holliwood por me mostrar novamente as coisas que minha alminha sentia tanta saudade. E agradecida também por me fazerem entender que sonho e fantasia não tem idade e que não sou boba em me deixar levar assim. Foram pessoas adultas que fizeram o filme. Foram pessoas como eu, que sabem o que é ficar horas perdida em cima de um livro mágico. Não sou sozinha nessa floresta.  Felizmente.

Em algum lugar do mundo tudo aquilo é verdade. Tenho certeza disso.

22/06/2014

Futebol - mais uma teoria

Não é que eu não goste de futebol. O problema é que não consigo, não consigo, não consigo me concentrar.  Naquele vai-e-vem de bola que na maior parte do tempo não leva a lugar nenhum, minha mente insiste em escapar pra loooonge. De repente alguém grita "pênalti!" ou algo assim, então me aprumo, fixo o olhar e entro no clima. Pronto: os jogadores tem minha fiel atenção por no máximo dois minutos. Depois disso adeus: a mente escapa novamente.

Futebol... O que há de tão interessante? Vou teorizar.  Tenho essa licença já que o futebol está aberto a qualquer perna de pau. Se qualquer um pode se aventurar jogando, qualquer um pode se aventurar teorizando. Então lá vai:

1- Futebol agrada porque todo mundo precisa de uma distração. Como a maioria é pobre, taí uma distração barata. Claro que os pinos no fêmur não estão incluídos nessa contabilidade.

2- Futebol agrada porque todo mundo precisa de amigos. Até o sujeito mais tímido pode se encostar no muro, esperar a vez de ser escalado e pronto: não está mais sozinho no mundo, já tem uma turma!

3- Futebol agrada porque todo mundo precisa ter um sonho e acreditar nele. As histórias dos jogadores que saíram da pobreza para a glória estão aí para colocar um brilho no olhar da garotada. A história dos craques está, para os meninos, como a história da Cinderela está para as meninas.  Sabemos que sair da pobreza para a riqueza sem precisar estudar é raro, mas tão raro que seria considerado impossível se não tivéssemos as benditas histórias reais. Isso significa que nosso sonho pode ser mantido. É bom. E é bonito ver como a glória dos ouros pode nos acalentar.

4- Futebol agrada porque oferece assunto até ao idiota mais sem assunto do mundo. Sempre existirá um marmanjo disposto a conversar a respeito. É reconfortante saber que sempre será possível iniciar um diálogo mesmo que exista um vale intelectual separando os interlocutores. Também dessa forma o futebol é agregador e fator de facilitação da sociabilidade.

5- Futebol agrada porque união sincera agrada. Nós, humanos, somos muito carentes. Precisamos de coisas que não sabemos como conseguir. Isso nos aflige.  União, quando acontece, emociona, porque vivemos em um mundo de conflitos infindáveis. Qualquer coisa que nos faça esquecer raça, aspecto físico, nível social, convicções religiosas e políticas, ganha uma aura "tipo sagrada". Aí uma sequência de imagens bonitas e sentimentos elevados, que não costumam rondar nosso dia a dia, nos invadem. Por instantes achamos que não somos tão maus assim e que nem tudo está perdido. Daí que uma multidão unida no mesmo grito, na mesma aflição e na mesma alegria é uma das coisas mais lindas e emocionantes que se possa imaginar. O futebol nos dá isso: a sensação de que o milagre está acontecendo, que é possível sim, ainda que venha a esvair-se tão logo o jogo acabe.

6- Futebol agrada porque é uma exibição de juventude, saúde e raça e todos gostamos disso. Os homens adoram pelo desejo de serem fortes, viris, invencíveis, um poço de energia. As mulheres pelo prazer que dá assistir o show de músculos e aparente virilidade. Plasticamente vale a pena a mulher assistir ainda que não goste muito do esporte em si. Claro que muitas mulheres vão reclamar dizendo que gostam de futebol sim. Ora, assim como dizem que "quem gosta de homem é viado, mulher gosta é de dinheiro" (que horror!) vou aproveitar a veia politicamente incorreta pra dizer que "quem gosta de futebol é homem, mulher gosta é de ver os atletas." Pronto, falei.

Pois é, como eu ia dizendo, com essa nova geração de equipamentos de filmagem que nos mostram até a goela dos jogadores. Daí que o espetáculo de coxas energizadas fica bem mais interessante.

Então é isso, estamos acertados: futebol agrada pela beleza plástica, pela emoção da união, pela facilitação da sociabilidade, pelo sonho que nos anima a acalentar, pela provisão de amigos e pela distração barata. Agora se for só pelo jogo, só pelo lero-lero em si, não sei não...




19/06/2014

Criatividade

A cultura da nulidade é mais forte do que se imagina. O Face está acabando com a minha criatividade. Sério. Claro que é conveniente colocar a culpa nos outros mas juro que é verdade. Além do mais "os outros" estão aí pra isso mesmo: pra receber culpa sem reclamar.

Computador desligado = mil idéias. Ligo a droga do computador e o primeiro impulso é "passar rapidinho no Face só pra dar uma checada". O "rapidinho" se estende por vários minutos, findos os quais minha mente termina esvaziada e estéril. Tenho certeza de que ainda vão fazer algum estudo relacionado a isso. Quando fizerem eu peço indenização.

17/06/2014

Preconceito "às avessas"


Que tal se eu dissesse que tudo de ruim que existe nesse pais é culpa da "pobretada preta"? Será que você leria o texto com indiferença? Diria "é isso mesmo"? Me xingaria de racista? Denunciaria na delegacia?

Acontece que é exatamente isso que estão fazendo contra a minoria branca brasileira. Estão apregoando que tudo de errado no Brasil é culpa "da elite branca".  Não dizem mais que é "culpa da elite", mas da elite BRANCA. Dedução: o mal nem é ser elite, mas ser branco.  Dizer isso é algo criminoso. 

A declaração é tão criminosa quanto dizer que todo o atraso do pais se deve aos pretos pobres. É inaceitável  que ouçamos esse tipo de declaração com indiferença. Não é possível, tem que acender uma luz vermelha da nossa consciência!

Acordem, brancos! Isso é discriminação racial! 

Assim como vejo muitos brancos se indignando com o preconceito contra negros, eu também, embora não seja branca, me indigno e denuncio a discriminação racial contra os brancos. E se perto de mim vier algum abestado  praticando esse tipo de injustiça, estou disposta a ir a uma delegacia para denunciar crime de RACISMO. E sugiro que você faça o mesmo porque todos merecemos respeito.  

Direito só é bom se for pra todo mundo. Se uma parcela da população está blindada e a outra está a mercê de pedradas, há algo muito errado aí.  

15/06/2014

O louco

Já faz anos e todo mundo está careca de saber que o falecido ator Heath Ledger recebeu indicação para o prêmio Globo de Ouro por sua atuação como Coringa em "Batman - The Dark Knight”. Sim, os loucos são enigmáticos, inquietantes e às vezes cativantes. Por isso mesmo o cinema jamais esquece deles.

Geralmente os personagens malucos existem para nos meter ódio. Ou nos deixar encurralados, sem saber o que fariamos nas situações por eles propostas.

Para um filme fazer sucesso ele tem que, de alguma forma, mexer com os sentimentos ou instintos do expectador. Medo, raiva, excitação sexual, curiosidade, ansiedade. Pode também apelar para a reflexão.

Quando assistimos a história de um bom menino que se tornou mau porque não suportou o peso de algum sofrimento, ficamos comovidos.  Passamos a respeitar aquele que geralmente desprezamos: o maluco. Aí somos forçados a refletir sobre nossa própria fragilidade pois nossa mente é sujeita a deformidades. Isso é um tanto assustador: o cérebro está lá, guardadinho numa caixa de osso, mas mesmo assim pode ser afetado por coisas invisíveis! Algo não-físico atravessa a caixa craniana e causa mais estrago que uma paulada.

Heath, como Coringa, no fez rir com o cenho franzido. Ele conseguiu passar para nós um peso interior, um mal estar generalizado que era impossível ignorar. Em seus modos amalucados ele atraía para si todas as atenções.   Heath Ledger fez o papel do louco que sofre, sangra por dentro e por isso esmurra o mundo sem sentir mais dor.

Todos nós, às vezes, invejamos os loucos. Eles, somente eles, tem liberdade para dizer o que quiserem e serem como decidirem ser. Desafiam o mundo e sua lógica. Podem ser esquisitos, podem xingar, abandonar o emprego, agredir, gritar, andar pelados pela rua, declarar amor ou ódio.

Há uma dose invejável de liberdade na loucura. Pena que nos saia tão caro. É bem verdade que ser "normal" não é lá muito barato. O preço, porém,  parece estar mais ao alcance da maioria.