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26/10/2014

As vezes


(Escrito em 05.07.14)

As vezes da um aperto no peito e vem uma melancolia que pensávamos extinta. Sobe da terra como vapores sobem do esgoto. Só que a tristeza da gente chega a ser poética quando não é excessiva.

Estou ouvindo música oriental. Estou cansada e esses vapores sobem, enchem o quarto e me cercam. Tentam me contar tristezas, lembrar de dores. Tentam me fazer entrar no esgoto por livre e espontânea vontade - mas não quero, não vou.

Queria muito que essa pequena angústia continuasse pequena, continuasse curta e desaparecesse amanhã junto com a cerração do dia.

Já carreguei muitas melancolias. Chega. Perdi a capacidade adolescente de ver nisso romantismo. Por que estou triste? Fiz tudo certo hoje, fiz tudo que gosto de fazer. Cuidei bem de mim, estou tranqüila.

"Por que estás abatida, oh minha alma? E por que te perturbas dentro de mim?"


E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos


David Mourão - Ferreira

25/10/2014

Cais


Cais não é saudade. Não é lembrar de alguém. Não é fatalidade, não é "coisas da vida". Cais é o medo fossilizado. Não é tristeza de estar só: é tristeza de não ter ido.

Abaixo dos pés, as águas. Inquietas e livres, encharcadas de histórias. E as tábuas enegrecidas e fofas, afirmando que o tempo passou. As águas convidavam e sugeriam, mas nunca deram garantias.  Nunca deram garantias... Você queria culpá-las. Ali, na beira, nas madeiras velhas está o testemunho da sua covardia.

Todo cais é um monumento.

...aos que olharam a chance, o último convite,  se apequenando ali no fim, no horizonte.

Eles não vão voltar.

Visitar o cais é lembrar de quem foi. É saber que quem foi, não volta. Ninguém vem te buscar e não há remédio para o não ter ido.

Quem visita o cais não tem pressa de voltar pra casa mas quando volta tem os olhos cheios de outros mundos imaginários, outros mares possíveis.  Na beira do cais cabem todas as imaginações, todas as invejas.

O cais é a segurança dos infelizes, a eternização do status quo. É se saber um covarde de colarinho puído.

Por isso não gosto de cais. Eles não são bonitos. Ou são, mas como os cemitérios.

Cais são demarcações, são os limites que você não pôde ultrapassar. Ali sua vida fica presa, mas meio frouxa, num vai e vem de barquinho amarrado. Você relembra o último lampejo de juventude, quando era possível tornar tudo possível. Seus pensamentos se misturam, esbarram um no outro, mas não vão muito além. Eles não são barcos nem pássaros; são só os seus pensamentos.

Há uma idade muito grave: a idade do cais. É nela que as pessoas se matam.


21/10/2014

Cavalo xucro


Reli alguns textos meus. Já notou que de vez em quando faço isso? Talvez eu seja a minha maior fã. É isso que chamo de saúde emocional!

Pois bem: gosto da série Recordações. É bom poder novamente e novamente e novamente escorregar para o passado e andar por aquelas velhas ruas. O bom dos textos de recordação é que eles direcionam a nossa emoção na carona da lembrança. Não é só lembrar, é sentir de novo! A emoção vai junto.

Mas relembrar traz um certo perigo, que é deixar a mente divagar, andar por onde quer. Qual o problema? É que daqui para acolá ela pode cair num buraco de más lembranças. Deus nos livre! Dói demais.

Todos temos cenas tristes no passado. Há coisas que adoraríamos que o mundo esquecesse. Desapontamentos, erros, maldades, arrependimentos, mancadas inconfessáveis, diarréia no momento errado, dívidas não saldadas, injustiças gerais. Sim, o terreno das recordações é bem perigoso, de forma que o prazer de recordar pode rapidamente azedar se formos acometidos pela recordação errada. Taí a grande utilidade de escrever. Escrever recordações é pôr rédeas no cérebro: ele só vai para onde a gente manda. 

Claro que é necessário! Não é tão fácil assim mandar na própria cabeça. Ela quer ter vida própria, pensa que se garante sozinha. A cabeça da gente é como um cavalo xucro. Ou será que você nunca foi obrigado a ouvir a mesma música por cinco dias seguidos só porque seu cérebro resolveu empacar? Pois é, a mente teima em nos massacrar com aquela musiquinha idiota por dias e dias seguidos sem pedir nossa concordância e a gente não consegue encontrar o botão "stop". Da mesma forma também não é fácil tirar da tela aquela cena da calça rasgada, ou da tosse encatarrada no meio da cerimônia. Pois deixo aqui meu melhor conselho: escreva.

Escreva textos contendo seus melhores momentos. Encha cadernos e mais cadernos. Você se sentirá um sucesso! Tente ser fiel aos fatos e não aumentar demais a glória do momento. Se não perde a graça, porque a graça é ser fiel. Quanto mais verdadeiro, mais clara e colorida será a cena projetada. Uma vez feito isso, você terá posto rédeas definitivas em sua mente e mostrado a ela quem é que manda no pedaço.

Em seu seu caderno - ou blog - estará registrado o filé da sua existência. Pra você e para a posteridade, o que é mais interessante! E através da leitura e releitura você poderá ser gentilmente conduzido às cenas que realmente interessam; à área VIP do seu passado!

Vá por mim: escreva. É a única rédea que seu cavalo xucro ainda aceita.

18/10/2014

Perdoai


Tenho mania de querer justiça e de implicar com a impunidade. Tenho mania de achar que ninguém pode ter sossego depois de cometer o mal; precisamos providenciar um jeito de que o bandido tema o castigo. 

Já fui diversas vezes desafiada quanto a isso no que se refere à minha fé. Por eu ser cristã as pessoas acham que me contradigo ao aceitar o Deus que manda perdoarmos os inimigos e ao mesmo tempo querer que os bandidos sejam exemplarmente punidos. Só que não  há contradição alguma nisso. Veja:

Perdoar é um mandamento de Deus PARA MIM, não para os outros. 

Uma coisa é EU dar a outra face por convicções próprias; outra coisa é criar leis que obriguem toda a sociedade a dar outra face. No particular, dar a outra face é uma virtude. Só que se eu impuser essa mesma conduta a todos, a minha virtude passa a ser malignidade.   

O perdão em particular é o exercício do amor consciente e livre. Quando você perdoa o ofensor, se ele continuar ofendendo o problema é seu. Mas quando você quer perdoar em nome dos outros o ofensor dos outros, aí já é safadeza. É impor à todos o ônus de um perdão que eles possivelmente não queiram dar. Ninguém perdoa impunemente. Tudo tem um preço.

Evangelho é graça. Lei é justiça.  Misericórdia é melhor do que justiça, mas só pode ser praticada por quem conscientemente o esteja fazendo.  Como não se pode fazer um plebiscito antes de cada condenação, o aconselhável a uma nação é mesmo a prática da justiça. 

Com justiça se constrói uma nação. Com perdão e misericórdia construímos relacionamentos e emoções saudáveis. 

Cristo JAMAIS pregou impunidade. A Bíblia toda mostra que uma vez praticado o mal, ALGUÉM VAI TER QUE ACABAR PAGANDO por ele. Não dá pra fugir disso. Impossível jogar o mal (o pecado) pra debaixo do tapete. Ele sempre volta. A "moral da história" do Evangelho não é "deixar passar". A moral é que Jesus se colocou em nosso lugar e morreu para ser a expiação dos nossos pecados.  

A "injustiça" do Evangelho não é a impunidade, mas a SUBSTITUIÇÃO.  

Todas as vezes que sugiro criação de leis severas vem alguém querendo me jogar na cara meu cristianismo. Ora, não é porque Cristo disse "perdoai" que vou sair por aí abrindo as  portas das penitenciárias. A ordem de Jesus foi para os seus seguidores, não para as instituições. 

E pra terminar, um último argumento: você, que esfrega o cristianismo na minha cara, por que não critica o médico cristão que insiste em receitar remédios aos seus clientes? Se ele crê em Cristo não deveria receitar nada, não é?


17/10/2014

Para ser feliz no Face



Algumas pessoas não-chatas sempre se irritam com as pessoas chatas, pois estas insistem em ser o que são.  Como todos queremos ser populares, aqui vão algumas regras infalíveis para você agradar a todos no Facebook:

1- Não fale em religião nem em política. Quem julga é Deus.

2- Jamais comente que alguma roupa, sapato, bolsa, decoração, penteado ou seja-lá-o-que-for é de mau gosto. Quem julga é Deus.

3- Não comente a vida dos artistas nem qualquer amenidade alguma do mundo artístico. Isso é coisa de gentinha inculta. Além do mais quem julga é Deus.

4- Conte piadas. Todos adoram -  desde que não sejam sobre religião, política, ateísmo, homossexualismo, aleijados, velhos, pobres, pretos, gordos, magros, mulheres sem homem, corno nem homem com pau pequeno. O resto pode.

5- Jamais critique nenhum tipo de música popular, por mais desgraçada que seja. Quem julga é Deus.

6- FOTOS:

a) Não exiba sua felicidade nem sua infelicidade.  Lamúrias irritam mas ficar esfregando felicidade na cara dos outros também;

b) Evite foto de comida, de guerra, de violência e  de doenças. Paisagem bonita pode.

c)  Se a vontade for muita de mostrar seus momentos felizes em fotos, tenha a gentileza de pelo menos restringir o público. Crie uma categoria de "amigos invejosos" , para os quais você não mostrará suas pequenas alegrias.

d) Se você for feio demais, não poste fotos só do rosto.  Apareça sempre perdido no meio de um grupo de amigos ou linda paisagem.

e) Fotos de cachorro são sempre bem vindas desde que não ultrapassem a marca de duas por semana. Aliás: goste de cachorros. Muito. Apaixonadamente.

f) Poste fotos da sua celebridade preferida mas certifique-se de que ela seja militante da causa gay.

7-   Não peça pra repassar coisa nenhuma. Quando a fofoca é boa ela se repassa sozinha.

8-  Manere nas frases de auto ajuda. Tem hora que cansa.

9-  Não critique nem discorde de ninguém nuncajamais. Quem julga é Deus.

10- Tenha paciência de monge tibetano com os que acham que discordar é "desrespeitar a opinião alheia".

11-  Tenha paciência de monge tibetano com os que acham que expor opinião é impor opinião.

12-  Parta do princípio de que todos estão certos, mesmo que não estejam. Quem julga é Deus.

13- Tente dizer o que a média das pessoas dizem. Não queime a placa-mãe pensando demais.

14-   Evite encharcar seus amigos com mensagens piegas ou fofinhas demais porque isso também enche o saco.

15-  Lição de moral pode, mas só uma vez por semana.

16 - Não fale em Deus. Fale, no máximo, na "força do bem" ou algo assim, tipo esotérico. Dica: duendes, anjos e bruxas são mais bem aceitos.

17- Tá liberado falar em futebol mas só em dia de jogo e sem zoar demais o adversário. No máximo duas espetadas por jogo.

18- Aparecer só pra dizer "bom dia / boa tarde / boa noite"  não faz muito sentido. Complete a saudação com alguma notícia interessante.

19- Se puder, depois de sondar o ambiente cuidadosamente, arrisque-se e dê sua opinião sobre o assunto do momento mas jamais - eu disse JAMAIS - fundamente sua opinião. Finja que você não tem argumentos. Se não tiver argumentos mesmo seu silêncio ainda ajuda a te elevar à categoria de "cidadão da paz".

20- Cite frases alheias aos montes. Se o cara falou besteira o problema é dele, vc só estava repassando.

21- Evite de todos os modos ser autentico. Jamais fale o que REALMENTE pensa. Nem celebridades podem ser autênticas, imagine você.

Sucesso!
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14/10/2014

Olhos de Fogo

Acho que esta sou eu com meu vestido amarelo de verão. Foi na década de 30 e nem sei como meu pai permitiu que eu saisse assim, para ser tão demoradamente observada por você.

Debaixo do chapéu meus cabelos negros e limpos não se deixam observar nem serem tocados sequer pelo vento. Pensei que um dia o verias solto em nossa alcova de casados... Naquela manhã ele apenas se enroscava, tranquilo guardião da minha nuca.

Creia que esta fui eu quando tinha a pele alva e preservava cuidadosamente o caminho dos meus olhos. Sim, te olhava vez por outra. Interpretava uma timidez que não tinha e que no entanto era o meu principal adorno.

Posei pra ti em uma rara manhã. As manhãs contigo eram raras. O sol se movia com vigor para o centro do céu. Meu vestido de crepe levou consigo areia quando levantei e o vento cochichou-te o meu perfume.

Essa era eu com minhas pernas fortes e coxas virgens.

Se meu pai permitisse eu posaria pra você mais vezes e em muitas outras cores. O tempo seria sempre eterno como nos quadros, como na mágica dos teus pincéis. Vez por outra verias meus dentes brancos. Deixaria que me olhasses mas não focaria teus olhos de fogo.

Queria ser a esposa que sonhaste, o sague azul, o corpo imaculado guardado em camisolas de algodão, leves como pele de ovo... e em meu quadril perfeito seriam forjados teus filhos e eu não morreria no parto. e deixar-me-ia pintar assim, fingindo ser livre e com uma sensualidade vivaz escorrendo pelo sorriso. Em meu silêncio pareceria a ti que ali mesmo poderia se tua se tão somente me tomasses pela mão.

Em algum recanto de mim sou assim. No olhar que não te lanço, no sorriso contido e nas maneiras suaves sinalizo tudo o que pressentimos que sou. Sinalizo para você, Olhos de Fogo, tudo o que nós sabemos que posso te dar se tão somente me tomares pela mão.

10/10/2014

Vil preconceito


Mal tenho coragem de me olhar no espelho depois de pensar os pensamentos que pensei. É implacável a voz da minha consciência. Ela me acusa porque num dia desses acalentei idéias inacreditavelmente preconceituosas. 

Um dia desses eu estava purgando parte dos meus pecados em uma sala de espera de um consultório médico. Em dado momento vi entrar uma moça muito jovem. Linda, a ponto de,  mesmo baixinha e muito mal vestida, chamar a atenção. De onde pode ter saído aquela princesa rota?

Rosto delicado, pele branca, olhar calmo, mas lábios atrevidos. A boca denunciava a quantidade de hormônios que já estavam instalados e fazendo exigências.

Com a devida produção aquela menina seria cantada em versos e prosa. Poderia estar na televisão ou em qualquer revista. Que jovem! Que pele!  Que rosto! ... E que pobre!

Que garota esculhambada!  Uma vez bem cuidada, teria munição para dilapidar os bens de qualquer marmanjo. Um Jaguar lhe cairia muito bem. E ela atenderia seu celular com as mãozinhas rosadas, unhas transparentes e um adorável ar de enfado. Seria cortejada por empresários tarados e endinheirados - porque tarado pobre ninguém merece. Pois é, eles seriam mantidos em coleira ou devidamente empilhados no freezer. Em sua bolsinha Louis Vutton seriam encontradas quinquilharias graciosas, inúteis e caras.

É, ela demoraria a amar. Mas casaria certamente, pouco depois dos 30, já farta de romances e festas e ainda muito bela. Seus dois filhos seriam paparicados por babás solícitas dia e noite. Essa mãe dourada ensinaria canções em francês aos pimpolhos durante as sessões de massagem. E é claro que não se exporia ao sol nuncajamais. Manteria para sempre sua pele lunar. Com o passar do tempo viraria uma doce senhora, calma e enigmática, cheia de segredos da juventude.

Puf!! Vida real agora:

Pois lá estava ela com a pele ainda lisa, é bem verdade, mas picada de mosquito. Uma mini saia vulgar, um par de chinelos chinfrim, top vagabundo amassando os peitos e mostrando a barriga pálida para quem quisesse ver.  E aquela cara meio boba de quem não sabe nada da vida mas já sabe o que é homem. No ponto ideal para ser iludida, comida, fecundada e passada pra outro. E os cabelos? Compridos, ressecados e estranhamente alaranjados. Meu Deus, nem shampoo que preste ela pode comprar! E unhas roídas. Mas é claro que o "Zequinha da Taberna" ou o "Bira das Pupunhas" não se importam com essas sutilezas. Os Zé-Qualquer do bairro não enxergam nada além de um magnífico pedaço de carne fresca pronto para ser inseminado.

Aquela menina deve ser implacavelmente assediada, dia e noite, noite e dia por todos os machos das redondezas. Que lástima imaginá-la com sua juventude encurtada pelas vicissitudes da vida, pelos maus romances, pela má postura, pelos partos sem cuidado!

Eu, no alto do meu inimaginável preconceito, usei da minha bola de cristal para prever que o destino mais próximo seria embarrigar. Com certeza. Quem, naquela idade, com aquela aparência, naquele bairro e vestida daquele jeito deixaria de engravidar? E como, Deus do Céu, naquelas condições ela continuaria sendo bela aos quarenta anos?

Sim, eu sou um monstro.

Você está me achando abominável, não é?  Pois esqueça essa postagem e não diga a ninguém que eu escrevi. Não vou nem assinar.

06/10/2014

O samba


Sinto-me um pouco diferente dos outros quando me comovo com coisas "incomovíveis". Talvez eu esteja meio "deprê" sem saber. A gente não percebe que está "deprê" enquanto não encontra um fato que justifique a situação. Como se fosse necessário uma justificativa...

Gosto tanto de um bom samba, mas tanto tanto, que me comovo.  Verdade: eu choro.

Não é todo mundo que vê o samba como uma coisa "de alma". Para a maioria das pessoas samba remete a festa, amigos, risos, cerveja, malandragem. Pra mim também, só que com mais uma coisa:  com uma farpa no coração.  Como já dizia o Vinícius: "O samba é a tristeza que balança."


Pois ouvindo um lindo samba dia desses no carro, senti meu coração se esforçar pra bater junto, pra se expressar também. Meu corpo pedia pra fazer parte, e naquele balanço todo a minha alma se acordou. Lagrimei. Por causa daquela belezura toda, tão morna e convidativa. Uma alegria/triste que o coração entende tão bem! O samba é muito humano.

Quem não percebe a dorzinha escondida lá no fundo da cuíca é porque não entendeu nada.  O samba só se mostra pra quem percebe, por baixo da sua ginga e da malandragem, o ponto fraco: a dor amaciada pela música.

Mas o samba não é comovente só por ser bonito. Ele é a expressão dos que sofreram mas não baixam a cabeça. Ele é o padrinho de todos aqueles que apesar de tudo não desmarcam o encontro com os amigos, erguem a cabeça e entram no ritmo sem nem pensar como vai ser depois. Porque o depois cuida de si mesmo. O depois não nos pede permissão nem opinião. O depois se vira sozinho. O melhor a fazer é cantar, falar de amor e sorrir. O que comove no samba é essa imagem, esse sentir. Porque quem canta enquanto sofre também é capaz de qualquer outra valentia.

Sim, o samba é a tristeza que balança.

Acho que por isso o samba nasceu no morro, no meio da dificuldade, entre pessoas que, afinal de contas, cantavam. Samba de rico não tem graça nenhuma porque, por sua natureza, ele não remete a brilhos que não venham do Carnaval. O choro do sambista é o batuque, que fala certinho as coisas do coração.

Até a sensualidade do samba é uma sensualidade especial: forte, resistente, teimosa, que brota em ambientes inóspitos e sem reboco. É a lavadeira suada e sem maquiagem despertando os desejos mais vigorosos só com o suave meneio dos seus quadris. Sem jóias nem luxo nem lençóis de seda. Tudo muito verdadeiro, gostoso e fora da indústria. O querer porque quer, só porque ele é homem e ela é mulher. Pois por isso o samba remete aos vencedores no sexo, porque é capaz de falar  até "naquela boca sem dente que eu beijava". Fala também  no barracão de zinco, na lata dágua, na panela de feijão e na cabrocha inesquecível que "pisava nos astros distraída". então a gente batuca, ri e danta, mas com aquele nó na garganta que só os fortes conhecem.

"Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós!"


Samba tem que ser coisa de preto mesmo. Peço desculpa aos brancos, mas branco cantando samba não é a mesma coisa. O samba é patrimônio preto no Brasil tanto quanto o blues é patrimônio preto nos Estados Unidos. Porque lá o blues fala das mesmas coisas pois também nasceu na dor que se torna poesia. A alma do samba é a mesma do blues. São irmãos separados na maternidade. Cresceram distantes mas, no final das contas, têm o mesmo coração.

Pois chorei - chorei mesmo! - no carro. Chorei porque samba é lindo e eu percebo, eu entendo.

02/10/2014

Mulher fatal

Oh jovens impúberes, já está na hora de saberdes o que é uma mulher fatal. Guardai-vos dela.

Mulher fatal é aquela que o homem quer, mas teme. E todos os seus temores  tem razão de ser. 

Ela é bonita, mas não é bondosa. Talvez seja lá no fundo do coração, mas não está nela fazer o bem. ela não faz ninguém feliz porque ela mesma não é feliz, então sente um prazer mórbido em fazer sofrer para não se sentir sozinha e viva. Mas não a questione. Ela não sabe explicar esses fenômenos da alma nem tem tem muita paciência para essas reflexões.

A mulher fatal è aquela que pode ser boa de cama, boa de festa, de fim de semana, mas é uma desgraça na vida a dois. Amante 10! Mas uma negação como mãe e companheira. Por essas e por outras  ela atrai e repele, conquista e repugna. 

Você não a conhece muito bem, mas intui coisas incríveis sobre ela, tudo sob o efeito daquela droga chamada "hormônio".   

Ela  está pronta e acabada, e é irredimível. Quando se torna esposa você nunca sabe se os outros homens tem inveja ou pena de você. Não sabe se eles queriam estar no seu lugar ou se riem pelas suas costas dando graças a Deus por não terem sido tão otários. 

Tenho uma "mulher fatal"  em minha vida. "Alguém" que desejei desde sempre. Quero sim, mas tenho horror. Solidão é o seu nome. Absolutamente sedutora e perigosa, oferece com uma mão a liberdade e com outra, a amargura.

Lembro que desde criança me encantava a ideia de ser só. Adorava estar sozinha e a liberdade que a solidão traz. Dizia a mim mesma que um dia eu seria adulta, iria crescer e finalmente poderia sair sozinha, sem ninguém para me segurar pela mão e ditar o ritmo dos meus passos. Andar sozinha era, para mim, a glória.

Isso é complicado.  Ao mesmo tempo em que fantasiei as delícias da solidão, passei a vida ouvindo pessoas falarem horrores sobre ela.  Não ter ninguém parece ser o fantasma de nove entre dez pessoas que. 

Sempre me pergunto: será que sou melhor do que todo esse povo? Ninguém se garante sozinho, porque só eu me garantiria? Será que não estou querendo o que não conheço só porque não conheço?

Uma conhecida minha, constantemente chifrada pelo marido, defenestrou-o. Passado um tempo declarou, para meu espanto, que "se eu soubesse que a solidão era tão horrível, jamais teria me separado dele."  Credo...

O resultado é que nunca me vi só, embora tenha gostado de alguns poucos momentos de desacompanhamento.  Sim, gostei, mas não confiei nadinha nesse gostar. Desconfio da solidão por mais que ela pareça simpática. Como esquecer os testemunhos negativos dos que a conheceram de perto?

Passei pouco tempo na companhia da "mulher fatal". Não deu tempo de conhecer seus defeitos. Continuo achando-a linda, mas...  as palavras daquela amiga ainda ecoam: "se eu soubesse que a solidão era tão horrível, jamais teria me separado dele."  

Sempre tão bem acompanhada, talvez eu nunca descubra se, afinal de contas, a vida me poupou de muito prazer ou de muita dor.

Leia mais esse texto complementar AQUI. É bem interessante.

26/09/2014

Passeio dos olhos

Sinto saudade de luas e marés
Saudade das pedras
Que entravam em minha sandália
De menina-moça.
Lembro com carinho
Do creme de cabelo que eu não podia comprar
Do caderno popular
Do vestido surrado.

Lembro ainda, e muito mais,
Do amor imenso
E de eu afundar-me nele
Como quem cai em um abismo de luz.
Sinto saudade daquele amor
Imenso, fundo, grávido,
Tudo era uma selva
Cheia de possibilidades

A felicidade não se anuncia
Só avisa quando já foi

Perdoar por amor
É uma coisa iluminada
E curar essas feridas é melhor
Que acalentar o nada

Só o amor faz feliz
Por mais infeliz que ele nos faça
E isso é tão estranho quanto verdadeiro.

Descobri isso dia desses
Baixando os olhos do céu
Até dar de encontro com as crianças
E elevando-os de novo
Até o pasto das estrelas.

Só o amor insano
Nos cura das nossas insanidades.

Tenho saudade do amor
E aqui despeço-me de mim
Até o dia que Deus quiser.

22/09/2014

Bom samaritano

DICAS:

Se uma dia você tiver notícia de que uma pessoa conhecida sofre com alguma doença grave, anote aí:

1- Não lhe pergunte quanto tempo de vida ainda lhe resta. Melhor dar logo um tiro.

2- Não pergunte se ela ficará deformada, na cadeira de rodas, vegetando, se um dia ainda vai poder voltar a trabalhar ou coisas assim. Ninguém merece.

3- Evite brindá-la com histórias de terror sobre pessoas que já morreram daquilo, que se alimentam por sonda, que definharam terrivelmente. Tenha sensibilidade pra não encher a cabeça da pessoa com historias de desgraça. Se você  não consegue ajudar com otimismo, mantenha distancia.

4- Tente já chegar informado. Antes da visita converse primeiro com parentes e amigos próximos a respeito dos detalhes da situação. Tente entender que a pessoa doente já repetiu a mesma história alguns zilhões de vezes e simplesmente não aguenta mais. Poupe-a da tortura.

5- Ao encontrá-la evite olhares de dó, de pena, como se a pessoa já estivesse no caixão ou fosse um bichinho raro. Isso chateia.

6- Apenas bata papo. Pergunte como ela está e se a pessoa responder resumidamente é porque não está a fim de contar novamente toda a ladainha. Deixe o doente direcionar a conversa. Não force confissões nem pormenores. Tente segurar a curiosidade.

7- Pergunte apenas se a pessoa está a fim de comer alguma coisa gostosa, alguma fruta, se topa assistir um dvd, se está precisando de alguma coisa. Ofereça um livro, converse sobre as novidades dos amigos mutuos. Aí já vai um monte de assunto.

8- Se você não tem intimidade com o doente ou com alguém muito próximo da família dele, não o visite. Simplesmente. Vocês nunca foram próximos, mal se falam, mal se conhecem, aí você aparece do nada. Fica parecendo mera curiosidade. Quer mostrar solidariedade? Mande um cesto de frutas, um cartão com mensagem, um recado carinhoso. É suficiente, acredite.

9- Seja BREVE. Não parece, mas receber visita é muito cansativo para quem está doente. Risos altos, perfumes fortes, conversa sem fim,  clima de oba-oba, isso estressa. E as vezes a pessoa precisa fazer suas necessidades mas tem vergonha de dizer. Já soube de casos de um doente que depois confessou que não aguentava mais, que precisava desesperadamente soltar gases mas não conseguiu ter nem um minuto de privacidade! Já pensou?

18/09/2014

Tapão colorido

Carnaval e lá estava eu no shopping, para espairecer. Sabe como é: submeter-se à tentação das vitrines, comer pipoca, ver o preço dos eletrônicos que jamais comprarei... quem sabe? Há um mundo de possibilidade para os desocupados.

Quem vai ao shopping no Carnaval - pensei - é porque não quer Carnaval. Isso me parecia lógico, mas saibam que nem todos concordam. Alguém decidiu perseguir os "shopeiros" com uma bandinha irritante cujo som era onipresente. Nunca pensei que o shopping tivesse tanta acústica. Não havia para onde me refugiar daquilo! A praga da música não acabava mais, emendava uma na outra como um trenzinho aloprado, matraqueando nos corredores lajotados.

Como o som parecia vir de todos os lados, inclusive de cima e de baixo, a curiosidade me levou a querer saber qual o nascedouro daquilo, a fonte de todo o mal.  Não foi difícil.

A bandinha era formada por palhaços saltitantes, coloridos e energizados. Tocavam empolgadamente marchinhas antigas misturadas com cantigas de roda. As crianças os cercavam eufóricas e todos pareciam igualmente seduzidos. Ou hipnotizados. Ou "macumbados".    As meninas, lindas e espevitadas,  dançavam com eles, pulavam, aplaudiam, riam, balançavam as marias-chiquinhas. Os meninos quicavam em seus tênis lunares e seus shortões engraçados. Eles estavam adorando! E os pais, pesados, pregados no chão, sorriam derretidos, cheios de ternura melosa. Tiravam milhares de fotos e trocavam sorriso com os pais ao lado. Estranho, mas o me parecia ser o inferno virou um pedaço do céu.

Que visão desconcertante! Que festa as crianças podem fazer só pelo fato de estarem felizes! Fiquei tão emocionada com aquela alegria singela! Comecei a me derreter...  A empolgação dos pequenos era uma coisa tão e iluminada e ao mesmo tempo simples que me deixou sem jeito. Me senti um ogro atrás da árvore, uma bruxa má e azeda. Fui condenada em silêncio.

Agora me diga como foi que eu não percebi de cara o potencial de felicidade da bandinha?  Como não me passou pela cabeça que os pequenos iriam adorar o lance, que aquilo combinava com criança como picolé combina com praia? Mas que ranzinza eu estava sendo!

Ninguém dava folga para os jovens palhaços que pareciam entender tudo de criança e também não se cansavam. Foi uma cena e tanto. Um tapão colorido no meio da minha lata.

... Ai me perguntei a partir de qual momento, exatamente, deixei a simplicidade de lado e passei a reclamar de bandinhas? Meu Deus, o que a vida faz com a gente!

Moral da história: bora reagir.

Fim.