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24 de fev de 2017

Aqui do lado


Ele dorme aqui do lado e não sei um décimo dos seus pensamentos. Deus é pai.

É de bom tom acreditar em tudo que me diz, então acredito mesmo desconfiando.  Não seria bom ele saber que acredito nem seria útil ele saber que não, não engoli nada.  Toda mulher é uma esfinge.

Imagino bobagens assim mesmo, num exercício estranho de criatividade e masoquismo.  Às vezes é bom pensar no mal só pra não perder o foco do que seja "vida real".   Além do mais ninguém quer se sentir ingênua ou ser pega de surpresa. 

Tolice. Ninguém se previne de sustos. E ainda que esperemos mudanças de estação, jamais adivinharemos o rigor dos verões ou dos invernos. Nem a modorra do outono.  A vida precisa surpreender. 

Não... ele não me conta tudo. E deveria?  A verdade já está toda na nossa cabeça mas a gente a renega.  

Quem já disse ao filho tudo o que pensa? E pra mãe? Não, só uma alma dura e seca proclama suas verdades por aí. Quem ama, cala

O amor não é amor toda hora. Ninguém é dono do próprio desejo.  Se hoje  o coração quer fugir, semana que vem tudo entra nos eixos e ele reaprende a doçura de pertencer.  Ninguém precisa tomar parte nesses vendavais.  Cale-se.  A maior parte das nossas confissões murcham e viram piada  depois de pouco tempo. São provisórias, camaleônicas.  São esculturas de gelo. 

Nossas mais nobres guerras, lutamos sozinhos. Viver junto é saber viver sozinho. Só assim.

É preciso haver noites, é preciso haver silêncios, é preciso camadas de véus. Que ele fique em paz com seus segredos e que seu coração flutue seguro no mar ondeante da sua respiração.  Que seus olhos contemplem em paz suas mirações inconfessáveis longe do meu julgamento e que revirem-se de prazer debaixo das pálpebras.

É tarde. Daqui a pouco entrarei igualmente nesse mesmo estado de liberdade. E você talvez me olhará com o mesmo olhar curioso e perdoador de quem quer, mas teme saber. E, já cansado, vai me cobrir com esse mesmo lençol de considerações inócuas.

20 de fev de 2017

Ponto Morto


Assisti "esses dias" na televisão (05/06/09) que está provado: a certa altura do Oceano Atlântico existe um ponto morto perigosíssimo pois lá não se consegue transmissão de rádio, radar, celular, droga nenhuma. Terrível para qualquer tipo de navegação. O tal ponto morto seria responsável pelo sumiço de navios e aeronaves.

Alguns países já tomaram providências a respeito adquirindo equipamentos mais sofisticados para seus nacionais não correrem o risco da incomunicabilidade mas o Brasil (adivinha!) não tá nem aí. Os pilotos contam apenas com a intuição, a sorte, terços e patuás. Tem dado certo! Até agora os prejudicados não voltaram para reclamar.

Acho que deveriam contratar esotéricos, profetas, pais de santos, ciganas, adivinhos e outros bichos para ocuparem as vagas de pilotos. Seria mais condizente com a profissão. Durante a reportagem os pilotos não quiseram gravar entrevista com medo de represálias (tradução: perder o emprego).

Acho que devemos olhar o fato com otimismo. Tudo na vida tem um ponto positivo, até mesmo o ponto morto. Ele não precisaria representar, necessariamente, um problema para nós. Porque não usá-lo como solução?

Uma penitenciária flutuante seria garantia mais do que garantida de que a bandidagem finalmente estaria incomunicável uma vez estando atrás das grades. Outro lance seria construir um motel Ponto Morto. A utilidade de não ser encontrado dispensa maiores explicações. Imagino o sucesso do empreendimento: hordas de pessoas querendo um week end no Hotel (motel) Ponto Morto para tratar de negócios sem ser importunado.

Ainda não analisei a viabilidade de utilizar essa estranha bolha de silêncio, criada por Deus, como paraíso fiscal. Poderia ser útil sim. Não chegaria nenhum pedido de informação: watsapp, telefonema, correios, e-mail,  P.N. Só entraria quem tivesse conta. Quem não fosse correntista ou pessoa realmente interessada em sê-lo (nada a ver com carteiros) levariam desdobro ad eternum.

Tudo tem um lado positivo.

16 de fev de 2017

Transgressão


Levantei da cama cedo
Como se ouvise algum som
Olhei para o dia com medo
Mas fingi que ia ser bom
Tomei o café da manhã
Como se preferisse adoçante
Almocei uma maçã
Pensando em ficar elegante

Comi alface sem graça
Rejeitei bacon crocante
Sorri de mentira na praça
Com o coração soluçante

Parecia um sonho maluco
Onde nada combinava
Tomei um copo de suco
Para ver se aliviava
E veio uma pressão no peito
Que nem o suco deu jeito.

Abracei quem me abriu os braços
Pois deles não pude fugir
Mas perdi os doces laços
De quem nunca mais pôde vir
Ajudei quem não amava
Fingi alegria na festa
No enterro, na mente cantava
Modinha nada funesta
Dei atenção mentirosa
A assunto sem sabor
E calei teimosamente
Às coisas que falam de dor

Senti uma pressão no peito
Por tanta contrariedade
Mas disse: "Isso não tem jeito!
Vivemos em sociedade!"

Odiei o calor do sol
E a chuva me pegou
Pensei: deve ser pecado
Reclamar do que Deus criou
Desejei o que não sei explicar
Expliquei o que nunca entendi
Cansei de me pôr a pensar
Nas incoerências daqui,

Desse mundo desbotado
E suas histórias singelas
Com capítulos misturados
E ideais que a gente anela.

Parecia um sonho maluco
Onde nada combinava
Tomei um copo de pinga
Para ver se aliviava
Mas veio a pressão no peito
Que nem pinga aliviava.

Não sei mais a diferença
Entre ser sincera e ou má
Fingi ter então uma crença
Pra minha alma acarinhar:
Ocupar-se com o alheio
É uma coisa elevada
E não tem nada mais feio
Que uma alma isolada.

Então...
Fingi que não fui atingida
Pelo tempo tão tenaz
Nem com a falsidade tingida
Com as cores do Satanás
Deixei de perguntar
Por aqueles que eu amava
Mas exclamei "como vai?"
A quem nem me interessava

Mas senti pressão no peito
Quando olhei a tarde fria
E admiti pra mim mesma
Que nada disso eu queria.

Corri sem querer chegar
Levantei fora de hora
Fui salva pela transgressão
Daquela última hora:
De tanto pensar deitada
Nas coisas que faria de pé
Caí de novo, cansada,
Pensando em como a vida é
E sonhei sonho tão louco 
Tão cheio de transgressão
Com desaforos, com soco
Em quem merecia prisão
Vivi amores malucos
Todos bem correspondidos
Havia romances e coitos
Que não eram interrompidos

Um sonho sincero e humano!
Lavei minha alma dormindo
Me apeguei àquele momento
De magia, e muito lindo

 
Sonho louco e transgressor
Com liberdade total
De consertar o mundo
E acabar com todo o mal
E rejeitar programa chato
De caráter social.
Quis dormir mais umas horas
Pra curtir aqueles fatos
E voltar a ser senhora
Em sociedade de ratos

Acordei aliviada
Pois sonhei tudo o que quis
Me senti até cansada
Mas bem que eu queria um bis
E tão sinceros eram os sonhos
Que nem posso te contar
No que daria esse mundo
Se os pudesse executar.

(Eu nem lembrava mais desse poema de 2010. Meu Deus, fui eu mesma que escrevi isso???)

12 de fev de 2017

Vale das sombras


Dá-me tua mão Senhor, porque é chegada a minha hora
E sinto que me esvai, como sangramento, o que ainda me tornaria reconhecível
Mas mesmo assim, mais leve que um pensamento,
Meus pés marcam a estrada
Faz frio.

Certamente tudo é incerto
Exceto um futuro inevitável que me espreita
Estou em um lugar para onde não me dirigi.
Sinto cheiro de gente
e isso só aumenta minha solidão

Parar é insano
Há uma convicção de ir mas não entendo

Dá-me tua mão, Senhor
Pois os meus, já se foram todos
Desvaneceram os afagos
Doem-me os rins.

Mas talvez clareie o dia
E explenda uma manhã inesperada
Uma manhã que já existe mas aguarda por mim - quem sabe!
Encoberta e sorridente
Como uma surpresa de aniversário.

Dá-me tua mão, Senhor
Até que a manhã me resgate

Penso agora
Que essa manhã talvez não exista
Ou demore-se...
Ou, sendo breve demais
Não espante o frio.

Dá-me a tua mão, pois perdi a idade
E a ninguém possuo
O vento me é contrário

Tão solitário é viajar sem as bagagens
Sem álbuns ou relíquias
Sem uma partitura sequer para decifrar
É solitário emergir da própria história
Para a dura isenção da verdade.

Aconchego-me em mim mesma
Dá-me tua mão, Senhor
E que a paz me socorra
Dos poros da terra.

8 de fev de 2017

Funciona por um tempo


Primeiro a gente não faz exercícios físicos. Nunca. Não estamos nem aí.
Depois a gente admite que deve fazer exercícios, aí  faz. Por pura vaidade, sem se importar nem um pouco com a saúde porque ela vai tudo muito bem, obrigada. A máquina está funcionando de forma invejável e não dá nem sinal de que uma dia vá entrar em pane, mas... por que não melhorar e ficar mais bonita que nem a fulana de tal?  Bora pra academia. 

O tempo continua a passar e a gente vê que melhorou sim, mas daí não vai passar. Chegamos ao limite, definitivamente. A menos que aceitemos viver uma vida inteira de sacrifícios e privações homéricas. Não, não queremos isso. Hora de continuar a se exercitar mas não mais para melhorar. Agora queremos tão somente estacionar, ficar mais tempo nessa estação, tomar um suco, não correr atrás de nada. Só queremos usufruir o que conquistamos e respirar um pouco. 

Funciona por um tempo. Só que aos poucos vemos ser impossível segurar o tempo. Antes pensávamos estar segurando o tempo com nossos esforços mas agora notamos que aquilo tudo era só a nossa juventude. Na verdade não segurávamos nada.

Bem, agora estamos ainda nos exercitando mas ultimamente nosso corpo está decaindo mesmos assim. Aqui e acolá já dá pra notar uma traição de gordura, uma flacidez, um volume não solicitado. E agora? E agora continuamos. Simplesmente, porque é só isso que a gente tem feito e sabe fazer.  Ainda não inventaram nada melhor do que continuar, então a gente vai no automático. Não mais para melhorar, não mais para estacionar mas agora é para a coisa ir piorando um pouco mais devagar. 

Funciona por um tempo. Aí nos comparamos com aqueles que não trilharam o nosso caminho nem amargaram os nossos esforços. Ah, valeu a pena sim. Beleza. Mas agora a gente não consegue mais se livrar da seguinte pergunta: qual a finalidade de tudo isso? Houve um ganho real? Houve sim.   Mas e agora? Continuará havendo um ganho? 

Devagar a gente se permite uns deslizes maiores. Aí a gente vê que é muito, muito gostoso ficar mais tempo na cama, mais tempo no banho, mais tempo lendo ou vendo um filme. Descobre que dá muito mais prazer conversar com uma pessoa querida, visitar uma exposição, passear, fazer compras, experimentar uma receita nova. E tudo isso leva tempo, um tempo precioso que vinha sendo queimado na academia.  

Não, não dá mais pra administrar tantas atividades. Depois da academia vem o banho e o cansaço e quando a gente vê, o dia acabou. Definitivamente não temos mais disposição para fazer todas as coisas prazerosas juntamente com as necessárias. Simplesmente não temos mais energia nem motivação.  Os exercícios não vão deixar a gente mais bonita, apenas mais saudável. A estética, grande motivadora, não nos impulsiona mais. Já a questão da saúde não é motivadora: é apenas ameaçadora.  Lembrar dela o tempo todo não nos anima, mas nos aborrece e assusta, por isso frequentemente preferimos esquecer o assunto. 

Continuamos na academia sem expectativa de compensação. Estamos lá duas ou três vezes por semana apenas porque os médicos já nos ameaçaram como todo o tipo de doença. 

Funciona por um tempo. Só que cansa. Fugir da doença cansa tanto quanto fugir da feiura. Finalmente nos vemos obrigados a escolher entre o prazer com menos vida ou a vida com menos prazer. É nessa fase que as águas se dividem:  ou você pertence à tribo das pessoas que aprenderam a adorar alface, cafezinho sem açúcar e está viciada em exercícios físicos ou você pertence à tribo dos que jamais chegaram à tanto. Se não aprendeu a ser natureba até agora, aconselho a desistir. Ou vive de sacrifício ou desiste porque passou do tempo de aprender a gostar do "ingostável".

Escolhas... escolhas... Chega o momento em que a gente simplesmente chuta o balde e não quer mais saber de nada. Faz o que quer, come o que quer, quando quer, e por fim morre. Ficar feio é um direito, ficar lento é um direito, não querer sair é um direito, usar roupas largas é um direito, não querer se cuidar é um direito, morrer é um direito e não me encham o saco. 

É justamente nessa fase que os filhos começam a nos advertir para que plantemos uma velhice brilhante e saudável. Eles mal sabem que gastamos nossa juventude inteira em função disso mas cansamos. Encheu. 

É necessário que entendamos que chega um momento em que os velhos só querem mesmo ser velhos e morrer em paz fazendo o que gostam. Não devem ser ameaçados ou advertidos. Eles já fizeram a escolha silenciosa. Deixe-os em paz.

5 de fev de 2017

Kyrie Eleisson. Christe Eleison!


Incentivada por uma reportagem que dizia que um blog serve para " oferecer espaço para angústias pessoais que só abandonam uma mente inquieta quando se transformam em letras...." aqui estou.

Sim, com esse incentivo vou abrir meu coração tão cheio de compartimentos, calabouços e entradas secretas. Claro que escolhi para visitação um compartimento não muito grotesco. Preciso preservar a minha imagem. Pensei: "Se eu liberar o compartimento "A" não vai ser bom pra mim. Por outro lado se eu escancarasse o compartimento "B" poderiam pensar que sou um amor de pessoa e esse também não é o caso, convenhamos." Optei muito sabiamente pelo compartimento "D".

Quanto ao "C" por favor esqueça. Poupe-me de sua curiosidade constrangedora.

Vamos ao "D". "D" de demente, de débil mental, deletério, desdentado, demoníaco, desmistificado, deturpado. De que estou falando? De mim e do mendigo ao lado.

Mendigos me deprimem e inquietam. E fazem com que eu me sinta completamente fracassada em minhas tentativas de ser boa. Geralmente não faço nada por eles. São estranhos, fedorentos e eu preferia que não existissem. Ou que fossem discretamente remanejados para algum outro lugar muito calmo, agradável, confortável e longe daqui.

Nunca me fizeram mal. Geralmente estão muito ocupados com suas próprias esquisitices. O problema é que os mendigos de filme estão sempre a um passo de um homicídio. Impossível não me impressionar. Filmes mexem com a nossa mente e podem nos tranformar em pessoas medrosas, frias ou até más.

É recorrente a impressão de que todos os mendigos são loucos ou estão a um passo disso. São invariavelmente sujos e tem olhar desafiador. Estão à margem da sociedade mas não desgrudam da margem, não a largam por nada. Ficam lá atracados pelas raízes e não se deixam levar pelo rio. Eles permanecem apesar de não terem casa nem comida nem água encanada ou futuro. Mendigos são o presente imperioso que desdenha do futuro e escarra no passado.

Mendigos me incomodam porque justamente porque não deveriam incomodar. Me afligem justamente porque deveriam me inspirar generosidade, não aflição. Não me sinto capaz de abraçar um mendigo e dizer "eu te amo, meu irmão. Venha para a minha casa".

É frustrante não ter a estatura que eu gostaria de ter. Procuro ser uma cidadã legal, ajudo uns e outros... Só que onde vou há mendigos para me jogarem nada cara que sou uma merda. Eles se multiplicam pelo meu caminho como o inimigo do Neo em Matrix. Os pés deles são sempre inchados, rachados, ressecados e algumas vezes bichados. Os cabelos são um ninho de marfagarfos. Sinto aversão e à aversão segue-se o sentimento de fracasso. Sempre que começo a me sentir uma boa cidadã me aparece pela frente um mendigo para me desdizer, me afrontar e provar que sou muito pior do que imagino.

Os mendigos catam papel de cabeça baixa com o mesmo silêncio desafiador de Cristo quando escrevia na areia diante dos acusadores da mulher adúltera. O que será que ele escrevia na terra diante dos apedrejadores? Talvez escrevesse a mesma coisa que o medigo pensa enquanto cata papel.

Não sinto vontade de abraçar um mendigo. Nem de beijar ou de lhe lavar os pés. Geralmente o máximo que faço por eles é dar alguns trocados e sair de perto rapidinho.

Pela janela vejo outro, e outro... e mais outro. Eu poderia me aproximar de um deles e puxar conversa mas vejo que eles falam sozinhos. Não adianta lavar, vestir ou oferecer um emprego. O cara fala sozinho!!! Como atingir alguém que fala sozinho? Não sei o que fazer.


Kyrie Eleisson! Christe Eleison!

1 de fev de 2017

Sensibilidade

Acho que sou sensível demais. Isso só é bom mesmo quando a pessoa é artista, compositora ou muito boa em alguma coisa que faça escoar esse acúmulo de sentir. Não é o meu caso.

Escrever ajuda, é bom demais mas não me parece suficiente. Há uma música linda que ainda não compus. Há um poema perfeito, redondo, de grande impressão que nunca fiz. Mas ele existe sim e fica aqui, eternamente engasgado como uma espinha de peixe.

Há um quadro que ainda não pintei. Tenho fixar a mente em sua forma mas as cores se misturam e os objetos mudam de lugar. Tudo é vivo e indeciso nesse quadro, motivo pelo qual nunca veio à tona.  Predominam o amarelo "gema de ovo", azul turquesa, branco, um pouco de verde e nada de vermelho. Há um Renoir em mim mas ele não se expande! Meu Machado de Assis também está meio ocioso e indeciso. O que restam são lágrimas mas até essas tem sido muito raras. Não tenho chorado ultimamente e nem sei dizer se isso é um bom o mau sinal. Eu já fui chorona. Chorei por músicas, por filmes, por cenas tolas do dia-a-dia,  flashes tocantes só pra mim, mas que ninguém liga. Fui como um copo cheio de água que transbordava à primeira sacudidela. Só que agora parte da água evaporou então pode sacudir à vontade que não derrama mais nada.

O que é a vida? E o que é o mundo? Não são a mesma coisa? Não.  O amor, a beleza e o prazer são a vida. O "mundo" é o sistema de coisas onde a vida está inserida e se desenvolve. O mundo é o palco.

É lindo demais o processo de uma pessoa vir ao mundo. É lindo como tudo começa e como tudo dá certo. O processo da vida é tão complicado mas tão complicado que era para todo mundo nascer torto, esquisito.  Mas não! A maioria nasce bonitinha com os braços no lugar, com as pernas articuláveis, com os complicadíssimos olhos encravados no crânio onde, escondido, aloja-se o misterioso cérebro. Tem tudo pra dar errado, mas dá certo.

Por que nos apaixonamos? Talvez não pelas qualidades do outro mas mais pela necessidade que temos de abrigar dentro do peito alguma coisa divina , muito grande e sufocante. Precisamos de algo maior que nós dentro de nós. Amar é experimentar a arte em estado bruto.

Como uma criança entende as coisas que eu digo tendo um ano de vida? Como? Como fazer links coerentes com os sons, sabendo-se que o dia inteiro toda sorte de sons acontecem ao mesmo tempo? Como uma criança já percebe o que é música e o que é a mamãe chamando? Quem disse para ela qual a diferença? Por que ela quer andar, se engatinhar pela casa já é tão divertido? Por que queremos sempre mais?  Certamente porque nascemos para muito mais.

Por quê o sol nascendo ou se pondo é tão bonito? É tão comum! Todo dia é a mesma coisa!

Por quê, com tanta beleza, o mundo consegue ser tão mal? Por quê as pessoas se matam? E por quê algumas pessoas levam as outras à loucura?

Em um desses dias fatídicos ouvi a notícia do caso de um cão que apareceu em um bairro de Belém trazendo à boca um bracinho de criança. Fiquei angustiada. Horas depois vi o noticiário do maluco que matou várias crianças em um colégio do Rio de Janeiro. Chorei muito.  Naquela hora pensei: "Chega, não quero mais viver nesse mundo, não tenho mais prazer nisso aqui. Está tudo amargo demais. Tudo é um poço de lama e lágrimas. Esse mundo tem que acabar." Foi isso que pensei.

Às vezes até esqueço que a vida é bonita. É como uma flor nascida no meio do lixo.

29 de jan de 2017

A chatice de ser sábio

Por quê ser sábio é uma roubada:
  1. Primeiro porque ser sábio demanda tempo;
  2. Segundo, porque depois de tanto tempo a pessoa descobre que não sabe quase nada;
  3. Esse esse quase nada é muito mais do que a maioria sabe, então o sábio é um solitário;
  4. O sábio é um solitário que tem que ouvir o tempo todo que ele não sabe tudo. Isso dito por pessoas que sabem muito menos que ele!
  5. Muito conhecimento? Anote aí: 98% desse arsenal nos leva a deduzir coisas horríveis para o presente e para o futuro. Logo...
  6. Uma lontra é mais feliz que um sábio.
  7. Saber das coisas não serve como ferramenta para mudar o mundo. Sério. As pessoas que mudaram o mundo não tinham essa pretensão. Foi tudo sem querer.
  8. Saber não muda, mas angustia.
  9. O sábio não tem o poder de obrigar os burros a serem menos burros.
  10. O sábio não tem o poder de impedir os insensatos de fazerem o mal.
  11. O sábio é sempre velho. Velho de fato ou velho precoce.
  12. O sábio nunca é ouvido, só pesquisado - depois que morre.
  13. Para se tornar sábio, o sábio abriu mão de muitas horas de transas deliciosas.
  14. Por generosidade ou sabedoria, o sábio sempre acaba sustentando os filhos dos insensatos (insensatos: aqueles que estavam transando irresponsavelmente enquanto o sábio lia livros).
  15. Ninguém quer saber o que o sábio pensa. Se ele é sábio mesmo, vai acabar dizendo coisas que a população não quer ouvir.
  16.  Ser sábio não é ser esperto. A esperteza é uma falsa sabedoria; é a arte de se beneficiar a curto prazo mesmo por um preço alto. 
  17. Sendo assim, todo mundo gosta muito de ouvir o esperto, não sábio. Por isso estamos como estamos.
  18. Foi um sábio quem disse que "a união faz a força". Ele deve ter suicidado depois de descobrir isso porque também deve ter descoberto que é quase impossível a união para o bem.
  19. Quem pensa, passa. Quem não pensa, passa também. 
  20. O importante então não é permanecer, mas "passar bem". Use Passe-Bem.
 Não me leve a sério. Essa é apenas uma listinha de mal-humor.


6 de jan de 2017

Se tiver um novo amor...


Se tiver um novo amor
Lave melhor os cabelos
Escove melhor os dentes
Não digas tudo o que sentes
Pra não arrepender depois.
Dê presentes bem mais caros
E "pitis" muito mais raros
Saia do feijão-com-arroz!

Se tiver um novo amor
Sorria com mais candura
Mate baratas com mais bravura
Beije o dedão dos pés
Faça tudo mais certinho
Brigue até com mais carinho
E largue os amigos manés

Seja melhor dessa vez
E enfrente com altivez
As conversas de cobrança
Tenha cerveja gelada
Carne-seca apimentada
Faça as pazes com a balança

Que o retrovisor da vida
Não te atormente por nada
Pois pior do que a ferida
É repetir a mancada

Vê se acerta dessa vez!
Esqueça seu lerdo passado
Porque Deus está do lado
De quem recomeça do zero
Beije mais vezes de língua
E que a raiva morra à míngua
- Largue de ser tão severo!

No verão, dá-lhe refresco
No inverno, o bom calor
Vê se acerta dessa vez:
Roupa nova e altivez!
Se tiver um novo amor.

Cristina Faraon

2 de jan de 2017

Revelação ou delírio?

Dia desses escrevi um novo texto no meu blog Diário de Mãe Morta.  Considerei o texto, ficticiamente, como uma carta que minha mãe teria me mandado lá do além. Alguém perguntou se eu achava que a "carta da mamãe" era delírio ou uma "revelação do além".  Respondi que quando convém são revelações e quando não convém são delírios.   O esquema da felicidade é fixar a mente no que faz bem e fazer vista grossa para o que faz mal.

O fato é que às vezes me delicio em imaginar que seria possível vez por outra "receber alguma coisa" emitida pela mamãe. Se eu sonho com minha mãe fantasio que Deus está rodando um DVD no meu cérebro durante a noite, só pra ser legal comigo.   Pense bem: se a Globo tem vídeos dos seus artistas  e dispõe dessas imagens, por que será que Deus não teria o mesmo direito sobre as nossas imagens?

Digo isso porque descreio do pensamento espírita. Mesmo assim sei que a vida é cheia de mistérios e que menos de 1% do que existe no universo é feito de matéria visível. Talvez não seja absurdo imaginar que as energias do pensamento viajam como ondas de rádio, que não se perdem.   Teríamos capacidade de captar acidentalmente ondas cerebrais "viajantes" espalhadas pelo universo?

Deveríamos usar tudo o que nos faz bem para, finalmente, viver bem. Desde que não descreiamos da Verdade. Porque há uma Verdade.

30 de dez de 2016

Uma Copacabana indescritível




Estes dias estive revendo umas filmagens do final de ano que passamos no Rio de Janeiro, o último conosco, os quatro irmãos, ainda juntos. Era a despedida e não sabíamos. Estávamos em Copacabana vendo os fogos de artifício. Meia noite. Rever aquele momento foi e continuará sendo muito comovente. Seis meses depois meu irmão, que fez as filmagens, partia para sempre.

Pensei comigo: não é justo morrer e deixar todo mundo na curiosidade. Quando eu morrer vou voltar e dar com a língua nos dentes. Vou arranjar uma maneira de escapar ou pedir permissão mas acabo com o mistério da morte e jogo tudo no ventilador. Podem esperar. Podem cobrar. Chega de suspense.

As pessoas sempre se emocionam com o espetáculo dos fogos... Tenho uma teoria para isso e este parágrafo não está desconectado do anterior.

Enquanto eu pensava nessas coisas e olhava no vídeo os fogos, as pessoas emocionadas e ouvia a música tocante ao fundo, pensei que quem morre talvez fosse mesmo assim, como os fogos. O paralelo me pareceu perfeito.

Talvez quando a pessoa se vai, parta em um tal impulso, velocidade e empolgação que esqueçe completamente de quem está aqui em baixo. Assim como os fogos. E brilham por um tempo que na verdade nem existe, posto que eles saíram do tempo.

Impossível dizer por quanto "tempo" os mortos pairam no ar sorridentes, deslumbrados com o fato de agora serem eles o objeto do deslumbramento alheio. Agora são eles a luz, o show, o rastro, as explosões e estrelas. Deve haver platéia nesse não-sei-onde, certamente. Há "os outros" que riem muito e se divertem com os novatos num não sei quê de festa na qual eles, bobos, muito bobos pelo seu novo estado, demoram-se brincando consigo mesmos. Sabe, assim como os bebês levam horas admirando seus incríveis pezinhos e mãos.

Sim, os novos "mortos" devem ser muito engraçados para os que já estão por lá. São fogos em explosão numa Copacabana indescritível!

Segundos de fogos... Que para nós, pobres ficantes, representam meses ou quem sabe anos. Milênios talvez. Quando enfim eles se acostumam com sua própria leveza e velocidade, com o risco de luz e os desenhos imensos que formam, com a infindável possibilidade de arte, sons e alegria que isso representa... ah! Tentam voltar. E não conseguem.

Meu Deus, não conseguem mais. Talvem nem saibam mais para onde voltar ou ... esvaem-se, assim como os fogos de Copacabana.

Tenho a dizer a vocês que eles tentam. Todos tentam. Sei disso porque vi com meus próprios olhos. Sou testemunha!

Todas aquelas pequenas chamas viventes, depois do congraçamento e daquela alegria inenarrável, em um lampejo de memória lançam para nós um último olhar, um "oh, vocês ainda estão por aí!?" e fazem menção de retornar mas não conseguem.

Talvez apenas quisessem dizer "adeus" ou "até breve". Talvez só falar-nos que tudo é muito agradável e não temos nada a temer. Quem sabe quisessem realmente retornar? Jamais saberemos porque apagam-se e fica tudo escuro e não as encontramos mais. Nossos olhos percorrem o céu até onde ele se deixa percorrer mas nos perdemos em um olhar confuso, silencioso. Então é como se nunca tivessem passado por ali. Temos que confiar cegamente em nossa memória.

Estranho que seja assim depois de tanta festa.


Talvez por isso os fogos de artifício nos façam chorar. Instintivamente nós sabemos o que eles significam.

23 de dez de 2016

Ah... Natal na França...


Sou uma mulher de fantasias. A vida não é nada sem ela. Hoje resolvi passar o Natal na França.

Cheguei. Todo mundo sabe o que é neve mas nem todos conhecem neve bem educada, de primeiro mundo, posando para foto. Neve decorativa tingida por lâmpadas coloridas; neve carinhosa abraçando pinheiros, neve meiga encostando a cabecinha nos umbrais das portas, espalhando-se em nosso caminho gentilmente para que carimbemos ali nossos pés. Tudo iluminado. Xô trevas! Laços vermelhos, cães graciosos, gatos graciosos, ratos graciosos, cavalos graciosos. Tudo com lacinhos e meias vermelhas. E ainda um coral de crianças saudáveis entoando (quem canta é pobre; rico "entoa") comoventes canções natalinas. Todos tem pais, avós, irmãos, primos, bichinhos de estimação, boneco de neve e todos, sem exceção, vão ganhar presente. A vida é bela.  Olho tudo de fora. Não sou convidada para entrar em nenhuma casa mas posso bater pernas tranquilamente com minhas botas de couro as quais estão sendo pagas de dez vezes.

E por falar em prestação, lembrei que tudo o que vi pressupõe dinheiro. Ruas tranquilas e sem trombadinha? Dinheiro. Ninguém segura em casa um pivete faminto. Neve aplainada à máquina: dinheiro. Luzes decorativas? Dinheiro.  Coral, jantar, roupas de veludo?  Dinheiro, dinheiro, dinheiro.

Mundo cão. E ter um cão também custa dinheiro.

Mas aqui no meio na neve e com um certo receio de ser mandada aos porões fico novamente me perguntando: o Natal não fica capenga sem aquele garotinho da manjedoura? Fica sim. Minha viagem para a França nevada foi fictícia, mas Jesus, a estrela, os sábios do Oriente, Maria, José... É tudo muito real. O Natal não está na neve. O Natal não está na França. Nem mesmo em Israel. O Natal está aqui.