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13 de mai de 2008

Porto solidão

"Se um veleiro repousasse

Na palma da minha mão

Sopraria com sentimento

E deixaria seguir sempre
Rumo ao meu coração

Meu coração, há calma de um mar

Que guarda tamanhos segredos
De versos naufragados e sem tempo

Rimas de ventos e velas

Vida que vem e que vai
A solidão que fica e entra
Me arremessando contra o cais"

Jessé

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Entregar-se à beleza é quase que sinônimo de entregar-se a dor. Semelhantemente é assim com entregar-se ao prazer.

Há um pacto sinistro entre a Beleza e a Dor e um quê de fatal nessa cópula. Talvez um ritual estranho e inevitável: é assim porque assim é.

Não se trata exatamente de uma paixão maldita, mas essencial. . Esse coito doloroso é o sentido da vida , é entrar pelo portal e chegar à animalidade dos anjos.

Prazer querido e negado, buscado e doloroso, assustador e inexorável, primitivo e sofisticado. Aura sagrada, terreno não sujeito a análise.

Entre a Beleza e a Dor há uma aliança de sangue fatal e visceral. Toda a violência essencial que nos gerou e que nos impele reside aí nessa caverna. é a maternidade dos poetas e dos anjos.

Beleza e Dor ou Prazer e Dor...

Prazer é a beleza em sua forma palpável. Prazer é quando conseguimos pegar a Beleza sujeitá-la, traze-la entre os dentes para que se debata até a morte... e mansa ressurreição.

Vinícius de Moraes, tradutor e porta voz da Paixão, revelou-nos que todo amor só é grande se for triste assim como todo poeta só é grande se sofrer.

Porto Solidão é mais que uma música: é um desses momentos nos quais a Beleza, como uma deusa irresistível, traz nas maos a lâmina da dor e o ritual segue implacável. Que estranha subversão da lei da procura do prazer!

Porto Solidão evoca coisas antigas e sagradas em mim e de mim, coisas que não sou capaz de entender - menos ainda de explicar.

Gosto do que nao se explica. O inexplicável traz a essência da verdade. Em nós, é o que temos de mais autêntico.

Entre as névoas do nosso ser, Beleza e a Dor se debatem em gozos.

Cristina Faraon
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