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10 de mar de 2012

Decurso de tempo

Quase todo dia lemos frases fofas sobre amizade. Paro pra refletir se a vida é mesmo daquele jeito que as frases fofas dizem que é.   Uma dessas frases diz que não importa a distância; a verdadeira amizade continua intocada. Conversa fiada.  

Vou dizer o que eu penso: o silêncio, a falta de convivência, o distanciamento dos mundos, tudo isso altera completamente a face do que um dia foi uma grande amizade.

O respeito não acaba. O carinho também não acaba nem a admiração.  Mas amizade é muito mais que isso. Tenho carinho, respeito e admiração por pessoas que nem conheço e nem por isso somos amigos. E se nos conhecêssemos talvez eu até perdesse o carinho, o respeito e a admiração.  Amizade pressupõe CONHECIMENTO e COISAS EM COMUM. 

Não sou amiga de quem não conheço. Pela admiração e respeito posso ter um coração disponível para aquela pessoa. Só que um corção aberto à amizade não é amizade: é um embrião de amizade. 

Há um monte de coisas que eu afirmava categoricamente há cinco anos atrás mas hoje digo o contrário. Ou pelo menos acrescento que "não é bem assim". Mudei, não sou mais a mesma pessoa. E se me separei de algum amigo há cinco anos, ele não pode supor que ao me encontrar será tudo do mesmo jeito. Não será. Aquela amizade acabou. Ficaram as lembranças e uma esperançazinha de que um dia possamos retomar do ponto em que paramos.

Muitas vezes a necessidade de reencontrarmos nossos amigos não é a necessidade normal de compartilhar coisas com os amigos, mas a desconfiança instintiva de que aquele vínculo está correndo risco. O coração sabe e sente, então ele tenta desesperadamente fazer de conta que os mundos ainda são os mesmos, que ainda somos próximos e sabemos das mesmas coisas. Muitos reencontros de amigos são uma espécie de "canto do cisne".  São frequentemente um pedido de socorro que não será atendido.

Já reencontrei com amigos numa dessas manobras desesperadas para mantê-los na minha vida, mas saí no final da noite com a sensação de ter ido a uma missa de sétimo dia. Nos reencontramos apenas para constatar que nos perdemos uns dos outros. Não havia nada fresco entre nós, só o prazer melancólico de relembrar como éramos.

Sim, às vezes nos perdemos mesmo quando nos reencontramos, porque um happy hour de seis em seis meses não é capaz de reativar nada.

A distância é cruel e a vida, mais ainda. Todos os dias perdemos coisas e hoje estou super emotiva quanto a isso. Amizade não é para sempre: saudade sim.  Vão-se os amigos, ficam as lembranças. Novos amigos são bem vindos mas são mais ou menos como filhos que nascem depois que outros filhos morreram: são maravilhosos, mas não substituem.

Lembro de uma garota, uma grande amiga, que eu amava muito: a Elaine.   Sabíamos tudo uma da outra. Ela soube quando eu me apaixonei por um menino. Eu soube quando ela se casou. Conversávamos muito. Perdemos contato e hoje nem sei se ela está viva. Se está, lembra de mim? E se nos reencontrássemos seria tudo como antigamente? Claro que não. No máximos tatearíamos procurando reencontrar alguma coisa em comum.

Acho que velhice é isso: quando na balança da vida as saudades pesam mais do que tudo e dominam o ambiente. Quanto mais você vive, mais se despede. Por isso que não quero ser a última da fila.

Hoje não estou disposta a me enganar  pensando que tenho mil amigas. Já tive e quase todos os dias meu coração se aperta por tê-las perdido. Pode ser que um dia nossos caminhos voltem a se cruzar, mas no momento a coisa é simplesmente como é.
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