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28 de mar de 2013

Sem presas


É só um comentário, raso e rápido: estou lendo Grande Sertão - Veredas, de Guimarães Rosa.  Muito difícil se acostumar com a linguagem. No começo parecia outro idioma, eu não entendia quase nada. Mas vale a pena insistir. Ah se vale! Acostumar a mente. Porque quando a gente acostuma a mente, aí entra na segunda fase: as frases caem direto nos nossos ouvidos e ao invés de ler, ouvimos toda a história. Livro não é exatamente para ser lido. As palavras tem que aprender a ir direto para o seu ouvido e fazer eco em seu cérebro. Efeito 3D.

Pois depois de muita determinação em encarar aquela esquisitice, eis que me vejo completamente sugada para dentro do livro, sequestrada pelas mesmas dúvidas que encasquetavam Riobaldo. Viagem!

Não cheguei à metade mas já vi que estou diante de uma obra prima, uma loucura de criação. Não sei como pode tudo aquilo ter sido criado dentro de uma só cabeça. Às vezes acho que os grandes livros são ditados aos escritores por fantasmas ajudantes. Porque os personagens existem, existem sim senhor! E mostram a cara. Sabemos como são, como sentem, sentimos seus suspenses.

Muito inquietante e triste novamente saber notícias de um Brasil que não existe mais, de jeito nenhum. De tudo aquilo só sobrou a pobreza, nada mais.

De vez em quando me pego morrendo de saudade do que jamais vivi. Não tenho saudade da "jagunçagem" ; tenho saudade de um sertão infinito e livre, selvagem e cheio de possibilidades de se morar onde quiser - ou só vagar pelo mundo. O Brasil encolheu, certamente.

Acho que o progresso abestalha a gente.

Nessa história os personagens viviam de si para si, tinham suas próprias leis, suas próprias regras de fidelidade. Eram donos da própria liberdade e não admitiam entregar fatia alguma ao Governo. Questão de honra.  Entre eles mesmos havia julgamento, execução, perdão, pagamento, compromisso. Iam e vinham como onças, pássaros ou calangos, em seu habitat indiscutível e sagrado - e ninguém se meta! Como se o mundo inteiro fosse aquilo e só aquilo interessasse.  Morte, barbárie...   Mas pelo menos podiam vingar o mal e não eram obrigados e levar desaforo para casa.

O que eu queria era ter certeza, mas certeza plena, de que evoluímos. Eu queria bater no peito e me orgulhar disso. Nesse ponto sou Riobalda. Essa dúvida me incomoda. Vejo que somos uma massa mole, sem brio, mas o sangue continua a correr nas cidades, só que é diferente. Não há nem arremedo de honra ou justiça. É só a senvergonhice que manda. Lá havia opressão, mas aos oprimidos era dada a escolha de reagir. Aqui, pra mim  piorou e muito. Cortaram nossas garras e nossos caninos.  Não se pode mais nada.  Muito inquietante.

Dá um negócio parecido com saudade.

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