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10 de nov de 2013

O Grande Irmão

Quando mocinha cheguei a  assistir alguns filmes de terror/ficção científica bem marcantes. Vários deles - se não todos - tinham algo assustador em comum: mostravam um mundo onde as pessoas eram constantemente vigiadas, onde não havia mais uma réstia de liberdade. Terminava o filme e eu ficava imaginando o horror de ter olhos constantemente cravados em minhas costas,  ter todos os atos medidos e julgados dia e noite. Um dia - pensava eu - os homens viverão num clima de constante receio e nesse dia espero estar morta. Privacidade será um luxo,  uma lembrança de tempos longínquos onde as pessoas eram felizes e não sabiam e tinham a possibilidade de cometer seus pequenos delitos em paz.

Quem seria o grande ditador que reduziria todos a essa vigilância assustadora? Isso de fato aconteceria um dia? E como reagir a ele? Como nos insurgir?

Como sempre a realidade supera os pesadelos mais criativos. Eu costumava imaginar um novo Hitler high tech subjugando a humanidade.

Nunca jamais eu poderia supor que o Hitler seríamos nós, todos nós, cada um de nós. Não há um ditador maléfico sentado atrás de uma sala de controle. Não há robôs nem câmeras estatais espalhadas pelas esquinas. Em algumas cidades até existem essas câmeras mas elas não conseguem ser mais vigilantes, julgadoras, venais e maléficas do que a câmera nossa de cada dia.

Nenhum plano de controle mundial consegue ser mais eficiente do que fazer chegar ao focinho das pessoas a possibilidade de ganhar uns trocados com alguma filmagem comprometedora. Uma brincadeira, uma transa, um gesto de impaciência, uma confidência, tudo isso e muito mais pode estar sendo gravado não pelo ditador mundial mas pelo seu amigo, colega, vizinho, pelo seu sobrinho, sua mulher, o desocupado da esquina. Você tem bem poucos amigos, cara.

Antigamente tínhamos o direito de dizer frases infelizes e depois nos envergonharmos delas. Hoje nós a dizemos e depois ficamos aterrados imaginando quem pode ter registrado e o quê a pessoa fará com o tesouro. Nem dá tempo de pensar em arrependimento: o medo vem primeiro.

Nessa questão não há misericórdia ou perdão. O dono de uma gravação tem o coração de pedra e seus olhos brilham. Agora todo mundo pode se transformar daqui pra ali em um abutre.

O que eu tanto temia nas fantasias da juventude finalmente aconteceu, e com cores mais tenebrosas. Não há uma lente maléfica controlando a vida de todos os pobres mortais. Os pobres mortais é que são essa lente maléfica e eles estão em todos os lugares. O Grande Irmão arregimentou um exército eficiente.
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