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15 de nov de 2013

O nojo

"Por quê você se incomoda com isso? Não tem nada a ver com você. Cuide da sua vida!" 

Há, hoje em dia, uma unanimidade muito suspeita: a certeza, baseada em pouco ou nada, de que não há sentido algum em nos incomodarmos com o que acontece com a pessoa ao lado.  As pessoas pensam: "Não tem nada a ver comigo, não me afeta". O raciocínio correto deveria ser:  "Aparentemente não tem nada a ver comigo, mas se me atinge é porque, talvez tenha alguma relação." Ou: "Será mesmo que não tem nada a ver comigo? Só eu me sinto incomodado ou existe uma generalidade de pessoas que reage da mesma forma que eu? São todos loucos ou a humanidade está, misteriosamente, interligada?"

Estranho, mas estranho mesmo, é alguém achar que deveríamos ajudar o próximo movidos por teorias lógicas. Teoria lógica não tira ninguém do sofá. O que move a raça humana é a força inexplicável, a emoção sem sentido aparente, que nasce na boca do estômago, dá nó na garganta e às vezes rega os olhos. Talvez não seja muito inteligente tentar explicar o inexplicável, mas abolir das nossas considerações o inexplicável, aí já é insano!

Respeito muito "aquela coisa" que mexe com a gente, que nos toma e nos leva a fazer coisas que nossa mente não assimila. O amor, por exemplo, é assim. 

Se só existisse o que eu sei explicar, já estaria mais do que na hora de desaparecerem do mundo as aeronaves e os celulares. 

Dizer que "não tem nada a ver comigo" a gente diz, mas é coisa de quem não reflete. Não dá para ligar e desligar a natureza humana ao comando do "politicamente correto". Quando querem, temos que ser solidários e entender que o que acontece com o outro me afeta e é da minha conta. Daí a pouco reajo a uma atitude alheia e vem alguém bradar que não  é da minha conta, que eu tenho que cuidar da minha vida e que aquilo não deveria me afetar em nada. Por quê?

Pra começar: "não deveria afetar " é muito diferente de "não afeta". Estou lembrando agora de um dentista com o qual eu me consultava. Certa vez cheguei com ele dizendo que um dente meu, que já havia sido tratado o canal, estava doendo. Aí ele me reponde que "mas não era para doer! "  Ora bolas, como "não era" pra doer? A teoria dele não poderia se sobrepor aos fatos! Ele que tratasse de investigar por quê estava doendo, mas me advertir de que não podia doer era maluquice.

Uma sociedade como a nossa, metida a questionar tudo, deveria honrar o título de questionadora e se fazer algumas perguntas: 

1- Se estou sentada em frente de alguém que não pára de arrancar os próprios cabelos, aquilo me incomoda. Eu deveria ser criticada por isso, por um sentir tão próprio dos humanos? 

2- Você já viu algum quadro torto, pendurado em alguma parede? Aposto que seu primeiro impulso foi querer ajeitá-lo. Você pode não tem consertado o quadro, mas desejou fazê-lo. Pergunto: você se preocupou com seu próprio sentimento em relação a isso? Achou que fosse alguma anomalia?  

3- Mastigar a comida com a boca aberta, mostrando para os outros os alimentos triturados e encharcados de saliva, é falta de educação. Incomoda os outros. Não adianta dizer que não incomoda ou que "não era para incomodar!" (como aquele dentista) . "Comer de boca aberta" é falta de educação porque comprovadamente incomoda. Ninguém ensina os outros a comer de boca aberta porque o incômodo alheio é uma aberração. A regra de educação foi criada em respeito aos sentimentos humanos que EXISTEM. 

Hoje em dia estamos sendo bombardeados com um ensinamento contrário: aberração são os outros, que estranhamente se incomodam quando alguém come meleca, arranca os próprios cabelos, pendura quadro torto na parede, arrota em alto volume, chupa o dente, escarra toda hora...  Hoje em dia a ordem é: faça tudo isso e crucifique quem se agonia.

Não estou advogando que daqui por diante a gente tenha o poder de interferir nas preferências alheias. Não!  Cada um faz o que quer, mas não venha dizer que estou errada por reagir instintivamente. Posso não ter - e não tenho - o direito de consertar o quadro dos outros, mas tenho o direito de não ser chamada de louca por sentir vontade de fazê-lo. Não tenho o direito de proibir alguém de comer meleca, mas não me recriminem se eu saio da sala para não presenciar. Não façam campanha contra aqueles que sentem nojo. 

Você já ouviu falar em EMPATIA?  É a capacidade psicológica para sentir o que sentiria uma outra pessoa caso estivesse na mesma situação vivenciada por ela.

Doente não é quem sente, mas quem não tem capacidade para sentir empatia. Sabia que os que não tem capacidade emocional para sentir empatia são chamados PSICOPATAS? Doente é quem jamais é afetado pelos outros, jamais se aflige com dor ou nojo ou qualquer coisa assim.

Como o meu emocional é saudável, tenho capacidade de - mesmo sem querer! - me colocar no lugar do outro e me imaginar naquela situação. Posso então gostar, sorrir, ou sentir repugnância,  por exemplo. 

Por mais que a estranha mania de uma pessoa lhe seja agradável - como arrancar os próprios cabelos - meus instintos se insurgem contra aquilo. Fazer o quê? Naturalmente minha mente me coloca naquela situação de agonia. Se é um filho que faz isso, posso até dizer "pára com isso, menino!"  mas se é um estranho terei de optar por sair de perto. 

Hoje em dia somos criticados quando saímos de perto. Querem que sejamos uma porta.

Precisamos entender, de uma vez por todas que EMPATIA não tem nada a ver com "se meter na vida dos outros"

Por outro lado, esquecendo um pouco a empatia, tenho a dizer que nós desconhecemos as energias que movem e alimentam o mundo e que interligam todo ser vivo (já ouvi teorias interessantes sobre isso). 

Desconhecemos, igualmente, como funciona a tal "memória genética" que carregamos. Aliás, só recentemente esse termo  - "memória genética" - passou a fazer parte do nosso vocabulário. Minha memória genética, através de minhas reações, tenta se comunicar comigo e me dizer coisas  que, decididamente, não entendo. 

Nem todos as informações registradas por civilizações antigas já foram decifradas. Ainda há muito mistério por aí, mas nenhum estudioso sério iria propor que relíquias de milênios fossem jogadas fora só porque ninguém entende. 

Nossos instintos, mesmo os mais estranhos, guardam segredos. Sempre querem apontar para alguma coisa relevante. 

Por fim:

Estamos todos interligados - é o que também quero dizer. Tudo o que acontece a um afeta o outro, é tudo uma energia só. Como? NÃO SEI. Isso acontece de um modo misterioso e de uma forma que nos escapa à percepção.  

Minha tese: o que incomoda pode ter a ver comigo sim. Quer eu entenda quer não, quer admita quer não, quer seja politicamente correto quer não. Se uma prática nos repugna, podemos até lutar contra o sentimento, mas seria interessante tentarmos interpretar o fenômeno sem preconceitos. Abrir a mente pelo menos um pouquinho. 


Nossos instintos sabem mais do que nós. É bom prestar atenção. 


Tá bom, você pode dizer que esse ou aquele nojo nos foram impostos culturalmente. Sim, mas dizer isso é concordar com o que eu falei. Porque as raízes da cultura são profundas e distantes demais. Lá atrás, quanto tudo começou, havia um sentido. Só que não sobrou ninguém vivo para nos explicar. Não temos memória consciente mas nossas reações impensadas tiveram uma origem muito real, muito antiga e muito bem pensada, na época. Nada surgiu do nada.

Acho tolo pensar que no século XXI detemos o somatório de todo o conhecimento gerado ao longo dos milênios. Não temos. Muita coisa se perdeu e muitas das experiência dos nossos antepassados subsistem apenas em forma de memória genética e "pré- conceito".  Qualquer estudioso hoje admite tranquilamente que a antiga civilização egípcia detinha conhecimentos relevantes que se perderam, não foram repassados para nós. 

A experiência comprovada e científica do passado, uma vez perdida, pode ter subsistido até os nossos dias apenas na forma desse "gostar" ou "desgostar" nebulosos. 

Não sei, e jamais saberei, quantas civilizações se lascaram justamente por causa de coisas que afirmo não tem "nada a ver". A coisa no passado pode ter sido tão forte, mas tão forte, que mesmo perdidas as teorias, sobraram as sensações.
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