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28 de fev de 2015

Prédios e belezas


Ontem, final de tarde, eu transitava em um dos viadutos da cidade. Do carro olhei e vi o céu desistindo do turquesa. Ele escurecia devagarzinho, meio embaçado por nuvens e poluição. Vi e amei os prédios. Pareciam tão imponentes ignorando o cansaço, a sujeira e o calor! Pareciam tão cônscios da necessidade de parecerem bonitos para a gente que vem do trabalho!

Certamente as árvores parecem belas para os pássaros cansados. Parecem lindas também para a família dos macaquinhos que fazem delas sua casa. Acho que os prédios cumprem, para nós, o papel de árvores.  Talvez por isso eu tenha conseguido achar beleza naquele amontoado de concreto, silenciosos e estéreis.

O céu escurecido, as nuvens com suas cores indecisas, os primeiros postes acordando. Com meu olhar já lapidado pela cidade e sua estranha estética, achei bonitos os prédios assim, levantados contra o céu,  criando um efeito interessante. São nossas árvores onde nos amontoaremos com nossas famílias para nos proteger e descansar. Só por isso são bonitos, porque concreto não tem outra graça.

Num relance vi as primeiras janelas acendendo e quase senti o cheiro da sopa e o cheiro dos vapores perfumados dos banhos dos que voltaram do trabalho. E tudo azulava.

Os prédios são bonitos para nós, que vivemos na cidade. Talvez não sejam tão aconchegantes quanto as árvores, tocas ou cavernas, mas foi o que conseguimos. Daqui não ouvimos barulho de riachos ou de passos pisando folhas. Aqui as pessoas se anunciam de outras formas mas isso já nos serve. Basta que cheguem, basta que não nos deixem sós.

Vistos de cima os prédios parecem menos maternais. São paredes que formam magníficos labirintos.

Interessante como podemos ver beleza em algo tão antinatural. Posso olhar para o céu e partilhar da mesma emoção de civilizações antigas mas não posso olhar para nossos gigantes de concreto e partilhar nada com o passado, nada com o meu eu primal. É uma coisa só nossa, só do hoje.

Não acredito que silvícolas enxerguem qualquer beleza ou romantismos nos prédios mesmo num final da tarde azul.

A beleza mora dentro, não fora da gente. Isso me leva a pensar que talvez as pessoas cruéis tenham seu senso de beleza diminuído devido ao processo de embrutecimento que as tornou más. A maldade é a anti-beleza.   Não acredito então que "eles" sintam o mesmo que eu sinto quando olho as estrelas ou mesmo os prédios encardidos. Eu, em minha maldade, gosto de pensar que a vida subtrai dos cruéis alguma coisa preciosa, independentemente da punição que tenham recebido - ou não - da sociedade. Que percam a capacidade de se emocionar! - penso eu.

E não seria isso maldade também?

Penso agora que a ausência de senso de beleza só tornaria os cruéis mais cruéis ainda.  A beleza não nos enternece? Até que ponto privar-lhes dessa sensibilidade seria uma punição inteligente? A quem interessaria isso?

Nada sei, nada sei...

Será que as pessoas bondosas desfrutam de mais beleza do que as más? Ou não? Talvez eu jamais tenha resposta para essa questão. Só sei que achei bonita-bonita a cidade naquele final de tarde, com seus milhares de prédios... e as nuvens lá em cima.
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