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15 de out de 2016

Aquelas coisas

Mãos passando suavemente pelas minhas costas quando acordo. Não consigo imaginar um desejo mais simples e universal. Não consigo imaginar  um prazer mais simples e barato.

É possível fazer uma pessoa se sentir feliz e querida com bem pouco, se quisermos. Quando recebo esse tipo de carinho sinto um arrepio de prazer e felicidade, uma sensação promissora de que tudo vai dar certo só porque sou amada. Um passar de mãos sem pressa e sem pressão, sem intenção de ser nada além disso mesmo. Nada além do que já é. Gesto caríssimo e sem dificuldade que, justamente por não ter dificuldade, poder ser eternamente adiado. É frequentemente o é.

Conheci pessoas que moraram no Rio de Janeiro a vida inteira sem jamais ter ido ao Pão de Açúcar ou ao Corcovado. Não o faziam porque tanto o Cristo quanto o Pão estavam lá pra sempre. Não havia pressa. "Mês que vem talvez eu vá e se não for, ainda posso adiar para o outro e mais outro." Há cariocas que morreram sem ir ao Pão de Açúcar. Não poque não pudessem ir. Não foram justamente porque podiam e poderiam sempre. Aí adiaram e morreram sem jamais pisarem lá. Se fosse algo difícil demais talvez elas tivessem se animado a fazer o sacrifício. Mas como era fácil ficou para o "Dia de São Nunca."

Minhas costas não são o Pão de Açúcar. Não estarão sempre aqui, não podem ser adiadas. O mundo pode acabar amanhã, você pode morrer ou uma bomba pode nos separar.

Dê-me mãos lisas e calmas e serei feliz.


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