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7 de mai de 2017

Eu sou superior. E você?

Nada contra moda aplicada a roupas, aos móveis, à maquiagem, ao design de veículos etc. Nada, nada contra. Futilidade? Não acho, mas se for, e daí?  Viver só no basicão não tem graça nenhuma. Mas quer saber o que me irrita, mas irrita mesmo? É a moda aplicada às idéias.

De repente baixa na cabeça das pessoas um certo tipo de unanimidade invencível e irritante. Todos passam a falar a mesma coisa, ter a mesma opinião e fechar os ouvidos a qualquer argumentação contrária.

De quê estou falando, mais especificamente? Dessa mania chatésima de desmerecer a raça humana. Para começar vou logo dizendo: gosto dos seres humanos, tá? E sei que estou nadando contra a corrente.   Agora é chique dizer que os humanos desaparecerão do planeta e isso é bem feito pra nós! Que somos maus, burros e nada presta.

Bem feito por quê? Até parece que somos a única espécie animal a desaparecer ou prestes a isso. Um número incontável de animais levaram o farelo ao longo dos milênios e ninguém diz "bem feito!" Qual o pecado que eles cometeram? Comeram muito hambúrguer com Coca-Cola? Mataram seus semelhantes? Porque nosso possível desaparecimento é castigo pelos nossos atos mas o dos mamutes não? O quê que o mamute tem que eu não tenho?  (Não responda.)

E está na moda desmerecer até a nossa capacidade intelectual. Há os que simplesmente a negam!  É mole?  Há hereges por aí (fogueira neles!) afirmando que a formiga é mais inteligente do que o homem porque ela sabe se organizar maravilhosamente bem, que nenhum de nós sabe fazer uma teia como uma aranha, portanto seria um erro dizer que somos superiores a elas, blá blá blá.    Quando a bobagem é muito grande, mais extensa e trabalhosa fica a defesa. Por isso é que tem gente que parte logo para a ignorância.

Mande uma aranha fazer um pudim, um avião, um perfume ou lapidar uma pedra. Mande!  Mande a aranha se esforçar para ser "uma aranha melhor e mais humana" ou "pior e mais desumana". Nada. nenhum tipo de apelo entra naquela cabeça peluda.  Ela não tem capacidade para ser nem melhor nem pior do que é. As aranhas, assim como os pássaros e peixes, são umas lindas maquininhas, interessantes mesmo, mas não passam daquilo. Podem até ter sentimento mas até isso é limitado e não sujeito a raciocínio ou constatação de nenhuma espécie.   Se um cachorro te ama (ai que liiiindo) e você morre, ele pode morrer seco no portão da sua casa esperando o retorno do dono que jamais retornará. Sabe o que é isso? Falta de capacidade de entender.   Ele nada sabe sobre o tempo ou a transitoriedade da vida. Sobra um apego assim, infindo, sem raciocínio, sem opção, que você acha lindo mas é apenas um tipo de pane.

Nós temos capacidade de nos tornar anjos ou demônios. Há um mundo de possibilidades dentro de nós e isso é sinônimo de riqueza. Podemos criar e destruir, amar e odiar.

Pense numa máquina de costura que faça pontos absolutamente precisos. Você, ser  humano, jamais conseguirá costurar como ela. Jamais será tão exato. Isso faz daquela máquina "um ser superior" a você?    Pois é. Aí entram baleias e golfinhos, que encontram o caminho de casa no fundo dos oceanos. São máquinas de costura. Jamais dirigirão um carro. Só sabem rebolar pelos oceanos. Chip único.

Gosto desses bichinhos e clamo pela sua preservação mas não dá pra comparar com os humanos. Somos lindos, criativos, misteriosos e imprevisíveis. E a imprevisibilidade é fundamental à beleza. Em toda beleza há surpresa, há um "OH!" exclamando aos sentidos. Qual surpresa esperar de uma abelha? Pode até haver uma aqui ou ali que voe em quadrado, ou em círculo, ou que, no vôo, saiba escrever I Love You no céu (pouco provável)  mas  nada que se compare aos deuses patinadores das olimpíadas de inverno.  Não que o vôo das abelhas seja inferior, mas é que nós criamos e aprendemos mas elas não. O chip delas é desse tamaninho. Foram programadas para só fazerem aquilo, para sempre.

Sinceramente sinto-me ofendida ao me compararem com uma minhoca. Já o fizeram e nem sou magrinha. Pessoas simplórias quando me ouvem dizer que sou superiores àquelas geléias rastejantes, criticam! E entendem, equivocadamente, que estou apregoando que temos o direito de destruir tudo o que não seja humano só porque somos superiores. Não estou dizendo isso e se para fundamentar atos bárbaros alguém já se utilizou da tese da superioridade humana eu não tenho nada a ver com isso. Ser superior é ter também a capacidade de preservar.

... "Nós não preservamos".  Não? Preservamos sim. Uns destroem, outros preservam. Eis aí a nossa variedade!  Lutamos, doutrinamos o outro... e nessa elasticidade está toda a beleza de não se saber como será amanhã nem como cada qual reagirá. Daqui a cem anos os gatos estarão fazendo as mesmas gatarias, os cavalos cavalarão do mesmo jeito mas nós... quem sabe?  Podemos resolver ter os cabelos azuis e dentes fosforescentes. É só querermos. Temos o poder e a tecnologia para isso. Eles não.

Já ouvi um mané dizer que o fato de usarmos tênis e roupas é prova inequívoca da nossa inferioridade, já que as lagartixas não precisam disso. Ai meu Deus, iluminai tais seres!  Precisamente por não poderem se adaptar a tudo é que as lagartixas não podem viver em qualquer lugar. Nós podemos,

Não precisamos de tênis: usamos. É diferente.  Esses acessórios são ferramentas para ganharmos o mundo. Poderíamos viver e morrer em climas amenos, mas como somos escrotos, não nos conformamos. Preferimos explorar e obrigar os ambientes difíceis a nos engolirem. Um urso polar não pode vir para cá. Ele morre. Mas nós podemos ir para onde ele está.

Com os irracionais funciona assim: uns só vivem se for no frio, outros só se for no quente. Há outros ainda, mais frescos, que só se dão bem se for no quente-frio alternados. Uns só comem folhas e se não tiver folhas, morrem. Outros só encaram carne e se não tiver na prateleira da selva, adeus. Nós não. Nós nos adaptamos. Tá frio? Meta-lhe casaco. Tá quente? Todo mundo pelado! O clima se alterna? Não tem problema: arranjamos dois tipos de guarda-roupa, e assim nos espalhamos sobre a superfície da terra fazendo o que dá na cabeça.

"O que dá na cabeça" é sinônimo de "destruir", alguém diria. Não necessariamente destruir. "Alterar" seria o termo mais correto. Mas você já ouviu dizer que ou destruimos as formigas ou elas destroem o mundo? Eu já vi um documentário a respeito. No quesito "destruição" não somos piores do que as formigas. Qualquer predador que se multiplique incontrolavelmente vai acabar alterando drasticamente o meio ambiente.

Quem te garante que se houvesse fortes motivos as lindas gaivotas não destruiriam o mundo?  Você tem garantia disso? Se para sobreviverem elas precisassem adquirir ouro ou a pele dos outros animais você acha que a gaivota pensaria duas vezes? Fala sério!

O leão não pensa duas vezes: tá com fome, te come. Nós é que temos essa conversa mole de ter que comer folha para preservar. Eles não pensam nisso. O passarinho está se lixando se a minhoca tem ou não família, se existem minhoquinhas famintas em casa esperando por elas. Bobeou, dançou.

Pense no cupim. Vá pregar para ele o seu discurso de não-destruição. Vá lá! Ele não quer saber! Deu chance? Adeus maloca!   Não, não somos só nós que destruimos. Tudo o que vive caminha para a morte e leva consigo um monte de coisas. A diferença é que somos suscetíveis a discursos, propagandas verdes. Eles não.

Há quem diga que "destruir com consciência" é pior do que "destruir com inocência", como os irracionais. Bem, esse juízo de valor fica por conta de cada um. Só digo o seguinte: a consciência é a liberdade para fazer ou não. Escolher, afinal. Eles não têm isso. Deram corda no jacaré e ele só consegue fazer todo tempo  a mesma coisa. Sabe, não ocorre nenhuma idéia mais interessante na cabeça dele.  

Acho bom você concordar comigo porque tenho um lado irracional, portanto "muito superior", que instintivamente cai  com as garras em cima dos opositores.
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