.

.

10 de jul de 2017

Poesia & Opressão

Dizem que poeta sofre. Não gosto disso que dizem mas reconheço que existe um monte de coisas das quais também não gosto mas que continuam teimosamente existindo independentemente dos meus gostos.

A poesia não sai do coração assim, de graça. Ela sai por estar sendo amassada, espremida e espetada lá dentro. Sai porque não aguenta mais ficar. Sai de boca aberta contando pra todo mundo, berrando, denunciando um estado de coisas que não pode ser abafado, que não se contém dentro de si mesmo. Poesia é o fim da discrição.

Poemar é jogar no ventilador. É mostrar a bunda.

Difícil é escrever profundamente na paz, na maciota, no gozo da ventura. Até porque a ventura requer tempo para ser gozada e ninguém ousará interrompê-la para escrever um mau verso. Ainda mais sabendo quão melhor verso será esse quando a ventura se for. Espere que a alegria vire as costas. Aí sim é hora de você pegar a caneta.

É verdade que existem poesias luminosas. Só que as singelas alegrias das vidas felizes não se prestam à poesia. Pra render um bom verso a alegria tem que ser opressiva. A felicidade do poeta tem que ser uma pérola caída num rosário de tristezas e assim surpreender tanto, mas tanto, a ponto de causar perplexidade. A alegria de onde sai poesia tem que ser como o sol entrando numa cela escura e solitária; tem que ofuscar, doer o peito imitando a tristeza e fazer o poeta sair gritando do mesmo modo, denunciando que aquilo tudo não cabe, que a vida não é assim e ai-meu-Deus-que-coisa-linda-eu-vou-morrer!

As poesias que não nascem da opressão da angústia ou da opressão da felicidade extrema, são chatas. Piegas. Maquiadas. Adocicadas. Junta até formiga.

Isso tudo é pra dizer que a pausa na qual me encontro vem de uma certa nulidade calma e não-pensante. Um momento da vida, por assim dizer. Ainda assim fica uma dorzinha: a dor da saudade da poesia com todos os seus tormentos. E há também agora a dor da expectativa a respeito do que virá perturbar a serenidade do meu não-pensar. 

No parágrafo anterior já há estão expostas duas dores. Mas duas dores é pouco demais para um poeta.
Postar um comentário