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1 de jun de 2007

Velhinha porreta


Tenho planos quentes para quando ficar velhinha.

Mal posso esperar para finalmente usar uma saia verde com blusa amarela de florinhas vermelhas. E poder dormir durante as cerimônias chatas sem um fiapo de pudor.

Decidi também que não vou mais carregar peso. Quero ser uma velhinha muito bem tratada e vou cobrar da juventude que pelo menos carreguem meus pacotes. Não que os homens não sejam gentis hoje mas é que já notei que isso depende um bocado do tamanho dos decotes . Acontece que no futuro vou abolir os decotes - para o bem de todos. Sem decotes, o jeito é cobrar mesmo.

Quando eu for uma velhinha tudo vai ser diferente! Homens e mulheres estarão a meu dispor. Abrirão portas, carregarão pacotes, oferecerão assento, buscarão água e ainda vão me abanar quando eu fingir que estiver passando mal. A humanidade será meu séquito E ai daquele que rir do meu chapéu "grená"!

Adeus, manicura! Pra que isso? Só vou ao salão quando quiser colar estrelinhas nas unhas ou pintar os cabelos de azul.   Sim, porque tem tudo a ver assistir DVD com cabelos azuis e unhas estreladas.

Vou esfregar minha liberdade na cara do mundo.

Barriguinha? Sim, e daí? Não vou posar pra revista masculina e até lá já enjoei de homem. 

Ah, os homens! Vou rir da cara de babão que eles fazem olhando para as mocinhas. Vou tirar foto e postar no Face. E vou rir e fotografar também das garotas querendo parecer sexy para os homens babões.

E nunca mais, mas nunca mais mesmo, vou me apaixonar. Xô, babaquice! Pode anotar aí no caderninho. Ficar querendo, lembrando, imaginando, suspirando, procurando um pretexto para telefonar? Tá me estranhando?

Vai ser legal sair de manhã para andar na praça, contar história para as crianças, comprar flores, conversar com as outras velhinhas, encomendar peças de crochê para presentear as noras, olhar de camarote a moda fazendo todo mundo de palhaço e rir dos “últimos lançamentos” que usei até enjoar quando era nova. 

Estarão inapelavelmente abolidos: os saltos altos, o bicos finos, sutiãs com arame, calcinha - especilamente aquelas com renda que espetam, bolsa combinando, roupa apertadinha, camisolas transparentes. Em resumo: tudo o que aperta, espeta e pesa - aí incluídos os homens - desaparecerão desse universo futurista. Sobre as camisolas: serão todas de algodão e bordadas com motivos infantis: coelhinho, carinhas sorridentes, nuvens, carroça de flores, Frajola, Tom e Jerry, borboletas maluquinhas.

Todos poderão rir de mim porque estou decidida que também vou rir de tudo e de todos.

Uma velhinha pode tudo, exceto praticar exercícios de alto impacto - aí incluído o sexo. Mas e quem disse que vou querer?

Ah, a liberdade! Será doce e engraçada. A liberdade será sapeca, sem vícios e sem medo de morrer. Nunca mais irei a algum programa que realmente não deseje ir. Festa chata? Enterro? Inauguração de botique de amiga? Casamentos condenados? Quinze anos mala?  Quando eu disser que não vou, não vou e pronto.

“- Mas vovó, o pessoal vai ficar magoado!”
“- Conversa fiada. Vão até curtir minha ausência.”
“- Mas mãe, eles estão contando com sua presença! Vai ficar chato!”
“- Já disse que não vou! A gente fica velha e todo mundo acha que pode mandar? Eu troquei suas fraldas, seu mijão! Agora é que não vou mesmo, só porque vocês estão querendo mandar em mim.”
“- Mas então o que é que eu digo quando perguntarem pela senhora?”
“- Digam que estou com pressão alta, que gripei, que estou com diarréia. Ou simplesmente falem a verdade: ela não veio porque é uma velhinha pentelha e está cada dia mais teimosa. Pronto.”
- Bora sim, eu levo a senhora
-Se insistirem eu vou, mas só pra dormir e babar. Vão querer?

E quando eu não gostar de algum presente vou falar na lata.

- "Pô, sabonete de novo?!"
- "Fala sério: tá me achando Carmem Miranda pra usar um colar desse?"
- "Minha filha, faz tempo que Deus me libertou dessas calcinhas."
- "Camisola tudo bem, mas mortalha já é de mais!"
- "Tem etiqueta de troca?"

E se me chatearem muito vou usar a clássica frase: “Respeitem meus cabelos brancos!” Sempre tive vontade de atacar com esses dizeres. Quando parar de pintar os cabelos finalmente será possível. Claro, porque você não espera que eu passe o resto da vida refém de tinturas.

Vou também incorporar vários personagens. Chico Anísio que se cuide. Serei uma velhinha doente quando estiver querendo atenção e divertida quando quiser curtir com a cara dos outros e compreensiva ou cheia de dicas quando estiver a fim da companhia dos jovens. E serei  religiosa, cozinheira, contadora de histórias, atleta (sério! Só ainda nãoo bolei como) sexóloga (pretendo conservar a memória), sacana (só para variar)  dorminhoca, espertinha. Tudo dependerá da posição das marés, da lua, da época do ano, do ciclo das chuvas e, principalmente, do meu fígado. Porque não terei problema de pressão, entendido?

Nem tente traçar meu mapa astral que lhe dou uma bengalada. Claro que vou usar bengala. Não porque vá precisar mas para compor corretamente um dos meus personagens de estimação: a velhinha frágil.

Para um plano perfeito não pode faltar o fecho triunfal: a morte. É quando vou sair de cena e deixar para trás todos os meus cacarecos. Jogue fora se quiser, menos as fotos e as poesias porque aí já é desaforo.

Planejo ser dessas vovozinhas cheias de saúde que fazem o favor de morrer de repente enquanto cochilavam na cadeira de balanço - podem ir comprando a minha. Quero uma com o aro de madeira bem grande de forma que ocupe metade da sala e proporcione um movimento bem amplo. Não me venha com aquelas de mola.

Eu mesma vou bolar a programação para meu funeral. Músicas, flores, tempo de duração etc. Aguardem. Se não todos, pelo menos uma meia dúzia de pessoas espero que chorem, nem que seja um pouquinho. Não é possível que eu só tenha feito merda nessa vida!

Ainda não me mandaram preencher nenhum formulário mas se eu tiver escolha prometo não virar fantasma. Uma vez morta vou cair fora desse mundo com mala e cuia. Ah, esqueci que dessa vida a gente não leva nada... Bem, podem ficar com a cuia. A mala dê para os pobres.

O certo é que pretendo ir para aquele outro mundo onde peito não cai.  Mas no caso improvável de ter que virar fantasma e precisar vagar por aqui (ô programa de índio!) juro não aparecer para ninguém a noite nem fazer barulhos estranhos na cozinha. Nem arrastar correntes. O máximo que vou fazer é olhar para todos vocês com ternura e talvez beijar-lhes a testa bem de leve para que não acordem assustados.

Depois é claro: vou para a night que ninguém é de ferro.

Cristina Faraon

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