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14 de ago de 2007

A decadência do escorpião

Antes que vocês saibam por outras bocas vou logo dizendo: sou do signo de Escorpião, com todas as suas implicações. E nunca impliquei com as implicações.

Embora a descrição de uma pessoa nascida “sob esse signo” (odeio a expressão) case quase em 100% com o que sou, não acredito em horóscopo. Menciono que sou de escorpião com o objetivo único de “adiantar o serviço” para o caso de alguém querer me conhecer.

Horóscopo é uma crendice que não deveria estar demorando tanto a desaparecer. Vai entender! Não tem nada a ver comigo acreditar nesse tipo de coisa. Além de não fazer nenhum sentido, as piores celebridades que conheço acreditam nessas baboseiras (juntamente com duendes, pirâmides, abduções ...).

Obviamente nada disso impede que eu tenha nascido em 13 de novembro de mil novecentos e.

Por jamais ter implicado com as implicações escorpianas é que certo dia decidi tatuar um magnífico escorpião em meu ombro. Freud explica. Acho que foi um lance de auto afirmação ou coisa assim - quem se importa? Passei então da intenção aos atos preparatórios - como se diz no Direito.

Certo dia um amigo, conhecedor da minha pretensão, pesquisou na internet vários modelos desse bichinho perigosinho e venenosinho. Encantei-me com o desenho de um meio rotundo, azul e com detalhes lilazes (adoro essa combinação). Uma gracinha - tudo o que um escorpião não é.

Caí na bobeira de não guardar o desenho. Pedi novamente para meu amigo mas ele também não encontrou mais. Não desisti, porém.

Mais convicta do que nunca, resolvi esquecer o escorpião gorducho azul e tatuar o mais realista que eu encontrasse. Tudo a ver com a imagem da mulher forte e decidida - no caso, eu. Não ria.

Sim, nada como o realismo! Uma mulher forte e decidida não se deixa flagrar envolvida com coisinhas fofas, você não acha? Claro que acha.

Olhei uns vinte mil catálogos e encontrei vários modelos. Detestei os estilizados, desprezei os fofinhos, os sorridentes e os com florinha do lado. Mas pintou um contratempo: ao invés de ficar satisfeita com os desenhos, fiquei foi irritada com a feiúra deles. Não era possível que ninguém nesse mundo soubesse desenhar um escorpião do jeito que eu queria. Ô incompetência!

Eu tinha em mente algo realista porém bonito, entende? Claro que entende. Reclamei com o tatuador e perguntei como era possível que em meio a tantos catálogos não houvesse nada a meu gosto. Por que cargas d'água só existiam duas categorias de escorpião: os lindinhos ou os feiosos? Queria algo, elegante, cheio de estilo. “-Será que estou falando grego?!” Foi quando o cara calmamente me respondeu - “Mas escorpião é assim mesmo!”

Acendeu-se uma luz. Como se diz hoje em dia "caiu a ficha". Eu estava querendo algo que não existia.

Essa síndrome me persegue? Isso se aplica a outras situações em minha vida? Ah, deixa pra lá. Depois escrevo sobre isso.

Continuando: toda vez que olhava aqueles desenhos realistas eu achava aquele bichinho nojento e muito mal encarado.

Punha-me a imaginar-lo todo desengonçado, tentando se locomover e ao mesmo tempo manter aquele ferrão melecado para cima, de forma a parecer ameaçador. Sabe, ele anda com as sobrancelhas (ou algo que o valha) levantadas acintosamente, desafiando os outros. Onde ele chega, o clima fica pesado. Não retribui sorrisos nem dá informações. Nunca é bem-vindo. Chega numa festa, vê todo mundo comendo mas ninguém lhe oferece nada. E ele também não pede. Fica lá, com a barriga roncando e o ferrão pra cima. Claro que ele não usa desodorante, o que só piora as coisas.

Descobri que na verdade o escorpião não tem nada de poderoso. Não passa de um ser inseguro e com complexo de rejeição. E mania de perseguição. Sentindo-se sempre ameaçado, está o tempo todo com medo. Agora me diga: desse jeito quem é que faz amigos? Conclusão: é um ser solitário. E infeliz. E feio.

Nunca vi os olhos de um escorpião mas posso apostar que são arregalados. Os lábios (lábios? Essa foi forte...) sempre cerrados, a tentativa patética de se manter ereto e eternamente ameaçador. Mal sabe ele que tirando aquelas patinhas da frente fica parecido mesmo é com um camarão.

Também nunca cheirei um bicho desses mas tenho sempre a impressão de que é “pitiú”. Deve ser uma mistura de percevejo com barata. Blerg! E pisa-lo não deve dar nenhum prazer, apesar de tudo. Porque tenho certeza de que ele espoca igualzinho a uma barata em seus últimos momentos. Sabe aquele barulhinho escroto? “Plec!”

O que esperar de um bicho parecido com camarão, fedorento como o cruzamento de percevejo com barata e que morre fazendo “plec”?

Antipático, inseguro, fedorento. O que antes eu admirava tornou-se um símbolo de decadência. Ah não, nas minhas costas não!

Em assim sendo, decidi tatuar em minha perna três “terríveis” borboletas coloridas.

Nada a ver, né? Mas ficou bonitinho.

Cristina Faraon
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