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12 de jan de 2008

O PERFUME - JULHO DE 1983




Não pensei que aquela sensação fosse possível porque não se tratava de um simples exercício de memória. Não foi um “flash” mas um grande passo além. E nesse passo retrocedi anos.

Na verdade jamais desejei, como outras pessoas, ser novamente criança. Só que quando entrei naquela sala a emoção tomou conta. Do nada, já que nada ali era bonito. Tratava-se de uma sala de madeira com a pintura já gasta. O chão, rústico. A mesa da professora, cheia de livros, era improvisada: juntaram duas mesas menores e “estamos conversados”. Havia um ventilador muito esforçado no teto, cadeirinhas azuis de fórmica com braço para escrita. Simples e comum. Simplesmente comum. O incomum estava no “algo a mais” que despertou meus sentidos como uma espécie de travesseirada emocional: na sala toda havia um cheiro indescritível de criança, caninamente farejado por mim.

Esqueça as colônias infantis. Não é disso que estou falando. Colônia de criança tem cheiro de colônia de criança. Cheiro de criança é outra coisa, mais difícil de descrever do que cheiro de carro novo. Era cheiro de coisa nova, mas que em meus sentidos parecia também cheiro de passado. Jamais confunda “cheiro de passado” com “cheiro de coisa velha”. Há um oceano de diferença.

Cheiro de álbum de fotografias manchado por perfume antigo. Depois vinham as notas de inocência fresca com cheiro de menino que comeu biscoito e acabou de ser abraçado... e mais cheiro de boneca nova, de tinta guache com chocolate, lápis de cera, chiclete, capim fresco, pão quentinho, gotinhas de suor, pele macia, tênis novo, tênis velho, hálito. Hálito de leite com maçã... maçã muito vermelha e fresca, como da Branca de Neve.

Era O Perfume. Entrei no túnel do tempo.

Ou havia algo de mágico naquilo ou amanheci esquisitamente sensível. Talvez as duas coisas.

Emocionada fiquei e caladinha, com nó na garganta. Sabe aquele aperto no coração que pede um abraço, mas uma abraço mesmo? Naquela hora eu precisava urgentemente de alguém que sentisse isso comigo. Eu precisava dividir, partilhar “essa coisa” que apertava meu peito. Poucos minutos depois as crianças, os móveis, os sons e cheiros formavam uma coisa só, um bloco, um petardo que eu percebia, desconcertada.

Até aquele dia eu ainda não havia notado o tempo passar. Estranho dar de cara com a constatação veemente do quanto eu já havia deixado de ser o que pensava que ainda fosse.

É inútil perguntar em qual momento fatídico aquele “espírito de criança” teria sido despejado de sua moradia - e com ordem de quem. Não importa. Naquele momento “ele” voltou sem velas ou mesa branca. Tive a deliciosa impressão de que aquela era a minha sala de aula, aqueles bonecos e letras sorridentes estavam ali para mim.

Ali ninguém notou que eu estava sendo travesseirada e entrando em “alfa”; veio a mim aqueles sopros do passado, aquelas coisas que eram comuns mas agora são relíquias perdidas. Sensações... o esmero em arrumar o material escolar na pasta, a alegria do uniforme novo, a impaciência para que chegasse logo a hora de ir ao colégio, os passos largos de manhãzinha, a expectativa em conhecer novos colegas, o prazer do cheirinho dos livros novos, os cadernos com a letra do hino nacional na contracapa, o cheiro da borracha, da merenda na lancheira e das colônias das outras crianças. Veio uma dor... Dor de dor, sabe como?

Claro que na carona vieram, traiçoeiramente, as lembranças doídas assim como faz a poeira na cola do vento. Lembrei então de coisas há muito esquecidas: insegurança, timidez, da incômoda sensação de feiúra, do futuro sem rosto. Cenas e cenas saltavam e se atropelavam como se tivessem sido espremidas durante anos e agora, eufóricas, queriam ser novamente percebidas.

Já que aquela menina do passado não era mais eu, senti um grande carinho por ela, que me pareceu tão desamparada. Não sei por que. Coisa assim, de mãe para filha. Desejei abraça-la e sei, sei mesmo que ela desejou muito ser abraçada por mim. E por mais isso chorei.

Chorei pra dentro, engolindo em seco. Quem entenderia essa emoção ali, numa reunião de pais e mestres? Eu estava sozinha nessa viagem. Eu e meu segundo bebê, na barriga.

Dali em diante é que incorporei o costume seguir meu caminho espiando o passado vez por outra no retrovisor.

Segurei a onda. Fui para casa com meu lindo barrigão. Não lembro de nada do que foi tratado naquela reunião. Só sei dizer que aquela foi a primeira vez na vida que tive saudade de meu tempo de criança.
Cristina Faraon
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