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2 de fev de 2008

A moça dos pés falantes


Missa de formatura de filho de amigos? Lá estava eu na belíssima Basílica de Nazaré. Fiquei emocionada. Não com a missa.

Em um momento de “santa balbúrdia” causada por cumprimentos mútuos, vi-me forçada a deixar meu lugar e dirigir-me aos últimos bancos da congregação a fim de resguardar minha integridade física. Ali, de “rabo de olho”, observei um par de pernas jovens e morenas, cruzadas e imóveis.

Era uma moça e era pobre. Demorei a conseguir ver seu rosto. Havia pessoas entre nós.Você sabe: nos últimos bancos o que a gente menos vê é missa. Minha mente, inquieta como um gato na coleira, começou a miar pra se soltar. Segurei o que pude, mas o que Deus esperava de mim? Ali, no último banco diante de uma multidão incomodada em suas roupas de festa? Eles também estavam na coleira, mas estavam fora da minha circunscrição. Não dei liberdade ao gato; ele se soltou sozinho. Aí começou.

Eu e minhas impressões... Depois viriam as certezas. É sempre assim.

Aquela moça... Certamente para ela aquela cerimônia tinha maior significado. Pelo menos em relação a minha pessoa.Vestia roupas visivelmente baratas. Nas unhas, esmalte de quinze dias pelo menos. Os cabelos também não receberam cuidados especiais para o evento. Isso tudo vi alguns minutos depois, porque até então de onde eu estava apenas conseguia enxergar parte de suas pernas cruzadas e pés. Decidi conhece-la a partir daí.

Seus pés falavam, e muito. Contaram-me da exigência de seu coração, que a arrastou até aquele lugar naquele estado. As sandálias eram empoeiradas e gastas. Eu mesma não iria nem na esquina comprar pão usando aquilo. De fato seus pés não sabiam o que era creme hidratante há bastante tempo. Eram desertos morenos que no entanto falavam, me olhavam e sorriam. Entre um “amém” e um “glória a vós, Senhor” aquela discreta inconfidência; eles falaram de sentimentos, vida difícil, carinho sem fim, noite mágica. Seu corpo eu não via, mas seus pés conquistaram minha afeição.

Aquela moça nunca estaria ali se não tivesse jogado pela janela do ônibus toda a sua vaidade antes de chegar. Eu disfarçava mas volta e meia a olhava novamente.Claro que foi seu coração que pediu! Os pés confirmavam que sim e diziam que o romantismo daquela formatura somado ao romantismo de sua idade foram fortes demais, a ponto de nada mais importar. Ela queria estar lá fosse como fosse e ver com seus próprios olhos, chorar sozinha, agradecer a Deus e sentir aquela felicidade opressiva que nos toma tão poucas vezes na vida.Não era a sua formatura, mas de certa forma aquele parecia ser o seu grande momento. Ela estava ali por alguém. Quem? Um irmão? A prima? O pai? Namorado? A melhor amiga? Quem sabe? Eles não me disseram.

A princípio acreditei que sua coragem de deixar-se ver tão despojada viria do fato de ser bonita. Claro, porque uma mulher jovem e bonita sabe tem perdão para quase tudo; qualquer saco de batatas ficaria bem ou não seria percebido, pois a pele necessariamente impecável se imporia acima de tudo. Sim, ela sabia disso porque toda mulher nasce sabendo de coisas assim.

Ah, minhas certezas...Imaginei então um rosto moreno de pele lisa e levemente suada, olhos grandes e negros, boca fresca desdenhando de batom. Nenhuma jóia. Em minha mente ela já era a personificação da saúde, selvagem e impressionante como a floresta amazônica. Cintura fina, quadris imponentes: uma flor d’água, uma índia paraense.

Nada disso. Quando pude ver seu rosto constatei que a seu favor ela só tinha a juventude e a altura, nada mais. Mas amava! Séria e feliz - como quem? Como ela, somente.

A moça dos pés falantes chorava sem parar e também sem contrair o rosto - arte que jamais consegui dominar. Só pude notar que ela chorava pelo movimento das mãos, que levou ao rosto várias vezes para tirar da rota uma, duas, várias lágrimas. Ela o fazia lentamente, sem preocupação alguma em esconder que chorava. Apenas não queria estar com o rosto molhado. Ela era alta e nesse momento me pareceu mais alta ainda. Mais que todos.

Não era a única pessoa feliz ali nem a única emocionada. Mas só ela saiu de casa, pegou um ônibus com aquela roupa e aquelas sandálias surradas e pôs-se ali, na Basílica de Nazaré, com a cabeça erguida de quem sabe que tem todo o direito de estar lá. Ela simplesmente não poderia ter deixado de ir. Pelas lágrimas e pelos pés vi que aquele momento era tudo pra ela.

É certo que não chorei, mas não a esqueci tampouco.

Cristina Faraon
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