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1 de abr de 2008

O valor de uma mentira



"Naquilo que escrevemos surge o nível do nosso preenchimento, da nossa profundidade, da nossa capacidade de matar a sede do mundo. O texto é a confissão do nosso grau de maturidade. Na medida em que assimilei tudo o que vi e vivi, escrever é abrir as comportas. Confidenciar-me em público. Ou, como dizia o poeta Mário Quintana, numa entrevista: 'Eu nunca escrevi uma vírgula que não fosse confessional'". Gabriel Perissé.

É verdade. E não adianta usar metáforas, figuras cuidadosamente elaboradas, personagens-álibis. Tudo é facilmente desmascarado. Escrever é desavergonhada exposição. Ainda que se escreva o contrário, como se o texto fosse um negativo de foto. Os negativos só enganam os tolos.

Por isso demorei tanto a começar a escrever e outro tanto a mostrar o que eu escrevia. Cruel prisão. A libertação veio nas asas de uma conclusão humilhante: minhas grandes verdades ou minhas grandes mentiras não fariam diferença alguma no planeta Terra. Se tiro a roupa em público ou envolvo-me em mil folhas feito uma cebola, nada apressará ou deterá o ritmo de cada um. Quem bebe continuará bebendo, que ama continuará amando, quem está desempregado continuará aflito.

O consolo para essa libertação humilhante veio em uma nova constatação: ninguém peca quando escreve pois a mais absurda ou a mais pretensiosa mentira sempre será verdade. De certa forma podemos dizer que não existem mentiras completas.

E mais: as verdades escritas são todas suspeitas. Muito suspeitas. Já as mentiras são quase crianças de tão sinceras. Quanto mais tentam esconder, mais revelam. Você conhece melhor uma pessoa analisando suas mentiras do que suas verdades.

A única maneira de contornar o impasse da exposição involuntária é jogar verdades e mentiras, acontecimentos e delírios, tudo no mesmo saco em embaralhar bem. Até você acabar de selecionar uns e outros, separar o joio do trigo, já estarei em outra, já serei outra. Tudo o que eu escrever, com o tempo, deixará de ser eu.

Outra descoberta: o tempo é o melhor álibi.

Cristina Faraon

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