.

.

7 de jun de 2008

A descoberta da escada - uma nova paixão


Bem que eu desconfiava mas ontem tive certeza: alguma mudança se não assustadora, certamente curiosa esteve operando em mim, na surdina. A que se deu? Sei lá. A última hipótese é velhice.

Ontem abri meu armário e tirei uma embolorada fantasia de "Mulher Animada". Plano: assistir o show do Roupa Nova. Sono, preguiça, vontade de não ver a cara de ninguém mas fui forte! Sou forte! Sou uma mulher ou um rato?
Não vou resumir minha vida a ganhar o pau - digo, o pão de cada dia. Nada disso. Diversão é preciso e se eu estava desanimada, lá eu seria energisada com certeza. Muita fé nessa hora
Fui. Na pista. Uma hora e meia em pé antes de qualquer acorde ser tocado. UMA HORA E MEIA DE PÉ!
Os caras de preto tiveram o dia inteiro para arrumar o palco mas resolveram faze-lo quando o público começou a chegar. Sei lá, devo andar desatualizada. Vai ver que faz parte do show, pra criar clima, expectativa. É, devia ser isso.

Hordas de gente feia (desculpaê!) entrando resoluta no salão, tomando cada recanto, cada palmo de chão e se apossando de cada pedacinho de ar, respirando-o gulosamente e devolvendo tudo já fungado para a atmosfera. Credo!
Ninguém os detinha. Todos sorriam mas dava medo assim mesmo. Uma minoria tinha mais de um metro e sessenta. Melhor pra mim.

E a hora passando. E o calor aumentando. E a banda que eu pensava que iria anteceder o Roupa Nova que não aparecia? Cadê a banda "pré-show?" perguntei inocentemente. A "banda" era a música eletrônica que já estava "tuntunzando". Ah tá.

"Tudo bem, estou animada, estou animada, estou animada, não estou com sede, não estou com sede, não vou fazer xixi, não quero ir ao banheiro, não quero, não quero, meus pés não vão doer, meus pés não vão doer..." Aproveitei o tempo vago e o espaço exíguo para repetir essa reza desesperada.

TUM-TUM-TUM!... Ah que legal. Maior clima... Não parava de entrar gente. Foi ficando abafado. Depois de alguns minutos já podíamos cheirar o suor dos nossos companheiros e sentir seu hálito quando falavam, tal era a proximidade entre nós. Calor humano e calor desumado se misturavam. E eu pagando por isso.

Enfim, depois de muita espera eles chegaram. Aplausos! Gritos! Pulos! Mas minha bateria já estava pela metade. Achei mais sábio ficar quietinha mesmo.
De onde vinha aquela alegria insana? Será que aquele povo estava animado mesmo ou era só onda? Se estavam, a esquisita era eu, certamente. Mas eu não quero ser esquisita!
A multidão entrou em extase quando surgiram os artistas: uns simpáticos senhores com pouco cabelo. Uns amores! Cantavam, tocavam, dançavam, davam palavras de ordem... Só faltou fritarem tapiocas do palco e tirarem a roupa.

Meu Deus, que baruho infernal! O som estava regulado na letra D de Desumano e ninguém achava estranho. A vida é assim?
E eles mandavam para o público gritar, pular, levantar as mãos... Por que? Que estranho ritual era aquele? Nao tava bom a gente apenas pagar e ouvir? Ainda tinha que participar naquele contexto apocaliptico?

Limitei-me a sorrir e a balançar um pouco meu corpo exausto para nao parecer uma estátua, mas em dado momento me perguntei: o que está acontecendo comigo? Não consigo encontrar o motivo para aquela animação. O que é que eu to fazendo aqui?!

O grau de exigência do povo paraense é absurdamente baixo. O ambiente estava tão lotado que era mais fácil você morrer de sede do que atravessar o salão para comprar uma bebida. Além disso só de pensar que em quinze minutos eu teria que lutar com a multidão para ir ao banheiro, passava a sede e a... parava com suas exigências.

Horas de pé, um calor insuportável, o volume insano do som, pessoas me apertando, esbarrando, roçando, abanando o cabelo na minha cara... É a isso que chamam "ir para a night" ? Isso que é curtir muuuuito o fim de semana?
Sou de Marte.

Eu olhava as pessoas, via os sorrisos e pensava: tá todo mundo fingindo, só pode ser! Claro, pagaram o ingresso e não querem ficar com cara de enterro para serem chamados de chatos pelos amigos. Não é possível que não sestejam sentindo o suor escorrer até o umbigo, as costas doerem, o esfrega-esfrega.

Velhice? Mas haviam velhinhas lá que me pareciam animadas. Mais estranho ainda.

Sei lá, acho que durante alguma noite de lua cheia e janela aberta um ser peludo e dentuço chupou minha alma - e não foi o Nelson. A especialidade dele é outra.

Eu queria tanto me divertir! Mas me senti um peixe fora dágua. Não digo isso me referindo as pessoas mas ao desconforto.

A melhor parte do espetáculo foi quando saí do salão e sentei na escada, do lado de fora. Que maravilha, que anatômica! Nunca pensei que uma escada pudesse ser tão confortãvel. Estou até pensando em espalhar escadas pela minha casa: na sala, no quarto, no banheiro, no escritório... Para dormir, descansar, estudar, fazer refeições... tudo na escada. Transar na escada! REceber amigos na escada! Ler na escada! Meditar na escada!
E que tal lançar um sapato cujo salto seja em formato de escada? Conforto absoluto, sucesso total!

Vou patentear a idéia. Picadilly que se cuide!

Cristina Faraon
Postar um comentário