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29 de dez de 2008

Jesus Luz & Madonna - Um conto


Claro que havia expectativas em relação a ela. Se eu dissesse o contrário a mentira seria mais tola do que a verdade de dizer que tive crises de ansiedade no primeiro ensaio que soube que ela estaria presente. Nem precisava porque sequer cheguei perto. De longe ela nada mais é do que o que se vê em fotos e telas. Surpresa nenhuma.
Um dia ela chegou perto e falou comigo. Assim, sem mais nem menos.

Conversamos rapidamente na frente de todo mundo. Depois fui ao seu camarim. Acho que ninguém viu mas também não me demorei.




Como é Madonna de perto? Ela é como eu pensei que fosse. Fisicamente não houve surpresa alguma. A surpresa foi por conta de eu descobrir que jamais havia pensado nela de outra forma que não fosse fisicamente. Não parecia ser nem mais jovem nem mais velha, mais bonita ou menos bonita, gorda ou magra. Era como eu achava que fosse por fora e isso quase me surpreendeu porque de um modo geral os popstar nunca são como pensamos.



Ela há muito passou do tempo de se importar em ser vista sem maquiagem. Estava ali, alvíssima e segura como a lua. O que vi em minha frente? Vi a lua surpreendentemente maternal como jamais pensei que fosse. É assim que ela é: clara e forte, imperturbável ao ser longamente fitada. O olhar permanece azul e profundo e nesse momento balancei.


Tocou em meu braço e dei-me conta de que me perguntava algo sobre a festa, sobre o pós-show. Gostou do meu braço, olhou-me. Tive vontade de abraçá-la e na despedida abracei. Me senti pequeno e aconchegado. Foi rápido mas adorei seu cheiro. Queria sentir mais.

Como um carinha como eu poderia ser enxergado como pessoa por uma mulher como ela? Como chegar naquele coração? Mas... para quê chegar naquele coração?

Nossas vidas são pontilhadas de instantes, alguns muito especiais e todos eles têm a vocação da efemeridade. Conhecedores da sua volatilidade, afligimo-nos. O que é eterno não precisa ser pontuado porque cobre uma vida toda mas os instantes especiais desaparecem como fadas travessas, duendes, aparições. Precisamos segurá-los bem firme e olhar em seus olhos por mais tempo antes que sumam para sempre



Madonna... ela é delicada. E o mais surpreendente: tem um quê de maternal até então impensável. Não sei se é no jeito de falar, de olhar... não sei explicar. Tem um aconchego assim, de mãe mesmo, que chama a gente para o meio dos seios com uma autoridade irresistível. Seu olhos são profundos, quase melosos e contrastam com a figura autoritária que a gente vê no palco. Soube muito de sua vida tão somente olhando dentro deles. Oceano.

Quero levar-lhe alguma coisa hoje a noite. Um pequeno momento eterno. Para ela poderá ser banal mas para mim não.










É cansativo mas as exigências de um mega show, ao contrário do que pensam, me ajudam demais em momentos como esse. Uma separação... Muito melhor não pensar nisso. Essa semana mais do que nunca vou me dedicar aos ensaios, a cada detalhe do que for preciso. Quero dormir exausta sempre. Só preciso dormir bem na véspera da apresentação.



Hoje conheci um rapaz - um modelo. Lindo como tantos outros. Senti que ele não se aproximaria se eu não tomasse a iniciativa. Foi o que fiz. Por que fiz? Porque estou tensa, porque estou cansada, porque posso, porque ele é lindo e jovem e cheio de vontade de crescer.



Conversamos rapidamente em meu camarim. Banalidade: nome, você conhece os EUA? Aceita uma cerveja? Gostei do jeito que me olhou. Geralmente esses meninos colocam-se na posição de mercadoria. Esse apenas me fitava e sorria de um jeito despretensioso, como se estivesse tranquilo com a idéia já certa de que não havia como nascer dali alguma coisa maior, um relacionamento. Olhava-me apenas atento a princípio. Depois, pareceu-me, já com crescente simpatia. Em alguns momentos pareceu-me lamentar que não palmilhássemos as mesmas estradas na vida, só aquele breve cruzamento.



Novo, muito novo para ter notado tão de pronto que jamais me apegaria a ele. E no entanto ele é lindo, tão lindo quanto pode ser uma pantera que escolha livremente deitar em seu tapete e partir para a selva tão logo deseje. Infinitamente mais livre do que eu.



Jovem e quente e duro. Claro que o desejei. Claro que seria meu. E claro, ele iria gostar sim.



Estivemos juntos outras poucas vezes, brevemente, antes de estarmos a sós.

Não é justo olhar um homem como um animal de estimaçao mas eu assim o vi. Mas me redimo porque esse olhar sobre ele não foi gerado no sentido caprichoso do termo mas da melhor maneira que se possa entendê-lo: na paixão que nos desperta a idéia da beleza selvagem capturada e usufruida dia e noite sob os olhos, ao alcance da mão. Quem nunca desejou apanhar um tigre, tê-lo, brincar com ele?

Ele não esperava nada de mim. Gostei disso também. Eu não esperava que ele conseguisse me comover - mas conseguiu.



Quando por fim descansei em seu torax enorme ele me falou, como todos falam, de suas primeiras impressões a meu respeito. Ri de sua ingenuidade ao contar que se surpreendeu ao encontrar em mim um "ar maternal" marcante e bonito. Que homem diria isso a uma mulher mais velha sem pedir desculpas logo em seguida? Mas ele disse, e com tanta graça e sinceridade que comoveu. Ele viu em mim o que penso ter de mais importante, o que mais prezo. Foi o maior elogio que um homem poderia me dar.

Levantou-se e vasculhou os bolsos de seu jeans. Voltou com um minúsculo pacote de presente. Não me entregou. Ele mesmo abriu e de lá tirou uma finíssima corrente de ouro com uma pequena imagem da Madona com a qual circundou meu pescoço. Nesse movimento senti seu hálito novamente. Essa imagem já possuía um significado enorme e lagrimei. Ando especialmente emotiva esses dias.



Estaremos juntos no Ano Novo. Não se trata de um romance. Não se trata de nada que não seja um hoje no qual preciso estar com alguém que não faça planos nem peça "presentes" para estar comigo; que não meça as palavras e que daí acabe dizendo sem querer coisas que me acalente o coração. Alguém que veja em mim a mãe que tanto prezo, que pensei que ninguém mais visse. Por fim, que entenda que preciso descansar minha cabeça em um peito assim... como um barco moreno perdido no oceano azul.



Cristina Faraon







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