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10 de dez de 2011

Tchaikovsky


Estou ouvindo Tchaikovsky e nesse momento me ocorre que passei tempo demais saindo de mim. Passei tempo demais fora da caverna, andando por entre as rochas, curiosa pelo mundo exterior. Está na hora de voltar. O mundo exterior simplesmente não existe. São projeções da mente. O mundo exterior não passa de uma enorme tela branca na qual são projetadas as loucuras do mundo. São cortes dos filmes rejeitados por Deus, que foram unidos em uma única película apócrifa.  A verdade está plantada nos meus porões úmidos, nas paredes, em cada traça outrora desprezada.

A melhor das realidades me habita, serena. Está aqui  o melhor que posso oferecer a mim mesma em termos de intensidade. Nada poderá ser mais profundo do que isso, que é evocado quando me aquieto e me deixo tocar. É o melhor da realidade-real, da realidade virtual e da paralela. É o melhor da dor, o melhor da saudade. É a certeza absoluta de ter vivido e ter valido a pena, é ver a riqueza. Aqui guardo o que tento compartilhar mas não consigo. Jamais conseguirei, mas o que me brota me faz tentar.

Viver plenamente é tentar fazer isso e não conseguir. É como prender a respiração para viver o fundo do mar, mas ser obrigada a emergir. Mas é essa tentativa frustrante que cria toda a beleza. As artes são emanações dessa aflição do espírito.

Faz tempo que não ouço essas músicas. Sou profundamente afetada por elas. Sou sugada para dentro de mim mesma como que por um ralo fatal. Nesse momento deixo de ser produto. Redescubro a mim mesma e me amo numa poesia de auto suficiência.

A emoção é estar junto de alguém e entender - erroneamente ou não - que se está viajando no mesmo balão.  Esse é o sentido da vida: viajar no mesmo balão sem ter medo de dar de encontro com as rochas imensas.

Voltei a ser criança, a usar meias brancas com sapatos de verniz. Estou encantada por subir pela primeira vez no palco do Teatro Municipal. Vou reencontrar minha mãe, meus padrinhos, meu pai, todo mundo que já morreu. Vou recuperar todos os cheiros, as bonecas quebradas, o suor dos meus irmãos brincando no quarto.

Não quero voltar.
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