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20 de mar de 2012

A vida alheia - segunda parte


Digam o que disserem, mas nenhum assunto é mais empolgante para a maioria das pessoas do que a vida alheia. Se é assim, por quê criticam tando quem se ocupa desse esporte?

Sabemos que toda investigação anda mais rápido quando há uma equipe raciocinando junto. Sim, mas é aí que nascem as fofocas e é justamente isso o que indigna as vítimas os investigandos.

Fofoca é o subproduto de uma atividade muito instigante e saudável, que é tentar decifrar a vida dos outros. Tentar entender é um exercício mental muito positivo: "o barulho que vem de lá é briga, reforma da sala ou sexo selvagem? A empregada foi embora porque os patrões estão falidos? Bem que eu desconfiei, mas vocês viram o carro que eles compraram?  O adolescente da casa é um maconheiro que vive no mundo da lua ou um nerd, um gênio incompreendido? E é verdade que ele está saindo com a vizinha do 201? Por quê? Onde será que anda aquela namorada sonsa dele?  Sempre achei aquela garota meio estranha..."
Portanto o mal não está em investigar: o mal está em deixar vazar informações sigilosas, principalmente quando não se tem certeza se são reais. A vida alheia é uma investigação em construção, em andamento. O que hoje parece que é, amanhã pode estar fora de cogitação. Quem investiga deve segurar muito firme o impulso de compartilhar com o mundo as suas conclusões. A vida dos outros é uma novela sem fim. Mesmo quando a vítima  pessoa observada morre a investigação tende a continuar inclemente.

Fofocar é algo como estudar uma nova epidemia mas deixar escapar o vírus do laboratório. Terrível!

Então está na hora de sermos justos: enquanto o vírus estiver quietinho no laboratório, não há nada de criminoso em brincar de Big Brother com ele. Reclamar que tem gente que só se importa com a vida dos outros é o mesmo que reclamar porque chove ou faz sol: não muda nada. Ninguém vai abandonar a atividade, ainda mais se você vive oferecendo material para análise.

Viver protestando pela bisbilhotice alheia só piora as coisas. Quanto mais aborrecido você fica, mais digno de observação você se torna.  "O quê será que ele está tentando esconder?" Ou "o vizinho está com raivinha - hi hi hi!"   Resigne-se.

Só há uma maneira de minimizar o interesse dos outros pela sua vida: é expondo-a tranquilamente - que é justamente o que o sujeito discreto não quer fazer. Você tem que escolher: ou sua vida é um Big Brother ou é uma trama a ser desvendada, uma espécie de Medical Detectives.   Se os outos se convencerem de que você é um pobre chato, quadrado e sem sal, logo logo vão te deixar em paz. O problema é que ninguém quer viver uma vida indigna de uma fofoca. É o fundo do poço!

Se sua existência é minimamente interessante e se você nunca dá satisfação dos seus atos pra ninguém, considere-se um prato cheio. Sorry!


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