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20 de fev de 2014

Caminho inverso


Talvez eu tenha errado muito quando decidi viver só da verdade e desprezar todas as ilusões.  Cá pra nós, foi uma decisão muito pretensiosa.

Reanalisando a questão noto que as ilusões são o que temos de mais palpável na vida. É fácil rotular uma ideia como "ilusão".  Não há tanta dificuldade em detectarmos uma ilusão se esgueirando pelo ambiente mas e quanto aos outros rótulos da vida?   Tudo o mais é uma complicação definir.

Só enxergamos bem os nossos próprios sonhos. Podemos passar horas explanando nossas utopias, previsões e miragens. Temos esquemas, plantas, fotos, tudo arrumadinho. Sim, hoje é um daqueles dias em que declaro resolutamente que não há ambiente mais claro do que o lado de dentro da nossa cabeça.

Não sei explicar nada sobre o prédio que está ali na minha frente. Asseguro que é feito com concreto, tijolos, ferro e financiamento da Caixa. Nada mais. Também nada sei sobre meu celular, minha geladeira, a cadeira, o asfalto. Notem que o "mundo concreto" é absolutamente misterioso e cheio de surpresas. Tudo é composto por uma infinidade de moléculas irrequietas e temperamentais: no frio se comportam de um jeito, no calor de outro, na altitude têm uma personalidade, debaixo d'água já mudam a cara. Como se isso fosse pouco, costumam associar-se com outras e fazer combinações inimagináveis. Quem pode com isso?

Nem preciso do mundo inanimado para me sentir perdida: sou uma desinformada quanto aos travestis da esquina, as elucubrações dos políticos, os sentimentos caninos ou os caprichos das plantas.  Mas aqui, dentro da minha cabeça, tenho um mundo bem mais exato e compreensível. Por que abrir mão disso e privilegiar uma objetividade exterior que, no final da contas, não existe?  Meu mundo interior é mais claro, estou mais ambientada. Por ele caminho no escuro, sem acender a luz nem tropeçar nos móveis. Meus sonhos, lembranças e impressões estão organizados em estantes, acessíveis e em linguagem corrente. Com o equipamento certo eu poderia projetá-los na parede da sua sala!

Por isso decidi que vou fazer o caminho inverso: voltar atrás, revirar a lata de lixo e pegar de volta todas as ilusões que eu havia jogado fora.  Chega de arroubos.  Vou resgatá-las, dar uma boa espanada e readmiti-las no aconchego seguro da minha caixa craniana.

Cansei da "objetividade fluida" do mundo físico. Volto a recolher-me, em mim mesma, qual sábio jabuti.
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