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10 de out de 2014

Vil preconceito


Mal tenho coragem de me olhar no espelho depois de pensar os pensamentos que pensei. É implacável a voz da minha consciência. Ela me acusa porque num dia desses acalentei idéias inacreditavelmente preconceituosas. 

Um dia desses eu estava purgando parte dos meus pecados em uma sala de espera de um consultório médico. Em dado momento vi entrar uma moça muito jovem. Linda, a ponto de,  mesmo baixinha e muito mal vestida, chamar a atenção. De onde pode ter saído aquela princesa rota?

Rosto delicado, pele branca, olhar calmo, mas lábios atrevidos. A boca denunciava a quantidade de hormônios que já estavam instalados e fazendo exigências.

Com a devida produção aquela menina seria cantada em versos e prosa. Poderia estar na televisão ou em qualquer revista. Que jovem! Que pele!  Que rosto! ... E que pobre!

Que garota esculhambada!  Uma vez bem cuidada, teria munição para dilapidar os bens de qualquer marmanjo. Um Jaguar lhe cairia muito bem. E ela atenderia seu celular com as mãozinhas rosadas, unhas transparentes e um adorável ar de enfado. Seria cortejada por empresários tarados e endinheirados - porque tarado pobre ninguém merece. Pois é, eles seriam mantidos em coleira ou devidamente empilhados no freezer. Em sua bolsinha Louis Vutton seriam encontradas quinquilharias graciosas, inúteis e caras.

É, ela demoraria a amar. Mas casaria certamente, pouco depois dos 30, já farta de romances e festas e ainda muito bela. Seus dois filhos seriam paparicados por babás solícitas dia e noite. Essa mãe dourada ensinaria canções em francês aos pimpolhos durante as sessões de massagem. E é claro que não se exporia ao sol nuncajamais. Manteria para sempre sua pele lunar. Com o passar do tempo viraria uma doce senhora, calma e enigmática, cheia de segredos da juventude.

Puf!! Vida real agora:

Pois lá estava ela com a pele ainda lisa, é bem verdade, mas picada de mosquito. Uma mini saia vulgar, um par de chinelos chinfrim, top vagabundo amassando os peitos e mostrando a barriga pálida para quem quisesse ver.  E aquela cara meio boba de quem não sabe nada da vida mas já sabe o que é homem. No ponto ideal para ser iludida, comida, fecundada e passada pra outro. E os cabelos? Compridos, ressecados e estranhamente alaranjados. Meu Deus, nem shampoo que preste ela pode comprar! E unhas roídas. Mas é claro que o "Zequinha da Taberna" ou o "Bira das Pupunhas" não se importam com essas sutilezas. Os Zé-Qualquer do bairro não enxergam nada além de um magnífico pedaço de carne fresca pronto para ser inseminado.

Aquela menina deve ser implacavelmente assediada, dia e noite, noite e dia por todos os machos das redondezas. Que lástima imaginá-la com sua juventude encurtada pelas vicissitudes da vida, pelos maus romances, pela má postura, pelos partos sem cuidado!

Eu, no alto do meu inimaginável preconceito, usei da minha bola de cristal para prever que o destino mais próximo seria embarrigar. Com certeza. Quem, naquela idade, com aquela aparência, naquele bairro e vestida daquele jeito deixaria de engravidar? E como, Deus do Céu, naquelas condições ela continuaria sendo bela aos quarenta anos?

Sim, eu sou um monstro.

Você está me achando abominável, não é?  Pois esqueça essa postagem e não diga a ninguém que eu escrevi. Não vou nem assinar.

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