.

.

6 de out de 2014

O samba


Sinto-me um pouco diferente dos outros quando me comovo com coisas "incomovíveis". Talvez eu esteja meio "deprê" sem saber. A gente não percebe que está "deprê" enquanto não encontra um fato que justifique a situação. Como se fosse necessário uma justificativa...

Gosto tanto de um bom samba, mas tanto tanto, que me comovo.  Verdade: eu choro.

Não é todo mundo que vê o samba como uma coisa "de alma". Para a maioria das pessoas samba remete a festa, amigos, risos, cerveja, malandragem. Pra mim também, só que com mais uma coisa:  com uma farpa no coração.  Como já dizia o Vinícius: "O samba é a tristeza que balança."


Pois ouvindo um lindo samba dia desses no carro, senti meu coração se esforçar pra bater junto, pra se expressar também. Meu corpo pedia pra fazer parte, e naquele balanço todo a minha alma se acordou. Lagrimei. Por causa daquela belezura toda, tão morna e convidativa. Uma alegria/triste que o coração entende tão bem! O samba é muito humano.

Quem não percebe a dorzinha escondida lá no fundo da cuíca é porque não entendeu nada.  O samba só se mostra pra quem percebe, por baixo da sua ginga e da malandragem, o ponto fraco: a dor amaciada pela música.

Mas o samba não é comovente só por ser bonito. Ele é a expressão dos que sofreram mas não baixam a cabeça. Ele é o padrinho de todos aqueles que apesar de tudo não desmarcam o encontro com os amigos, erguem a cabeça e entram no ritmo sem nem pensar como vai ser depois. Porque o depois cuida de si mesmo. O depois não nos pede permissão nem opinião. O depois se vira sozinho. O melhor a fazer é cantar, falar de amor e sorrir. O que comove no samba é essa imagem, esse sentir. Porque quem canta enquanto sofre também é capaz de qualquer outra valentia.

Sim, o samba é a tristeza que balança.

Acho que por isso o samba nasceu no morro, no meio da dificuldade, entre pessoas que, afinal de contas, cantavam. Samba de rico não tem graça nenhuma porque, por sua natureza, ele não remete a brilhos que não venham do Carnaval. O choro do sambista é o batuque, que fala certinho as coisas do coração.

Até a sensualidade do samba é uma sensualidade especial: forte, resistente, teimosa, que brota em ambientes inóspitos e sem reboco. É a lavadeira suada e sem maquiagem despertando os desejos mais vigorosos só com o suave meneio dos seus quadris. Sem jóias nem luxo nem lençóis de seda. Tudo muito verdadeiro, gostoso e fora da indústria. O querer porque quer, só porque ele é homem e ela é mulher. Pois por isso o samba remete aos vencedores no sexo, porque é capaz de falar  até "naquela boca sem dente que eu beijava". Fala também  no barracão de zinco, na lata dágua, na panela de feijão e na cabrocha inesquecível que "pisava nos astros distraída". então a gente batuca, ri e danta, mas com aquele nó na garganta que só os fortes conhecem.

"Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós!"


Samba tem que ser coisa de preto mesmo. Peço desculpa aos brancos, mas branco cantando samba não é a mesma coisa. O samba é patrimônio preto no Brasil tanto quanto o blues é patrimônio preto nos Estados Unidos. Porque lá o blues fala das mesmas coisas pois também nasceu na dor que se torna poesia. A alma do samba é a mesma do blues. São irmãos separados na maternidade. Cresceram distantes mas, no final das contas, têm o mesmo coração.

Pois chorei - chorei mesmo! - no carro. Chorei porque samba é lindo e eu percebo, eu entendo.
Postar um comentário