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12 de nov de 2014

Verrugas

Gosto de passear no shopping. Esses dias repeti a dose só pra ver as novidades e submeter-me às tentações. Não fui tentada. Por instantes adorei acreditar que evoluí.

Pensei em meu "antigamente": como me agitava frente às vitrines! Queria adquirir, adquirir, adquirir. Era extensa a lista do que eu achava que precisava. E hoje?

Hoje só me pergunto "pra quê?" 

Sonhava com jóias como se fosse possível ser contagiada pela beleza bastando tão somente cercar-me dela.  Desejava jóias. Todas pareciam ter sido feitas para mim. Era tão natural a idéia de que fossem minhas! As joias tem que pertencer a quem as deseja. Se seus olhos não brilham numa joalheria, então você não merece ter jóias.

Ainda gosto de jóias. São bonitas e nada mais. E nas poucas vezes que ainda me detenho diante de uma vitrine não consigo deixar de ouvir aquela voz a perguntar "pra quê?"

Essa perguntinha que desconstrói tem brotado em vários prazeres antigos. É como uma espécie de verruga que brotou em todos os alvos da minha cobiça.  Está tudo "enverrugado".

Pra quê eu gastaria tanto com uma coisa que não vai me deixar mais bonita nem mais magra nem mais jovem nem mais inteligente nem mais querida, só mais enfeitada e com menos dinheiro?

Tempos atrás seria absurdo alguém me desafiar com essa  indagação. A resposta me pareceria tão óbvia! Ora, "pra que sim!"   "É bonito e deixa as pessoas felizes. Isso não é suficiente?"  Pois agora isso não faz mais sentido nenhum para mim.

Vários anéis não deixariam minhas mãos mais delicadas por mais bonitos que sejam. Pra que servem então?  Colares, vestidos, sapatos... Já tenho tantos! Bolsas, coisas de griffes... tudo em cima da mesma carcaça inalterável. E enquanto penso isso me vem à mente uma imagem grotesca de mim mesma. Me sinto mal.

Não abandonei de vez as vaidades. Ainda faço compras só que são bem menos frequentes. Mesmo assim quando chego em casa e olho os pacotes noto em todos eles essa estranha  "verruga" pendurada a lhes tirar todo o charme. Quanto dinheiro jogado fora! A quantos desconhecidos tornei mais ricos! A quantos necessitados ignorei!  Então defendo-me. Saio do meu lugar e corro em direção a mim mesma, para acudir-me do achincalhe. Esse festival de acusação não pode prosperar. Declaro então perante o tribunal que "- Pequenas tolices permitidas deixam nossa vida mais divertida. A quem interessa que a civilização humana se componha de zumbis cinzentos vagando pelo mundo só para trabalhar e esperar o dia da morte? O dinheiro que uso não é roubado, é fruto do meu trabalho honesto. Por que não posso ter prazer em meio a tantos desprazeres? Porque preciso me condenar a viver em preto-e-branco? "

Ótima defesa. Convenceu.  Volto pra casa de cabeça erguida deixando aquele tribunal mofento e carrancudo para trás. Mas enquanto piso duro em retirada não consigo deixar de perguntar a mim mesma se essas mudanças pelas quais estou passando representam crescimento ou baixa auto estima? Crescimento ou culpa vazia e inútil?

O que faço com essas verrugas?
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