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14 de fev de 2015

Solução final

Embora gerados durante o dia, sem dúvida eles são seres noturnos. De noite é a hora em que respiram e finalmente olham para o céu. É a hora da viagem, a hora de partir para outra.

Passo de carro, distante e perfumada. Sou o oposto deles. Observo-os tristes, cinzentos, desistentes. Todos "penteados para morrer" com um ridículo "pitó" no alto da cabeça. Uma idignidade.

Estão azedos, empanturrados. Foram postos para fora às pressas. Uma vez paridos, incomodam.  Não pediram pra existir.  Chegaram a acreditar que guardavam relíquias mas descobriram que são apenas o excremento, aquilo que ninguém mais quer. 


Ali estão, à beira da calçada, como quem espera o trem para o campo de concentração. Serão submetidos à "solução final". 

Cansados e sem nada a dizer uns aos outros, esperam. Estão doloridos mas olham o nada sem reclamar ou pedir alívio. Talvez ainda guardem uma esperançazinha de reciclagem. Uma nova chance - quem sabe? 

Juntos, espremidos na calçada, não conversam entre si nem fazem perguntas. Não há curiosidade, só medo e cansaço. 

De dentro do meu carro me pergunto se eles sabem para onde estão indo. Há uma silenciosa e triste expectativa. 

Ajuntamento de mães-sem-filho, de velhas doentes, de trabalhadores inutilizados... Assim se parecem. Amparam-se uns nos outros com suas sujidades. Desvalidos.  É possível vê-los infalivelmente ali, nas calçadas, com suas olheiras e papadas.

Um barulho! Breve comoção. Não, nada de nave espacial. Só um caminhão sujo que lhes abre a  boca. Então embarcam um a um, úmidos da noite, em conformado silêncio. Eles sabem do que se trata mas aceitam ir.  Preferem ir

Morro de pena dos sacos de lixo.

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