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10 de abr de 2015

Dois pombos

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Acometida por ...   aquela sensação interessante de que estou em um dia diferente onde coisas fatais acontecem. É tudo velado, pouco perceptível. Os brucutus não entendem. Quanto a mim também nada vejo, mas intuo. São muitos os sinais: a sensibilidade da pele, o arrepiar das pontas dos cabelos, a rota suspeita do vento na contramão, os sustos que os gatos levam.

Hoje temos diante de nós uma manhã nublada para testemunhar tudo isso. Esse cinza todo, por si só, já é suspeito. Não me pergunte de quê porque ainda estou analisando. Estado de alerta... Dia nublado é ocasião em que arredam para o lado o sol bonachão e estabanado porque agora a coisa está ficando séria.

Está tudo suspenso, "pausado". Isso faz todo sentido para os sensitivos. As pessoas comuns continuam ocupadas com cafezinhos e celulares. Não podemos contar com elas.

O importante é o seguinte: quem percebe está a salvo.

Consciente desse aviso observei, na avenida, dois pombos descendo em diagonal do alto do poste até o paralelepípedo.  Vieram em câmera lenta em perfeita dessintonia com os demais.   De poucas cores e pouca conversa, eram quase gatos.  Capturaram minha impressionável atenção, motivo pelo qual deixei de lado considerações mais leves. Eles queriam me dizer algo, deixar claro que estavam ocupados com ... coisas.  Ventos, vibrações, energias nervosas, esses lances fatais acontecendo por aí. Coisas!  Se pudessem fariam ao mundo anúncios rasgados mas estavam por demais cônscios de que nenhum som inteligível sairia dos seus bicos. Navegavam assim, pelo céu, da forma mas suspeita que conseguiam, pra chamar nossa atenção.  Registrado, brothers!

...e  então pousaram muito contritos no asfalto. Peito estufado e olhar ansioso procurando outro olhar ansioso ainda que em peito menos estufado. Ninguém quer ser profeta solitário. E eu nessa hora não pude pensar em nada que fosse ameno. Como poderia? Ainda mais com a Katty Lester cantando "Love Letters" daquele jeito suspeito. Vocês sabem que quando ela canta assim é melhor presar atenção.   A letra fala de cartas de amor mas todos sabemos isso é só subterfúgio.  Aquele acompanhamento marcado, cardíaco, divorciado da letra, captura nossas convicções para o fato de que o assunto é bem outro. Entenda: toda melodia divorciada da letra é uma mensagem cifrada, geralmente nostradâmica,

Já vi dois filmes em que nas cenas mais fatais emanava exatamente "Love Letters" profetizada pela Katty Lester. Cada palavra, pronunciada com perfeição, deixa a gente em estado de alerta. É como se ela risse porque enquanto os tolos se prendem à letra, o mistério está justamente na cadência estranha.

Dia nublado... pombos contritos... e Love Letters. É muito material para a minha imaginação! Vou andar devagar e atenta. Sinto-me perfeitamente sintonizada com avisos subliminares e outras coisas fatais.
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