.

.

1 de out de 2015

Mágoa & Ódio



A gente não dá muita atenção à mágoa. Normal. A mágoa, como personagem desse teatro fétido que é a vida, é um dos personagens menos exigentes; não fala muito e raramente confronta.  Damos muito, mas muito mais atenção ao ódio. 

O ódio é explosivo e sabe se fazer notar. Ele simplesmente aparece mesmo quando não quer aparecer.  Os resultados do ódio são óbvios até aos olhos mais desatentos. Mas a mágoa ... A verdade é que não levamos a sério nada que pareça poder ser adiado infinitamente.  Se dá pra empurrar com a barriga a gente empurra e finge que pode continuar fazendo isso para sempre. 

A mágoa vai corroendo por dentro até não sobrar mais nada da estrutura original.  Posso comparar assim: é como se o ódio fosse um tremendo soco na cara enquanto a mágoa seria um câncer. Há mil analgésicos que podem funcionar por anos, de forma que é fácil fazermos de conta que não está doendo.  Se temos um "câncer-mágoa "somos capazes de sorrir, passear, manter relacionamentos. Nós escondemos "a coisa", disfarçamos, fingimos que não está lá porque se olharmos em seus olhos a vida nunca mais será a mesma. Aí sim ela exigirá uma resposta. Mas não queremos respostas, queremos apenas manter a vida que amamos até que... Até que realmente não seja mais possível.

Enquanto driblamos a mágoa ela continua seu trabalho silencioso e implacável de corroer com dentes de aço, de dentro pra fora, os mais lindos palácios que conhecemos. Não deveríamos brincar com a mágoa. 

O ódio não aceita panos quentes nem nhém-nhém-nhém.  É tudo para já, sem adiamentos. O ódio sofre muito em ser adiado - a mágoa não. Ela aceita todos os consolos e adiamentos e lero-leros. Ou melhor: finge que aceita! Enquanto isso ela vai crescendo até explodir. E enquanto ela finge que aceita os despistes, o que a outra parte faz? Geralmente magoa de novo. Só porque acha que dá, acha que pode. Só porque não vê resultados imediatos da sua ação. Então mantém a postura magoante de novo e de novo porque jura que está contornando a situação, que está tudo está sob controle. Mas não, não está. 

Há algo de profundamente masoquista na mágoa. Ao contrário do ódio, que é sádico. A mágoa dói nas primeiras vezes mas depois passa a gostar do jogo. Então ela até se expõe de novo e de novo. No fundo a mágoa queria ser ódio, mas não consegue. Por isso se expõe assim como o sujeito brigão bebe: pra criar coragem. Sim, às vezes a mágoa quer ser magoada porque sabe que ela mesma é uma bomba de efeito retardado. Para adiantar o resultado é necessário encurtar a história, encher logo a medida. A mágoa então se compraz em ser insuflada porque no fundo já percebeu que todo o sistema está condenado, então nada mais bem-vindo do que apressar o fim. 

Você pode contornar uma explosão de ódio mas a explosão da mágoa é irremediável, fatal e definitiva. Vem como cachoeira que cai porque quer cair, como o prédio que desaba porque quer desabar e se diverte com o fato de que ninguém pode frear a situação.


Resumo: se for para magoar magoe logo, magoe muito e repita o lance. Faça o serviço bem feito porque quem não aprendeu a odiar precisa disso para explodir.
Postar um comentário