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22 de fev de 2016

Maré mansa

Aquele momento na vida em que nenhum lugar é mais desejado do que a casa da gente. Não me convide pra nada hoje, please. 

Meu Deus tô ficando velha! 

Sentindo um prazer enorme em ver o apartamento arrumado, tudo cheirosinho em seu lugar, eu indo do quarto pra sala, da sala pra cozinha, vagabundando de camiseta e calcinha e ninguém enchendo o saco. Meu bairro é silencioso. Olho pela janela e vejo só vejo prédio, retalho de céu, nuvens, antenas e passarinhos pretos; e o terreno baldio onde, nesse momento, milhares de famílias de mosquitos estão se estabelecendo alegremente. Não quero me preocupar com isso. Aqui dentro está tudo ok e eu não desejo sair daqui por nada. Meu mundo, minhas regras. Uma placa: proibida a entrada de mosquitos. Resolvido. 

Não saio. Nem para ir ao cinema. Nem para fazer comprinhas. Encontro-me absolutamente contente, de cabelo e cara lavados, sentada na cama com o notebook no colo. Vez por outra olho o espelho do armário e olho para mim mesma. Às vezes sou minha melhor amiga. Não preciso sorrir.

De repente um breve suspense: será que esqueci de algum compromisso hoje?  Pego rapidinho a agenda e... tudo bem: dia livre confirmado. 

Estou contente e aconchegada em meu lugar seguro, embora eu não possa me livrar completamente daquela sensação de que depois da bonança vem a tempestade. É uma maldade do cérebro ter que me lembrar que ninguém vive na boa para sempre e a gente tem que estar esperando uma bordoada da vida vez por outra. Mas depois penso nisso. Se tiver sorte a bordoada virá por conta dos mosquitos. É a coisa menos cruel que eu consigo imaginar para quebrar essa maré mansa. 



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