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18 de fev de 2016

A estrela e a lontra

O tempo passa. Tudo bem, todos sabemos disso.  Um tanto deprimente é quando um acontecimento aleatório, eventual, nos tira desse conhecimento teórico para a constatação visual.

Esses dias "reencontrei" no Facebook  uma antiga amiga de colégio de trinta anos atrás. Enviei a solicitação de amizade, disse quem eu era e ela me adicionou. Não se lembrava de mim, ficou claro, mas adicionou.

Ela sempre fez o tipo comportada-chique. Não se metia na bagunça nem em nenhum tipo de baixaria. Não lembro de te-la ouvido falar palavrão. Tínhamos um bom relacionamento mas não eramos íntimas. Estávamos sempre juntas porque ela sempre sentava ao meu lado - nunca entendi bem o por quê. Acho que porque eu era apagada e quietinha e ela não queria perder a aura. Conversávamos cordialmente mas sem confidências, intimidades ou risinhos.

Ela era tudo o que eu queria ser. Alta, magra, porte de menina rica. Educada. Pele alva e sem manchas, cabelos escuros, longos, sedosos, sempre limpos. Cabelos perfeitos, corpo perfeito, pele perfeita. O rosto não era perfeito; ela não era exatamente bela de rosto mas estava muito, muito longe da feiura. Seu rosto era muito anguloso, com maçãs salientes e nariz arrebitado muito pequeno. Tinha cara de gato. Mas o conjunto era maravilhoso, fresco e altivo. Nariz sempre empinado mas só por postura: não era metida. Falava com todo mundo, tratava todos bem mas pairava acima de qualquer vulgaridade. Nada sujo a tocava. Acho que nem mosca pousava nela.

Estudávamos em uma escola pública. Isso não quer dizer que a minha amiga fosse pobre. Não era. Naquele tempo as escolas públicas ainda prestavam.

Ela era dessas meninas que todos os meninos querem mas poucos tem coragem. Dessas que tratam todo mundo bem, muito polidamente, só porque é assim que as princesas fazem.

Esmalte e maquiagem era para as fracas: ela não usava. Cara lavada, imaculada. Suas roupas não amassavam, a meia não escorregava (sério!), a blusa não saia de dentro da saia, não grudava lama no sapato, a letra era redonda, os cadernos não faziam orelha. Era filhinha de papai.

Eu era sua melhor amiga, só que ela não sabia.

... Então a vi no Face. O ar sereno e altivo foi substituído por um sorriso simples, alegre e sem mistério. Boa troca. Mas o rosto está cheio de rugas. Meu Deus, quantas rugas!  Os olhos não brilham como antes. Também ficaram menos amendoados. A boca perdeu o atrevimento.O cabelo parecia outro cabelo. Era tudo, menos de seda.   Seu viço foi-se.

Fiquei triste e chocada. Claro que sou uma besta. O que eu esperava trinta anos depois? Só o fato de ter se mantido magra e sem barriga já é um grande feito.

Em seu álbum pude ver uma  foto solitária da sua juventude. Uma única foto que confirmava cada palavra de tudo que eu disse. Lá estava ela, luminosa e fresca. Brilhava serena como uma estrela neon. 

E eu, que me sentia uma lontra...  Hoje ela está menos estrela e eu, menos lontra. A vida nos faz dessas coisas.
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