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26 de jul de 2016

A pior perda

Já existe  um consenso: a pior perda da velhice é a saúde.  Depois vem a beleza. Claro que estou aqui para dizer que pensei muito a respeito e por fim discordo.  

Ontem eu observava uma senhora. Mais exatamente "uma velhinha".  Todos os seus movimentos eram em câmera lenta em comparação ao resto do mundo. Ela contava suas histórias e as vezes se queixava da vida. Tossia, passava a mão na cabeça, sorria às vezes, tudo de dentro da sua impenetrável bolha slow motion.  Durante todo tempo em que eu tentava lhe prestar atenção,  lá dentro da minha cabeça bimbalhava a questão: "quanto disso tudo que ela diz é verdade?  Não tem nenhum delírio aí misturado? Será que foi assim mesmo? E suas queixas? Quais são reais e o que não passa de manha?"  

Minha mãe,  antes de nos contar algum evento notável ou antes de fazer alguma queixa gostava de se valer de um preâmbulo: "estou contando mas sei que ninguém acredita no que velho diz.  Ninguém dá bola para conversas de velhos mas vocês podem checar o que estou dizendo! "

É triste "clamar no deserto". Poucas vezes eu havia parado pra considerar o quanto poderia ser doloroso perder a CREDIBILIDADE.  Agora tenho pensado mais nisso concluo, melancólica, que essa é a perda mais dolorosa da velhice pois afeta nosso próprio sentimento próprio de honra. Essa "cabeça erguida espiritual" às vezes é todo o nosso quinhão no fim da vida. 

Pior do que ficar feio é ficar engraçado, pitoresco. É pior do que doença,  pior do que o afastamento da morte. A perda da credibilidade te afasta emocionalmente das pessoas. A conexão da amizade morre. Morre! Sobra o respeito penalizado, a compaixão. E todos nós caminhamos pela vida achando que vamos ter mais que isso das pessoas. 

Perder a credibilidade e perder a relevância social. A pessoa vai ficando invisível. É a mudez social.

Quantos velhos precisamente agora estão denunciando maus tratos sem serem levados a sério? Quantos sofrem na cara de todo mundo mas ninguém vê? Quantos testemunham crimes e traições mas ninguém lhes dá ouvidos? O que poderia ser mais angustiante?

Quando penso em fantasmas imagino esse tipo de cena: a pessoa já morta mas sem consciência disso, tentando pegar um objeto do mundo físico mas não conseguindo. Mentalmente vejo o espírito como no filme Gost, tentando desesperadamente tomar parte no que vê, mas sem condições de fazê-lo. Impossível pegar um simples como. As mãos atravessam os objetos e a pessoa se sente um nada, impotente. Ainda que se sinta viva,  o mundo não a enxerga mais. 

Essa possibilidade é triste e impressionante. Me ponho a pensar e não consigo encerrar o texto de uma forma digna. Só me resta fazer um apelo: não deixe um velho perceber que você não acredita no que ele lhe conta. Não lhe dirija olhares distantes durante suas denúncias. Pode ser tudo verdade. Não deixe ele se sentir invisível e jamais presuma que ele está mentindo. 

Acho que negar fé é pior do que negar um abraço.

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