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11 de ago de 2016

A exaustão

Disseram por aí que a diferença entre o remédio e o veneno é a quantidade. Gostei do ditado. Aplica-se a tudo, inclusive ao fenômeno da transmissão de informações.

Imagino os transtornos que os povos antigos amargavam por pura falta de informação. Táticas de guerra falidas, alimentos prejudiciais,  tratamentos de saúde inócuos ... Como sofriam os mal informados!  

Não sei se é verdade mas li em algum lugar que há anos atrás encontraram um velho soldado vivendo em uma ilha quase deserta. Levava uma vida solitária e sofrida,  em suspense e aflição. Durante uma das batalhas havia se desgarrado do seu grupo. Então escondeu-se na selva com medo de ser feito prisioneiro.  Esperou longamente por um resgate que nunca veio e ficou sem a informação vital de que a guerra havia terminado há décadas. Se fosse hoje em poucos segundo ele já estaria arrumando sua jangadinha pra voltar pra casa. Caramba, tomara que essa história seja mentira. Coitado.

Quantos anos se passaram até que todos ficássemos perfeitamentes cientes de que Coca Cola faz realmente mal à saúde? Ou que o aspartame pode acelerar o processo de osteoporose? Quantos sabiam, há trinta anos atrás, que comer carboidrato é o mesmo que ingerir açúcar ? Essa informação em particular eu preferia nem ter tomado conhecimento.

Estou convencida de que de uns tempos para cá estamos recebendo uma overdose cavalar de informações e isso não é nada bom. Não são informações certificadas mas informações desencontradas!

É um tal de pode/não pode, verdade/mentira, as pesquisas comprovam/as pesquisas comprovaram o contrário do que já tinham comprovado. O Sudário de Turim? Já foi confirmado e escrachado umas dez vezes. Alguma coisa preciosa lá dentro de nós se desgasta, certamente.

Estamos no limiar de uma situação muito pior do que a dos nossos antepassados. Eles não tinham acesso à tantas informações mas quando as tinham, tomavam providências e mudavam o rumo de suas vidas.  As revoluções foram assim. Havia trocas e mais trocas de informações, de folhetos, manifestos e comunicados que de um modo geral ninguém questionava a veracidade da origem. E dava certo.  Hoje estamos tão encharcados de manchetes que vamos ficando com as alminhas gastas. Estamos entrando em um processo de dormência.  

Me dói imaginar que maior verdade do mundo perderá a força vital. Daqui há alguns anos ela não terá mais o poder de causar perplexidade. Nenhuma informação bombástica afetará nossos hábitos - saudáveis ou nocivos. Estaremos surdos, incrédulos e inertes.  

Hoje a gente já não acredita mais em muita coisa, é verdade. Mas mantivemos a saudável iniciativa de tentar confirmar as informações recebidas.  Mas já  estamos começando a cansar.  Pesquisar TUDO cansa. E além disso quem garante que qualquer outra informação posterior, contrária à inicial, é a fidedigna? Ninguém.

Já pensou o que acontecerá a partir do momento em que nenhuma informação for tida como verdadeira? Nem revista nem jornal ou artigo científico?  Imagine que absolutamente tudo deverá ser ""re-pesquisado" e que apesar do nosso esforço jamais cheguemos ao conforto emocional gerado pela verdade? 

Hoje ainda nos damos ao trabalho de tentar confirmar informações mas brevemente estaremos tão saturados de afirmativas ditas e desditas que passaremos a odiar os arautos de qualquer coisa.  

O próximo passo depois de não acreditar é pesquisar;  e depois disso o próximo passo é mandar tudo  às favas: não absorver mais nada.  Dias virão em que ainda que nos advirtam da existência de um precipício logo ali na curva da estrada, nosso cansaço nos fará seguir em frente. Desapareceremos no buraco. Surdez emocional mata.  

Pior do que censurar os meios de comunicação é desacreditar os meios de comunicação. Deixar que se choquem tristemente uns contra os outros, que caiam no ridículo, que se destruam pelo palavrório.  Quando nada mais for confiável entraremos novamente na idade das trevas. 

Nenhum ditador teria uma tática tão eficiente para roubar do povo o direito à informação.

A censura é um meio por demais grosseiro. É  flagrantemente canalha, ninguém gosta dela. Mas ao mesmo tempo um povo bem informado é um perigo para qualquer governo. Não dá pra soltar as verdades aí pelo mundo. Descobriram então a cartada de mestre:  que tudo vire piada, que tudo vire entretenimento!   Ninguém precisará se desgastar impondo censura. A verdade poderá ser gritada e estampada com provas sobejas, mas ninguém mais ouvirá. 

Assustador.  Acho que é isso o que temos pela frente: a exaustão. O cansaço aliado à incredulidade suicida.  

"Eles venceram e o sinal está fechado pra nós, que somos jovens."










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