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5 de fev de 2017

Kyrie Eleisson. Christe Eleison!


Incentivada por uma reportagem que dizia que um blog serve para " oferecer espaço para angústias pessoais que só abandonam uma mente inquieta quando se transformam em letras...." aqui estou.

Sim, com esse incentivo vou abrir meu coração tão cheio de compartimentos, calabouços e entradas secretas. Claro que escolhi para visitação um compartimento não muito grotesco. Preciso preservar a minha imagem. Pensei: "Se eu liberar o compartimento "A" não vai ser bom pra mim. Por outro lado se eu escancarasse o compartimento "B" poderiam pensar que sou um amor de pessoa e esse também não é o caso, convenhamos." Optei muito sabiamente pelo compartimento "D".

Quanto ao "C" por favor esqueça. Poupe-me de sua curiosidade constrangedora.

Vamos ao "D". "D" de demente, de débil mental, deletério, desdentado, demoníaco, desmistificado, deturpado. De que estou falando? De mim e do mendigo ao lado.

Mendigos me deprimem e inquietam. E fazem com que eu me sinta completamente fracassada em minhas tentativas de ser boa. Geralmente não faço nada por eles. São estranhos, fedorentos e eu preferia que não existissem. Ou que fossem discretamente remanejados para algum outro lugar muito calmo, agradável, confortável e longe daqui.

Nunca me fizeram mal. Geralmente estão muito ocupados com suas próprias esquisitices. O problema é que os mendigos de filme estão sempre a um passo de um homicídio. Impossível não me impressionar. Filmes mexem com a nossa mente e podem nos tranformar em pessoas medrosas, frias ou até más.

É recorrente a impressão de que todos os mendigos são loucos ou estão a um passo disso. São invariavelmente sujos e tem olhar desafiador. Estão à margem da sociedade mas não desgrudam da margem, não a largam por nada. Ficam lá atracados pelas raízes e não se deixam levar pelo rio. Eles permanecem apesar de não terem casa nem comida nem água encanada ou futuro. Mendigos são o presente imperioso que desdenha do futuro e escarra no passado.

Mendigos me incomodam porque justamente porque não deveriam incomodar. Me afligem justamente porque deveriam me inspirar generosidade, não aflição. Não me sinto capaz de abraçar um mendigo e dizer "eu te amo, meu irmão. Venha para a minha casa".

É frustrante não ter a estatura que eu gostaria de ter. Procuro ser uma cidadã legal, ajudo uns e outros... Só que onde vou há mendigos para me jogarem nada cara que sou uma merda. Eles se multiplicam pelo meu caminho como o inimigo do Neo em Matrix. Os pés deles são sempre inchados, rachados, ressecados e algumas vezes bichados. Os cabelos são um ninho de marfagarfos. Sinto aversão e à aversão segue-se o sentimento de fracasso. Sempre que começo a me sentir uma boa cidadã me aparece pela frente um mendigo para me desdizer, me afrontar e provar que sou muito pior do que imagino.

Os mendigos catam papel de cabeça baixa com o mesmo silêncio desafiador de Cristo quando escrevia na areia diante dos acusadores da mulher adúltera. O que será que ele escrevia na terra diante dos apedrejadores? Talvez escrevesse a mesma coisa que o medigo pensa enquanto cata papel.

Não sinto vontade de abraçar um mendigo. Nem de beijar ou de lhe lavar os pés. Geralmente o máximo que faço por eles é dar alguns trocados e sair de perto rapidinho.

Pela janela vejo outro, e outro... e mais outro. Eu poderia me aproximar de um deles e puxar conversa mas vejo que eles falam sozinhos. Não adianta lavar, vestir ou oferecer um emprego. O cara fala sozinho!!! Como atingir alguém que fala sozinho? Não sei o que fazer.


Kyrie Eleisson! Christe Eleison!

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