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1 de fev de 2017

Sensibilidade

Acho que sou sensível demais. Isso só é bom mesmo quando a pessoa é artista, compositora ou muito boa em alguma coisa que faça escoar esse acúmulo de sentir. Não é o meu caso.

Escrever ajuda, é bom demais mas não me parece suficiente. Há uma música linda que ainda não compus. Há um poema perfeito, redondo, de grande impressão que nunca fiz. Mas ele existe sim e fica aqui, eternamente engasgado como uma espinha de peixe.

Há um quadro que ainda não pintei. Tenho fixar a mente em sua forma mas as cores se misturam e os objetos mudam de lugar. Tudo é vivo e indeciso nesse quadro, motivo pelo qual nunca veio à tona.  Predominam o amarelo "gema de ovo", azul turquesa, branco, um pouco de verde e nada de vermelho. Há um Renoir em mim mas ele não se expande! Meu Machado de Assis também está meio ocioso e indeciso. O que restam são lágrimas mas até essas tem sido muito raras. Não tenho chorado ultimamente e nem sei dizer se isso é um bom o mau sinal. Eu já fui chorona. Chorei por músicas, por filmes, por cenas tolas do dia-a-dia,  flashes tocantes só pra mim, mas que ninguém liga. Fui como um copo cheio de água que transbordava à primeira sacudidela. Só que agora parte da água evaporou então pode sacudir à vontade que não derrama mais nada.

O que é a vida? E o que é o mundo? Não são a mesma coisa? Não.  O amor, a beleza e o prazer são a vida. O "mundo" é o sistema de coisas onde a vida está inserida e se desenvolve. O mundo é o palco.

É lindo demais o processo de uma pessoa vir ao mundo. É lindo como tudo começa e como tudo dá certo. O processo da vida é tão complicado mas tão complicado que era para todo mundo nascer torto, esquisito.  Mas não! A maioria nasce bonitinha com os braços no lugar, com as pernas articuláveis, com os complicadíssimos olhos encravados no crânio onde, escondido, aloja-se o misterioso cérebro. Tem tudo pra dar errado, mas dá certo.

Por que nos apaixonamos? Talvez não pelas qualidades do outro mas mais pela necessidade que temos de abrigar dentro do peito alguma coisa divina , muito grande e sufocante. Precisamos de algo maior que nós dentro de nós. Amar é experimentar a arte em estado bruto.

Como uma criança entende as coisas que eu digo tendo um ano de vida? Como? Como fazer links coerentes com os sons, sabendo-se que o dia inteiro toda sorte de sons acontecem ao mesmo tempo? Como uma criança já percebe o que é música e o que é a mamãe chamando? Quem disse para ela qual a diferença? Por que ela quer andar, se engatinhar pela casa já é tão divertido? Por que queremos sempre mais?  Certamente porque nascemos para muito mais.

Por quê o sol nascendo ou se pondo é tão bonito? É tão comum! Todo dia é a mesma coisa!

Por quê, com tanta beleza, o mundo consegue ser tão mal? Por quê as pessoas se matam? E por quê algumas pessoas levam as outras à loucura?

Em um desses dias fatídicos ouvi a notícia do caso de um cão que apareceu em um bairro de Belém trazendo à boca um bracinho de criança. Fiquei angustiada. Horas depois vi o noticiário do maluco que matou várias crianças em um colégio do Rio de Janeiro. Chorei muito.  Naquela hora pensei: "Chega, não quero mais viver nesse mundo, não tenho mais prazer nisso aqui. Está tudo amargo demais. Tudo é um poço de lama e lágrimas. Esse mundo tem que acabar." Foi isso que pensei.

Às vezes até esqueço que a vida é bonita. É como uma flor nascida no meio do lixo.
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