.

.

26 de jul de 2017

Mochila fosforescente

Se eu pudesse voltar ao passado...

De vez em quando a gente pensa isso, não é? Você já pensou.  Mas será que voltar é algo desejável mesmo?  Ou você só quer algumas cenas específicas, selecionadas?

Claro que você só quer algumas cenas. Duvido que encare o pacote inteiro.  Conheço você!  Todos temos ceninhas de cinema salpicadas ao longo de nossa vida chocha. São elas que queremos, jamais o todo. Deus sacou isso, bateu pé ("Ou leva todo o pacote ou não leva nada!")  e por fim nos tirou o direito à marcha ré.

Tudo bem, mas se você tivesse ré, voltaria ao passado?  Já sei o que vai me perguntar:  "- Passado? Mas de qual passado você está falando?"    Boa pergunta. Você é esperto.

Considere que não há um único "passadão" para nos referirmos.  Mesmo as piores novelas são divididas em capítulos. Sendo assim há um monte de "passadinhos" pra escolher em nossa tosca prateleira.  E esses "passadinhos" estão classificados e acondicionados em vidros separados: o do Passado Remoto, Passado Antigo e Passado Recente. Qual dessas velharias lhe seduz?

O passado antigo esmaece enquanto o recente é fresco e vivo. Desse ouço até vozes e cheiros. Parece estar ao alcance da minha mão. É convidativo, acolhedor e aparentemente acessível. Só aparentemente. O presente, quando vira passado, solidifica. Torna-se impenetrável como uma rocha.

Sabe, não há fantasia mais doce do que acreditar que podemos retornar a cenários antigos para retomar o fio da meada e viver feliz para sempre, dessa feita sem mancada.

Quando melancólica me dedico à nociva atividade de consolar-me com essa idéia de voltar a fita. Felizmente passa rápido.  "Felizmente" por quê? Raciocinemos: voltar ao passado sem a cabeça e as informações do presente não teria graça nenhuma. Que graça teria voltar sem a consciência dessa volta?  Não seria "voltar e curtir de novo"  mas apenas repetir a mesmíssima história sem chance de melhora-la. Você quer? Duvido.

Seria como ver novamente o mesmo filme: os personagens não sabem que aquilo tudo é repetido. Aí todo mundo repete as partes chatas. Não dá.

E a segunda opção? Voltar ao passado com a cabeça e as informações do presente?  Também não dá. Eu não sou mais a mesma. Seria como colocar o personagem de uma novela em outra novela.  Hoje há novas alegrias, novas mágoas, novos personagens, novas conclusões, novos sentimentos. E ainda por cima falta um monte de persnagem da história.  Como retomar a minissérie nessas condições?

Nada de hoje cabe no que passou. Voltar ao ontem com a cabeça do hoje? Impraticável.  Ao voltar, mentalmente me vejo carregada de novas histórias que não caberiam naquele enredo. Fica absurdo, uma coisa assim como... como uma mochila fosforescente colada em minhas costas em um cenário do século XIX. Não dá.

Uma reconstrução nada mais seria do que uma imitação deprimente do filme original. Não há passado para o qual voltar. É tolice pensar que ele está nos esperando. Não está. Cada dia o nosso passado fica mais diferente de nós mesmos. Se voltássemos ele não nos reconheceria, nem nós a ele.

Mesmo assim há dias em que, teimosamente, gosto de pensar que posso. Ah aquelas cenas!  Não deveríamos nos impressionar com essas lembranças. Se chegássemos lá, no passado, constataríamos que a coisa não era bem assim como a gente lembrava.  Nossas lembranças são altamente tendenciosas. Nada era do jeito que está arquivado na nossa cabeça.

Tudo o que eu tenho é o hoje e o que hoje eu sou (e que deixarei de ser daqui a pouco). - "E isso não é bom?"  Sei lá.  Mais pra frente, se eu sentir vontade de voltar, é sinal de que foi.
Postar um comentário