Sou uma pessoa de sorte. A maior parte dos meus sonhos se realizaram. Houve frustrações homéricas, é bem verdade, mas não importa. Sou uma pessoa de sorte assim mesmo.
Todo mundo tem, ou teve, um sonho secreto que nunca aconteceu nem vai acontecer. Sério, não vai. Sejamos realistas. Vou confessar um dos meus sonhos tolos que deveria ser esquecido. Mas como todos sabemos, sonhos enlatados não morrem. Era uma bobagem... mas era a MINHA bobagem romântica! Deve ser um troço "meio sagrado". Pois bem: meu sonho era casar igual Maria no filme A Noviça Rebelde. Pronto, agora todo mundo já sabe.
Entrar na igreja como ela, quase oprimida por tanta felicidade, compenetradíssima, ao som do "Processional and Maria" (https://open.spotify.com/track/13aKlygoQB1yeU4MEpW8in?si=Sa51jBRFTnCdBrR1Z-R69g).
Nossas bobagens preciosas não precisam ser descartadas. Elas nos traduzem. São os nossos hieróglifos.
E lá ia Maria, reluzente em sua despretensão de ser bonita, deslizando pela igreja soprada por aquele órgão imponente.
Casei duas vezes mas em nenhuma delas essa música tocou. Por quê? Porque eu não disse a ninguém que queria. Era um sonho sagrado demais. Eu não aguentaria ouvir um "não". "Ah, não vai dar!" ia acabar comigo. Melhor não arriscar.
O fato é que sempre fiz isso comigo mesma. Quando o desejo é muito intenso, não falo. Quando muito, insinuo. Porque se não acontece e a culpa é minha, eu me viro com meus fracassos. Mas se a culpa é do outro, temo que a mágoa seja eterna.
Bobagem. A mágoa foi eterna do mesmo jeito. Por que não tentei? Eu poderia ter casado ao som do Processional da Maria, ora!
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