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11 de abr de 2007

CONJECTURAS



Meu irmão como era estranho
Como era estranho você
Entre tubos marcianos
Sentindo que ia morrer
Que jeito estranho de olhar
Teus olhos com grossa escama
Que jeito amargo de ver
Esvair-te numa cama.

Ai meu Deus como eram tristes
Os lençóis amarfanhados
Tu tentavas me falar
Com gestos angustiados
Do que eu disse, o que ouvistes
Em teus dias desbotados?
O que ouviste de mim
Naquele momento pungente?
Achavas mesmo que ias
Ou dormiste inocente?
Será que o além te assustou
Ou foi um convite ameno?
Um consolo ou um temor
Pairou em teu rosto moreno?

Getsêmani a sós
Sofríamos acabrunhados
Tu e eu e todos nós
Igualmente lancetados...

Tu temeste? Qual a dor
De teu triste coração?
Quais soluços relutantes?
Tua mente ouviu canção?
Pediste a Deus mais um tempo
Ou deixaste o tempo ir
Levando tua vida aos poucos
Sem lutar ou insistir?

Como era estranho assim
Como era estranho você.
Parecias ser tão forte
Tão difícil de morrer!

Foi-te duro e rude o solo
Pra onde foste sereno
Ou tiveste da Mãe-Terra
Carinho meigo no colo,
E te sentiste um pequeno?
Brando leito já te encerra?
Festa celeste desfrutas?
Ou tu querias poder
Levar avante permutas?

Qual pedido acanhado
Me farias se pudesses?
Em que fui cruel, insana
Ou causei cruéis reveses?
Onde estava a tua alma
Quando calmo, sem mexer?
Onde estava a tua calma
Se nada podias fazer?

Tiveste angústia insana
Ou conformação sentida?
Talvez pesaste os momentos
Cruciais de tua vida.
Jamais saberei como foram
Realmente aqueles dias
Não pudeste nem contar
As contas das mil agonias

Quem dá a vida também mata...
Foi-se do mundo pra terra
Por aqui ele não volta
Entre nós nunca mais erra

No grande relógio divino
A contagem é exata
E a discussão se encerra
Se uma vida Ele arrebata.

Quem sabe na dor conseguiste
Fantasias de venturas
Pastoreando a mente
Fugiste de louca amargura;

Sorriste por breve instante
No fim, no momento fatal
Hoje, em terras verdejantes
Me esperas com o Pai, já sem mal.
Cristina Faraon



POR FIM...

Os versos que dou e que tomo,
Os versos que faço e desfaço
É o que de mais leve somo
Às coisas palpáveis, de aço.
Em versos me faço e desfaço
E brinco no espelho da vida
Penetro no denso espaço
Entrego-me à dor consentida.
Em versos, com força tamanha
Me procuro ou me escapo
Em versos de flores enfeito
Da lembrança o velho trapo.

Eu te amei, é bem verdade
Mas não disse com clareza
Quero crer que tu sabias
E disso tinhas certeza.
Mas tenho pergunta doída
(Já não podes responder...)
Por que não te disse em vida
O que acabo de dizer?

Cristina Faraon
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