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10 de mai de 2007

Vai acontecer

Um dia você vai acordar e se levantar depressa demais, refeito demais.

Pela primeira vez vai conseguir ouvir todos os sons do mundo, tudo ao mesmo tempo, numa sinfonia alucinante.

Não há mais “barulhos”, mas sons que, estranhamente, convivem com o silêncio. Eles não são mais contrários. É como que se beijassem apaixonadamente. Fizeram as pazes!

O silêncio será quase palpável e cheio de significado. Você distinguirá perfeitamente as duas coisas e isso não lhe parecerá estranho. Aliás, aos poucos tudo vai se “desestranhando” diante de seus olhos, como um enorme novelo que se desembaraça.

Todas as perguntas que lhe inquietavam estarão respondidas de uma só vez. O entendimento total entrou em você como bola de fogo e as questões simplesmente desintegraram-se. Todas.

Tudo é agora tão obvio! Quais eram mesmo as suas angústias? Não importa, não importa mais. O certo é que a verdade está estampada, brilhante como o sol, despida de qualquer dubiedade. Tudo faz sentido.

Que dia é hoje?

Você entende com clareza porque e para quê nasceu, o motivo das guerras, das dores, das alegrias voláteis , galáxias... o escuro, o frio, o sol, a água, a morte, a saudade, o amor, a dor, o ódio, o êxtase, bondade, maldade...

Todas as coisas são apenas os braços sinuosos do mesmo rio - A Verdade.

Claro, claro... não poderia ser de outra forma! A noite segue-se ao dia e o dia à noite e tudo canta em seu próprio ritmo que, no entanto, juntando-se aos demais, forma um “tudo” do qual você é parte integrante e bela.

Agora você nota os bilhões de tons de cores dançando à sua frente. Cores novas e indescritíveis! Nuances deslumbrantes que jamais havia notado - e ainda assim o mundo continua o mesmo. O mesmíssimo mundo onde você nasceu. Tudo parece familiar e novo ao mesmo tempo. Todos os contrários coexistem de maneira inimaginável até pouco tempo atrás.

Como você não reparou nisso antes? É claro que o mar fala. Ele canta em tons graves - agora é possível ouvir. Tudo tem som.

Há som nas pedras e no orvalho, no arrastar sedoso das nuvens, no apodrecimento da fruta no chão, na ovulação das mulheres, no momento do enamoramento, na formação dos cristais, na dança dos vermes, nas decomposições, nas carnes mortas despregando dos ossos, na pétala que se desabraça da flor.

Algumas coisas falam, outras gritam e várias outras cantam. O fato é que tudo é som, luz e vibração. É possível ver e até contar todas as formas de vida que cabem em uma gota de água. Basta aproximar os olhos e tudo fica nítido, perfeitamente visível. É ´só aproximar os olhos e fixa-los em qualquer ponto, que toda a constituição do que você estiver olhando se descortina como um livro que se abre ao vento.

Por algum motivo essa beleza toda não oprime seu coração, não se transforma em nó na garganta, em pele arrepiada, tremor ou lágrima. Pela primeira vez você conheceu a beleza em estado bruto e mesmo assim não é possível perceber em si mesmo manifestação física alguma.

A princípio tudo isso é muito instigante. Impossível dizer quanto tempo você passa discernindo todas as combinações que compõe o universo ou deslumbrando-se diante de todas as formas de vida.

Tudo é forma de vida.

Aos poucos... uma sensação nova: uma saciedade jamais experimentada até então: saciedade de vida e de conhecimento. Tudo foi visto, rebuscado, percebido, analisado, entendido, decifrado. Um vento cálido passa ... através de você. E você entende o que ele diz, o que sem pressa lhe propõe.

Você é chamado a algo mais. Uma inquietação semelhante a uma nova curiosidade lhe impele a seguir adiante. Você ainda não sabe onde fica o "adiante" mas não há pressa - só pendor.

Então, saciado, você novamente olha em volta. Por algum motivo percebe e sente e sabe e vê que não faz mais parte. Precisa seguir. É inevitável seguir. Há um tipo diferente de magnetismo doce e irresistível. Você vibra pelo que, de alguma forma, sabe que vai acontecer. Sabe que é bom e está além, muito além.

Aos poucos você é tomado pela convicção de que o mundo todo se repete ... repete... repete... e assim será para sempre.

Alguma coisa mudou?

Você está destoando; não faz mais parte dessas coisas! Você precisa mesmo ir, quer muito, a ponto de começar a se inquietar.

De fato você se levantou rápido demais, leve demais...

Cristina Faraon
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