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26 de ago de 2007

A sabedoria e o ralo


Vou apresentar a vocês a mulher que já foi uma das mais sábias da face da Terra:

Eu.

Sério! Até algo em torno dos 25 anos de idade eu sabia tudo sobre a vida, sobre criação de filhos, relacionamento familiar, homem/mulher etc e tal. Era só perguntar.

Minha sabedoria era tanta que eu tinha na ponta da língua a resposta para tudo quanto fosse questionamento humano. Problemas? Eu sabia não apenas a solução, mas a origem, o que era mais brilhante de minha parte.

O filho não obedece? O marido não é legal? Você se sente só? Seus pais são um saco? Anda deprimido? É tímido? Tem bicho no pé? Fale com a Cristina.

Legal era que eu nem precisava pensar muito. Pensar para quê? A vida é simples, esse povo é que complica. Não havia motivo para angústia ou pânico; era só seguir meus conselhos que tudo daria certo.

Aí o tempo foi passando, passando... Então o mundo já não me parecia mais tão simples. Os problemas das pessoas eram sustentados por diversas raízes e não apenas uma, como eu singelamente supunha. Vieram os questionamentos, a experiência alheia, a experiência própria, teorias, as diversas interpretações a respeito de um mesmo fato... Ou seja: veio a vida real. E minha visão em preto-e-branco não tinha lugar no mundo real, das dores e amores em carne, osso e sangue.

É chato constatar a própria tolice.
Cristina: uma simplória.

Então passei a ler mais. Mais complicação. Revistas, livros, depoimentos, reportagens, ficção, ensaios... Conversas e mais conversar com pessoas muito diferentes umas das outras... Então antenei os ouvidos para seus motivos, suas razões e questões. Nada é simples e a verdade é um bem supremo sempre correndo da gente.

Ah, minhas receitas... Não funcionavam na vida real para as pessoas de carne e osso. Nós, os humanos, somos complicados. Nossas emoções as vezes parecem vir do nada. E levamos anos para entender por que, afinal de contas, sentimos antipatia gratuita, medo do escuro, timidez, paixão avassaladora, arrependimento, impulsos de ternura, necessidade de afastamento, êxtases, tédio e somos tão bons e tão maus.

Confesso: foi duro lembrar das inúmeras vezes que, insensatamente, analisei e simplifiquei a vida dos outros e o mundo em geral. Ô vexame!
O tempo foi passando e minha "imensa sabedoria" foi para o ralo. Para o ralo também, a reboque, seguiu minha crença na simplicidade de tudo.
Hoje, com toda a minha vivência, sei bem menos do que quando era uma garota. Sei tanto quanto você. Ou seja: NADA.
Cristina: uma simplória... Melhor ficar calada.
Cristina Faraon

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