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12 de set de 2008

Árdua garimpagem


É louvável descobrir novos talentos. Três vezes louvável e necessário prestar atenção às novas produções artísticas, sob pena de murcharem nossos cérebros e encolherem-se as nossas almas uma vez viciadas em sentimentos velhos e repisados. Os garimpeiros do novo são os que nos livram do ressecamento de nosso senso de beleza.
Boa sorte aos garimpeiros! Mas não esperem muita cooperação de minha parte. Claro: estou assumindo meu egoísmo e preguiça.

O que é mais prazeroso: garimpar dias e meses até conseguir uma ou outra pepita ou visitar a joalheria e deleitar-se com o que indiscutivelmente é belo, é ouro e já vem com certificado de garantia?

Claro que nem tudo o que se vê na vitrine é realmente precioso mas é muito mais fácil encontrar algo de bom ali, nos carpetes vermelhos e prateleiras de cristal do que escavando terra.

Já li algumas obras de Machado de Assis. Sempre lamento que ele não esteja mais vivo para que eu possa beija-lo, alisar-lhe a estranha barba, bajula-lo e tudo o mais. O cara era o máximo! Inteligente, deliciosamente espirituoso, criativo, cativante, profundo. Ler Machado de Assis é ir direto à joalheria e dar de cara com peças raríssimas, caríssimas e lindas. É o gozo.

Este é apenas um exemplo. Existem numerosos outros. Gabriel García Márquez também é um banquete assim como Sheakespeare, Vinícius de Moraes e Fernando Pessoa. Por que eu gastaria meu precioso tempo procurando agulha em palheiro? Posso encontrar agulha em palheiro? Claro que posso, mas dá um trabalho...

Quando sinto comichões no cérebro não costumo logo aventurar-me pelos garimpos enganosos das livrarias. Não! Bem antes disso vou primeiramente (e comodamente) à lista dos grandes escritores, das grandes obras. É como pescar no aquário. Sou o Garfield das letras.

Não sou um exemplo a ser seguido. Mesmo porque se for seguido a primeira prejudicada serei eu mesma. Gosto de escrever, obviamente de ser lida e adoro imaginar que um dia serei descoberta e saudada pela crítica literária. Como torço para que eles não pensem como eu e que pacientemente me procurem, achem e finalmente consagrem. Quanto a mim... continuarei comendo só o filé do filé.

É certo que os resultados desse método de procura não são cem por cento garantidos. Há casos como “Sonhos de Uma Noite de Verão” que pelo amor de Deus! Mas esse é um caso em cem!

Antigamente eu achava que talvez os autores obscuros fossem vítimas de má vontade ou que uma nuvem de azar lhes perseguisse desde o nascimento. Não é bem assim - e note que eu mesma sou obscura! Lendo os grandes mestres noto que a distância entre eles e o comum é tão grande, mas tão grande, que eu (como obscura que sou) sinto vontade de não escrever nunca mais. Claro que essa vontade logo passa. Eu posso ser reles e eles inatingíveis, mas continuo escrevendo assim mesmo porque a final de contas preciso respirar.

Será que cada um de nós não é aquilo que merece ser? É certo que muitos estrelões só foram glorificados bem depois de mortos, apodrecidos e esfarelados pelo tempo. Tudo é tão relativo! Mas continua a pergunta: haveria mesmo um demônio de injustiça dominando os ares?

Cada um de nós é aquilo que consegue ser, e não adianta espernear. Eu estou escondida nas Serras Peladas da vida... mas como aprecio uma joalheria!

Cristina Faraon
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