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17 de nov de 2008

Ondas concêntricas


Acabei de ver um filme: "O Vidente". Bom.

O que gostei mesmo foi de uma frase especial que é dita tanto no inicio quanto no final da história. Algo assim:

"O lance do futuro é que toda vez que você olha pra ele, ele muda - porque você olhou para ele. Olhar altera tudo."

Instigante.

Por isso não podemos olhar o futuro. Talvez até pudéssemos, mas ele não se deixa observar longamente, só em relances, borrões indiscerníveis quando muito. Porque direcionar-lhe o olhar é o mesmo que matá-lo. Isso é a coisa mais lógica e redonda deste mundo.

Para não matar o futuro deveríamos olhá-lo do lado de fora, não do lado de dentro onde estamos, onde as coisas acontecem. Quem olha o futuro não pode estar dentro do tempo sob pena de dissolver o observado.

Não adianta: por mais imóveis que tentemos ficar, ao nosso redor formam-se ondas concêntricas totalmente fora do nosso controle. Como a pedra no lago.

Impossível jogar uma pedra no lago e observá-la afundar em um movimento solitário. Nunca um movimento é solitário. A água não fica imóvel, mas engole a pedra entre convulsões irreprimíveis. Círcuros ondulantes se formarão a partir dali denunciando a origem da irregularidade. Espalhar-se-ão, mudarão o posicionamento das folhas nas margens, o trajeto dos peixes, o reflexo da lua, tudo! Muda tudo.

... Círculos formando pequenas ondas que alterarão bilhões de pequenos fatos desnorteando-os... e o futuro esvaecerá irremediavelmente como se nunca tivesse existido.

Nossos olhos assassinos são o centro, o "buraco" na água onde cai a pedra da verdade. Assim como no lago, olhar o futuro é jogar uma pedra no lago do presente.

É meio triste saber que nosso olhar é cáustico, destrutivo, alterador, que ele faz com que o que será deixe de sê-lo antes de ter sido.

É a pior das mortes. Nós nos transformamos em lembrança mas ele - o futuro - quando morre vira apenas ilusão. Porque o futuro que não acontece é o que? É um delírio, uma idéia vaga, é quase nada.

Fora do tempo não há círculos. Quando você sair do tempo poderá olhar tranquilamente o futuro. Só que aí ele também deixará de ser futuro para ser, teimosamente, um eterno presente.

Cristina Faraon
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