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21 de nov de 2011

A loucura nossa de cada dia

Dizem que "olhando de perto ninguém é normal".   Taí uma verdade que a gente sempre esquece. Frequentemente nos sentimos solitários em nossa lucidez ou solitários em nossa loucura.

De fato a loucura é solitária embora não seja exclusividade de ninguém.

Penso que a melhor forma de fomentarmos a união de todos os loucos é confessando nossas loucuras uns aos outros. Assim todo mundo fica consciente de que viver é assim mesmo e está todo mundo no mesmo orifício. Para dar o exemplo vou começar me expondo:

Toda vez que entro no carro, principalmente à noite, me vem à mente a fantasia de que há um assassino no banco de trás esperando com uma faca na mão para cortar o meu pescoço ou me estrangular com um fio. Não que eu acredite nisso, mas simplesmente a imagem me vem. Por isso costumo olhar rapidinho para o banco de trás quando entro no carro. Ultimamente acho que estou melhorando porque nem sempre olho para trás. Já estou me acostumando com o assassino. Isso é uma evolução!

Essa sensação recorrente não me causa problemas, só uma pequena "coceira mental". Nada grave. Deve ter sido algum filme que assisti.

Outra loucura que tive, menos estranha, foi passar décadas alimentando a fantasia de que meu pai não morrera.  Foram décadas acreditando, no fundo no fundo, que ele entraria pela porta de casa dizendo algo como  "não morri, voltei pra vocês!"   Ou que um dia eu seria chamada para conversar com um senhor velhinho e ele diria ao final que era meu pai, que me amava muito e seríamos felizes para sempre.  Nada razoável, né? Um dia, depois de uma crise de choro fora de hora (eu tinha já uns trinta e poucos anos) me livrei dessa dor. Ô luto longo! Não pode ser normal.

Não há nada tão estranho nessas duas confissões mas ambas nos remetem aos portadores de delírios dolorosos, medos incuráveis, fixações persistentes. Claro que há os loucos felizes, que pensam que são Napoleão, que são Jesus Cristo ou que são bonitos. Mas há os loucos que sofrem, que ouvem vozes, que não têm paz. As vezes penso muito nessa prisão, que é de dentro pra fora. Deve ser muito difícil viver assim.

É só isso que eu queria dizer hoje. Só um texto de solidariedade.
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