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13 de ago de 2012

Uma pedra

Tem que ser muito macho para compor o poema da pedra.

A princípio ele é tão tolo que alguns diriam que não merece uma segunda lida. "Não merece consideração nenhuma, qualquer um escreve uma bobajada dessa!" Mas é genial. Droga!

Se nos deixarmos levar saberemos, do alto do nosso acervo histórico, do que é que o Drummond está falando.

Tem que ser muito macho para escrever No Meio do Caminho.   Hoje ele foi consagrado mas há décadas atrás o risco de encarar a sociedade com um poema assim...  O risco do fiasco era imenso.  Eu não meteria a cara.

Só um gênio não tem medo do ridículo. Só alguém iluminado segue em frente e acerta no âmago da questão. Uma pessoa brilhante ri da necessidade de aplauso que os fracos têm.

É isso o que me falta, é isso o que eu não tenho!  Por mais que eu tivesse o talento de Drummond, faltar-me-ia coragem para meter uma pedra no meio da minha literatura.

Toda a dor de olhar pra trás, toda a dor de não ter acontecido, de quase ter acontecido, toda a dor de repisar as mesmas cenas, as mesmas pegadas, as mesmas falas e não conseguir mudar nada. Nada! Porque havia uma pedra no meio do caminho. A gente lê uma, duas três vezes...e cerra os punhos como provavelmente ele o fez. E dói, sabe?

Como é que algumas frases tão banais podem dizer tanto? Qualquer um - eu mesma! - poderia ter escrito aquilo. Mas não o fiz porque havia uma maldita pedra no meio do caminho.


No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra 
tinha uma pedra no meio do caminho 
tinha uma pedra 
no meio do caminho tinha uma pedra. 

Nunca me esquecerei desse acontecimento 
na vida de minhas retinas tão fatigadas. 
Nunca me esquecerei que no meio do caminho 
tinha uma pedra 
tinha uma pedra no meio do caminho 
no meio do caminho tinha uma pedra

Carlos Drummond de Andrade
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