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8 de fev de 2013

A verdade sobre as mudanças


Falo de mudança descaradamente. Enalteço suas virtudes com minha boca mole. Bobagem. Não gosto de mudanças. Minto quando afirmo que gosto.

Já notou que existem grupos prefeitos de amigos? São grupos redondos e harmônicos. Novos amigos não fariam falta alguma; quanto aos antigos, são insubstituíveis e pronto.  Para meu desgosto já vi diluírem pela vida diversos grupos perfeitos que jamais serão recompostos. Fico realmente triste, mesmo havendo substituições.

Sim, gosto dos meus amigos do jeito que os deixei no passado, com o mesmo tom de voz, manias, cacoetes d'alma e chatices. Nas mudanças não os reconheço de todo. Sinto-me, então,  empobrecida. Por isso  não é muito recomendável procurar os amigos que saíram da sua vida. O reencontro é meio triste. Eles mudaram. Você também.  Apenas guarde o que você tem, deles, e siga em frente.

E os endereços?  Antigos endereços deveriam manter-se idênticos em honra à nossa infância. Não aprecio que lhes descaracterizem com novas cores ou arranjos desnecessários. Deveriam entender que nossas lembranças são sagradas.

Sinto-me tão avulsa quando não consigo conferir, no presente, todas as fichas do passado!  Reencontrar nosso cenário alterado, tempos depois, é desconcertante. Isso confunde nossa memória, mexe em coisas que não poderiam ser mexidas. Uma escada, um portão, uma calçada...nada disso deveria ser modificado, danificado por cores novas. Amo os móveis do passado como os deixei, com o mesmo rangido, com as mesmas manhas para abrir gavetas, com aquela mesma  naftalina gasta, tão querida, rolando lá no fundo. Quero que o pão doce de hoje seja fiel ao de quando eu era menina: massa branca, fofa, docinha, com creme amarelo bem melado e brilhoso por cima, embrulhado em papel, nunca em desumanos sacos plásticos.

O que nos chega do passado são fiapos disformes. Toda visita ao passado só tem uma serventia: acomodar-nos ao presente e convencer-nos de que não vale a pena investigar.

Os anos mais dourados da minha infância passei aí, nessa casa, no Rio de Janeiro. Viajei esses dias de férias e insisti em vê-la.  Talvez ... talvez algum um fantasma querido quisesse aparecer, me ver, chorar comigo. Talvez eu reencontrasse comigo mesma ainda menina, magra e taciturna. Talvez um objeto, uns amigos, talvez uma mísera visão, ilusão-consolo de quem sente saudades.

Fiquei muito emocionada. Bati várias fotos (que perdi, depois, no celular) e quase pedi para a dona da casa me deixar entrar pelo amor de Deus. Queria tanto, tanto entrar naquela casa! Queria muito, como quem tem sede e quer água. Queria entrar por aquelas portas, ver os tetos, pisar o chão, passar as mãos nas paredes, ver o banheiro, sentar em alguma cadeira e nos ver brincando no assoalho de madeira. Pelo menos a alma da nossa cachorra poderia aparecer, sorrir para mim e perguntar por quê não gosto mais de cães. Pelo menos ela, a "Me-Deixa", passaria rapidamente de um cômodo a outro, como é próprio dos fantasmas. Algo me diz que eu não sairia de lá vazia, que seria brindada com algum regalo secreto. Intuí isso mas não tive coragem de pedir para entrar. Se aquela mulher soubesse o quanto minha alma suplicava! Acho que foi minha última chance. Acho que o portal mágico se fechou. Acho que nunca mais volto lá e se voltar não haverá mais nada.

Mamãe entenderia esse texto.

As ruas próximas não evoluíram,  pelo contrário. Estava tudo velho e me alegrei com isso. Seria chocante ver tudo novo, pintado e alterado. Seria doloroso ter minha memória espanada dali. Quando tudo acabar, mas acabar mesmo, que desabemos todos juntos na mesma destruição. Que nossas alminhas se abracem nas mesmas ruínas, de uma vez só, e deixem o mundo. Nada de reformas.

Mas estava tudo lá, velhíssimo, como nos melhores filmes do gênero. Estava lá a casa dos meus padrinhos, a casa da Dirce, da Iria, da dona Maria com seu monte de filhos, o caminho do meu colégio interrompido pelo Sambódromo... mas estava lá. Estava lá o Larguinho (assim chamávamos a minúscula praça na frente de casa onde íamos brincar). Lá estava, principalmente, o querido portão de ferro - exatamente o mesmo portão!!!! - que rangia alegremente quando meu padrinho vinha do trabalho. Ele chegava da rua com uma dúzia de bananas embrulhada em jornal, subia os quatro degraus parecendo tão feliz por retornar!  e saudava quem estava em casa: "- Ô gente boa!"   

Eu o amava tanto! Mas não sei se ele sabia que eu o amava tanto. Talvez intuísse ou talvez não se importasse porque, afinal, ele amava tanto! E quem ama tanto está em estado de graça e acaba alimentando-se do próprio amor. Quem está assim acaba ficando distraído e nem percebe se é correspondido ou não.

Então olhei mais uma vez para a antológica janela onde sempre estava a minha madrinha, onde nos chamava para almoçar, onde nos orientava na hora de atravessar a rua, onde ela nos esperava cheia de vida e pequenas loucuras, onde víamos se a mamãe já estava voltando, toda bonita, do trabalho.  Lá estava a janela onde eu ficava com meus irmãos reparando os transeuntes ou espirrando água neles, por travessura. De lá deixávamos cair algum objeto na rua de propósito, então pedíamos muito educadamente para alguém que passava juntar para nós. Morríamos de rir com isso. Só quem vê graça em besteira é que é feliz.

... mas as portas da casa estavam fechadas para mim. O passado é assim mesmo, hermético.

Já morei em vários lugares mas esse tornou-se o endereço que mais amei na vida.

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